Autor: Comunicação – FOIRN

  • EDUCAÇÃO ESCOLAR TUYUKA: Legado do Poani – Higino Pimentel Tenório

    EDUCAÇÃO ESCOLAR TUYUKA: Legado do Poani – Higino Pimentel Tenório

    Legado do Poani – Higino Pimentel Tenório aos irmãos maiores, menores Tuyuka

    Dʉpo – Justino Sarmento Rezende

    Foto: Raoni Valle

    Dia 18 de junho de 2020, às 23h30min de Manaus, o coração do Poani – Higino Pimentel Tenório, deixou de viver nesse patamar, patamar de leite (õpekõ pati) e patamar de suco doce (tõko pati), vítima da Covid-19. Higino é um dos Tuyuka que criou uma ponte importante entre os conhecimentos considerados tradicionais tuyuka e a construção de um novo modelo de Educação Escolar Tuyuka, fundamentando-se em conhecimentos originários tuyuka e outros conhecimentos de outras sociedades.  

    Com esse texto faço lembranças daquilo que ele falou sobre a Educação Escolar Tuyuka. E, completo com os “extratos” de um dos assessores falou sobre essa Escola e sobre o Higino.

    No ano de 2005, na comunidade Mopoea – comunidade São Pedro onde é a sede da Escola Tuyuka, eu conversei com o Higino. Higino pode fazer a sua apresentação!

    Higino: eu me chamo Higino Pimentel Tenório, é nome dos brancos. Nome do benzimento da minha alma segundo os costumes de nossos avós é Poani. Eu estou chegando numa idade de maturidade, tenho cinquenta e um anos de idade.

    Eu perguntei: Higino, como começou a ideia de construir a Escola Tuyuka?

    Higino: agora eu vou contar um pouco como nós começamos a pensar e trabalhar na Escola Tuyuka para aqueles que quiserem saber desta história. Assim, quem for estudar esta história saberá contar para os outros como nós começamos. Desde o início quando nós começamos a pensar sobre a Escola Tuyuka, estava comigo o meu irmão menor (consideração étnica) Chico (Francisco) Meira, de Cachoeira Comprida (comunidade). Naquela época, nós observávamos que os estudos (escola ocidental), estavam provocando o abandono dos nossos lugares de origem, iam para colégio dos missionários em Pari-Cachoeira.

    Com isto pareciam que todas nossas comunidades estavam descendo para Pari-Cachoeira. As nossas comunidades de origem estavam diminuindo muito em número de habitantes. Vendo isso, Chico Meira dizia para mim, meu irmão maior, por que nós não podemos abrir escolas aqui, como fazem os missionários, para trabalharmos aqui, ensinar para os nossos filhos ou nós não sabemos fazer?

    Eu dizia para ele que, se nós fôssemos propor para os missionários que queremos fazer isso, com certeza eles aceitariam, mas só que nós não estudamos bem sobre isso, como nós não sabemos como funcionam os estudos, não dá para termos iniciativas em fazer escolas. Nós pensamos em fazer as escolas, nós pensávamos fazer escola um dia porque nós acreditávamos que a ajuda nós poderíamos encontrar. Levando este pensamento para frente, sem deixar parar, sem esquecer, falando com toda a força sobre este assunto e, se quiséssemos fazer nós encontraríamos ajuda.

    Depois disso, nós criamos o CRETIART (Conselho Regional das Tribos Indígenas do Alto Rio Tiquié (1992)) com meus colegas, Anacleto (Anacleto Lima Barreto/Tukano) e seu irmão Paulinho (João Paulo Lima Barreto), pois eles queriam e propuseram criar este conselho, e eu aceitei. Eu me tornei presidente do Conselho.

    Nesta época estava acontecendo o Seminário da COPIAR (Comissão de Professores Indígenas do Amazonas e Roraima), onde os professores estavam propondo ações para o governo, para as autoridades, para quem tem o poder, como os professores indígenas queriam trabalhar. Mandaram-me para lá, para escutar o que eles estavam tratando.

    Eu fui neste Seminário, lá se falava sobre escola indígena, escola diferenciada, sobre a escola que queremos. Falavam, também que os estudos dos brancos, educação ocidental não estavam nos respeitando há muito tempo, há quinhentos anos que a língua dos brancos vinha destruindo as nossas línguas, pensamentos de nossos avós, conhecimentos de nossos avós, cantos/danças de nossos avós e os pensamentos que lhes ajudavam a viver bem. Isto estava acabando cada vez mais conosco e nós estávamos ficando cada vez mais desrespeitados.  Lá falaram que nós devemos ter forças, pois há muito tempo que os brancos nos humilham e com isso nós somos desrespeitados. Ao ouvir o que eles falavam, eu dizia: entre nós também é assim, dizia que eu já pensava daquela forma, que existem os meus parentes que falavam da necessidade de fazer isso, permanecer nas nossas aldeias.

    Eu comecei a pensar que se pensarmos em fazer isso, dá para conseguir fazer. Depois eu participei de vários seminários. Até há pouco tempo, antes de começar a Escola Tuyuka eu participava, ainda. Este tempo foi logo depois que tinha sido aprovada a nova Constituição Federal, em 1988 pelos deputados e Congresso.

    Depois disso, passados dez anos, isso só ficou escrito no papel e não foi realizado na prática. Lá tinha muitas conversas, falavam demais, propondo como iriam trabalhar, mas ficava só no papel. Não estavam trabalhando para concretizar. Um dia eu pensei comigo, eu vou concretizar isso, para ver o que vai acontecer.

    Eu voltava dos seminários para a aldeia e falava para os meus parentes o que havia sido tratado nestes seminários. Dizia para eles que as coisas estavam melhorando, pois nós mesmos precisamos criar nossas escolas, para ensinar com a nossa língua, ensinar a ser aquilo que os nossos avôs eram, também aprender os conhecimentos dos brancos e saber o que destes ensinamentos nos podem ajudar, precisamos aprender a selecionar os conhecimentos dos brancos, mas a nossa cultura não se deve perder. Por isso, devemos estudar em nossa língua, escrever em nossa língua. Como nós temos mulheres do povo tukano, os nossos filhos só falavam a língua tukano e a nossa língua tuyuka estava acabando cada dia.

    Vendo isso, eu disse para os meus parentes o que estava passando conosco e propus criar uma Escola Tuyuka. Algumas pessoas não queriam me acreditar diziam que eu estava falando à toa e que não iria conseguir fazer nunca, como é que iria ensinar uma coisa dessas, se muito tempo antes já se tinha sido jogado fora, se os brancos mandaram jogar fora, era sinal de que não era coisa boa, a nossa língua era má, que isto era coisa de índios, por que nós teríamos que escrever em nossa língua e ensinar para os nossos filhos, estes pensamentos que estavam presentes nas pessoas?

    Dentro deste tempo, no ano de 1995, quando eu era ainda presidente do CRETIART convidaram-me para ir à Áustria. Naquela época, os brancos do outro lado, falavam muito sobre estes temas indígenas. Diziam para não esquecermos a nossa cultura, pediam para que nós estudássemos a nossa cultura. Diziam que no passado eles tinham feito muito mal para nós indígenas, diziam também que, hoje, não era mais assim. Hoje era para levar outros pensamentos, e, que nós precisamos estudar a nossa cultura, crescer em conhecimento da nossa cultura. Eles insistiam muito conosco sobre isso. Eu falei lá, disse o que eu havia pensado (Escola Tuyuka) e me disseram que a ajuda nós teríamos.

    Vendo isso, eu voltei muito animado e chegando à aldeia disse que vamos trabalhar do jeito que tínhamos pensado, pois já estava bem melhor e os brancos iriam nos ajudar. Disse também que a dificuldade estava na aldeia, mas com a ajuda deles nós começaríamos ensinando para os nossos filhos a escrever em nossa língua e era isso que era preciso estudar. Quando eu falei isso, muitas pessoas não gostaram. Eles diziam que eu estava falando à toa e que nós nunca chegaríamos a estudar daquela forma, diziam que com as nossas coisas nós não chegaríamos aos outros conhecimentos como a de saber pilotar um avião, coisas deste tipo. Diziam que a nossa cultura não é para escrever e que mesmo estudando a nossa cultura nós não conseguiríamos conquistar outras coisas.

    Antes ainda, quando tínhamos decidido ensinar sobre a nossa cultura, José (José Barreto Ramos) foi fazer um curso. Ele disse para mim que no curso haviam dito que tinham que ensinar a nossa cultura. Eu disse para ele, titio é bom ensinar mesmo a nossa cultura. Assim, ele trabalhou durante dois anos, alfabetizando as crianças. Depois ele desanimou, não teve um bom final.

    Quando nós começamos a escola aqui nós discutimos como se podia trabalhar. Os nossos filhos falavam só a língua tukano e decidimos ensinar a falar a nossa língua, isto os pais gostaram. Disseram que isso era necessário, pois a nossa língua estava desaparecendo, disseram, vamos ensiná-los. Somente nós adultos estávamos falando a nossa língua, os novos não falavam mais, como Geraldino (Geraldino Pimentel Tenório) começou a falar já jovem, também Rafael (Rafael Marques Tenório) começou a falar já jovem, também as filhas do Feliciano (Feliciano Tenório) começaram a falar a língua tuyuka com a Escola Tuyuka.

    A língua tuyuka não existiria mais, pois já estava acabando. Por isso, nós trabalhamos com isso. O meu pensamento era este: nós não vamos morrer, nós podemos morrer se perdemos a nossa língua, se perdemos a nossa língua nós podemos morrer, pois com a língua dos outros nós não podemos falar aquilo que os nossos avós falavam.

    Hoje em dia eu vejo, às vezes chegam alguns brancos perto de mim, antropólogos e quando tem festa eles me perguntam o que eles estão dizendo na festa. Só que não dá para explicar certo o que está acontecendo, o que estão dizendo, pois com a língua do outro não conseguimos explicar bem o sentido das coisas. Só dá para dizer superficialmente que estão oferecendo o ipadu, não conseguimos explicar em profundidade o que ele está dizendo em nossa língua, com a língua do outro não dá para explicar.

    Foi sobre isso que nós trabalhamos muito aqui, como dizem os brancos, sobre o fortalecimento da identidade cultural. Primeiro nós queríamos fortalecer a nossa língua. Sobre isto nós trabalhamos aqui na Escola Tuyuka. Esse é o mais importante. O fortalecimento da língua exigia que falássemos a nossa língua tuyuka e escrevêssemos em língua tuyuka.

    Os dois elementos tinham que andar juntos, falar e escrever. Por isso, o nosso trabalho está saindo certo. Hoje, nós vemos que os alunos e os professores sabem escrever e falar a língua tuyuka. Por isso, nós professores observamos que nós estamos nos fortalecendo, estamos conseguindo, estamos acertando trabalhar com a nossa língua. Esta parte recebeu muita dedicação por nossa parte. Nós escrevemos e estudamos os nossos conhecimentos com a nossa língua. Todos os alunos aqui sabem as histórias. Foi o que nós estudamos mais, falam e escrevem, sabem algumas coisas sobre os conhecimentos dos anciãos, histórias dos anciãos, sabem as nossas histórias, história dos outros, sabem algumas histórias dos brancos.

    Alguns já haviam estudado sobre a história dos brancos. Por isso, por terem já estudado na outra escola, sabiam as histórias da chegada dos brancos. Daqui para frente será diferente, se eles quiserem saber as histórias dos brancos, aí teremos que ensiná-los. Quem concluiu agora, como já conheciam a cultura dos brancos, não pediram muito para que ensinássemos sobre isso. Mas o que eles precisavam era saber falar em português e isso nós lhes ensinamos nesses anos. Eles quiseram aprender dizendo que não queriam passar vergonha, aonde chegassem gostariam de saber falar a língua portuguesa com os brancos.

    Outros queriam aprender por entender que eles podem seguir estudando nas cidades, por isso, queriam aprender a falar a língua portuguesa, disseram mais, que a língua tuyuka eles já sabiam escrever. Nós concordamos com a visão dos alunos, pois com a conclusão do quarto ciclo não sabemos tudo e propomos estudar mais um pouco, mais três anos, nestes anos aprenderiam a língua portuguesa e aprenderiam a trabalhar, foi assim que começamos o chamado quinto ciclo. Como nós não temos professores para o ensino médio, o que propomos foi de acrescentar os conhecimentos. É isso que estamos fazendo. O que nós pensamos é ir estudando, ensinando durante três anos, depois que eles saírem com os conhecimentos nós vamos mostrar para o governo como nós trabalhamos, o quanto nós trabalhamos, mostrar o currículo com o qual trabalhamos, mostrar como através do estudo feito, os nossos parentes, estão vivendo melhor, é isso que queremos mostrar para o governo. Já mostramos para ele com o nosso trabalho até oitava série, aquilo que nós chamamos de quarto ciclo, se der certo, também com o ensino médio, queremos mostrar como nós Tuyuka pensamos para que, quando quiserem criar ensino médio indígena nós tenhamos um modelo, um desenho de como seria um ensino médio indígena, o que nós queremos é contribuir.

    Higino, diga alguma coisa sobre como chegaram os assessores de vocês pela primeira vez?

    Higino: um tempo atrás, chegavam vários antropólogos nesta região, chegavam a diferentes lugares e com diferentes famílias. A antropóloga Dominique (Dominique Buchillet) trabalhou com os Desana. Um dia eu perguntei para ela o que realmente ela vinha estudar. Ao ouvir isso, ela perguntou se eu também estava querendo algum antropólogo. Ouvindo isso eu disse que nós Tuyuka também queríamos, mas nenhum antropólogo chegava com a gente.

    Aí ela disse, tem um em São Paulo, eu sei quem é ele está fazendo mestrado. Disse que o nome dele era Aloísio e perguntou se eu o queria. Ela disse para mim que se eu o quisesse que eu escrevesse uma carta. Eu aceitei e convidei, ele chegou um dia. Ele veio de motor, conseguiu a passagem, chegou aqui. Então ele começou trabalhar aqui, como ele queria, por longo período, durante três anos ficou conosco.

    Naquela época circulavam muitos comentários dizendo que os antropólogos eram maus, que os antropólogos gostavam de roubar, que levavam os nossos conhecimentos para fora e lá eles ganhavam dinheiro com isso. Sabendo disso, eu fiquei pensando que este também faria a mesma coisa. Por isso, eu disse para ele: Aloísio nós vamos fazer um acordo entre nós, você veio estudar a nossa cultura, eu também quando você terminar o seu mestrado eu quero ser antropólogo. Você me ajuda a subir, porque eu que irei ensinar mais a você. Ele concordou que seria assim. Eu disse a ele, você veio para trabalhar conosco.

    Pensamento sobre escola nós já tínhamos. Eu disse a ele: nós estávamos pensando em fazer a escola. Ele disse: está bem, se quiserem fazer tal escola, eu vou ajudar a vocês, com algumas coisas que vocês precisarem ou se quiserem minha assessoria eu vou ajudar mostrando como devem fazer. Disse, essa será a forma como eu ajudarei a vocês. Eu disse a ele, o seu compromisso conosco será este, que você vai nos deixar só quando nós entendermos bem e depois que nós tivermos estudado bem. Se você nos deixar na metade do trabalho não irá prestar entre nós, pois nós iremos denunciar a você. Ele disse: está bem, não farei isso com vocês. Por isso, o trabalho de assessoria começou com ele.

    Naquela época não existia o Instituto Socioambiental (ISA) aqui, faz pouco tempo que começou aqui. Enquanto ele estava trabalhando aqui, depois de dois anos chegou a mulher dele. Ela, a dona Flora, sendo uma mulher, ela nos explicou muito melhor como nós deveríamos trabalhar, organizou, mostrou como nós deveríamos trabalhar.

    Depois disso a FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) organizou como seria a assessoria. Em Noruega, eles falaram como o governo brasileiro, embora tivesse lei que tratasse da educação indígena, continuava fazendo a mesma coisa como vinha fazendo há séculos. Falaram que, embora haja lei que trata sobre a Educação Diferenciada, o governo fazia a mesma educação (ocidental). Lá contaram como haviam pensado em construir as escolas indígenas, ouvindo isso os membros da RAINFOREST (NORWEGIAN RAINFOREST FOUNDATION) se dispuseram a ajudar com dinheiro e pediram para fazer projeto. Foi quando fizeram um projeto chamado Projeto de Educação do Rio Negro e enviaram para lá. Por isso, o dinheiro chegava na FOIRN.

    Nós tínhamos um pensamento, a dona Flora nos contou como estava organizado. Ela nos convidou para falar sobre isso na FOIRN. Naquela época o presidente era Brás França, mas naqueles dias, houve eleição e foi eleito o Pedro Garcia. Vendo isso, nós propusemos uma forma de arrancar o dinheiro para a nossa Escola, iríamos ver quanto nós precisaríamos, fizemos aqui mesmo o que nós iríamos precisar para apresentar na FOIRN. Assim surgiu o chamado Projeto Tuyuka, que é componente da FOIRN, do Projeto de Educação do Rio Negro, também hoje está dentro disso.

    Só o dinheiro que é descentralizado. A coordenação da FOIRN passou para nós a administração do dinheiro do Projeto Tuyuka, no início não queriam.  Nós é que pedimos que nós mesmos, poderíamos administrar o dinheiro, pois assim nós aprenderíamos a administrar e, dissemos para eles que se eles ficarem administrando por nós, nós nunca iríamos aprender. Eles concordaram e, por isso, mesmo que seja um mesmo programa, o dinheiro para Projeto Tuyuka já vem separado de Noruega. Assim que começou a questão da assessoria. Naqueles dias, para serem assessores, a Flora entrou no ISA. Por isso, a dona Flora nos assessorou muito bem.

    Nós não conhecíamos tão bem como o governo era. Eles disseram para nós, que iríamos sentir dificuldades, ficaram de ajudar naquilo que fosse difícil para nós, e os trabalhos que fossem fáceis, nós continuaríamos fazendo. Eles ficaram de nos ajudar nas questões de negociação, burocracia, iriam ajudar com os papéis e disseram para nós trabalharmos com o que nós sabíamos trabalhar. Eu disse: está muito bom, nós não sabemos destas coisas dos brancos, vocês é que sabem destas coisas, vocês são netos de quem sempre falou disso, conversem entre vocês, a nosso favor, e, para nós está bem o que nós queremos trabalhar, nós vamos trabalhar aqui. Assim surgiu a assessoria.

    Perguntei ao Higino: e a Prefeitura Municipal de São Gabriel da Cachoeira como fez com os estudos de vocês na questão de reconhecimento?

    Higino: os prefeitos sempre mudam rápido. Com as suas mudanças, muitas vezes, as coisas ficam difíceis. Aqui apareceu um que pensavam bem sobre a escola indígena, Amilton (Amilton Bezerra Gadelha, 1997-2000). Mesmo considerado ruim por muitos, ele tinha boas ideias sobre a escola indígena e apoiava a educação indígena. Ele havia feito a Lei Orgânica (do Município), tinha estabelecido o plano de carreira dos professores indígenas, havia criado a categoria de escola indígena. Logo depois que terminou o mandato dele, entrou outro (Raimundo Quirino Calixto, 2001-2004), este já não quis mais saber disso.

    O primeiro reconhecimento da nossa escola aconteceu, não por vontade política dele, mas por causa de nossa pressão, nós pressionamos, falamos que nós queríamos, pois isto estava garantido na lei, por isso, reconheceram. A secretária municipal de educação daquela época não queria nem saber, ela dizia que nós não deveríamos ser diferentes dos outros, e, nós dizíamos para ela, que a lei amparava a nossa prática, nós levávamos para ela os nossos trabalhos para mostrar o que estávamos fazendo, vendo isso, começou a acreditar no nosso trabalho, foi com o prefeito para pedir o reconhecimento, criação da escola indígena, ato da criação da nossa escola. De repente, sem a gente esperar ela nos entregou, dizendo que a nossa escola já possuía o ato de criação, assim ela nos entregou, no dia 25 de março de 2001.

    Ali aconteceu o primeiro passo para o reconhecimento da nossa escola. Mesmo depois disso continuamos tendo dificuldades e dessa vez era a respeito do termo Escola Diferenciada. Os assessores diziam para nós que quando se denominam uma Escola Diferenciada, ela terá que ser diferente em tudo, no boletim de notas e nas frequências dos alunos e vocês que devem definir como marcar as frequências, como trabalhar com as notas.  Se decidirem não dar notas devem encontrar outra forma, vocês é que deverão encontrar uma forma, diziam para nós. Esses elementos ficaram muito tempo sem serem reconhecidos.

    Na Secretaria (da educação do Município) nos diziam que queriam as notas dos alunos e que nós tínhamos feito de qualquer jeito e daquele jeito não queriam. Nós dizíamos, para nós não é assim, nós trabalhamos na Escola Diferenciada, esta forma de trabalhar é que nós organizamos e nós estamos obedecendo a isso, nós decidimos que usaremos o sistema de avaliar o aluno com o parecer descritivo. Nós estamos obedecendo a isso, dizíamos. Vocês é que não estão querendo nos obedecer, esta forma de trabalhar é à vontade das pessoas da comunidade, vocês é que não obedecem. Depois de ficar dizendo isso por muito tempo acabaram aceitando.

    Também não queriam reconhecer a nossa Política Pedagógica, por isso, há pouco tempo atrás resolvemos na base da pressão. Promovemos uma audiência pública. Discutimos por que nossa Escola não recebia nenhuma assistência e a merenda escolar não chegava bem, chegaram muitas pessoas da SEDUC e do Ministério da Educação. Por isso, há pouco tempo atrás pressionamos para que reconhecessem a nossa Política Pedagógica. Parece que nestes últimos dias reconheceram nossa Política Pedagógica, eu também não vi, ainda. Agora que a prefeitura, com a nova secretária da educação (Irmã Edilúcia de Freitas) que começa a reconhecer os nossos trabalhos aqui no município, pois a nossa escola é municipal. Lá no MEC faz tempo que está reconhecida, eles sabem que o nosso trabalho está sendo bem desenvolvido. A dificuldade está perto de nós (no município), a dificuldade está aqui no começo.

    Higino, como acontece o processo de Ensino-Aprendizagem na Escola Tuyuka? Como é que vocês estudam mesmo?

    Higino: a ideia que tivemos era que os alunos estudariam, mas imaginamos de que forma eles aprenderiam melhor. Nossa forma de aprender funciona através de pesquisas, professor será pesquisador, o aluno será pesquisador, nós não seremos professores, mas ensinaremos aos alunos aquilo que sabemos. Aquilo que nós não soubermos, o nosso parente ancião sábio será como professor, ele virá aqui e nos ensinará, esta era a nossa ideia. Também os alunos quando não souberem eles vão pesquisar. Pesquisam em casa. Depois trazemos para sala de aula, eles mostram como eles trabalharam. O professor avalia o trabalho e às vezes, quando o trabalho não está bem feito, pede para pesquisar novamente, e, eles vão.

    Assim nós trabalhamos, mas como nosso trabalho está iniciando nós não temos livros escritos, mas os nossos conhecimentos estão somente na memória, nós nos tornamos pesquisadores. Os alunos trabalham com aquilo que antes nada estava registrado. Nós aprendemos pesquisando, aquilo que o professor não souber, ele vai pesquisar com os anciãos, mesmo sendo professores somos pesquisadores. Os alunos pesquisam junto aos anciãos. Nós também para explicarmos melhor aos alunos vamos pesquisar com os anciãos. Os anciãos ficam na escola, eles não estudaram nas escolas, mas são pessoas que já construíram conhecimentos, se pensarmos bem, eles que são verdadeiros professores. Esta que é a realidade.

    Higino: de onde vocês ouviram dessa forma de trabalhar ou foram vocês mesmos que criaram?

    Higino: a assessoria disse para nós que, também entre os brancos existem as chamadas Escolas étnicas. Dizem que em São Paulo existe uma escola, uma escola dentro da realidade, escola do operário, escola dos favelados, onde eles trabalham com a realidade deles. Disseram para nós que devíamos trabalhar com a nossa realidade, com a cultura de nossos avós, com os pensamentos de nossos avós, com os trabalhos de nossos avós, perguntando, pensando, escrevendo, trabalhando, descobrindo como eles faziam, isso seria para nós uma vida. Por isso nós trabalhamos com isso.

    A nossa vida aqui está boa, por isso, nós pensamos nisso, ajudar a mãe, ajudar nos trabalhos, vai estudar. Aqui nós lecionamos durante quinze dias, quando precisamos mais tempo chegamos até vinte dias. Depois de vinte dias nós mandamos os alunos para suas famílias. Se nós ficarmos muito tempo com eles, eu já via, pois uma vez eu deixei a minha filha no colégio dos missionários, porém deixei-a aos cuidados de uma família, quando eu fui buscá-la e trouxe de volta para casa, ela havia esquecido aquilo que ela ajudava a mãe, esqueceu quase tudo, estava preguiçosa, quando pedia para varrer a casa, não queria mais varrer. Ela havia ficado como aluna externa, talvez a família onde ela morava não mandava fazer as coisas, pois os filhos dos outros sempre causam medo.

    Por isso, aquilo que faz parte da vida dela, ela havia perdido. Por isso, sabendo destas experiências, nós ensinamos e liberamos para voltarem para as suas famílias. Nós não queremos que os alunos percam o ritmo da casa, se concentrarmos os alunos aqui durante um ano, nós estaríamos estragando os filhos dos outros, com estes pensamentos é que nós trabalhamos de forma diferente.

    O que os professores da Escola Tuyuka ensinam? Como é que eles ensinam?

    Higino: os professores na escola dos brancos, eles usam um currículo disciplinar, dão aula a partir daquilo que já vem determinado. Quem ensina matemática só ensina matemática, quem ensina português só português, quem ensina geografia só geografia, ensina o conteúdo que já vem preparado. Por isso, os professores que estão aqui, no início como não tinham livros, pareciam que não sabiam ensinar, nesta escola diferenciada. Eu observei os professores que trabalham comigo e, eles diziam, nós não temos livros, como é que nós podemos trabalhar. Aqui não é mais como era lá, pois aqui num mesmo tema já estão presentes, aquilo que os brancos chamam de temas transversais e interdisciplinares, é isso que tem aqui.

    Quando um professor está falando de um tema, lá também está matemática, geografia etc. É neste ponto que nós professores sentimos muitas dificuldades. Quem já trabalhou como professor durante vinte anos, segundo o modelo dos brancos, acostumado a sempre repassar os assuntos, ele já estava muito acomodado e sua cabeça já estava acomodada. Ele era como alguém a acostumado a comer comida já preparada no prato, se não tiver este prato pronto ele iria passar fome, fome de sabedoria e fome de conhecimento. Este professor tinha se tornado um professor preguiçoso. Até hoje, alguns professores têm as mesmas dificuldades, ainda não compreendem, pois eles tinham se tornado como um aparelho de gravação. Gravavam os conteúdos dos livros, quando acabava aquele livro não sabiam mais onde encontrar outros conteúdos.

    Lá na escola dos brancos, a gente dá aula o que foi dito que se deve dar naquele dia. Quando o aluno não aprendia tínhamos que bater e dar os cascudos. Aqui não é mais assim. O professor tem que consultar ao aluno sobre o que ele quer aprender, depois que o aluno diz o que ele quer aprender, o professor quando não souber um tema ele deve dizer que não sabe e convidar o aluno para sair para a pesquisa. Atualmente nós pensamos em trabalhar assim. No passado não existia isso, o professor era aquele que sabia e os alunos eram aqueles que não sabiam, o professor estava ensinando para quem não sabia. Aqui é diferente, aqui o professor deve dizer que não sabe de um tema, ele sabe pesquisando, ele deve dizer para o aluno, vamos pesquisar juntos.

    Higino, como é que os alunos aprendem no Processo de Ensino-Aprendizagem na Escola Tuyuka?

    Higino: no tempo de estudos, quem quiser conhecer vai pesquisar. Aqui nós não ficamos acompanhando de perto, não ficamos controlando o aluno. Nós deixamos que os alunos possam voltar para as suas casas, mas falamos para que eles estudem. Pedimos que quando forem para casas mostrem para as mães, o que estudaram, o que aprenderam a plantar, aprendam a viver com aquilo que aprenderam.

    Outra coisa que trabalhamos em qualquer lugar é sobre o lixo e sobre as doenças, de acordo como eles pediram. A meu ver os alunos já aprenderam demais sobre o lixo (coleta de lixos), em qualquer que você entrar não vai encontrar lixo. Os estudos que fazemos devem gerar a vida. Por isso, nós estudamos o que vai trazer a vida para as pessoas. Eles vivem isso, aqui na Escola como nas suas casas, acrescentam seus conhecimentos com a prática. Também com relação à plantação acontece a mesma coisa. Sobre as leis também, eles conhecem as diversas leis que falam sobre a educação, sobre os seus direitos. Por isso, em qualquer discussão eles sabem falar a partir do conhecimento da lei.

    Higino, as pessoas das comunidades como é que elas faziam para ajudar em vossos estudos aqui na Escola Tuyuka?

    Higino: os moradores das aldeias ajudavam ensinando e vendo. Para mostrar que os alunos estavam aprendendo, nós convidamos os moradores da aldeia para que participem das exposições dos trabalhos dos alunos e que os alunos iriam explicar para os moradores sobre os temas estudados. Depois que acabavam de explicar, a comunidade ia entendendo como funcionava uma realidade, e, chegando a casas eles ajudavam aos seus filhos, lembrando para o filho o que ele havia falado na exposição, perguntavam se estava lembrado do que falou. Assim os pais ajudavam no crescimento dos conhecimentos de seus filhos.

    Também a comunidade e o capitão (líder da comunidade) lembravam para eles do que eles falavam na exposição, e, lembravam para eles do que ainda falta para aprenderem.  Assim que funciona, se não fizer isso, não funciona. Quando não se apresentavam os trabalhos para a comunidade, a comunidade parece que não ajuda. A meu ver, a apresentação dos trabalhos na comunidade é muito importante. Quando tem a exposição os moradores da aldeia participam e depois ajudam a lembrar do que falaram. Quando não apresentam os trabalhos à comunidade fica alheia, como se não estivesse sabendo nada dos alunos, assim eu vi. Durante este ano (2005) esta parte foi fraca aqui, no ano anterior nós trabalhamos muito nesta parte. Por isso, a comunidade ajudou muito aos alunos no ensino.

    Higino, aqui que se estuda aqui como ajuda na vida das pessoas e das suas comunidades?

    Higino: antes de começar a Escola Tuyuka eu vivia muito isolado, sozinho mesmo, vivia individualmente. Hoje com a Escola, como dizem os brancos, tenho mais vontade, sinto como membro. Eu vejo que os meus parentes querem crescer e veem o que está melhorando com a Escola, com os estudos começamos a pensar juntos, começamos a viver juntos, estamos juntando de novo, formando uma comunidade, uma coletividade.

    A nossa Escola Tuyuka está provocando o bem estar entre nós, com isso eu me sinto muito respeitado e me faz sentir bem. Da mesma forma a língua tuyuka, a língua foi a meu ver a maior conquista. A língua tuyuka voltou a ser mais viva, estamos começando a viver e a Escola influenciou muito para que isso acontecesse. Os moradores da comunidade de Assunção (Onça-igarapé) só falavam a língua tukano, não dava para conversar bem com eles, mesmo sendo um Tuyuka tinha falar em língua tukano. Hoje não tem mais isso, a Escola influenciou muito para a volta da língua tuyuka, linguisticamente tornamos fortes.

    Os alunos que estudaram aqui, quando são convidados para trabalhar por uma família e pela comunidade, trabalham com muita alegria. É isso que eles ajudam mais. Nós vemos que eles ajudam a suas mães com alegria. No dia do trabalho comunitário eles que chegam por primeiro, ajudam nos trabalhos, nunca faltam ao trabalho. Nos anos anteriores não era assim. Quem estudou em Pari-Cachoeira dizia: eu iria trabalhar com a comunidade se eu estivesse sendo pago, se eu fosse pago iria ajudá-los. Este tipo de pensamento não existe, hoje. Nós percebemos muito isso. Está começando a fortalecer, mas é preciso insistir mais, ainda. Se esquecer de insistir será fácil acabar novamente.

    Antes do começo da escola era muito ruim em dias de festas. Enquanto nós tocávamos e dançávamos cariço aqui com a comunidade (Casa Comunitária) os jovens entravam em outra casa, tocavam a música dos brancos para dançar. Hoje em dia não existe mais aqui. Não há quem fica querendo dançar outras músicas, ficamos num mesmo lugar. Quando está acontecendo danças tuyuka, todos estão dançando lá, uns tocam/dançam o cariço, todos os meninos/as. Por isso, eu insistia muito com eles, nós pessoas humanas temos que ser corretos. Quando acontecem danças dos brancos, vamos todos dançar e nos alegrar, se têm danças tuyuka vamos todos participar e alegrar. Quem não gosta, também deve ficar lá, se gostar de alguma música participa. Por isso, as festas aqui estão funcionando bem. Só não vai quem está adoentado. Temos dias para dançar as músicas dos brancos, dias do caxiri e de nossas tradições. Hoje eu vejo assim, antes não existia isso.

    Higino, segundo a sua visão por que eles começaram a gostar disso?

    Higino: a meu ver, o fato de gostar de nossas tradições depende muito dos pais. Se o pai mostra que aquilo é nosso e que precisamos valorizar isso, todos de sua família irão gostar. Se um pai de família começa a dizer que as nossas tradições não prestam, todos os seus filhos não irão gostar. Por isso, o meu ver os adultos que colocam o valor. A Escola precisa colocar o valor das tradições, pois os alunos estão olhando para nós, por isso o professor tem que colocar como valor a nossa cultura e os pais, também. Parece que assim funciona melhor.

    Higino, depois que começou a Escola Tuyuka como é que você se sente sendo Tuyuka?

    Higino: depois de seis anos eu me vejo assim. Eu estou vendo que o que eu pensei está saindo corretamente, é sentimento de que acertamos e fico feliz porque está bem. Eu vejo que sobre o que eu havia pensado, concretizamos e deixei pensamentos para os meus parentes, eu acertei trabalhar com isso, não sozinho, mas com a ajuda dos meus colegas professores e com a ajuda das comunidades acertamos tudo isso, penso comigo.  Eu não saberia dizer como pensam os outros, mas eu penso que acertamos, mas depois destes seis anos é necessário ir fortalecendo os ideais, mas digo também que vai ser fortalecida porque muitos estão estudando, outros estão estudando na universidade, seremos mais fortes posteriormente, todos seremos fortes. Penso comigo, no início, eu andava falando sozinho, o que eu dizia para alguém ou para os outros, agora está concretizado, e, os meus parentes sabem do que já existe.

    Higino, e as mulheres de outros povos Tukano, Desana, Bará, Yebamasa como é que elas ajudavam na Escola Tuyuka?

    Higino: nossas mulheres tukano no início perguntavam, por que, nós queríamos estudar as coisas detestáveis dos Tuyuka. Depois que começou a Escola, elas falam que nós estamos estudando o que é nosso. Elas (tukano) continuam falando a língua delas, mas não sabem falar a nossa língua tuyuka. Mas mesmo assim ajudam dizendo que nós estamos falando a nossa língua, que são coisas nossas.

    Elas dizem que é isso que vocês precisam fazer, são riquezas de vossos avós. Elas dizem que querem o bem dos seus filhos, que falem na língua deles, que aprendam a trabalhar e vivam bem. Elas querem o bem dos filhos, dizem para os filhos estudarem, dizem que é de vocês, estudem bem. Dizem para os seus filhos não desanimar. Com isto elas ajudam bastante. As mulheres sábias, quando vão pesquisar com elas, elas informam sobre o que sabem e dizem como é. Sobre os trabalhos, elas dizem como se deve trabalhar. As mulheres que ouviram conhecimentos do pai, dizem, o meu pai me falou assim. As mulheres Bará são diferentes das tukano, elas falam só a língua tuyuka, parece que elas gostam mais da nossa língua. Da mesma forma as mulheres Yebamasa falam a língua tuyuka.

    Higino, um dia desses, você me disse que, mesmo que esta escola seja uma Escola Tuyuka, pessoas de diversos povos estudam aqui nesta Escola. E, você disse também que está pensando noutra realidade que trata da educação intercultural. Como você está vendo essa questão?

    Higino: aqui, a respeito de trabalhar com as pessoas de diversos povos, atualmente temos pouca coisa preparada. Falamos para os professores que durante as aulas, para que os alunos de outros povos não esqueçam suas línguas, devem dar um espaço (tempo), peçam para que eles falem nas suas línguas ou quando chega alguém de seu povo pedir que entre na sala, que conte suas histórias e que conte em sua língua, para quem é Yebamasa e Bará.

    Esta é a forma com a qual trabalhamos, por enquanto. Mesmo pensando assim, nós ainda não conseguimos uma forma melhor para trabalhar com a questão da interculturalidade, não conseguimos preparar, ainda, está difícil para nós. Quem sabe daqui para frente (com ensino médio) é que vamos pensar melhor, como ensinar nessa situação ou dividir em grupos por etnias, mesmo estudando na mesma escola, para que eles não esqueçam suas línguas e evitar o etnocídio. Essa realidade que preocupa para quem é coordenador, dá medo, pois nós pensamos em estar repetindo a mesma coisa que fez a educação ocidental?

    Na Escola Tuyuka, somente a língua tuyuka vai ter a primazia, supremacia, superioridade, desrespeitando outras línguas? Se pensarmos assim aqui está o risco que futuramente pode ocorrer, levando a outros dizerem que a Escola Tuyuka fez isso com outras etnias, isso pode causar vergonha para nós. Está assim no momento, nós nos preocupamos com isso, mas não temos um método que nos ajude a trabalhar melhor com esta questão.

    Higino, se compararem os estudos dos brancos e os estudos daqui onde está diferença?

    Higino: para nós, o que podemos dizer que é novidade é o fato de termos decidido e construído uma política educacional. Nós mesmos fizemos isso, professores e comunidade, eles decidiram o que deveria ser ensinado. Outra novidade é fato de estarmos trabalhando somente com professores Tuyuka, se queremos admitir o outro, ele tem que ser alguém que fale a nossa língua. Outra novidade trata sobre a nota. Nós não temos a frequência (chamada dos alunos). Nossos alunos não faltaram nenhum dia de aula, mesmo que não tenha a frequência, este é o melhor modo que temos.

    Na escola ocidental nós íamos para aula com medo de levar falta. Essa escola é diferente, os alunos não têm medo, não existe a falta. Nós ensinamos a gostar da Escola, ensinamos coisas boas. Nós falamos para eles, venham estudar com gosto, pois nós vamos ensinar para eles o que será para vida deles, por isso, eles vêm. Nota nós não damos, pois sabemos que toda pessoa é conhecedora das coisas. Um sabe nadar, outro sabe pescar, ao nosso modo de ver a nota não olha para a questão do saber do aluno, mas somente aquilo que ele fez naquele momento (prova, trabalho). A nota exclui outros conhecimentos que a pessoa possui.

    Higino, no início, vocês pensaram uma forma para ensinar aos seus filhos, para que eles conseguissem aprender certas coisas. No seu modo de ver, depois dessa primeira que turma que terminou, pode se dizer que vocês atingiram o objetivo?

    Higino: para nós, o que nós queríamos muito era fortalecer a nossa língua, aquilo que nos deixava como mortos, já conseguimos concretizar, acertamos mesmo em fazer esse trabalho de recuperação da nossa língua. Se nós não tivéssemos feito isso, nesse ano já não existiria mais a nossa língua. Essa conquista é que nos dá prazer de dizer que somos Tuyuka, falantes de nossa língua tuyuka e podemos dizer que falamos a nossa língua. Com isso podemos dizer que estamos vivendo de novo.

    Higino, quando as pessoas de outros povos, pessoas de outras regiões, quando os brancos vão conhecendo os vossos trabalhos como você pensa sobre isso?

    Higino: nós estamos servindo como referências de trabalho nesse campo para os outros. Veja você, que o que nós pensamos e o que nós trabalhamos já estão indo à região do Pirá (Pirá-Paraná/Colômbia). Eles levam para lá o que trabalhamos aqui. Dizem que vão trabalhar como nós trabalhamos aqui. Diante disso eu penso assim: se mostrarmos os nossos trabalhos, um dia será que os indígenas vão mostrar para os brancos os seus trabalhos, seus conhecimentos, mostrarão que são fortes, que são respeitados pelos brancos? A partir do que nós mostramos para os brancos, eles nos respeitam, eles dizem que nós sabemos, antes eles diziam que nós não sabíamos nada, diziam que éramos pessoas sem sentimentos, que éramos ruins, que nós não tínhamos conhecimentos, mas agora eles vendo o que nós fazemos e espalhando as notícias de nossos trabalhos estão nos ajudando, eu penso assim.

    Concluo com os testemunhos do Professor José Ribamar Bessa Freire, são “extratos” de uma entrevista feita no dia 21 de setembro de 2006.

    “Eu estive entre os Tuyuka duas vezes. Uma vez para avaliar a escola. Eu fui como avaliador dos projetos FOIRN/ISA [Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro/Instituto Socioambiental] no Rio Negro. E, um dos objetos da avaliação era a Escola Tuyuka. Depois eu fui convidado para dar uma Oficina de História, ensino de História”.

    “A organização [da Escola] eu achei fantástica! Você passa quinze dias numa aldeia. Os alunos de outras três [duas?] vêm, assistem as aulas. E, voltam para casa. Passam quinze dias em casa, pesquisando, etc. Depois vão se reunir numa outra aldeia. É rotativo. Isso é muito legal”.

    “Eu assisti, por exemplo, uma aula dada por uma professora, numa sala multi-seriada,  onde tinha alunos de cinco e seis anos que estavam aprendendo a ler; alunos de sete, oito, nove e dez anos que já tinham uma prática de leitura e escrita. O que é que nosso Sistema Nacional de Educação e como é que ele encara isso? É impossível trabalhar, você tem que separar. Por quê? Porque a diversidade é vista como obstáculo para o processo de ensino-aprendizagem. Então, você não pode colocar pessoas que não são alfabetizadas com pessoas recém-alfabetizadas e com outros que já estão lendo e escrevendo que são maiores porque são muito diferentes. Tem de agrupar de acordo com as características comuns de cada grupo. De repente, eu vejo essa diversidade que a gente vê como obstáculos, os Tuyuka usando como recurso pedagógico. O que é que eles fizeram? A professora pediu para as crianças que não sabem ler e escrever, que estavam aprendendo, para entrevistarem os velhos para trazerem histórias, narrativas dos velhos. As crianças vieram no dia seguinte e contaram as narrativas que elas tinham ouvido. Enquanto elas estavam contando, quem sabia ler e escrever escrevia as histórias que as crianças estavam contando. A professora pegava e corrigia a escrita, e usava este texto para alfabetizar os alunos. Então, digamos que há uma relativa harmonia naquela forma de trabalhar a diversidade dentro da sala de aula. Isso é achei fantástico!”

    “Como já disse a Escola Tuyuka não se enquadra dentro do que chamamos de Escola Bilíngue. Ela é uma Escola Monolíngue. Que lindo! Meninos de cinco e seis anos, lendo e escrevendo em tuyuka fluentemente. Na oficina que eu dei depois, foram alunos de nove e dez anos que fizeram registro. Você precisava ver a capacidade de escrever tudo em tuyuka! E, depois eles pegavam aquilo ali e falavam em tuyuka e alguém traduzia para mim, pois eu não domino a língua [tuyuka]. Mas eles estão insistindo na questão da língua. Eu perguntei do Higino [Higino Pimentel Tenório – diretor da Escola Tuyuka]: mas quando essas crianças terminarem aqui o Ensino Fundamental e quiserem sair para fazer Segundo Grau, por exemplo, como é que elas vão fazer, se vocês não estão trabalhando muito a língua portuguesa? Aí ele [Higino] me disse uma coisa que eu achei fantástica, uma coisa que deveria estar presente na maioria das escolas indígenas: o objetivo da Escola Tuyuka não é formar pessoas para fazer o Segundo Grau. O objetivo da Escola Tuyuka é ensinar a trabalhar com a vida tuyuka, ensinar as crianças a viverem bem aqui entre os Tuyuka”.

    “Mas, Higino, e se a criança quiser fazer o Segundo Grau? Ele disse: nós já pensamos nisso! Nós vamos fazer uma espécie de vestibulinho aqui. Pega seis meses e trabalha os conteúdos com quem quiser ir mais adiante”.

    “Eu fiz outra provocação e digo: Higino, o Município de São Gabriel reconheceu o Tukano, Baniwa e o Nheengatú como línguas co-oficiadas ao Município, qual a política a Escola Tuyuka vai ter, por exemplo, em relação ao Tukano que uma língua co-oficial? Ele me deu uma resposta que eu achei genial! Disse: nós estamos esperando para ver o que é que os Tukano vão fazer com tuyuka nas escolas deles. E, nós vamos fazer exatamente com o tukano! Enquanto eles não fazem nada nós, também, não fazemos nada!”

    “Higino é um sábio na área de educação porque ele acumulou tudo aquilo, que é da tradição tuyuka e, também, aprendeu nesse contato com o mundo lá de fora. Pois, eu acho que não é de desprezar esse contato”.

    “Uma maloca tuyuka é uma contribuição enorme de civilização! Aquilo lá é uma coisa emocionante! Você entra, eu não estou exagerando porque eu fiz isso, você bota o braço meio-dia para fora, você está em baixo da linha do Equador. Você bota braço para fora, queima, queima o braço. É agradável isso! O pé direito [da maloca] altíssimo. O material que trabalha palha e madeira. O chão de barro batido. É uma sabedoria! Não é qualquer indivíduo, não é qualquer cultura que chega a conceber essa forma de construção! Nós não tivemos no Amazonas aquelas construções, aqueles monumentos que teve no Machu Picchu [Peru], de pedra e aquelas pirâmides do México, mas nós tivemos uma coisa que o tempo pode acabar com a palha e madeira, mas não acaba com a forma de construir. (…). Como é possível os Tuyuka, eles estão aí há séculos e séculos, olhando e observando o que é melhor. A maloca tuyuka é uma catedral. Você entra e vê aquela coisa magnífica! (…). Você entrar numa maloca tuyuka dá, também, aquela sensação de que você está na frente de uma civilização! Eu acho que essas coisas são importantes. É importante o Tuyuka ter consciência disso para começar a educar e informar a sociedade regional, nacional de que esses conhecimentos são conhecimentos que não se podem perder, pois são contribuições da civilização”.

    “Eu vi a filha do Higino de 15 anos [Dulce Maria Barreto Tenório, hoje com 17 anos], tinha lá uma oficina de formação de agentes agro-florestais. Estava lá o Renato do Acre dando oficina. Eu estava com Pieter [Pieter van der Veld – agrônomo], o holandês. A gente estava lá fora. Veio a filha do Higino e chegou ao quadro e ela foi listando 68 variedades de mandioca que ela conhece. O nome termina com – kirikʉ. E, o Pieter que estava comigo, olhou para mim e disse: pelo menos duas ou três variedades nem a tua Universidade nem a minha, nenhuma Universidade do mundo conhece. E essa menina de 15 anos tem um saber que não é pessoal, mas um saber coletivo”.

    “Os Tuyuka estão aí. São 1000 pessoas que falam a língua, 500 na Colômbia e 500 aqui. O que é que  o Aryon diz: enquanto a língua está sendo falada existe como língua. Ele diz que as línguas faladas são como peças de quebra-cabeça. Quando desaparece uma língua é como se desaparecesse uma peça desse quebra-cabeça, e depois você tem dificuldades para recompor os termos do conhecimento humano. Então, a língua Tuyuka, ela não é importante para os Tuyuka só, ela não é importante para os índios do Brasil só, ela é importante para a humanidade! Por isso que hoje, UNESCO e organismos internacionais estão preocupados com aquilo que eles chamam de línguas em perigos. Eles sabem que se desaparecer a língua tuyuka, desaparece um pedacinho da humanidade. E, você não deve deixar desaparecer isso! Eu acho que a Escola Tuyuka está apontando para isso”.

    “Eu acho que a Escola Tuyuka pode contribuir para gerar políticas públicas e já está contribuindo, porque eu desci, por exemplo, lá em baixo no Uaupés. Eu paro lá e me parece que era Cunuri [em Uriri, a Gorete lecionava]. Lá estava professora alfabetizando em tukano, a professora era Gorete que tinha sido professora na Escola Tuyuka e tinha levado isso para lá. Os Tukano estão aprendendo com os Tuyuka. Aos Tukano lá de São José [Escola Tukano – Yupuri, Rio Tiquié], eu dei uma oficina um ano depois. Eles olharam a Escola Tuyuka e disseram: nós queremos isso, também. Então aquela experiência piloto começa a se alastrar um pouco e servir de modelo para outros trabalhos”.

  • Nota de Repúdio da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN)

    Nota de Repúdio da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN)

    Nota de Repúdio da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN)

    São Gabriel da Cachoeira (AM), 18 de junho de 2020

    A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), que representa os 23 povos indígenas dos municípios de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira (AM), vem a público manifestar a sua indignação em relação à revogação da portaria normativa nº 13 de 11 de maio de 2016, do Ministério da Educação, que promovia políticas de cotas em programas de pós-graduação para estudantes indígenas, negros e pessoas com deficiência. Mais uma vez o governo federal demonstra o seu racismo institucional e promove o retrocesso nas políticas sociais no Brasil.

    O texto da revogação publicado no diário oficial da União de hoje (18 de junho de 2020) é veiculado no mesmo dia que se espera também a demissão do ministro da Educação, Abraham Weintraub. Nós, povos indígenas, fomos ofendidos de morte pelo ministro Weintraub que declarou recentemente que “odeia a expressão povos indígenas”. O ministro da Educação demonstra a sua ignorância e racismo aos povos originários. De forma alguma uma pessoa que mostra tamanho desprezo e ódio pode ocupar o cargo máximo da Educação no país. Nós, 23 povos indígenas do rio Negro, exigimos a demissão imediata do ministro Weintraub, assim como a anulação da revogação da referida portaria.

    Seguiremos na luta por uma educação inclusiva, pluriétnica, intercultural e que valorize a diversidade sociocultural do Brasil. Somos povos indígenas, somos brasileiros, somos da Amazônia e exigimos respeito! Chega de exclusão e racismo. Em um momento que o mundo vai as ruas protestar contra a violência policial e contra o racismo, nós não podemos admitir que a principal política pública para diminuir as desigualdades sofra retrocessos. A educação pública de qualidade é a principal forma de mudar uma sociedade e vamos sempre lutar por uma educação inclusiva.

  • Apoie as comunidades indígenas do Rio Negro durante a pandemia de Covid-19

    Apoie as comunidades indígenas do Rio Negro durante a pandemia de Covid-19

    Participe da Campanha “Rio Negro, Nós cuidamos!”, da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) para ajudar 750 comunidades de 23 etnias

    Com o sistema de saúde colapsado no Amazonas e sem nenhum leito de UTI nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, a população indígena do Rio Negro está entre os grupos mais vulneráveis à pandemia de Covid-19 no mundo. Além disso, os números de contaminados cresce na Panamazônia e as extensas fronteiras brasileiras com a Venezuela e a Colômbia também preocupam os moradores da região mais preservada da Amazônia brasileira.

    Quem mais protege a floresta e ajuda o equilíbrio climático do mundo está agora sendo ameaçado por essa pandemia. Os quatro primeiros casos de Covid-19 foram confirmados em São Gabriel da Cachoeira neste último domingo (26) e acendeu o alerta máximo para a transmissão comunitária no município. Com parte da população indígena vivendo em meio urbano e parte distribuída por 750 comunidades na bacia do rio Negro, é urgente a necessidade de se manter o isolamento social máximo.

    Por isso, a Foirn, através dos esforços dos seus funcionários, parceiros e do seu Departamento de Mulheres Indígenas, lança a campanha “Rio Negro, Nós Cuidamos!”. A iniciativa visa captar recursos urgentes para a compra de produtos de limpeza, ferramentas agrícolas, combustível, kits de pesca, alimentos não perecíveis e ampliação de serviços de comunicação fundamentais via radiofonia, carros de som e informes de áudio.

    “Estamos apoiando nossos parentes a ficarem em suas comunidades e não virem para a cidade, onde o vírus já está circulando. Sabemos que o nosso único jeito de sobreviver a essa pandemia é fazendo o isolamento social”, ressalta Elizângela Silva, do povo Baré, liderança feminina da Foirn.

    Para apoiar é fácil! Basta acessar https://noscuidamos.foirn.org.br/ e fazer a doação via cartão de crédito, PayPal ou depósito direto na conta do Fundo Foirn. Vamos ajudar os 23 povos indígenas do Rio Negro a se manterem vivos e saudáveis. A campanha conta com apoio do Instituto Socioambiental (ISA) e a Foirn integra o Comitê de Prevenção e Enfrentamento ao Covid-19 do município de São Gabriel da Cachoeira junto com instituições como Funai, Exército Brasileiro, Diocese, Marinha, IFAM (Instituto Federal do Amazonas), entre outras.

    #MulheresdoRioNegro #JuntasSomosMaisFortes #NósCuidamos #RioNegroNosCuidamos #RioNegrocontraCovid19

  • Marivelton Baré: “Fica na comunidade, parente!”

    Marivelton Baré: “Fica na comunidade, parente!”

    Em seu segundo pronunciamento sobre a crise do Coronavírus (Covid-19), o presidente da FOIRN alerta para o iminente colapso do sistema de saúde no estado do Amazonas, como anunciado pelo próprio governo do Estado e pelo Ministério da Saúde.

    O número de casos confirmados do novo coronavírus no Amazonas subiu para 532. Em relação ao boletim divulgado no domingo (5), são 115 casos a mais. Os números foram anunciados pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) na tarde desta segunda-feira (6 de abril). São Gabriel da Cachoeira segue sem nenhum caso registrado, mas com 293 pessoas em monitoramento e um caso suspeito, de acordo com dados da Semsa (Secretaria municipal de Saúde).

    O Estado já tem 19 mortes pela Covid-19, quatro mortes a mais em relação ao boletim divulgado no domingo. Em Manaus, foram registrados 473 casos e 59 no interior.

    Assista o pronunciamento completo:

    Segundo pronunciamento do Presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, do povo Baré, sobre a pandemia de Coronavírus e o agravamento da crise no estado do Amazonas (06/04/2020)
  • Pronunciamento do Presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, do povo Baré, sobre o agravamento da pandemia de Coronavírus

    Pronunciamento do Presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, do povo Baré, sobre o agravamento da pandemia de Coronavírus

    Marivelton Barroso, do povo Baré, manda mensagem para as 750 comunidades indígenas do Rio Negro, Amazonas, em alerta sobre a pandemia de Coronavírus que se alastra pelo Brasil

    Marivelton Barroso, do povo Baré, do Alto Rio Negro (Amazonas), é presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN). Representando 750 comunidades indígenas e 23 etnias, Marivelton está integrando o Comitê de Prevenção e Enfrentamento ao novo Coronavírus (Covid-19), criado pela prefeitura de São Gabriel da Cachoeira, o município mais indígena do Brasil.

    “Nossa maior preocupação agora é impedir que o vírus chegue até as nossas comunidades indígenas e aos municípios de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira”, afirma Marivelton. Embora os 3 municípios ainda não registrem casos da doença – apenas São Gabriel tem um caso (1) em análise – existe um esforço conjunto das instituições, população e governos municipais de agir para conscientizar a população e evitar a contaminação, que traria uma grave crise humanitária na região. Assista ao vídeo com o pronunciamento do Marivelton Baré.

    Campanha para que a população urbana de São Gabriel da Cachoeira, de maioria indígena, faça isolamento social para evitar disseminação da doença no município
  • Conselho Diretor define regimento para assembleias em 2020

    Conselho Diretor define regimento para assembleias em 2020

    O Conselho Diretor da Foirn realizado em São Gabriel da Cachoeira, de 10 a 13 de março, reuniu lideranças de todas as calhas do Rio Negro e definiu o regimento das assembleias sub-regionais e da assembleia geral da Foirn 2020

    A 37ª Reunião do Conselho Diretor da Foirn, a segunda maior instância de discussão e deliberação de pautas de interesse das comunidades e povos indígenas do Rio Negro, se reuniu para definir regimentos internos das assembleias sub-regionais das coordenadorias e da assembleia geral da Foirn 2020 e tratar de outros temas importantes, como trabalhos da Comissão Fiscal e planos de trabalho anual. O evento contou com a participação de cerca de 50 conselheiros e lideranças de todas as calhas de rios da região de abrangência da Federação.

    A abertura oficial começou na Casa dos Saberes, onde as pautas foram definidas. Como também foram lembrados os motivos da luta do movimento indígena, as conquistas, bem como os desafios atuais, motivo pelo qual o movimento indígena do Rio Negro precisa se fortalecer e continuar lutando e defendendo os direitos, como vem fazendo há mais de 30 anos. 

    Marivelton Barroso Baré, presidente da Foirn, lembrou aos conselheiros a importância do Conselho Diretor e a responsabilidade que eles têm junto com as comunidades que representam. “Vocês têm uma responsabilidade muito grande como conselheiros, para trazer demandas, representar as bases e deliberar temas importantes, como também levar informações para suas comunidades”, afirmou. 

    O primeiro dia de atividades foi marcado pela apresentação dos trabalhos da Comissão Fiscal, que também integra o Conselho Diretor, com responsabilidade de avaliar, recomendar e elaborar pareceres sobre o desempenho financeiro e contábil da federação. Após a apreciação das apresentações, foi aberto um espaço de debates sobre o tema. 

    As lideranças presentes lembraram da importância da transparência institucional do uso dos recursos dos projetos, e que deve seguir de acordo com o estatuto, o regimento interno e nos contratos dos projetos junto com os apoiadores para evitar qualquer problema para a instituição no futuro. 

    Plano de trabalho integrado 

    Foi apresentado no Conselho Diretor o plano integrado de atividade realizado entre a Foirn, Coordenadorias Regionais e o Instituto Socioambiental (ISA) elaborado no mês de fevereiro. No plano de ações deste ano estão distribuídas nos eixos temáticos de Economia Sustentável Indígena, Manejo Ambiental, Governança Territorial e Ambiental, Comunicação, Controle Social e Incidência Política e Rede de Gênero e Juventude.

    Em cada ação, as instituições envolvidas terão seus papéis específicos definidos, respeitado as determinações do Termo de Cooperação Técnica vigente e das demandas apresentadas pelas associações de bases e coordenadorias regionais nos seus planejamentos.

    Um dos primeiros frutos de trabalho de construção coletiva iniciada em 2019 é o Fundo Indígena do Rio Negro, que se encontra no processo final de elaboração. Até o final do ano essa iniciativa deverá ser alternativa para a Foirn apoiar as ações e projetos das associações de base. O fundo terá como principal objetivo captar recursos financeiros para os projetos a serem realizados nas bases. A estrutura e a gestão desse fundo foram um dos temas discutidos durante a reunião. 

    Assembleias sub-regionais e assembleia geral da Foirn 2020

    Entre os temas centrais da reunião estavam as assembleias sub-regionais e a assembleia geral eletiva da Foirn, esta última prevista para o final do ano. Para esses trabalhos foi formada uma comissão de lideranças indígenas para elaborar o regimento dos eventos. No documento final foram aprovadas recomendações e orientações gerais para as assembleias que irão acontecer nas bases. Ainda foi criada uma comissão eleitoral composta por uma liderança de cada regional da Foirn, que irá acompanhar todas as assembleias, especialmente as eleições das novas diretorias das coordenadorias regionais. 

    Leia o regimento das assembleias sub-regionais e da assembleia geral da Foirn

    Desafios continuam 

    Lideranças indígenas mais antigas aproveitaram a oportunidade para lembrar aos jovens o histórico de luta dos povos indígenas do Rio Negro. “Foram momentos muito difíceis para nós, os mais velhos aqui lembram muito bem disso. Com esse novo projeto do governo (PL 191), eles querem trazer isso de volta”, afirmou José Maria de Lima, do povo Piratapuia, sobre a invasão de garimpeiros e mineradoras nos territórios indígenas do Rio Negro e sobre o PL 191 apresentada recentemente pelo Governo Bolsonaro. 

    O PL 191/2020, encaminhado pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, para o Congresso Nacional, pretende viabilizar o acesso de terceiros interessados às Terras Indígenas e a seus recursos naturais para fins de garimpo, mineração industrial, exploração de petróleo e de gás, implantação de obras de infraestrutura e plantio de transgênicos. Apesar dos impactos óbvios que essas atividades trariam para as Terras Indígenas, as comunidades afetadas, caso as rejeitem, não teriam sua vontade respeitada.

    Saiba mais sobre o PL 191

  • Em oficina, mulheres Dâw e Baniwa compartilham conhecimentos sobre a medicina tradicional

    Em oficina, mulheres Dâw e Baniwa compartilham conhecimentos sobre a medicina tradicional

    Auxiliadora Dâw, Karine Viriate da Silva e Carolina Rodriguês

    A importância da valorização e compartilhamento dos saberes tradicionais indígenas sobre as plantas medicinais – a chamada farmácia viva – foi um dos temas tratados durante a oficina “Conhecimento das Mulheres Dâw e Baniwa para o bem viver”. O encontro foi realizado pelo Departamento de Mulheres da Federação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro (FOIRN) na comunidade Yamado, nos dias 20 e 21 de fevereiro, em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Rio Negro. Também participaram das atividades lideranças e representantes das comunidades Waruá e Cewari.

    “Viemos reforçar sobre a necessidade de valorizar as plantas medicinais. Indígenas devem passar seus saberes para filhos e netos. Mas sem esquecer também da medicina ocidental”, disse a coordenadora do Departamento de Mulheres da FOIRN, Elizângela da Silva (Baré). “Estamos fortalecendo assim a rede de mulheres. E com mulheres fortalecidas, estamos reforçando a organização social dessas comunidades”, completou.

    As mulheres da comunidade Yamado abriram suas casas – e seus quintais – para mostrar plantas medicinais cultivadas. A liderança do Waruá, professora Auxiliadora Fernandes da Silva, levou plantas medicinais para compartilhar com os indígenas das outras comunidades. “Não pode roubar nem pegar muda. Tem que trocar”, explicou Elizângela da Silva.

    Durante os dois dias, o compartilhamento de saberes marcou o encontro, que também se destacou pela acolhida da comunidade do Yamado à equipe que promoveu a atividade. Mulheres, homens, crianças e alguns jovens participaram das palestras. Também houve refeição compartilhada, como é de costume. Com generosidade, a indígena Adelina Leopoldina Rodrigues, moradora antiga do Yamado, abriu sua cozinha e ofereceu vinho de pupunha aos visitantes.

    Elizângela Silva ressaltou também que, durante os encontros, a FOIRN busca mobilizar e fortalecer as comunidades, além de levar informações sobre leis e direitos, inclusive de estar em seus territórios. “São leis que não são indígenas, mas que podem favorecê-los”, diz.

    Coordenadora do Departamento de Jovens da FOIRN, Adelina Sampaio participou da ação e falou da importância do fortalecimento da participação e valorização juvenil. “Durante as oficinas há o fortalecimento dos laços de mães e filhos. E isso tem continuidade. Além disso, os jovens ficam curiosos sobre as lideranças jovens, como vão falar, e participam mais. Têm curiosidade de aprender e participam mais”, explica.

    Oficina em Yamando reuniu moradores das comunidades Waruá, Yamando e Cewari

    PLANTAS TRADICIONAIS E PROTAGONISMO DAS MULHERES

     A indígena Karine Viriate da Silva, da etnia Baniwa, foi quem reivindicou a realização da oficina no Yamado, onde mora. Ela é agricultora e foi uma das mulheres que mostrou as plantas medicinais que cultiva. Muito animada, ficou feliz de ver seu quintal cheio de gente. “Essa planta aqui é a Jiboia. Ela serve para atrair pessoas à sua casa. E olha como minha casa está cheia”, disse, com sorriso no rosto.

    Ela mostrou ainda a folhagem chamada Orelha. A plantinha guarda um pouco de água. Esse líquido deve ser jogado no ouvido da pessoa de uma maneira especial, levando-a a ser mais inteligente. Karine ainda indicou uma planta boa para passar no cabelo. Mas, como todo indígena tem seus segredos, não quis revelar o nome dessa folhagem.

    “Minha mãe me ensinou muita coisa. Aprendi vendo ela fazer. Precisamos dividir nosso conhecimento com os outros. Os jovens não querem aprender nossa cultura. Ficam só com celular. Se precisar fazer a pimenta jequitaia, não vai saber. Para tirar o remédio para dor de cabeça, não vai saber. Não vão ter nem onde tirar sabedoria”, disse.

    Karine Viriate da Silva compartilha conhecimentos com os participantes da oficina

    A indígena Adelina Leopoldina Rodrigues compartilhou seus saberes mostrando o Pirarucu, uma folhagem usada contra feridas. Também mostrou o Dapuru, muito usado para dores no corpo. Ela ainda indicou uma pequena raiz que, ralada, deve ser colocada nos olhos para curar dor de cabeça. O nome? Não pode revelar. É segredo indígena. 

    Já no quintal de Caroline Leodoldina Rodrigues é cultivada a Piripiriaca, usada contra picada de cobra. Há ainda a Borboleta, uma pequena folha utilizada pelas pessoas que estão precisando incrementar as vendas de seus produtos.

    Liderança da comunidade Waruá, a professora Auxiliadora Fernandes da Silva explica que há remédios indígenas para diversos males, como diarreia, malária, gripe, contra picada de cobra, cólica, para emagrecer. Ela explica que os remédios caseiros são muito usados na comunidade, mas nem todos os indígenas sabem prepará-los. Ela acredita que os jovens podem se interessar pelo assunto se forem realizadas mais oficinas. “Pelo menos é assim no meu povo. Eu procuro dialogar”, disse.

    Assessora do Dsei, a indígena da etnia Tukano Maria Miquelina compartilhou seus conhecimentos sobre a saúde dos povos tradicionais e também sobre medicina dos homens brancos. “Cada família indígena tem em seu quintal um pedacinho de remédio. E é preciso saber usar. Tem preparo especial, dosagem, como utilizar, o tempo, o período. É a chamada farmácia viva”, explicou, com sabedoria, Dona Mique, como é conhecida. “Eu tenho que compartilhar o que sei”, completa. Ela busca organizar as informações sobre plantas tradicionais e seus usos e, além disso, integra um grupo que tenta viabilizar a manipulação de remédios tradicionais pelos próprios indígenas.

    MEDICINA DOS BRANCOS

    Ainda durante o encontro foi abordada a importância da chamada medicina dos brancos. A enfermeira Kleice Almeida, do Dsei, falou sobre a saúde da mulher, ressaltando os temas pré-natal, parto e puerpério. “É muito importante que a mulher procure o serviço médico assim que souber da gravidez. Temos uma dificuldade de adesão ao pré-natal no primeiro trimestre gestação, o que aumenta o risco”, explica. Houve ainda palestra sobre dengue e malária.

    Também integraram a ação os pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) professor e doutor José Miguel Nieto Olivar e a enfermeira obstétrica Danielle Ichikura Oliveira. Olivar falou sobre violência contra mulheres, na devolutiva de pesquisa realizada em São Gabriel.

    O professor Alcir Ricardo Rodrigues, da comunidade Yamado, pediu que haja palestras para jovens sobre consequências da gravidez da adolescência. Ele informou que na comunidade há 60 jovens, sendo 30 homens e 30 mulheres. O professor Jaime Lopes, da comunidade Waruá, ressaltou também que é necessário alertar contra o uso de bebidas.

    Capitão da comunidade Yamado, Paulo Lino Romero informou que na comunidade moram cerca de cem indígenas, a maioria da etnia Baniwa, havendo também Curipaco e Baré. O indígena Victor Camico da Silva, capitão do Cewari, informou que na sua comunidade vivem 72 pessoas da etnia Curipaco. Na comunidade Waruá vivem cerca de 145 pessoas, a grande maioria da etnia Dâw.

    Também participaram do encontro no Yamado a integrante da coordenação do Departamento de Mulheres da FOIRN, Janete Alves; o coordenador do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas do Rio Negro (DAJIRN), Lucas Matos (Tariano); Departamento de Comunicação, com atuação de Ednéia Teles (Arapasso);  Maria do Rosário Piloto Martins, a Dadá Baniwa, que é mestranda do Museu Nacional do Rio de Janeiro em linguística e línguas indígenas; Anair Sampaio, aluna do curso de serviço social da Unip, que acompanhou o encontro como atividade complementar de seu curso. O antropólogo João Vitor Fontanelli Santos, que desenvolve pesquisa junto aos Dãw, acompanhou os indígenas do Waruá durante o encontro.

    • Colaborou jornalista Ana Amélia Hamdan e Dadá Baniwa

  • O projeto do governo que libera a mineração em terras indígenas é adequado? NÃO

    O projeto do governo que libera a mineração em terras indígenas é adequado? NÃO

    O eldorado é verde: somos nós os atrasados?

    Leia abaixo a íntegra do artigo publicado pelo presidente Marivelton Barroso Baré na seção de Opinião do jornal Folha de S.Paulo, publicado no último dia 22 de fevereiro. O artigo também pode ser lido na Folha online: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/02/o-projeto-do-governo-que-libera-a-mineracao-em-terras-indigenas-e-adequado-nao.shtml?origin=folha

    Seria cômico se não fosse trágico: as mesmas pessoas que afirmam que nós, povos indígenas, deveríamos evoluir, têm a mentalidade presa no século 16. Até hoje pensam como o invasor europeu, que aqui chegou buscando o eldorado na Amazônia

    Essa febre do ouro limita o seu raciocínio e embaça sua visão. Não conseguem ver que a maior riqueza da floresta não são metais preciosos. E esse tesouro nem está enterrado, mas bem à vista: a biodiversidade exuberante, a maior reserva de água doce do planeta, a sua influência no clima global e no regime de chuvas de boa parte da América do Sul. O que nossos ancestrais já sabiam instintivamente há milhares de anos, hoje é comprovado pela ciência do homem branco. A mesma ciência que essas pessoas negam. Somos nós os atrasados?

    Marivelton Baré - tem 29 anos e é Presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN). Nasceu na região do médio rio negro, no município de Santa Isabel do Rio Negro. Seus dois principais momentos no movimento indígena foram as duas demarcações de terras em sua região, em 2013 e 2017. Hoje suas principais bandeiras são a demarcação de dois territórios e o fortalecimento do desenvolvimento sustentável nas Terras Indígenas. No último ano, junto ao Ministério Público, a FOIRN conseguiu retirar mais de 300 pedidos de pesquisa minerária em terras indígenas da região, dos quais 100 foram feitos apenas entre junho e julho de 2019.
    Marivelton Baré, presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn)

    Essa gente que se considera tão evoluída também parece não conhecer o que diz a Constituição. O projeto de lei 191/2020, apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro no último dia 5, tem como objetivo regulamentar a exploração de minério, gás, petróleo, agropecuária e potencial hidrelétrico em terras indígenas. Mas também do garimpo, atividade não prevista por ela.

    Além de inconstitucional, o PL também desrespeita a convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. Ela determina nossa consulta prévia, livre e informada antes de iniciado qualquer processo decisório que envolva terras indígenas. Fora ter sido elaborado sem que fôssemos ouvidos, o PL só nos garante poder de veto em relação ao garimpo praticado por não indígenas —ou seja, sobre aquilo que hoje já é considerado ilegal. 

    Tem muita gente de olho no que é nosso por direito. O 2º parágrafo do artigo 231 da Constituição diz que “as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes”.

    Mas, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral (ABPM), das 379 terras indígenas homologadas da Amazônia Legal, 190 são foco de interesse de exploração mineral por empresas ou pessoas físicas. Ao todo, 4.050 processos tramitam na Agência Nacional de Mineração (ANM), que incidem sobre territórios já homologados. E o PL 191 permite que essas áreas sejam exploradas por terceiros, sem o nosso consentimento, em outro flagrante inconstitucional. 1 4

    Essa regulamentação é prevista pela Constituição de 1988, e já houve tentativas anteriores de aprová-la. Mas há uma série de medidas a serem tomadas antes de sua efetivação. A começar pela demarcação das terras indígenas: a Assembleia Constituinte estabeleceu um prazo de cinco anos para que todos os processos estivessem concluídos; passados mais de 30 anos, ainda há 129 em andamento.

    Antes de se pensar em regulamentar a atividade em nossos territórios, é preciso combater o garimpo ilegal. Só na terra indígena ianomâmi há cerca de 20 mil garimpeiros agindo clandestinamente e contaminando os rios locais com mercúrio. Como acreditar que isso será feito se órgãos importantes como Ibama e Funai vêm sendo sistematicamente enfraquecidos?

    O Estado não foi capaz de impedir os desastres de Mariana e Brumadinho (MG), na região mais desenvolvida do país. Num governo no qual o respeito aos direitos humanos e a preservação do meio ambiente são vistos como entraves, como não temer que os rios Negro, Solimões, Amazonas, Tapajós e Madeira tenham o mesmo destino que o rio Doce e o Paraopeba? Marivelton Baré

    Presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), instituição ligada à Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab); a Foirn luta contra pedidos de pesquisas minerárias nas terras da região TENDÊNCIAS / DEBATES

    Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

  • Indígenas do Rio Negro mandam recado ao governo: PL 191 é inconstitucional

    Indígenas do Rio Negro mandam recado ao governo: PL 191 é inconstitucional

    Foirn solicitou ao General Mourão que Executivo reveja proposta que abre Terras Indígenas para mineração; federação também esteve com Rodrigo Maia, em Brasília

    Em rápida visita ao município mais indígena do Brasil para receber o título de cidadão gabrielense — iniciativa do vereador Subtenente Borjão (PROS-AM) —, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, defendeu a mineração em Terras Indígenas.

    “Precisamos pensar na mineração estratégica com uma legislação que, ao mesmo tempo, proteja a população, a região e o meio ambiente. Mas permita que as riquezas que se encontram no subsolo sejam extraídas e utilizadas em benefício de todos aqueles que aqui moram”, afirmou em seu discurso nesta terça-feira (18/02), para poucos convidados, no salão na 2ª Brigada de Infantaria de Selva, onde ele foi general, em 2006.

    A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) emitiu em resposta ao PL 191/2020 um comunicado em nome das 23 etnias que representa. O vice-presidente da organização, Nildo Fontes, do povo Tukano, esteve na sessão e protocolou a entrega de ofício sobre o projeto de autoria do Executivo, que libera atividades minerárias dentro de Terras Indígenas. A carta enfatiza a inconstitucionalidade do PL e os riscos aos territórios e à sobrevivência física e cultural dos povos indígenas.

    Nildo Tukano ressalta que, dos cerca de 500 processos minerários que incidem nas Terras Indígenas (TI) da região do Rio Negro, 431 são processos antigos depositados no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) antes da homologação das TIs, nos anos 1990. “Isso significa que os mesmos velhos interesses empresariais em nossos territórios estão por trás deste PL e não a vontade dos povos indígenas”, frisou o documento da Foirn entregue ao vice-presidente.

    Sem diálogo

    Maximiliano Menezes, Tukano, liderança de Taracuá (Baixo Rio Uaupés), disse que Mourão deveria ter participado de uma cerimônia aberta ao público, inclusiva e com possibilidade de diálogo. Uma comitiva formada por seis líderes Yanomami das comunidades do Maiá, Maturacá, Ayari e Maffi, da TI Yanomami, também questionou a falta de diálogo com o vice-presidente, que não recebeu as lideranças em sua visita a São Gabriel. Recentemente, Mourão foi nomeado coordenador do Conselho da Amazônia, órgão criado pelo presidente, Jair Bolsonaro, para a “proteção do meio ambiente” na região.

    “O General Mourão citou a mineração como algo sustentável para gerar emprego e renda, como muitos políticos fazem esse discurso. Mas, tenho certeza que não é isso que nós queremos. Mineração não vai solucionar a vida dos povos indígenas. Precisamos de outros projetos sustentáveis, sem danificar a natureza”, afirmou Maximiliano, morador e professor na TI Alto Rio Negro.

    Carlos Lopes Yanomami, tuxaua da aldeia de Maturacá, completou: “A gente queria falar do nosso território, mas não tivemos espaço. Falar da mineração nas nossas terras. De como ela traz doença, doença que não tem cura. Queríamos falar isso para o governo. A proteção territorial é o que queremos. Hoje tem tráfico de droga da Colômbia nos ameaçando. Precisamos, sim, de mais apoio na fronteira e de reforço do Exército”.

    Articulação em Brasília

    Também ontem, o presidente da Foirn Marivelton Barroso Baré se reuniu com Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, em audiência articulada pela Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, liderada pela deputada Joênia Wapichana (Rede-RR), sobre o PL 191/2020.

    “Junto com a Frente Parlamentar liderada pela deputada Joênia Wapichana, conseguimos o comprometimento do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a não tramitar e nem dar prioridade ao PL 191. Falamos sobre a ameaça aos territórios indígenas e também o quanto o PL fere o direito de consulta aos povos indígenas, do qual o Brasil é signatário em acordos internacionais”, disse Marivelton.

    Maia afirmou na ocasião que o momento não é “adequado” para a discussão sobre o PL e que o debate precisa amadurecer, pois trata-se de um projeto que gera muitas dúvidas e inseguranças. “É um debate que precisava ser feito de outra forma: primeiro, discutir o tema, de forma um pouco mais ampla, para depois encaminhar um projeto”, falou Maia.

    • colaboração de Juliana Radler, assessora do Instituto Socioambiental (ISA)

  • CARTA DE MANIFESTO DA  JUVENTUDE E MULHERES INDÍGENAS DO RIO NEGRO

    CARTA DE MANIFESTO DA JUVENTUDE E MULHERES INDÍGENAS DO RIO NEGRO

    O Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas do Rio Negro (DAJIRN), criada em 2008 para defender os direitos dos Adolescentes e Jovens Indígenas que habitam a região do Rio Negro, na abrangência dos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos no Estado do Amazonas – Brasil, vem diante dos fatos ocorridos com a Juventude Indígena do município de São Gabriel da Cachoeira, solicitar Ações Emergenciais para a segurança dos mesmos. Os casos de homicídios e suicídios que ocorrem em nossa região são constantes e ressaltamos:

    Em 2014, o Mapa da Violência elaborado pela Secretária-Geral da Presidência, cujo título é “Os Jovens do Brasil”, colocou São Gabriel como a cidade com maior taxa de suicídios e homicídios por 100 mil habitantes no país. Através da análise de dados fornecidos pelo Ministério da Saúde até o ano de 2012, o relatório concluiu que a taxa de suicídios aumentou no Brasil de 2002 a 2012, chegando a ser três vezes maior do que a taxa de crescimento da população brasileira no mesmo período. O documento também classificou como preocupante o significativo aumento de suicídios na região Norte, onde houve um crescimento de 77,7% nesse período.

    Um último fato significativo: pelas PNADs [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE] desse período, a média de jovens indígenas de 15 a 29 anos de idade representava 26% do total da população indígena. Dos 475 suicídios indígenas registrados pelo SIM [Sistema de Informação sobre Mortalidade, registrado pelo SUS] nesses cinco anos, 289 eram jovens na faixa de 15 a 29 anos de idade, isto é, 60,9% do total de suicídios indígenas, mais que o dobro do que seria esperado”.

    No caso de São Gabriel da Cachoeira, o índice de suicídios foi de 51,2 por 100 mil habitantes em 2012, onde 75% dos suicídios indígenas foram de jovens entre 15 e 29 anos. O número representa aproximadamente um terço do total de mortes contabilizadas no mesmo período em São Gabriel da Cachoeira (73 mortes entre os anos de 2008 e 2012). Considerando a realização de diversos seminários de juventude, realização do 2º Congresso de Juventude Indígenas do Rio Negro e do que se trata a lei nº 12.852, de 5 de agosto de 2013 que dispõe sobre os diretos dos jovens, os princípio e diretrizes das políticas pública de juventude e o Sistema Nacional de Juventude – SINAJUVE.

    Considerando diversos casos:
    a. O crescimento descontrolado de pontos de vendas bebidas alcoólicas nas cidades (bares);

    b. A falta de fiscalização do Conselhos Tutelar nas baladas (danceterias), bares, ruas e praças em altas horas.

    c. A falta de atuação e acompanhamento da Marinha nas praias e dos outros pontos de banhos do Rio Negro nos finais de semanas;

    d. A falta de vistoria de fiscalização dos órgãos de Segurança Pública.

    e. A falta de fiscalização aos comerciantes por não cumprir a Lei nº 13.106, de 2015 do Art. 243. que proíbe a venda de bebidas alcoólicas para menores.

    f. A falta de construção de área de lazer para ocupar a juventude. g. A falta de geração de emprego e renda para juventude.

    h. Auto índice de violência (abuso sexual de menores) contra as crianças e as adolescentes indígenas;

    i. Exploração do trabalho infantil das crianças estrangeiras (venezuelanos e colombianos).


    Diante destes fatos exigimos que os órgãos públicos nesta carta tomem providências emergenciais para combater o uso de drogas, álcool e violência no nosso município. Ressaltamos a necessidade imediata de fiscalizar a venda de bebidas alcóolicas para menores de idade, que vem levando a um cenário de total descontrole e abandono dos jovens na cidade, aumentando o índice de violência, sobretudo contra as mulheres indígenas. Neste manifesto, aproveitamos para solicitar que seja convocada emergencialmente uma reunião do Fórum Interinstitucional de São Gabriel para que possamos juntos buscar solucionar essa grave situação que afeta a nossa juventude.

    São Gabriel da Cachoeira – Amazonas 12 de fevereiro e 2020.