Tag: Educação Escolar Indígena

  • Projeto da FOIRN apoia futuros núcleos do Instituto de Conhecimentos Indígenas e Pesquisas do Rio Negro

    Coordenador da AEITYM recebe motor e bote do diretor da FOIRN de referência à Região do Tiquié e Afluentes e Baixo Uaupés. Foto: SETCOM
    Coordenador da AEITYM recebe motor e bote do diretor da FOIRN de referência à Região do Tiquié e Afluentes e Baixo Uaupés. Foto: SETCOM

    A FOIRN através do Projeto apoiado pelo Horizont3000, deu o primeiro passo de estruturação e fortalecimento dos futuros núcleos do Instituto de Conhecimentos Indígenas e Pesquisas do Rio Negro (ICIPRN).

    Dos seis núcleos previstos, três já estão definidos: Escola Baniwa e Coripaco – EIBC (Médio Içana), Escola Indígena Tukano Ye’pá Mahsã (Baixo Uaupés) e Escola Indígena Yande Putira (comunidade Canafé – Baixo Rio Negro).

    Diretor da FOIRN de referência à região do Médio e Baixo Rio Negro entrega notebook ao líder da comunidade Canafé. Foto: SETCOM/FOIRN
    Diretor da FOIRN de referência à região do Médio e Baixo Rio Negro entrega notebook ao líder da comunidade Canafé. Foto: SETCOM/FOIRN

    Com o objetivo de apoiar  e fortalecer as atividades de pesquisa intercultural de pesquisadores que atuam nessas escola, a FOIRN, nesse primeiro semestre repassou equipamentos: EIBC – 1 motor Yamaha 15hp e bote de 8 metros; AEITYM – 1 motor Yamanha 15hp e bote de 6 metros; Yande Putira – 1 Notebook e 1 bote de 7 metros.

    O diretor da FOIRN, Nildo José Miguel Fontes, disse que objetivo é iniciar a estruturação desses três futuros núcleos do ICIPRN, e fortalecer as iniciativas de pesquisas que já acontecem nesses locais, como também apoiar as atividades da escola.

    O professor Aluiso Joel Caldas Azevedo, disse que os equipamentos irão ajudar muito os trabalhos da escola, dos professores e seus alunos na realização das pesquisas e outras atividades pedagógicas.

    Diretor da FOIRN de referência à região do Içana e Afluentes entrega equipamentos para Coordenação da EIBC
    Diretor da FOIRN de referência à região do Içana e Afluentes entrega equipamentos para Coordenação da EIBC

    Para saber mais sobre a Educação Escolar Indígena e o Instituto de Conhecimentos Indígenas e Pesquisas do Rio Negro acesse a publicação sobre a temática, aqui

  • Projeto Político Pedagógico Indígena é tema de Oficina na Comunidade Canafé, médio rio Negro/município de Barcelos (AM)

    Participantes da oficina apresentam resultados de Trabalhos em Grupo. Foto: Lirian Monteiro/ISA

    Participaram do encontro cerca de 40 pessoas de Canafé, incluindo professores, alunos, pais, avós e lideranças – das etnias Baniwa, Desana, Tukano e Baré – no período de 19 a 22 de outubro. A Foirn realizou a oficina através de seu departamento de Educação e de seu parceiro Instituto Socioambiental, sendo os assessores: Ivo Fontoura e Higino Pimentel Tenório (departamento de Educação-Foirn) e Lirian Ribeiro Monteiro (ISA).

    O objetivo da Oficina, sendo a terceira realizada entre 2011 e 2014, foi dar continuidade a elaboração do PPPI da escola Yané Putira (Nossa Flor, na língua Nhengatú) aprofundando textos já escritos e iniciando novas sistematizações realizadas em trabalhos de grupo. No decorrer do encontro os grupos se reuniam para discutir e sistematizar as ideias levantadas. O segundo passo se dava com as apresentações em plenária e o terceiro com a digitação das ideias levantadas e elaboração de texto com auxílio do power point, de forma que todos pudessem acompanhar e opinar sobre o desenvolvimento dissertativo do projeto. Com a leitura final coletiva e aprovação em plenária, o PPPI, ainda em fase de elaboração, foi impresso e entregue aos participantes.

    Os itens, que compõem o projeto, discutidos e sistematizados foram a missão da Escola Yané Putira, seu objetivo geral, seus objetivos específicos, metodologia de ensino adotada, grade curricular, calendário local, funcionamento da escola, sistema de avaliação, coordenação e administração e histórico da comunidade e escola.

    As principais discussões giraram em torno da metodologia de ensino via pesquisa, formação de professores indígenas, produção de material didático, língua nhengatú, grade curricular e calendário específico. Em relação à metodologia de ensino os participantes já tinham ouvido falar, mas informaram sentir dificuldades em trabalhar a partir dessa proposta, reivindicando assim oficinas sobre metodologia de ensino via pesquisa aos seus professores. No que tange a produção de material didático consideram importante, a partir das oficinas realizadas junto aos professores indígenas, pais e alunos a produção de material didático, como livro de histórias, temas relacionados às pesquisas realizadas na escola, cantos e desenhos.

    O material didático deve ser elaborado em língua portuguesa, sendo que em Canafé, os alunos iniciam seu processo de letramento com a língua portuguesa, pois falam apenas o português. Materiais na língua nheengatu também serão pensados com o intuito de iniciar o processo de grafia para aqueles jovens que já falam o nheengatu, levando em consideração a escolha da comunidade em, primeiro iniciar a língua nhengatú a partir da oralidade, para que crianças e jovens aprendam a falar e, somente depois, começar o processo de escrita. Já, a grade curricular deverá se pautar no diálogo das disciplinas, preconizadas pelo MEC, com os temas de pesquisa propostos pela própria comunidade, como: roça, caçaria, quelônios, culinária indígena, frutos do mato, arquitetura indígena, canoas, pesca. Na grade, as tecnologias de fora e indígenas serão trabalhadas em mesmo nível. No calendário específico, os espaços de produção de conhecimento serão levados em consideração e contabilizados como hora/aula, pois a Escola Yané Putira entende que os processos de ensino-aprendizagem não se dão apenas dentro de uma sala de aula.

    Ao final foi criado o conselho escolar da Escola Yané Putira, composto por presidente: Sandoval Basílio, Secretário: Euzita Silva Cordovil, Tesoureiro: Luiz Carlos Basílio Brazão e Coordenação Pedagógica: Adonias Mateus Gomes. O Conselho ficou também responsável por realizar reuniões comunitárias para dar continuidade às discussões relacionadas às práticas escolares e produção de conhecimentos, também, fora do espaço escolar. A próxima oficina, de continuidade na elaboração do Projeto Político Pedagógico, está marcada para março de 2015.

    Colaborou: Lirian Monteiro/ISA

  • Seminário Rio Negro de Educação Indígena: Segundo Dia.

    3a Roda de Conversa durante o Seminário Rio Negro de Educação Indígena.
    3a Roda de Conversa durante o Seminário Rio Negro de Educação IndígenaS

    O segundo dia de seminário contou novamente com a maloca da FOIRN cheia, com mais de 300 participantes. Ao longo do dia, duas rodas de conversa foram realizadas com apresentações e espaço para debate entre os palestrantes e os participantes.

    A primeira roda foi iniciada com o coordenador Vicente Villas-Boas Azevedo da escola Yupuri que elaborou seu Projeto Político Pedagógico próprio e trabalha junto com as comunidades do médio rio Tiquié. O coordenador ressaltou que apesar do diálogo entre Estado e comunidades indígenas ser um aspecto de grande importância para o desenvolvimento da educação escolar indígena, o Estado e suas instituições ainda continuam com a lógica da tutela frente aos povos indígenas, levando estes para a margem da sociedade para não atender seus interesses e infligir receio à participação indígena.

    Durante esta roda de conversa as escolas-piloto desenvolvidas pela parceria FOIRN-ISA tiveram seu processo recordado. Iniciado através de demandas das comunidades para depois pensar os temas e conteúdo escolar até a metodologia via pesquisa, marca de escolas como a Utapinopona do povo Tuyuka, a Kumuno Wu’ú do povo Kotiria, a Yupuri do povo Tukano e a escola Pamáali do povo Baniwa, estas escolas foram criadas com o intuito de valorizar a diversidade e não submeter esta a uma forma fixa. O objetivo é qualidade de ensino e não somente o cumprimento de regras burocráticas, ou seja, o que vale é o bem viver das comunidades. Este bem viver traz para a realidade da educação escolar diferentes conceitos de pesquisa e de ensino sendo que estes conceitos estão sempre em um processo de atualização e transformação, ou seja, não são fixos. Tal fluidez, tão importante para acompanhar os anseios das comunidades, é mal digerida pelos aspectos normativos do Estado.

    Técnicos do Estado lembraram que apesar da forte lógica de colonização presente há processos de conquista de direitos. Processos que amansam o Estado sendo que este amansamento deve ser o trabalho principal do gestor que deve também institucionalizar boas práticas para garantir que não haja descontinuidade, uma marca das políticas governamentais que foi lembrada nas exposições do dia.

    Os participantes expuseram seus contextos locais e dentro destes exemplos destacamos: o desajuste das políticas públicas para atender a realidade logística e de estrutura de gestão no Rio Negro; a cobrança de acordos já feitos com gestores públicos sobre estrutura física e contratação de recursos humanos; a falta de métodos adequados de avaliação escolar; a necessidade de se processar o governo e acionar o ministério público federal frente a tantos casos de descaso; a necessidade do Estado respeitar os povos indígenas; a falta de capacidade de operacionalização da Secretaria de Educação do Amazonas (admitida pelo próprio representante local); a inclusão de conhecedores como pajés, kumu e baya nas ações das escolas e de gestão territorial junto aos alunos recém formados de cursos como agroecologia e turismo; problemas para liberar materiais didáticos essenciais às escolas indígenas dentro do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, pois não se encaixam dentro de seus pacotes; o longo processo que deve ser feito para que o Território Etnoeducacional vire uma unidade gestora; e falta de definição do Estado de uma política lingüística  para as escolas indígenas.

    Finalmente, damos espaço aqui para algumas falas das lideranças das comunidades do Rio Negro:

    “Até hoje pensam que nós indígenas não temos idéias, temos sim, mas elas não são acatadas”.

    “Estamos aqui falando de nossa política, de nossos direitos”

    “As autoridades trabalham nas sedes enquanto nós sofremos nos interiores”.

    “Os brancos falam que quem estudou tem educação, mas onde está o respeito pelos povos indígenas? O cuidado com o meio ambiente?”.

    “Sempre que levo problemas à secretaria municipal me direcionam para a secretaria estadual, não se sabe para onde ir, ninguém se responsabiliza”.

    “Eu represento a minha comunidade, não um município”

     

    Equipe de comunicação do Seminário: Ray Benjamim/FOIRN e Renato Martelli/ISA.

  • Seminário Rio Negro de Educação Indígena: Primeiro Dia

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    Casa dos Saberes é o espaço de discussão e debates sobre a Educação Escolar Indígena do Rio Negro. Mais de 300 participantes foram registrados no primeiro dia do evento.

    Iniciou hoje, 2/6/14, na Maloca Casa dos Saberes da FOIRN em São Gabriel da Cachoeira o seminário Rio Negro de Educação Indígena. O evento reúne participantes dos seminários autônomos de educação realizados desde o ano passado nas cinco sub-regionais da FOIRN. Estes seminários vêm discutindo e sistematizando os contextos, demandas locais e dados sobre a educação indígena do Rio Negro. Fruto de uma iniciativa conjunta entre FOIRN, FUNAI, ISA e as comunidades, estes seminários levantaram importantes informações sobre a realidade da educação indígena e sua etapa regional reuniu hoje mais de 300 participantes.

    A abertura contou com a palestra de André Fernando, liderança Baniwa, onde a distância entre a lei vigente e a prática do dia a dia foi evidenciada. Este ponto foi marcado por vários relatos ao longo do dia e resume um dos grandes problemas apontados, a falta de implementação de direitos garantidos por constituição, lei de diretrizes e bases e resoluções como a 03/1996. Se não faltam leis, falta ação.

    Para concluir a abertura, os alunos do ensino fundamental e médio da escola Tuyuka apresentaram danças de cariçu e japurutu.

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    Estudantes de ensino fundamental e médio da Escola Tuyuka – do Rio Tiquié apresentaram danças tradicionais: Carricú e japurutu aos participantes

    Pela manhã representantes das cinco coordenadorias regionais da FOIRN apresentaram um resumo dos principais pontos discutidos durante os seminários regionais. Alguns pontos destacados foram a estrutura precária, a falta de formação continuada dos professores, processo seletivo com padrões exteriores à região, falta de material didático produzido pelas próprias comunidades e em línguas indígenas, falta de reconhecimento dos Projetos Políticos Pedagógicos Indígenas pelo poder governamental e problemas com a qualidade e distribuição da merenda escolar.

    Pela tarde uma roda de conversa entre representantes da FOIRN, FUNAI, IFAM, ISA, MEC, SEMEC/SGC, SEDUC e SEIND discutiu sobre os desafios da educação escolar indígena, levando em consideração os pontos levantadas pelas apresentações de manhã. Os participantes tiveram espaço para tirar questões e reivindicar suas demandas e propostas para estes representantes. Esta roda propôs alternativas para questões como construção de escolas através de mutirões comunitários, produção e venda de merenda regionalizada, PPP próprios, formação continuada e protagonismo dos povos indígenas.

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    Primeira roda de conversa do dia reuniu representantes de orgãos governamentais, que dialogou com o público durante a conversa que teve como tema: Desafios da Educação Escolar Indígena, mediado pelo Justino Tuyuka.

    Como foi afirmado por um dos participantes, “O Estado sempre está um passo atrás do movimento indígena”. Neste evento a ideia é juntar o caminhar de quem é responsável no dia a dia das escolas ao andar das políticas governamentais. Os gestores públicos que pratiquem seu saber ouvir para depois saber o que fazer.

    O Seminário vai até quarta feira e no final de cada dia um resumo será publicado aqui no blog da FOIRN. Acompanhem também o andamento das atividades no nosso twitter @foirn e página (notícias e imagens)  no Facebook.

     

    Equipe de comunicação do Seminário: Ray Benjamim/FOIRN e Renato Martelli/ISA.

  • Povos Hupd’äh e Yuhupdeh discutem Educação Indígena e Educação Escolar Indígena em V Seminário local

     

    Participantes do Seminário em Barreira Alto, rio Tiquié.
    Participantes do Seminário em Barreira Alto, rio Tiquié.

    A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e a Fundação Nacional do Índio (Funai), em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), promoveram, entre 18 e 30 de abril, encontros de Educação Escolar Indígena que reuniram diversos clãs Hupd’äh em comunidades: Barreira Alta (rio Tiquié), Santa Cruz do Cabari (igarapé Japu), Pinu Pinu e Waguiá (rio Papuri) e Yuhupdeh, na comunidade de Guadalupe (igarapé Ira). Participaram dos encontros professores Hupd’äh, Yuhupdeh e Tukano, agentes indígenas de saúde, líderes comunitários, jovens e anciãos. Os assessores foram Ivo Fontoura, antropólogo e coordenador do departamento de Educação/ Foirn; Lirian Monteiro, antropóloga/ISA; Sirlene Bendazzoli, da Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém Contatados/Funai; Claudia Bandera, da Coordenação Geral de Promoção da Cidadania/Funai e Ana Lima, assistente social/Dsei.

    A discussão, voltada às especificidades dos Hupd’äh e Yuhupdeh, foi pensada com o objetivo de promover o debate em relação à educação indígena/educação escolar indígena e fortalecer os diferentes espaços de se produzir saberes, visando construir estratégias culturalmente adequadas a esses povos, de recente contato, em relação a educação escolar e, ao mesmo tempo, garantir que seus modos próprios de ensino-aprendizagem sejam respeitados, valorizados e incentivados.

    Os seminários específicos aos Hupd’äh e Yuhupdeh fazem parte do projeto “Seminários de Educação Escolar Indígena”, lançado em 21 de janeiro de 2014, na Casa do Saber da Foirn, no âmbito da política do Território Etnoeducacional e da perspectiva da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (Pngati), política instituída pelo decreto 7.747, de 5 de junho de 2012. O projeto tem como objetivo realizar um diagnóstico ampliado e aprofundado sobre a realidade da educação escolar indígena nas cinco regiões administrativas do Rio Negro, além de promover o intercâmbio de experiências, propor melhorias e inovações de infraestrutura, metodologias de ensino, formação de professores indígenas, elaboração de projetos políticos pedagógicos indígenas e, de forma mais ampla, aprofundar a discussão político-filosófica da educação escolar indígena e suas especificidades rio negrinas.

    Uma das pautas dos seminários foi refletir sobre a educação indígena, lembrando que a ideia de escola chegou a seus territórios como projeto de colonização, desconsiderando os diversos tipos de saberes, ciências e filosofias indígenas. Os Hupd’äh e Yuhupdeh observaram que a escola do Estado tirou a criança e o jovem dos ensinamentos dos pais, tios e avós, contribuindo para que os adultos de hoje esquecessem os diversos tipos de danças e de benzimentos importantes para a pessoa Hup/Yuhup, o que ainda vem ocorrendo com os jovens atualmente. Falaram, com a ajuda dos velhos presentes, que antes de chegar a escola do branco todos aprendiam o que lhes estavam destinado. Quando o velho atribuía um nome à criança, a partir de seu clã, nele já vinha tudo o que aquela criança iria aprender na vida, desenvolvendo esses conhecimentos em seu cotidiano junto a família. Segundo os Hupd’äh, atualmente os jovens não se interessam mais pelos conhecimentos de seus avós, por isso os velhos não querem mais repassar, pois só ensinam se os jovens tiverem interesse em aprender. Como isso não vem acontecendo mais como antes, os velhos morrem e acabam levando todo o conhecimento embora com eles.

    Como declarou o professor Ricardo, da comunidade Barreira Alta:

    “Os velhos não passam mais seus conhecimentos porque os jovens não se interessam em aprender porque dormem muito. Eu aprendi a benzer e dançar Capivaiá porque sempre acompanhei meu pai nas rodas de ipadu. Acompanhei meu pai nos momentos em que ele estava benzendo e hoje eu mesmo sei benzer meus filhos.”

    Professores e demais lideranças lembraram que antes de chegar a escola eram bem unidos e comiam todos juntos. Os benzimentos eram repassados nos dias de caxiri e em rodas de ipadu, dia e noite, para que seus filhos aprendessem. Destacaram que já perderam muitos conhecimentos, não possuem mais zarabatana, mas que ainda possuem arco e flecha e diversas técnicas de caça. Observam ainda o ritual do jurupari e dançam também o Karissu, mas se preocupam com seus filhos que cada vez menos se interessam em participar só valorizando as festas com forró e principalmente a banda “Forroboy”. Contudo, as crianças desde pequenas já aprendem a fazer armadilhas para caçar calangos e à medida que vão crescendo aprimoram suas armadilhas de caça.

    Dabucuri em Santa Cruz do Cabari - Igarapé Japu. Foto Lirian Monteiro
    Dabucuri em Santa Cruz do Cabari – Igarapé Japu. Foto Lirian Monteiro

    Durante o encontro os Hupd’äh e os Yuhupdeh demonstraram possuir um grande interesse pela escola indígena por considerarem que esta respeita mais os conhecimentos indígenas e também traz os conhecimentos não indígenas e, sobretudo, tenta inserir os professores indígenas, de suas próprias comunidades. Contudo, observam que a Secretaria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira não vem valorizando esse princípio da educação escolar indígena, ao contratar professores de outras comunidades – sem levar em consideração as dificuldades que os pais dos alunos possuem para sustentar um professor de outro local.  Puderam apresentar suas experiências de, aproximadamente nove anos, como professores. Sendo que antes as crianças Hupd’äh tinham somente professores de outros grupos étnicos. Como os Hupd’äh possuem experiências recentes na prática de ensino em modelo escolar, apontaram como principais dificuldades enfrentadas a falta de apropriação em metodologias de ensino que promovam a pesquisa e o processo de letramento em língua própria bem como o ensino na língua portuguesa, afirmando a importância de se realizar oficinas pedagógicas para a elaboração de materiais didáticos de qualidade para o trabalho com leitura e escrita em língua hup/yuhup, tukano e português para crianças e jovens.

    A importância do letramento das crianças Hupd’äh, primeiramente em sua própria língua, foi bastante ressaltada. Nesse sentido, os professores e demais lideranças Hupd’äh solicitaram apoio à Funai para a realização de oficinas pedagógicas que possibilitem a produção de material didático junto aos professores Hupd’äh. Os mesmos consideraram a importância de se produzir material, analisando que sem textos escritos na língua torna-se muito difícil o trabalho de letramento. Informaram também que não adianta só escrever na lousa, pois as crianças gostam de livros bonitos e com desenhos, assim elas ficam mais animadas em aprender a ler e escrever.

    Os Professores informaram que já ouviram bastante sobre a proposta da educação escolar indígena durante magistérios indígenas, seminários, encontros, projetos de educação. Sabem que é lei e direito dos povos indígenas, mas que a Secretaria Municipal de Educação não respeita os calendários específicos das comunidades e exigem que se cumpra a carga horária da cidade, alegando ser uma determinação do Ministério da Educação. Uma das perguntas apresentadas, a partir das reflexões em trabalhos de grupos, foi como fazer que a escola – no sentido indígena – incentive os conhecimentos que são produzidos em outros espaços, como na roça, em expedições de caça e coletas de frutos, em rodas de ipadu, durante os rituais das flautas sagradas. Como fazer com que os jovens se interessem pelos conhecimentos de seus pais e avós. Para tanto destacaram a importância dos 200 dias letivos/ano – exigidos pela secretaria municipal de educação, mas não exigidos na legislação da Educação Escolar Indígena- contemplarem as atividades cotidianas fora da escola a partir de um calendário específico, construído pela comunidade, visando promover os diversos espaços de saberes em seus territórios. E que o espaço da escola, que consideram importante para aprender sobre o conhecimento de outros povos – seja em períodos que não atrapalhem os processos educacionais propriamente Hupd’äh e Yuhupdeh.

    Outro tema discutido de forma inicial, durante o seminário, foi sobre os Direitos Sociais. Como proposta de atividade, foram divididos três grupos de trabalho para realizar mapeamento de percursos na cidade de São Gabriel da Cachoeira, visando destacar os locais que costumam frequentar na cidade, tais como instituições, locais de lazer, comércios e locais de estadia. O mapeamento desses espaços citadinos, frequentados por Hupd’äh e Yuhupdeh foi importante para iniciar um debate, ainda incipiente, a cerca dos programas sociais do governo e seus impactos no modo de viver desses povos. Os programas sociais, como o bolsa família e auxílio maternidade vem culminando numa crescente descida dos Hupd’äh e Yuhupdeh à cidade, que por sua vez não possui estrutura para atender de forma adequada e eficiente os povos indígenas das comunidades.

    Durante os debates dos grupos registrou-se como principal queixa dos Hupd’äh, Yuhupdeh e Tukano a morosidade no atendimento da cidade para aquisição de documentos e os auxílios do governo, o que os fazem perder muito tempo na cidade, que não lhes oferecem boas condições de estadias. Além desse problema principal, ficam doentes muitas vezes, sem alimentação adequada e expostos aos diversos tipos de violência da cidade. Consideraram de grande urgência que São Gabriel da Cachoeira se estruture para atender bem todos os grupos indígenas que chegam de suas comunidades, enfatizando que o que querem é ter acesso aos documentos e aos programas do governo sem precisar sofrer por longos meses na cidade, enfatizando a importância de se retornar à comunidade para dar continuidade nos cuidados com suas roças e casas. Também ressaltaram que gostam de passear na cidade, mas que é preciso muito cuidado e um tempo curto de estadia, por ser a cidade um lugar de muita doença e confusões.

    Por Lirian Monteiro – antropóloga/ISA

  • Realizado o III Seminário de Educação Escolar Indígena em Iauaertê

    Participantes dp Seminário de Educação Escolar Indígena em Iauaretê- Waupés.
    Participantes dp Seminário de Educação Escolar Indígena em Iauaretê- Waupés.

    O principal ponto de discussão, durante os três dias de encontro, se pautou na reflexão entre a educação indígena e a educação escolar indígena. Professores e lideranças pontuam a importância de se fortalecer a educação indígena no distrito de Iauareté, através dos pais e dos avós, pois atualmente os jovens têm voltado seus interesses para as coisas da cidade e, cada vez mais, perdendo o vínculo com os conhecimentos de seus grupos étnicos.

    Ivo Fontoura, Tariano de Iauareté, antropólogo e coordenador do departamento de educação da Foirn, acentua que a escola não deveria ser um lugar de reprodução, mas sim de produção de conhecimentos, além de ser um espaço que possibilite o acesso às formas variadas de saberes. Pontuou também a importância do pensamento filosófico indígena nas escolas destacando como exemplo a origem da dança do peixe e a importância do entendimento do conceito dessa dança, que sem o qual se perde o sentido. Acrescentou que os velhos são os que sabem desses conceitos por serem aquelas pessoas que vivem o cotidiano de forma conectada ao cosmos.

    Professores de Iauareté enfatizaram grandes preocupações em relação aos atrativos da cidade, que exercem fortes influências, sobretudo nos jovens. Nesse sentido, convidaram os participantes a refletirem sobre esse problema, pontuando que a escola deve ter o papel de discutir sobre essas forças externas, que cada vez mais afastam os jovens do acesso à transmissão de conhecimentos, através de suas famílias.

    Ediberto Teixeira, professor da etnia Kotria, considerou a alfabetização na língua materna de grande importância, argumentando que a alfabetização só ocorre uma vez na vida e a língua portuguesa pode ser facilmente ensinada como segunda língua, sem comprometer o bom desempenho dos alunos no processo de ensino-aprendizagem. Destacou, também, sua preocupação com os alunos que saem para estudar o ensino médio na cidade e, por variados motivos, acabam permanecendo nela com grandes dificuldades de sobrevivência. Alertou que o dinheiro acaba, mas a terra não acaba nunca, portanto, é importante fortalecer as comunidades indígenas e cuidar da terra.

    As mulheres destacaram o problema com a falta de alimentação adequada às famílias, que vivem no Distrito de Iauaretê, enfatizando que muitas famílias já perderam o conhecimento de produzir os alimentos, acostumando-se a comprar os produtos alimentícios vindos da cidade, sobretudo os frangos, por conta da escassez dos peixes na região. Recordaram que as lideranças passadas lutaram muito para conseguir a demarcação, justamente para garantir o bem estar da população indígena, o que significa produzir na roça, pescar e se alimentar bem todos os dias. Enfatizaram que o dever da mulher é também o de repassar os conhecimentos e que essa é a melhor maneira de educar os filhos.

    Nildo Fontes, diretor da Federação das Organizações Indígenas do rio Negro – Foirn, destacou a importância da proposta de federalização da educação básica (PEC 32/2013) -de autoria do senador Cristóvam Buarque- para a educação escolar indígena, por considerar o caminho mais viável para a gestão das escolas indígenas em consonância com a política dos Territórios Etnoeducacionais e a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental em Terras Indígenas – Pngati. O TEE – Alto Rio Negro e a Pngati deverão, por sua vez, atender as especificidades das escolas indígenas na região do Rio Negro, atentando para a infraestrutura escolar, publicação de materiais didáticos – a partir das pesquisas indígenas -, transporte escolar e merenda escolar regionalizada.

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    Os principais problemas apontados por professores e lideranças indígenas continuam sendo a falta de acesso contínuo à merenda escolar e materiais didáticos, o não reconhecimento – por parte dos conselhos municipal e estadual – dos projetos políticos pedagógicos, dificuldades no reconhecimento e publicação de materiais didáticos específicos, produzidos nas escolas indígenas. A dificuldade mais atual, enfrentada pelos professores indígenas, relaciona-se ao edital de Processo Seletivo Simplificado, realizado pela prefeitura de São Gabriel da Cachoeira, em janeiro do ano atual.

    O edital 01/2014 propõe a contratação de profissionais da educação sem levar em consideração os professores indígenas que são escolhidos pelas lideranças de suas próprias comunidades, e que, por sua vez, possuem experiência em suas próprias escolas. Com isso, professores indígenas experientes e de suas próprias regiões, ficaram fora do quadro de contratação, pela Secretaria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira. O motivo pelo qual, muitos desses professores, ficaram excluídos do processo de contratação se deve a alguns fatores: a) desconhecerem o processo seletivo; b) não possuírem todos os documentos exigidos; c) não entenderem sobre os mecanismos de inscrição de um edital e d) não possuírem recursos para permanecer na cidade por mais de um mês, devido a morosidade do processo de contratação, pela prefeitura municipal.

    Documentos foram redigidos, assinados pelas lideranças e encaminhados para a Prefeitura, Secretaria Municipal de Educação, com cópia para o Ministério Público do Estado do Amazonas.

    O III Seminário de Educação Escolar Indígena foi realizado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e a Fundação Nacional do Índio (Funai), em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), realizaram, entre 17 e 20 de março, o seminário de Educação Escolar Indígena.

    O evento reuniu 13 comunidades indígenas do Distrito de Iauarete, alto Uaupés e rio Papuri. Participaram cerca de 120 pessoas das etnias Tariano, Tukano, Tuyuka, Waikanã, Kotria e Arapasso, incluindo lideranças das comunidades e das associações indígenas, representantes da Coordenadoria das Associações Indígenas do Distrito de Iauarete (Coidi), professores indígenas, pais e alunos.

  • II Seminário Interno de Educação Escolar Indígena foi realizado em Taracúa.

    Participantes do II Seminário de Educação Escolar Indígena em Taracúa - Médio Waupés.
    Participantes do II Seminário de Educação Escolar Indígena em Taracúa – Médio Waupés.

    O evento

    Cerca de 150 participantes entre estudantes, gestores de escolas, professores, pais e mães e lideranças das associações se reuniram em Taracúa – Médio Waupés, nos dias 28 de fevereiro a 02 de março, para avaliar e propor melhorias no campo da educação escolar indígena.

    Dessa vez, o projeto “Seminários de Educação Escolar Indígena” reuniu as comunidades do baixo, médio e rio Tiquié, no final de fevereiro e inicio de março, na comunidade Taracúa Médio Waupés.

    Depois do I Seminário Interno de Educação Escolar Indígena realizado em Itapereira,  no médio rio Negro, foi a vez, da COITUA (Coordenadoria das Organizações Indígenas do Tiquié e Uapés), mobilizar as comunidades e associações de abrangência para tratar especificamente a educação escolar, seguindo a mesma proposta e programação do primeiro seminário realizado no final de janeiro.

    Os primeiros dois dias do evento, foram de apresentações de experiências das escolas da região presentes, que teve a exposição da experiência de educação escolar na região do Içana.  Como também foram feitas apresentações sobre a legislação sobre o tema e sobre o PNGATI. E ao final do segundo dia, foram formados grupos de trabalhos (GTs) por escolas para a elaboração de um diagnóstico das escolas e da situação atual da educação escolar indígena na região, bem como elaborar propostas de melhoria, que foram apresentadas no ultimo dia.

    “A briga é com  o sistema”.

    Professor Geraldino Pena Tenório durante o Seminário de educação escolar indígena em Taracúa.
    Professor Geraldino Pena Tenório durante o Seminário de educação escolar indígena em Taracúa.

    As principais e mais conhecidas escolas indígenas das etnias Tukano e Tuyuka estão localizadas na região de abrangência da COITUA. A Yepa Mahsã no baixo, Taracúa no médio e Utapinopona no Tiquié. Todas elas, tem suas experiências relatadas no livro “Educação Escolar Indígena no Rio Negro 1998-2011– Lições Aprendidas”, lançada pela parceria FOIRN/ISA em 2012, exceto a escola de Taracúa.

    A educação escolar na região do médio waupés, não é recente. Deu inicío com a  implantação da missão salesiana ainda nos meados da década de 1920. Mas, a proposta e os objetivos voltados para uma prática de educação escolar que respeite e valorize a cultura dos povos de lá é recente, não passa de uma década. Um exemplo dessa transformação ou conquista, é a gestão da escolar hoje, o quadro de professores incluíndo o gestor são da própria comunidade.

    Se a experiência relatada pelos professores e lideranças de Taracúa, foi de luta pela autonomia de gestão e de práticas pedagógicas diferenciadas, a experiência Tuyuka  mostrou que quando se inicia uma experiência diferenciada a briga é ainda maior, é a luta é contra o sistema educação, exposta explicitamente nos depoimentos da maioria dos professores e lideranças Tuyuka.

    Para o atual dirigente da AEITU (Associação da Escola Indígena Tuyuka Utapinopona), Geraldino Pena Tenório, devido às exigências impostas pelo sistema municipal de educação, a Escola Tuyuka nos últimos dois anos, passou a “seguir” e obedecer o sistema, o que para ele é um retrocesso na política de educação escolar indígena. “O sistema de educação é tão forte que enfraquece a a nossa política de educação escolar, desrespeita a proposta de trabalho elaborado em conjunto com a comunidade, portanto, um projeto político pedagógico que tenha a ver com que somos, com nossos conhecimentos e práticas tradicionais, como aqueles que são importantes para a preservação da natureza e da terra, de onde tiramos o que precisamos para o nossos bem-viver”, diz o professor e presidente da AEITU.

    “Experiências de que é possível fazer o diferente já temos. O que queremos é diálogo com o governo, sobre o que queremos, é isso que estamos fazendo aqui, reunindo experiências acumuladas, compartilhando entre nós as dificuldades e os problemas, para saber o que precisamos melhorar internamente e conversar a partir de nossas demandas com o governo”, comenta Higino Pimentel Tenório, liderança Tuyuka.

    “A discussão e o diagnóstico ampliado é importante para melhorar e trocar experiência”.

    A maioria das lideranças e professores indígenas destacaram a importância da realização de um seminário com a proposta de ampliar a discussão e o diagnóstico situacional da educação escolar indígena no rio Negro.

    “Experiências e práticas pedagógicas diferenciadas já realizamos aqui na nossa escola, o que precisamos é conhecer as experiências de outras escolas indígenas para animar e fortalecer as nossas atividades”, disse a professora Enegilda Maria Barbosa.

    “A discussão da educação escolar indígena está parada a nível do rio Negro, precisou-se desse momento para avaliar o que avançou, e o onde está a dificuldade, os problemas, para poder avançar”- disse o gestor da Escola Indígena Sagrada Coração de Jesus de Taracúa, professor Armando da Silva Menezes.

    Rio Negro perde um líder e incansável lutador em defesa pela educação escolar indígena

    O presidente da Associação dos Professores Indígenas do Alto Rio Negro – APIARN, participou do II Seminário Interno de Educação Escolar Indígena em Taracúa, e na volta, no dia 02/03, faleceu em um acidente de viagem, quase próximo de São Gabriel da Cachoeira.

    A morte de Luis Carlos dos Santos Luciano abalou todos, muitos postaram em suas páginas nas redes sociais a luta e a incansável busca pela melhoria para a categoria de professores e bem como para a educação escolar indígena. “O unico objetivo das suas lutas era uma Educação de qualidade para as Escolas Indígenas, salários justos para os professores, lutava pelos direitos dos professores, participava de todos os eventos relacionados a educação, não importava a data nem o local. Infelizmente foi numa dessas viagens que ele não voltou mais. Vc ficará em nossas lembranças!”- escreveu a pedagóga Waldete Reis Andrade.

    Próximos passos

    O próximo seminário de educação escolar indígena está prevista para os dias 17 a 19 de março, e vai reunir professores, lideranças, estudantes entre outros, da região do Alto Waupés e Rio Papurí.

  • Índios do Rio Negro se mobilizam para fortalecer a educação escolar indígena.

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    Foi lançado oficialmente ontem, terça-feira, 21/01, na Casa dos Saberes da  Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN em São Gabriel da Cachoeira, o Projeto Seminários de Educação Escolar Indígena, que nos próximos meses, através de seminários internos vai realizar diagnóstico ampliado sobre a educação escolar indígena do Rio Negro.

    Na apresentação do projeto, o Domingos Barreto afirmou que o projeto é resultado de uma reflexão e resposta à demanda do Movimento Indígena, o que irá mostrar a real situação da educação escolar indígena na região. “Os seminários vão mostrar quais foram os avanços, dificuldades e o que precisa ser melhorado, que vai propiciar  reflexão no que já foi feito, para reinventar, desconstruir e fazer avançar”- disse o – Coordenador da Coordenação Regional do Rio Negro – CRRN-FUNAI

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    Almerinda Ramos – Presidente da FOIRN no lançamento do Projeto Seminários.

    A Presidente da FOIRN, Almerinda Ramos destacou a importância da realização dos seminários nas comunidades e do Seminário Regional, que segundo ela, vai possibilitar um levantamento da situação e promover o intercambio  das experiências  e como também propor o que deve ser melhorado. E que o projeto é um resultado de uma construção conjunta e participativa.  “O projeto é um fruto de discussão conjunta entre o movimento indígena e colaboradores e parceiros”- disse a Presidente.

    A realização do projeto contará com as duas etapas, a primeira será a realização de seis seminários nas comunidades e a segunda e a última do projeto, será a realização de um Seminário Regional na sede do município de São Gabriel da Cachoeira.

    O projeto trás uma novidade às discussões e debate. Vai propor a discussão e a elaboração dos   Projetos Políticos Pedagógicos das escolas indígenas na perspectiva da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), política instituída pelo decreto 7.747,  de 5 de junho de 2012.

    “A realização dos  seminários internos vai reunir experiências das escolas e sistematizá-los para subsidiar  o Seminário Regional, que será um evento maior de dialogo e intercambio entre os povos do Rio Negro e firmar acordo com os governos municipal, estadual e federal”- disse André Baniwa, um dos Coordenadores da realização dos seminários, se referindo ao evento maior que acontecerá em São Gabriel da Cachoeira, na primeira quinzena de maio.

    O resultado que se espera ao final do Seminário Regional, é que seja feita a “repactuação”de um compromisso  no Plano de Ação do TEERN para melhoria da educação escolar indígena dos povos indígenas do Rio Negro.

    Com as experiências em diversos campos, sobretudo da educação, fez do Rio Negro, uma das regiões que inspirou o governo federal elaborar e lançar o Território Etnoeducacional em 2009, pelo Decreto nº 6.861/2009. E que também saiu na frente com a organização do Território Etnoeducacional do Rio Negro. Mas, que segundo André Baniwa, ainda não tem acontecido na prática. “O Território Etnoeducacional do Rio Negro tem ficado ainda apenas no imaginário, sem resultados concretos até agora, por isso devemos fortalecer e avançar”- disse

    Por isso, segundo ele, a intenção não é criar ou propor algo novo, mas, ampliar, fortalecer e aperfeiçoar o que já existe.  “Vamos convidar os governos municipal, estadual e federal para dialogarmos com eles, e mostrar a nossa real realidade, nossas dificuldades e o que precisa ser feito para que a educação escolar indígena na região avance” – completa André.

    O projeto será realizado FOIRN  e CRRN- FUNAI e  com assessoria técnica do Instituto Socioambiental – ISA, e outros que poderão ser envolvidos ao longo da realização dos seminários internos como a SEMEC-SGC. e a SEDUC-regional.

    O primeiro Seminário acontece na próxima semana, nos dias 28 a 30/01 na comunidade Itapereira – Médio Rio Negro.

  • Educação Escolar Indígena: Oficinas no Baixo Rio Negro

    Oficinas de Educação Escolar Indígena foram realizadas em 4 comunidades do Médio Rio Negro entre os dias 16 a 21 de setembro.   

    A viagem e os objetivos 

    O Departamento de Educação da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), com acompanhamento da CAIMBRN (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro) e SETCOM- FOIRN (Setor de Comunicação) empreendeu uma viagem para o médio rio Negro entre os dias 15 e 21 de setembro.

    As oficinas realizadas nas comunidades Castanheirinho (16/09), Livramento II (17/09), Massaraby (18-19/09) e Cartucho (20-21/09), foram respostas às reivindicações enviadas à Foirn e uma continuidade dos trabalhos já iniciados há alguns anos nessa região.  

    Com uma programação previamente definida com as lideranças dessas comunidades, as oficinas tiveram como um dos objetivos esclarecer mais sobre a proposta da educação escolar indígena, através de relatos de experiências bem sucedidas já existentes em algumas regiões do Rio Negro (Tiquié, Waupés e Içana). O outro objetivo foi ouvir as comunidades sobre o “modelo”de escola que desejam, além de colaborar no processo inicial da construção de seus Projetos Políticos Pedagógicos, que possuem como uma das premissas básicas desenvolver a valorização e o fortalecimento da cultura local.

    “Queremos que a escola indígena funcione na nossa comunidade”. 

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    Na região do alto rio Negro, apesar das primeiras experiências de escolas indígenas tidas como “diferenciadas”  terem começado há mais de 10 anos, o Médio Rio Negro está iniciando essa discussão, de forma mais constante,  a pouco tempo, onde buscam definir um “formato”de escola que desejam para seus filhos.  

    “Não existe modelo de escola indígena a ser seguido ou copiado. Mas, cada experiência já existente deve servir de base para formular uma proposta de escola que se adeque a realidade local”- explicou o professor Orlando Baré, atual Coordenador Geral da CAIMBRN, que também colaborou nas discussões e trabalhos realizados durante a visita nas comunidades.  

    “Queremos que a escola indígena funcione na nossa comunidade, para que os nossos filhos além de aprenderem conhecimentos dos brancos, também aprendam os nossos”- disse Sandra Dessana, 38, vinda do Alto Tiquié e atualmente, moradora da comunidade de Massaraby, onde também vivem pessoas de outras etnias.  

    “Algum tempo recente, quando se falava de educação escolar indígena, de revitalização e valorização de cultura alguns de nós falávamos que não queríamos voltar a viver como nossos antepassados viviam. As experiências que acabamos de ouvir mostram que não é assim”- comentou o professor Vamberto Plácido, 40, da comunidade Cartucho, depois dos relatos de experiências.  

    O desafio agora é iniciar o processo de construção de elaboração dos PPPIs dessas escolas. Essa caminhada requer tempo e dedicação por parte, principalmente, do corpo docente e da comunidade escolar.    

    Ensino Médio: um desafio pela frente.  

    Caso de Cartucho

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    Na Comunidade Cartucho, o Ensino Médio Tecnológico funciona há alguns anos. É uma modalidade de ensino em que os conteúdos das aulas são produzidos em três estúdios de TV do Centro de Mídias, em Manaus. É de onde uma equipe de professores ministra as aulas, que por sua vez, são transmitidas em tempo real via satélite para as escolas. Cada uma das salas de aula está equipada com um kit tecnológico (por antena, roteador-receptor de satélite, microcomputador, webcam com microfone embutido, TV de 37 polegadas, impressora e estabilizador).

    Os ex-alunos relataram suas experiências e problemas enfrentados no tempo em que ainda eram alunos.  Segundo eles, esse modelo de ensino é bom para aqueles que conseguem “assimilar” e aprender rápido. Pois, o formato de aula é diferente se comparado com o modelo de ensino presencial, onde os alunos podem recorrer ao professor em casos de dúvidas, que no caso do modelo tecnológico isso não ocorre.  

    Outro problema relatado é que às vezes o equipamento fica com problema e quando isso acontece os alunos não podem “assistir” as aulas, perdendo, consequentemente, os conteúdos. E para piorar, a manutenção dos equipamentos sempre demora a chegar. Segundo informação da comunidade, os alunos do ensino médio tecnológico perderam seus estudos nesse ano de 2013, pois os equipamentos quebraram desde o início do ano letivo e até o presente momento os técnicos não foram resolver o problema na comunidade. 

    “Esse ensino médio não é nosso, é uma proposta montada e discutida pelos técnicos do governo, que não querem saber se vai ser implantada numa comunidade indígena ou não”- explicou Coordenador da CAIMBRN.  

    “Mas, há uma vantagem quando funciona, os professores possuem uma boa formação nas áreas de atuação, o que às vezes não acontece em várias escolas de ensino médio presencial”-lembra um dos ex-alunos, hoje professor na própria comunidade.  

    Após a discussão sobre os desafios do ensino médio, lideranças, professores, pais, avós e alunos dividiram-se em grupos para discutir, sistematizar e apresentar propostas para o Projeto Político Pedagógico Indígena do ensino infantil ao fundamental. Uma das propostas do sr. Jaime foi a seguinte: “ a partir de hoje todos os pais da comunidade devem falar somente em nhengatu com seus filhos desde o início e quando chegar no tempo da escola essas crianças já vão saber falar a própria língua”.

    A comunidade de cartucho iniciou o processo de sistematização de seu Projeto Político Pedagógico Indígena nesta primeira oficina, objetivando aprofundar na discussão em próxima oficina, marcada para o início de novembro de 2013.

    Experiência Tuyuka: “Temos que ser radicais” 

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    A coordenação da Oficina, na comunidade Cartucho, aproveitou a passagem (pernoite) do Higino, que estava indo para a Oficina sobre Direitos da Mulher em Santa Isabel, para contar e contribuir com sua rica experiência, como professor e liderança indígena.  

     “Se quisermos que a escola indígena seja um instrumento que funcione quando se trata de valorização e revitalização, temos que ser radicais”- disse Higino Tenório Tuyuka ao introduzir seu relato de experiência referente à Escola Tuyuka.  

    “Se rezarmos Ave Maria todas as manhãs, é claro que em duas semanas, todas as crianças vão saber rezar”- refletiu, explicando em seguida que o mesmo ocorrerá se os pais e professores falarem com as crianças na própria língua todos os dias.  Segundo Higino, quando a Escola Tuyuka foi discutida, o objetivo era recuperar a língua Tuyuka que estava sendo substituída pela língua Tukano. “As crianças não sabiam mais falar Tuyuka, somente adultos de 30 anos pra cima. Foi quando criamos a escola. A partir de lá, começamos a falar, e em pouco tempo as crianças começaram a falar Tuyuka. Hoje,  as crianças não apenas falam, como também escrevem”- lembra Higino.  

    A oficina para a construção do Projeto Político Pedagógico Indígena em Cartucho contou também com a colaboração e assessoria da Lirian Monteiro, do Programa Rio Negro/Instituto Socioambiental. 

    Caso de Massaraby 

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    Em Massaraby a situação é bastante complicada. O ano, segundo os alunos, começou com dois professores e a partir do segundo semestre a sala do ensino médio ficou com apenas um professor. Este saiu da comunidade para a cidade (São Gabriel da Cachoeira) na véspera do torneio da semana da pátria (primeira semana de setembro), e até dia 16 de setembro ainda não havia retornado. E ainda, “saiu nas férias (final de junho), só chegou ao final de agosto, antes da semana da pátria, só ficou uma semana e foi embora novamente”-reclamou uma das alunas.  

    “Estou bastante preocupada, passamos os primeiros bimestres estudando apenas duas disciplinas e as outras como é que vão ficar? O professor vai chegar lá (SEDUC local) e vai inventar as notas para as demais disciplinas, fazendo de conta que estudamos também estas. Isso me preocupa muito”- completa. 

    Caso de Livramento II 

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    Hoje a escola já estaria no segundo ano de funcionamento caso a SEDUC cumprisse a previsão da implantação de uma sala anexa do Colégio João Marchesi (sediado em São Gabriel da Cachoeira), mas até o presente momento não foi implantado.  

    No ano em que a equipe da SEDUC passou pela comunidade, justificaram que a criação de uma escola de ensino médio não seria viável por reduzido numero de alunos (listados na matrícula apresentada) e pela falta de espaço (prédio escolar). Mas, segundo os comunitários presentes na oficina, foi aprovada a implantação de uma sala anexa na comunidade (como mencionado acima). 

    Se for por falta de espaço (salas de aula) que o ensino médio ainda não funcionou, as comunidades Livramento I e II, Vila Nova e sítios arredores estão juntando forças para construir três casas que servirão de espaço e estrutura para o funcionamento do ensino médio. A previsão de conclusão das casas é ainda este ano. Precisamente, em dezembro.

    “A gente sabe que não é nossa obrigação construir escola, mas, como demora pra chegar, estamos mostrando para o governo que temos muita força e vontade para ter o ensino médio para nossos filhos e para nós mesmos”- lamentou o “Seu” Nivaldo, com mais de 50 anos, que também é um dos alunos inscritos para estudar no ensino médio.