Construção Coletiva: FOIRN sedia Encontro para o Acordo Ortográfico da Língua Ye’pá Mahsã

De 20 a 23 de janeiro de 2026, a Casa do Saber, na sede da FOIRN em São Gabriel da Cachoeira, transformou-se em um espaço importante de diálogo, construção coletiva e fortalecimento da língua Ye’pá Mahsã (Tukano). Como destaca Naldo Tukano, coordenador do encontro, este evento “é fruto de uma luta de anos, de gerações”. O objetivo central é alcançar um consenso para preservar a escrita, a fala, a cultura e o próprio território para a geração do futuro.

Foto: Joelson Felix

Durante o processo, as variantes gráficas da língua estão sendo cuidadosamente mapeadas. Para isso, o evento estruturou uma programação robusta que inclui a criação de Grupos de Trabalho (GTs), rodas de debate e, fundamentalmente, a escuta atenta das lideranças do passado, anciões e anciãs.

O Conhecimento Acadêmico a Serviço da Comunidade

A necessidade de unir os saberes tradicionais às ferramentas acadêmicas foi um dos pontos fortes das discussões. O encontro reuniu não apenas especialistas locais, mas também estudantes indígenas de universidades de outras regiões do país, como Unicamp, UFSCar, USP e instituições locais e regionais.

Foto: Joelson Felix

O pesquisador e doutorando Orlindo Ramos Marques, natural de Caruru (Alto Tiquié), destacou a importância de os estudantes se apropriarem do conhecimento universitário como uma forma de nutrir suas próprias bases.
“A gente não precisa separar talvez as coisas das academias fora do nosso mundo. A gente precisa apropriar ele para fortalecer”, ressaltou Orlindo.

Foto: Joelson Felix

Esse movimento de protagonismo foi amplamente reforçado pelo antropólogo do povo Tukano, Rivelino Barreto. Ele compartilhou sua trajetória desde 2009 na UFAM e os desafios de introduzir teorias e conceitos indígenas em um ambiente que, por muito tempo, resistiu a essas novas formas de pesquisa. Autor de livros sobre a sociologia e filosofia Tukano, Rivelino defendeu a escrita como uma tecnologia vital. Para ele, os indígenas já nascem “linguistas na prática” pela complexidade de sua vivência, mas é através do rigor do estudo acadêmico que esse patrimônio é registrado e validado para o mundo.

Rivelino Barreto por vídeo conferência,  fonte : YouTube/FOIRN

Políticas Linguísticas: Do Papel para a Prática

Embora São Gabriel da Cachoeira seja o município pioneiro no Brasil na cooficialização de línguas indígenas—com leis discutidas desde 1999 e efetivadas em 2002—, os desafios do dia a dia ainda são imensos. A professora doutora Adria Santos, mulher indígena do povo Desana (Rio Papuri) e docente da UFAM e UEA, trouxe uma visão crítica sobre as políticas atuais.
Ela apontou a contradição estrutural em que a língua materna indígena, muitas vezes, é tratada pelo sistema como se fosse uma “língua estrangeira”. Acompanhada de seus alunos do curso de licenciatura em Letras, Adria celebrou o encontro como um espaço para a união de todos os povos.

“A língua tinha que circular em várias áreas, na saúde, na educação, nos órgãos públicos, mas até hoje a gente percebe que nem tudo foi contemplado”, alertou a professora, frisando que o domínio da língua portuguesa deve ser usado de forma estratégica: “É importante sim, para que a gente possa ter voz, para que a gente possa buscar em outros espaços falar e lutar pela nossa língua.”

Foto: Joelson Felix

​A Terra como Mãe e a Força do Multilinguismo

Chegar a um acordo ortográfico na região do Rio Negro exige uma sensibilidade ímpar para compreender sua organização social. O professor Maximiliano Tukano, mestre em Geografia, trouxe ao debate uma reflexão profunda: se a terra é a nossa grande mãe, a língua do território é a verdadeira língua materna.

Maximiliano Tukano

Ele explicou como o sistema tradicional de casamentos do Rio Negro (a exogamia, onde pessoas de etnias diferentes se casam) cria um ambiente de multilinguismo natural. Quando uma mulher de outro povo integra uma nova família, ela traz consigo sua língua, culinária e saberes, influenciando diretamente as gerações seguintes com empréstimos linguísticos. Nesse cenário riquíssimo, o português é frequentemente apenas a terceira, quarta ou até quinta língua falada por um indivíduo.

Próximos Passos e Como Acompanhar

Sistematizar a grafia da língua Ye’pá Mahsã é um ato de respeito a essa rede viva de saberes. O Encontro para o Acordo Ortográfico reafirma o compromisso do movimento indígena com a preservação de sua identidade. Com a força dos anciões e a técnica dos jovens acadêmicos, a língua Tukano dá passos concretos para garantir que sua voz seja lida e ouvida com clareza nas escolas e nos documentos públicos.


Para acompanhar os desdobramentos, bastidores e o andamento das discussões deste marco histórico, as atualizações e cobertura desse evento estão disponíveis na YouTube da FOIRN, e acompanhe novas informações no perfil oficial no Instagram da FOIRN, além das redes das organizações parceiras.

Transmissão DECOM/FOIRN
Youtube https://youtube.com/playlist?list=PLVkm2ut3H5Mae2sZTc8GJHc6n67MjDAZ3&si=YwCSx0L-SnK6tq6V

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