Expedicionários da Saúde – EDS e FOIRN iniciam projeto “Cuidar para Preservar” no Alto Rio Negro

A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), em parceria com os Expedicionários da Saúde (EDS) e instituições do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, deu início oficial ao projeto “Cuidar para Preservar: Saúde Integrada e Conservação na Amazônia Indígena”, no dia 12 de janeiro de 2026, às 9h, na Casa do Saber da FOIRN, em São Gabriel da Cachoeira, no noroeste amazônico.
O encontro marcou o Dia 1 do projeto, que terá duração de quatro anos (2026–2029) e foi aprovado pelo Fundo Amazônia, representando um novo ciclo de atuação em saúde indígena no território do Alto Rio Negro.

Foto : Joelson Felix

Uma iniciativa coletiva e integrada

O projeto é de autoria dos Expedicionários da Saúde (EDS) e conta com o apoio do fundo Amazônia/BNDES e apoio de parceria da FOIRN, do Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (DSEI ARN), da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI/MS), do Conselho Distrital de Saúde Indígena (CONDISI ARN), ISA,  FUNAI e Exército Brasileiro.

Foto: Joelson Felix


A proposta nasce do acúmulo de experiências das expedições realizadas ao longo dos anos, mas avança ao propor ações continuadas, territorializadas e culturalmente adequadas, superando o modelo pontual de atendimento.

Saúde integrada com olhar de longo prazo

Durante a apresentação, representantes do EDS destacaram que o projeto foi pensado ao longo de um ano, a partir da seguinte pergunta: o que podemos fazer de diferente no Alto Rio Negro?
A resposta foi a construção de uma iniciativa que mantivesse a atenção especializada já realizada, mas que incorporasse uma perspectiva de longo prazo, fortalecendo a rede local de saúde e dialogando com os saberes tradicionais.

Roberta Cerri, foto: Joelson Felix

“Muitas vezes a gente tem que pensar isso de forma integrada, até porque existem sistemas não oficiais de saúde, aqueles que estão dentro das comunidades. Então é saúde integrada. Esse é um projeto que tem previsão de quatro anos, até 2029, e está sendo financiado pelo Fundo Amazônia”, destacou Roberta Cerri, antropóloga dos Expedicionários da Saúde.

O projeto reconhece que a saúde indígena não se limita ao atendimento hospitalar, mas envolve práticas comunitárias, conhecimentos tradicionais e a articulação entre município, estado e governo federal, respeitando as especificidades de cada povo e território.

Desconstruindo o mito do “difícil acesso”

A importância de ressignificar o território do Alto Rio Negro também foi enfatizada durante o encontro. Para Putira Sacuena, é fundamental enfrentar estereótipos historicamente atribuídos à região.

Putira Sacuena,  foto: Joelson Felix

“É muito importante que a gente possa desconstruir alguns mitos e estereótipos, esse lugar de sempre chamar o Alto Rio Negro de ‘fim do mundo’ ou de ‘difícil acesso’. Eu não venho do fim do mundo, eu venho do início do mundo.”


Segundo Putira, o termo “difícil acesso” muitas vezes é utilizado de forma equivocada e acaba servindo como justificativa para a ausência de políticas públicas adequadas.


“O difícil acesso não pode ser usado para negar direitos. Precisamos afirmar que deve existir saúde pública de qualidade dentro dos territórios indígenas.”

Objetivos e resultados esperados

O projeto Cuidar para Preservar tem como objetivo central levar atenção especializada em saúde aos povos indígenas do Rio Negro, de forma territorializada, contínua e culturalmente adequada, reduzindo a necessidade de deslocamentos para centros urbanos.
A atuação abrangerá as comunidades sob jurisdição do DSEI Alto Rio Negro, conforme o território definido no mapa distrital.


Entre os principais resultados esperados, destacam-se:


• Ampliação do acesso à atenção especializada diretamente nas comunidades indígenas;
• Redução efetiva e mensurável de doenças tratáveis no Alto Rio Negro;
• Redução dos deslocamentos para centros urbanos e dos impactos sociais, econômicos e culturais associados;
• Fortalecimento da infraestrutura local de saúde, com melhorias nos polos-base e Unidades Básicas de Saúde;
• Incorporação de equipamentos e tecnologias;
• Oferta de teleatendimento médico por meio de tecnologia digital.

Próximos passos do projeto

Como encaminhamentos iniciais, FOIRN, EDS e parceiros irão desenvolver de forma conjunta as seguintes ações:


• Realização de escuta ativa com parceiros e comunidades;
• Levantamento das localidades a serem atendidas, datas prováveis e pontos de atenção do projeto;
• Acesso e análise de informações locais, como dados epidemiológicos, logísticos e calendários comunitários;
• Mobilização de novas parcerias;
• Visitas às comunidades;
• Estruturação de um Centro de Distribuição (CD) local em São Gabriel da Cachoeira;
• Envolvimento de técnicos regionais, conforme o desenvolvimento do projeto.


O início do Cuidar para Preservar reafirma o compromisso da FOIRN com uma saúde indígena integrada, participativa e baseada no controle social, fortalecendo a saúde Indígena e garantindo que as políticas públicas cheguem aos territórios com respeito, qualidade e continuidade.

Comentários

Deixe um comentário