Mês: março 2020

  • Pronunciamento do Presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, do povo Baré, sobre o agravamento da pandemia de Coronavírus

    Pronunciamento do Presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, do povo Baré, sobre o agravamento da pandemia de Coronavírus

    Marivelton Barroso, do povo Baré, manda mensagem para as 750 comunidades indígenas do Rio Negro, Amazonas, em alerta sobre a pandemia de Coronavírus que se alastra pelo Brasil

    Marivelton Barroso, do povo Baré, do Alto Rio Negro (Amazonas), é presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN). Representando 750 comunidades indígenas e 23 etnias, Marivelton está integrando o Comitê de Prevenção e Enfrentamento ao novo Coronavírus (Covid-19), criado pela prefeitura de São Gabriel da Cachoeira, o município mais indígena do Brasil.

    “Nossa maior preocupação agora é impedir que o vírus chegue até as nossas comunidades indígenas e aos municípios de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira”, afirma Marivelton. Embora os 3 municípios ainda não registrem casos da doença – apenas São Gabriel tem um caso (1) em análise – existe um esforço conjunto das instituições, população e governos municipais de agir para conscientizar a população e evitar a contaminação, que traria uma grave crise humanitária na região. Assista ao vídeo com o pronunciamento do Marivelton Baré.

    Campanha para que a população urbana de São Gabriel da Cachoeira, de maioria indígena, faça isolamento social para evitar disseminação da doença no município
  • Conselho Diretor define regimento para assembleias em 2020

    Conselho Diretor define regimento para assembleias em 2020

    O Conselho Diretor da Foirn realizado em São Gabriel da Cachoeira, de 10 a 13 de março, reuniu lideranças de todas as calhas do Rio Negro e definiu o regimento das assembleias sub-regionais e da assembleia geral da Foirn 2020

    A 37ª Reunião do Conselho Diretor da Foirn, a segunda maior instância de discussão e deliberação de pautas de interesse das comunidades e povos indígenas do Rio Negro, se reuniu para definir regimentos internos das assembleias sub-regionais das coordenadorias e da assembleia geral da Foirn 2020 e tratar de outros temas importantes, como trabalhos da Comissão Fiscal e planos de trabalho anual. O evento contou com a participação de cerca de 50 conselheiros e lideranças de todas as calhas de rios da região de abrangência da Federação.

    A abertura oficial começou na Casa dos Saberes, onde as pautas foram definidas. Como também foram lembrados os motivos da luta do movimento indígena, as conquistas, bem como os desafios atuais, motivo pelo qual o movimento indígena do Rio Negro precisa se fortalecer e continuar lutando e defendendo os direitos, como vem fazendo há mais de 30 anos. 

    Marivelton Barroso Baré, presidente da Foirn, lembrou aos conselheiros a importância do Conselho Diretor e a responsabilidade que eles têm junto com as comunidades que representam. “Vocês têm uma responsabilidade muito grande como conselheiros, para trazer demandas, representar as bases e deliberar temas importantes, como também levar informações para suas comunidades”, afirmou. 

    O primeiro dia de atividades foi marcado pela apresentação dos trabalhos da Comissão Fiscal, que também integra o Conselho Diretor, com responsabilidade de avaliar, recomendar e elaborar pareceres sobre o desempenho financeiro e contábil da federação. Após a apreciação das apresentações, foi aberto um espaço de debates sobre o tema. 

    As lideranças presentes lembraram da importância da transparência institucional do uso dos recursos dos projetos, e que deve seguir de acordo com o estatuto, o regimento interno e nos contratos dos projetos junto com os apoiadores para evitar qualquer problema para a instituição no futuro. 

    Plano de trabalho integrado 

    Foi apresentado no Conselho Diretor o plano integrado de atividade realizado entre a Foirn, Coordenadorias Regionais e o Instituto Socioambiental (ISA) elaborado no mês de fevereiro. No plano de ações deste ano estão distribuídas nos eixos temáticos de Economia Sustentável Indígena, Manejo Ambiental, Governança Territorial e Ambiental, Comunicação, Controle Social e Incidência Política e Rede de Gênero e Juventude.

    Em cada ação, as instituições envolvidas terão seus papéis específicos definidos, respeitado as determinações do Termo de Cooperação Técnica vigente e das demandas apresentadas pelas associações de bases e coordenadorias regionais nos seus planejamentos.

    Um dos primeiros frutos de trabalho de construção coletiva iniciada em 2019 é o Fundo Indígena do Rio Negro, que se encontra no processo final de elaboração. Até o final do ano essa iniciativa deverá ser alternativa para a Foirn apoiar as ações e projetos das associações de base. O fundo terá como principal objetivo captar recursos financeiros para os projetos a serem realizados nas bases. A estrutura e a gestão desse fundo foram um dos temas discutidos durante a reunião. 

    Assembleias sub-regionais e assembleia geral da Foirn 2020

    Entre os temas centrais da reunião estavam as assembleias sub-regionais e a assembleia geral eletiva da Foirn, esta última prevista para o final do ano. Para esses trabalhos foi formada uma comissão de lideranças indígenas para elaborar o regimento dos eventos. No documento final foram aprovadas recomendações e orientações gerais para as assembleias que irão acontecer nas bases. Ainda foi criada uma comissão eleitoral composta por uma liderança de cada regional da Foirn, que irá acompanhar todas as assembleias, especialmente as eleições das novas diretorias das coordenadorias regionais. 

    Leia o regimento das assembleias sub-regionais e da assembleia geral da Foirn

    Desafios continuam 

    Lideranças indígenas mais antigas aproveitaram a oportunidade para lembrar aos jovens o histórico de luta dos povos indígenas do Rio Negro. “Foram momentos muito difíceis para nós, os mais velhos aqui lembram muito bem disso. Com esse novo projeto do governo (PL 191), eles querem trazer isso de volta”, afirmou José Maria de Lima, do povo Piratapuia, sobre a invasão de garimpeiros e mineradoras nos territórios indígenas do Rio Negro e sobre o PL 191 apresentada recentemente pelo Governo Bolsonaro. 

    O PL 191/2020, encaminhado pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, para o Congresso Nacional, pretende viabilizar o acesso de terceiros interessados às Terras Indígenas e a seus recursos naturais para fins de garimpo, mineração industrial, exploração de petróleo e de gás, implantação de obras de infraestrutura e plantio de transgênicos. Apesar dos impactos óbvios que essas atividades trariam para as Terras Indígenas, as comunidades afetadas, caso as rejeitem, não teriam sua vontade respeitada.

    Saiba mais sobre o PL 191

  • Em oficina, mulheres Dâw e Baniwa compartilham conhecimentos sobre a medicina tradicional

    Em oficina, mulheres Dâw e Baniwa compartilham conhecimentos sobre a medicina tradicional

    Auxiliadora Dâw, Karine Viriate da Silva e Carolina Rodriguês

    A importância da valorização e compartilhamento dos saberes tradicionais indígenas sobre as plantas medicinais – a chamada farmácia viva – foi um dos temas tratados durante a oficina “Conhecimento das Mulheres Dâw e Baniwa para o bem viver”. O encontro foi realizado pelo Departamento de Mulheres da Federação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro (FOIRN) na comunidade Yamado, nos dias 20 e 21 de fevereiro, em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Rio Negro. Também participaram das atividades lideranças e representantes das comunidades Waruá e Cewari.

    “Viemos reforçar sobre a necessidade de valorizar as plantas medicinais. Indígenas devem passar seus saberes para filhos e netos. Mas sem esquecer também da medicina ocidental”, disse a coordenadora do Departamento de Mulheres da FOIRN, Elizângela da Silva (Baré). “Estamos fortalecendo assim a rede de mulheres. E com mulheres fortalecidas, estamos reforçando a organização social dessas comunidades”, completou.

    As mulheres da comunidade Yamado abriram suas casas – e seus quintais – para mostrar plantas medicinais cultivadas. A liderança do Waruá, professora Auxiliadora Fernandes da Silva, levou plantas medicinais para compartilhar com os indígenas das outras comunidades. “Não pode roubar nem pegar muda. Tem que trocar”, explicou Elizângela da Silva.

    Durante os dois dias, o compartilhamento de saberes marcou o encontro, que também se destacou pela acolhida da comunidade do Yamado à equipe que promoveu a atividade. Mulheres, homens, crianças e alguns jovens participaram das palestras. Também houve refeição compartilhada, como é de costume. Com generosidade, a indígena Adelina Leopoldina Rodrigues, moradora antiga do Yamado, abriu sua cozinha e ofereceu vinho de pupunha aos visitantes.

    Elizângela Silva ressaltou também que, durante os encontros, a FOIRN busca mobilizar e fortalecer as comunidades, além de levar informações sobre leis e direitos, inclusive de estar em seus territórios. “São leis que não são indígenas, mas que podem favorecê-los”, diz.

    Coordenadora do Departamento de Jovens da FOIRN, Adelina Sampaio participou da ação e falou da importância do fortalecimento da participação e valorização juvenil. “Durante as oficinas há o fortalecimento dos laços de mães e filhos. E isso tem continuidade. Além disso, os jovens ficam curiosos sobre as lideranças jovens, como vão falar, e participam mais. Têm curiosidade de aprender e participam mais”, explica.

    Oficina em Yamando reuniu moradores das comunidades Waruá, Yamando e Cewari

    PLANTAS TRADICIONAIS E PROTAGONISMO DAS MULHERES

     A indígena Karine Viriate da Silva, da etnia Baniwa, foi quem reivindicou a realização da oficina no Yamado, onde mora. Ela é agricultora e foi uma das mulheres que mostrou as plantas medicinais que cultiva. Muito animada, ficou feliz de ver seu quintal cheio de gente. “Essa planta aqui é a Jiboia. Ela serve para atrair pessoas à sua casa. E olha como minha casa está cheia”, disse, com sorriso no rosto.

    Ela mostrou ainda a folhagem chamada Orelha. A plantinha guarda um pouco de água. Esse líquido deve ser jogado no ouvido da pessoa de uma maneira especial, levando-a a ser mais inteligente. Karine ainda indicou uma planta boa para passar no cabelo. Mas, como todo indígena tem seus segredos, não quis revelar o nome dessa folhagem.

    “Minha mãe me ensinou muita coisa. Aprendi vendo ela fazer. Precisamos dividir nosso conhecimento com os outros. Os jovens não querem aprender nossa cultura. Ficam só com celular. Se precisar fazer a pimenta jequitaia, não vai saber. Para tirar o remédio para dor de cabeça, não vai saber. Não vão ter nem onde tirar sabedoria”, disse.

    Karine Viriate da Silva compartilha conhecimentos com os participantes da oficina

    A indígena Adelina Leopoldina Rodrigues compartilhou seus saberes mostrando o Pirarucu, uma folhagem usada contra feridas. Também mostrou o Dapuru, muito usado para dores no corpo. Ela ainda indicou uma pequena raiz que, ralada, deve ser colocada nos olhos para curar dor de cabeça. O nome? Não pode revelar. É segredo indígena. 

    Já no quintal de Caroline Leodoldina Rodrigues é cultivada a Piripiriaca, usada contra picada de cobra. Há ainda a Borboleta, uma pequena folha utilizada pelas pessoas que estão precisando incrementar as vendas de seus produtos.

    Liderança da comunidade Waruá, a professora Auxiliadora Fernandes da Silva explica que há remédios indígenas para diversos males, como diarreia, malária, gripe, contra picada de cobra, cólica, para emagrecer. Ela explica que os remédios caseiros são muito usados na comunidade, mas nem todos os indígenas sabem prepará-los. Ela acredita que os jovens podem se interessar pelo assunto se forem realizadas mais oficinas. “Pelo menos é assim no meu povo. Eu procuro dialogar”, disse.

    Assessora do Dsei, a indígena da etnia Tukano Maria Miquelina compartilhou seus conhecimentos sobre a saúde dos povos tradicionais e também sobre medicina dos homens brancos. “Cada família indígena tem em seu quintal um pedacinho de remédio. E é preciso saber usar. Tem preparo especial, dosagem, como utilizar, o tempo, o período. É a chamada farmácia viva”, explicou, com sabedoria, Dona Mique, como é conhecida. “Eu tenho que compartilhar o que sei”, completa. Ela busca organizar as informações sobre plantas tradicionais e seus usos e, além disso, integra um grupo que tenta viabilizar a manipulação de remédios tradicionais pelos próprios indígenas.

    MEDICINA DOS BRANCOS

    Ainda durante o encontro foi abordada a importância da chamada medicina dos brancos. A enfermeira Kleice Almeida, do Dsei, falou sobre a saúde da mulher, ressaltando os temas pré-natal, parto e puerpério. “É muito importante que a mulher procure o serviço médico assim que souber da gravidez. Temos uma dificuldade de adesão ao pré-natal no primeiro trimestre gestação, o que aumenta o risco”, explica. Houve ainda palestra sobre dengue e malária.

    Também integraram a ação os pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) professor e doutor José Miguel Nieto Olivar e a enfermeira obstétrica Danielle Ichikura Oliveira. Olivar falou sobre violência contra mulheres, na devolutiva de pesquisa realizada em São Gabriel.

    O professor Alcir Ricardo Rodrigues, da comunidade Yamado, pediu que haja palestras para jovens sobre consequências da gravidez da adolescência. Ele informou que na comunidade há 60 jovens, sendo 30 homens e 30 mulheres. O professor Jaime Lopes, da comunidade Waruá, ressaltou também que é necessário alertar contra o uso de bebidas.

    Capitão da comunidade Yamado, Paulo Lino Romero informou que na comunidade moram cerca de cem indígenas, a maioria da etnia Baniwa, havendo também Curipaco e Baré. O indígena Victor Camico da Silva, capitão do Cewari, informou que na sua comunidade vivem 72 pessoas da etnia Curipaco. Na comunidade Waruá vivem cerca de 145 pessoas, a grande maioria da etnia Dâw.

    Também participaram do encontro no Yamado a integrante da coordenação do Departamento de Mulheres da FOIRN, Janete Alves; o coordenador do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas do Rio Negro (DAJIRN), Lucas Matos (Tariano); Departamento de Comunicação, com atuação de Ednéia Teles (Arapasso);  Maria do Rosário Piloto Martins, a Dadá Baniwa, que é mestranda do Museu Nacional do Rio de Janeiro em linguística e línguas indígenas; Anair Sampaio, aluna do curso de serviço social da Unip, que acompanhou o encontro como atividade complementar de seu curso. O antropólogo João Vitor Fontanelli Santos, que desenvolve pesquisa junto aos Dãw, acompanhou os indígenas do Waruá durante o encontro.

    • Colaborou jornalista Ana Amélia Hamdan e Dadá Baniwa