Mês: setembro 2020

  • Em assembleia, Povos Baniwa e Koripako debatem impactos da pandemia do novo coronavírus e definem representatividade para próximos quatro anos

    Em assembleia, Povos Baniwa e Koripako debatem impactos da pandemia do novo coronavírus e definem representatividade para próximos quatro anos

    A Organização Baniwa e Koripako Nadzoeri reuniu lideranças da bacia do Içana em Santa Rosa nos dias 23 e 24 de setembro para avaliar os impactos da pandemia da covid-19 na região; Diretor Isaias Fontes e secretário geral da Nadzoeri, Juvêncio Cardoso, foram reeleitos

    As 11 associações de base da Bacia do Içana delegaram seus representantes para participar da assembleia da Nadzoeri, realizado na comunidade Santa Rosa – Médio Rio Negro. Foto: Ray Baniwa/Foirn

    Seguindo os protocolos e recomendações sanitárias, cerca de 80 participantes estiveram reunidos em Santa Rosa, comunidade localizada na região do médio Rio Içana para avaliar os impactos da pandemia da covid-19 nas comunidades Baniwa e Koripako.

    O tema central das discussões e apresentações foi os Conhecimentos Tradicionais e sua importância no combate e tratamento de casos nas comunidades. “Se não fosse os remédios caseiros e o conhecimento tradicional a situação teria sido pior”, lembrou a enfermeira Hamyla Tridade Baré, que representou o Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN), e apresentou os dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai/Ministério da Saúde) durante o evento.

    Segundo os dados da Sesai, apresentados na assembleia, 50% das comunidades Baniwa e Koripako tiveram casos confirmados, isso representa um total de 247 pessoas. Mas, ainda de acordo com esses dados, há um indicador preocupante: até dia 21/09, apenas 6 pessoas da etnia Koripako, da região do Alto Içana, foram confirmados como casos positivos para covid-19. Ou seja, apesar de ter confirmação de casos na região em abril, especialmente nas comunidades do baixo e médio Içana, é agora que casos estão aparecendo e sendo confirmados na região do alto Içana. Uma preocupação encaminhada pela assembleia para o Dsei-ARN.

    Sobre os dados da Sesai apresentados na assembleia, o presidente da Foirn, Marivelton Barroso Baré, lembrou que ainda há subnotificações de casos na região, incluindo nas comunidades Baniwa e Koripako. “Desde o início da pandemia recebemos relatos de casos nas comunidades, que não entraram nas estatísticas da Sesai por falta de testes. Isso mostra que tem mais casos do que apresentado nos registros oficiais”, disse.

    Conhecimentos tradicionais e impactos da covid-19 nas comunidades

    Em toda a bacia do Içana os grupos de trabalho relataram uso de algum tipo de remédio caseiro ou medicina tradicional. Em alguns, houve registro de uso de benzimento no processo de tratamento de doentes.

    “Nosso convívio social e psicológico foi afetado. Somos povo que vive junto e compartilha a convivência com nossos parentes nas comunidades, não estamos acostumados a ficar isolado dos outros. Por isso, nossos remédios foram muito importantes para enfrentar a doença que chegou e mudou a nossa forma de conviver na comunidade”, relatou Hilário Fontes, da comunidade Ukuqui Cachoeira, da região do alto Ayarí, onde há 22 comunidades Baniwa.

    “A covid-19 chegou e atrapalhou tudo. Mudou o calendário escolar, programação de atendimentos à saúde e outros eventos que fazem parte da nossa vida social”, comentou Carlos de Jesus, relator da região do baixo Içana. Segundo o grupo, umas das mudanças negativas que a pandemia da covid-19 trouxe foi a necessidade de isolamento social e quarentena, coisa que as comunidades não estão acostumadas.

    “As nossas comunidades e associações de base conheceram os esforços conjunto da Foirn e  instituições locais e parceiros através das ações realizadas durante a pandemia”, afirmou o Juvêncio Cardoso, Secretário Geral da Nadzoeri.

    Após as apresentações dos grupos de trabalho, o diretor Presidente da Foirn, Marivelton Baré apresentou as ações da Foirn no âmbito do Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19 no Município de São Gabriel da Cachoeira através das Campanhas Rio Negro, Nós Cuidamos, Aliança Pelos Povos da Floresta e União Amazônia Viva.

    Ficou claro a todos na assembleia que, a vacina ainda não está disponível, os cuidados devem continuar, as pessoas devem continuar seguindo as orientações das autoridades de saúde, os conhecimentos tradicionais continuará sendo uma importante alternativa no enfrentamento da covid-19 nas comunidades indígenas do Rio Negro.

    Delegadas mulheres representantes das associações de mulheres Baniwa marcaram presença na assembleia. Foto: Ray Baniwa/Foirn

    Representatividade Baniwa e Koripako para próximos quatro anos

    A assembleia da Nadzoeri foi também um espaço importante para os povos Baniwa e Koripako definirem quem irá representar a região no âmbito do movimento indígena do Rio Negro nos próximos 4 anos, onde foram definidos o diretor de referência para a diretoria da Foirn, diretoria da Coordenadoria Regional (Nadzoeri), Conselheiros do Conselho Diretor da Foirn e delegados para a assembleia geral da Foirn previsto para mês de novembro.

    As associações de base apresentaram candidatos para concorrer a vaga de diretor da Foirn, foram eles: Isaias Fontes (atual diretor), Ronaldo Apolinário, Deusimar Moraes e Augusto Garcia. Cada associação de base teve 5 delegados (as) com direito a voto, foram 55 delegados no total. O resultado da apuração, definiu a reeleição do atual diretor Isaias Pereira Fontes com 58% dos votos.

    Para a coordenadoria Nadzoeri, cada microrregião (são 5 no Içana) indicou um representante para fazer parte da diretoria. A eleição foi feita apenas para definir o Secretário Geral e o Secretário Financeiro, os demais seguiram a ordem de Secretários Adjuntos de acordo com os votos recebidos, sendo Adjunto 1, 2 e 3 respectivamente.

    Também foram definidos os delegados Baniwa e Koripako para representar a região na assembleia geral da Foirn, Conselheiros do Conselho Diretor, bem como membro para a Comissão Fiscal do Conselho Diretor.

    Comunidade Santa Rosa faz Dabucuri para encerrar a assembleia

    Comunidade Santa Rosa preparou Dabucuri para encerramento da assembleia. Foto: Lília França/Rede Wayuri

    A pandemia afetou a vida nas comunidades, mas, o dar e o compartilhar continua intacto. Apesar das mudanças na forma de convivência nas comunidades Baniwa e Koripako, a cultura e a vida segue firme na região. Para encerrar as atividades da assembleia, a comunidade Santa Rosa ofertou um dabucuri para os participantes, onde foram lembradas as regras de partilhar e dividir com os cunhados (no caso da assembleia, os participantes).

    O dabucuri reforça a importância do fortalecimento dos laços de amizade e companheirismo no trabalho para as lideranças Baniwa e Koripako que estão na linha de frente da representatividade regional. O bem-viver Baniwa e Koripako enfrenta a covid-19, e irá resistir.

  • Povos Indígenas do Alto Rio Negro são os primeiros a realizar assembleia sub-regional para debater covid-19 na região

    Povos Indígenas do Alto Rio Negro são os primeiros a realizar assembleia sub-regional para debater covid-19 na região

    Participantes da Assembleia da Caiarnx, realizado na comunidade Tabocal dos Pereira, alto Rio Negro. Foto: Raquel Uendi/ISA

    As lideranças das coordenadorias regionais da FOIRN que vão atuar na gestão 2021/2024 começaram a ser definidas com a realização, nos dias 17 e 18 de setembro, da V Assembleia Regional Eletiva da Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro, Xié e TI Balaio (CAIARNX). Este ano, o tema das assembleias é Pandemia e os Saberes Tradicionais do Povos Indígenas do Alto Rio Negro.

    O encontro da CAIARNX reuniu cerca de 80 pessoas e seguiu as orientações sanitárias para reduzir o risco de contaminação pelo novo coronavírus.

    Juventude Indígena presente na assembleia. O evento seguiu todas as orientações e protocolos sanitários, como uso obrigatório de máscaras e álcool em gel disponível para os participantes. Foto: Raquel Uendi/ISA

    O atual diretor da Caiarnx, Adão Francisco Henrique, da etnia Baré, foi reeleito para o cargo. Já o coordenador regional eleito é Ronaldo Ambrósio Melgueiro, da etnia Baré. Outras quatro assembleias regionais vão acontecer até 17 de outubro. A assembleia geral eletiva da Foirn está marcada para ocorrer os dias 26 e 27 de novembro.

    Durante a assembleia da CAIARNX, que ocorreu na Comunidade Tabocal dos Pereiras, São Gabriel da Cachoeira (AM), foram discutidos e encaminhados temas importantes para o movimento indígena, como por exemplo a necessidade de fortalecer a participação das mulheres e jovens, reforçar a rede de comunicadores, melhoria da articulação da diretoria regional nas comunidades e reforço da mobilização junto ao Governo Federal e outras instâncias do poder público para que não haja perda de direitos.

    Presidente da Foirn, Marivelton Barroso, da etnia Baré, participou da assembleia e ressaltou que esse é um momento positivo, apesar dos grandes desafios. “Que os trabalhos sigam sendo fortalecidos apesar dos desafios do atual cenário político brasileiro, que não está fácil. O governo, que é oposição às causas do movimento indígena, questões sociais, minorias. Principalmente nós no território indígena somos constantemente atacados, vários direitos sendo diminuídos. Temos cada vez mais que fortalecer e unir os 23 povos indígenas aqui da região”, disse.

  • Comunicar para proteger: rede de radiofonia do Rio Negro é ampliada

    Comunicar para proteger: rede de radiofonia do Rio Negro é ampliada

    Intalação de nova radiofonia na comunidade Mafi, município de Santa Isabel do Rio Negro. Foto: Foirn

    A rede de comunicação por radiofonia está sendo fortalecida nas comunidades indígenas do Rio Negro em projeto desenvolvido em parceria entre Foirn, Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN) e Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi). Desde maio, já foram instalados 92 kits de radiofonia. No total, serão entregues aparelhos a 152 comunidades. O presidente da Foirn, Marivelton Barroso Baré, está realizando viagens pela região para a implementação desta ação.

    Considerada fundamental para a vigilância, proteção e gestão territorial desde o início da luta pela demarcação das terras indígenas, a radiofonia também é importante instrumento de controle social. Esse sistema de comunicação ganhou ainda mais relevância durante a pandemia, sendo primordial para o combate à Covid-19.

    Na última semana de agosto, oito comunidades indígenas receberam kits de radiofonia. Em viagem realizada pela Foirn, Dsei-ARN e Condisi, foram instalados equipamentos nas comunidades do Médio e Baixo Rio Negro. São elas: Mafi, Cujubim, Ilha do Chile, Tabocal do Enuixi, Lajinha, Acu Acu, São Joaquim e Tapereira.  Os recursos desse projeto são da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

    Para o presidente do Condisi, Jovânio Normando Baré, essa é uma luta antiga das lideranças e ver comunidades indígenas recebendo os kits de radiofonia é realizar um sonho.  “Agora as pessoas que não tinham como receber ou passar mensagem, vão poder se comunicar com outras. Isso só está sendo possível através da forte parceria Condisi, Dsei-Alto Rio Negro e Sesai com a Foirn, que tem sido fundamental nesse processo”, diz. 

    Jovânio Normando fez parte da equipe de viagem de instalações desses equipamentos nas comunidades na região do Médio e Baixo Rio Negro, junto com o Presidente da Foirn, Marivelton Barroso Baré.

    Com mais comunidades conectadas, a rede de comunicação através de radiofonia do Rio Negro fica maior e fortalecida. Esse trabalho de comunicação liderado pela Foirn com contribuição de parceiros tem sido fundamental para combate à Covid-19 e nas comunidades indígenas. 

    Marivelton Rodrigues Baré, Presidente da Foirn passando informações para as comunidades através da radiofonia. Foto: Ray Baniwa/Foirn

    Histórico

    As primeiras rádios no Rio Negro foram instaladas em 1994. Quatro delas foram adquiridas com apoio da Aliança Pelo Clima, sendo que oito equipamentos tiveram recursos dos Amigos da Terra.  Esses aparelhos foram instalados em pontos estratégicos após ampla discussão com as organizações de base filiadas à Foirn na época.  “A primeira radiofonia no Rio Negro foi instalada na comunidade Ilha das Flores”, lembra Maximiliano Corrêa Tukano, liderança que participou daquele momento histórico para a comunicação indígena na região.

    “Esse meio de comunicação chegou para apoiar a comunicação para a vigilância e gestão do território devido a intensas invasões de garimpeiros e empresas mineradoras. E posteriormente foi fundamental no processo de demarcação das terras indígenas e no início do Dsei. Nos anos seguintes, ampliamos para os outros municípios onde atua o movimento indígena. Fortalecer a nossa comunicação com as bases vai proteger o nosso território”, completa.

  • Unidas e fortes: mulheres Baniwa se mobilizam em associação

    Unidas e fortes: mulheres Baniwa se mobilizam em associação

    Mulheres Baniwa presentes na assembleia realizado na comunidade Buia Igarapé. Foto: Ray Baniwa/Foirn

    Na última sexta-feira, 28/08, mulheres Baniwa da região do Baixo Içana se reuniram na comunidade Buia Igarapé, na Terra Indígena Alto Rio Negro, para discutir a reativação da Associação das Mulheres Indígenas do Baixo Içana (Amibi). Participaram da assembleia as comunidades de Boa Vista, Wirarí Ponta, Jawacanã, Camarão, Ituim, Pirayawara e Assunção do Içana.

    A assembleia começou com uma apresentação do histórico da associação feita por Vírgilia Almeida, umas das líderes mobilizadoras do encontro. “A nossa associação é importante para nós. Através dela podemos nos fortalecer e lutar por aquilo que desejamos melhorar nas nossas comunidades”, destacou. “Ela (associação) ficou adormecida por muito tempo. Mas, agora é o momento de reativar e retomar os trabalhos”, completou.

    Presente na assembleia, a coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro, Elizângela da Silva Baré, frisou que uma associação fortalecida e ativa é importante para unir as mulheres e comunidades, contribuindo para a boa governança indígena do território. “Uma associação forte e ativa anima o trabalho das mulheres. Não só delas, mas, os homens também precisam participar e fazer parte de uma associação das mulheres”, disse.

    Professor da comunidade, Alípio Martins reforçou a importância da associação e da luta coletiva. “Aqui na região do Baixo Içana precisamos fortalecer a nossa associação para através dela buscar mais melhorias coletivas para nós, coisa que não temos feito nos últimos anos”, lembrou.

    Após as reflexões e debates, as mulheres se organizaram para definir e indicar nomes para concorrer à diretoria. Foi decidido que a escolha fosse feita por votação. Das duas chapas propostas, a segunda ganhou com a seguinte definição: Madalena Fontes Olimpio (Presidente), Sabrina Pereira (Vice-Presidente), Genilson Martins (Secretário), Alciane Gonçalves (Tesoureira), Neury Jane Martins (Conselheiro) e Alípio Martins (Conselheiro).

    Madalena Fontes Olimpio, presidente eleita da Associação das Mulheres do Baixo Içana. Foto: Ray Baniwa/Foirn

    O encontro serviu também para exposição e venda de artesanatos, apresentação e distribuição da Cartilha sobre a prevenção da violência contra a mulher, para apresentação dos trabalhos e agenda de ações dos departamentos das mulheres e da juventude da Foirn, que terá suas assembleias eletivas nesse segundo semestre.
    As mulheres saíram fortalecidas da assembleia. “Nosso primeiro trabalho vai ser legalizar a nossa associação e começar os nossos trabalhos de mobilização e fortalecimento”, disse Madelena, a nova presidente eleita.

    Exposição de artesanatos durante a assembleia. Foto: Ray Baniwa/Foirn

    Cautela e preocupação nas comunidades

    Como as demais comunidades indígenas das regiões do Rio Negro, Buía Igarapé também registrou casos de covid-19 nos últimos meses. Incluindo um registro de óbito. Por isso, houve grande preocupação da coordenação da assembleia em seguir as orientações das autoridades de saúde, como o uso de máscaras e distanciamento social durante o evento.

    O diretor da Foirn de referência da região do Içana, Isaias Fontes, chegou de volta à comunidade Buia depois de uma viagem ao alto Içana e apresentou as preocupações das comunidades em relação a presença da covid-19 na região. E falou do trabalho de monitoramento através de oxímetro que está sendo feito pela Foirn em parceria com a Fiocruz-Amazônia através dos agentes indígenas de saúde nas comunidades. “Todas as comunidades Baniwa já foram infectadas, por isso estamos realizando esse monitoramento para acompanhar as situações e casos que precisam de atenção. Mesmo quem já pegou, precisa continuar se cuidando”, afirmou.

    Esse trabalho é feito através de treinamento dos agentes indígenas de saúde por um biólogo para monitorar pacientes que precisam de atenção e acompanhamento por parte dos profissionais de saúde.