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Protagonismo pelo bem viver indígena: Departamento de Mulheres da FOIRN elege suas novas coordenadoras

Indígenas da etnia Baniwa e Tukano são as novas coordenadoras do Departamento de Mulheres da FOIRN.

Mulheres indígenas do Rio Negro participantes da VIII Assembleia Eletiva das Mulheres. Foto: Ray Baniwa/Foirn

Após um dia de debates sobre propostas e demandas de mulheres indígenas, as duas novas coordenadoras do Departamento de Mulheres Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN) foram eleitas nesta sexta-feira (30). Venceram as eleições e vão comandar o departamento, de 2021 a 2024, Maria do Rosário Piloto Martins, a Dadá Baniwa, que concorreu pela coordenadoria NADZOERE (Associação Baniwa e Koripaco), e Larissa Duarte, da etnia Tukano, indicada pela coordenadoria DIAWI´I (Coordenação das Organizações Indígenas do Tiquié, Baixo Uaupés e Afluentes).

Maria do Rosário Baniwa e Larissa Duarte Tukano foram eleitas para a gestão 2021 a 2024 do Departamento das Mulheres Indígenas do Rio Negro/Foirn. Foto: Ray Baniwa/Foirn


A escolha ocorreu na VIII Assembleia Eletiva das Mulheres Indígenas, que teve como tema Protagonismo das Mulheres pelo Bem Viver Indígena no Rio Negro e aconteceu na quinta e sexta-feira (29 e 30), no ginásio do Colégio São Gabriel, em São Gabriel da Cachoeira (AM), com ampla representatividade das coordenadorias regionais da FOIRN. Mulheres de várias etnias, como Tukano, Baré, Tariano, Wanano, Yanomami, Dãw, participaram do encontro.


Dadá Baniwa tem mestrando em linguística e línguas indígenas pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro, é fluente em Baniwa e disse que quer atuar em colaboração com a diretoria e coordenadorias da FOIRN, pensando em todos as mulheres do Rio Negro. Larissa disse que sempre conviveu com o movimento indígena, sendo que seu pai Sebastião Duarte teve participação da criação da FOIRN. “Sou mãe, mulher, artesã, trabalho na roça e sei representar as pessoas”, disse. Ela é falante da língua Tukano.


No total, 55 mulheres votaram, sendo 10 de cada coordenadoria regional da FOIRN e cinco da Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira (Assai), representando a sede.
Dadá Baniwa recebeu 23 votos, enquanto Larissa ficou com 11. Também concorreram ao cargo Margarida Maia, da etnia Tukano, representante da COIDI (Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê), e Belmira Melgaço, Baré, representado a CAIARNX (Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié). Cada uma delas teve 10 votos, sendo registrado um voto nulo. A CAIMBRN (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro) participou do encontro, mas não apontou concorrente.


As atuais coordenadoras, Elisângela da Silva, da etnia Baré, e Janete Alves, da etnia Desana, conduziram a assembleia e se mostraram satisfeitas com a mobilização feminina. Elas continuarão atuando no movimento indígena. Elisângela é do conselho fiscal da FOIRN e presidente da Associação das Mulheres Indígenas do Rio Negro (AMIRN). Janete Alves ocupará o cargo de diretora de referência da COIDI na FOIRN

Mulheres de várias etnias compartilharam suas experiências de enfrentamento da covid-19 no Rio Negro. Foto: Ana Amélia/ISA

Um importante encaminhamento do encontro foi uma carta-manifesto – assinada pelas mulheres de todas as coordenadorias regionais da FOIRN – reivindicando a manutenção de uma delegada mulher em São Gabriel da Cachoeira, além da implantação de uma Defensoria Pública, com titular mulher, e uma Secretaria Especializada da Mulher no município, para facilitar o acesso ao sistema de Justiça e garantir a proteção ao direito das mulheres. A atual titular da delegacia, Grace Jardim, é a primeira delegada mulher do município. Ela estruturou uma equipe feminina e atuou no combate à violência contra a mulher, mas deixará o município no final deste ano.

Delegada Grace Jardim e Renata Vieira, advogada do ISA participaram da assembleia das mulheres indígenas do Rio Negro. Foto: Ana Amélia/ISA


A carta-manifesto foi lida por Janete Alves. O documento será encaminhado às autoridades de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos. Além disso, as mulheres querem o apoio do DMIRN/FOIRN para patentear os remédios tradicionais utilizados contra a Covid-19 entre os povos indígenas do Rio Negro. As práticas tradicionais foram amplamente utilizadas por essa população e, conforme os indígenas, foi o que evitou que a situação se agravasse.

Delegadas vieram das cinco Coordenadorias Regionais da Foirn: Caiarnx, Caimbrn, Nadzoeri, Diawi´i e Coidi. Foto: Ana Amélia/ISA


Durante a VIII Assembleia Eletiva, as mulheres cobraram iniciativas para garantir o bem viver e o reforço da estrutura das associações para que elas tenham autonomia de ações. Elas querem alojamentos para quando vierem à cidade, embarcações exclusivas para as suas atividades, combustível para viajar e mobilizar as bases, oficinas de capacitação e incremento de renda, atendimento à saúde, medidas de segurança, promoção das práticas tradicionais, entre outros.
Primeira coordenadora do DMIRN e uma das fundadoras da Assai, a professora artesã Cecília Albuquerque participou da assembleia. Ela considera que um dos desafios da nova gestão é a articulação com as associações de base do território indígena. Para Cecília, é visível o fortalecimento das mulheres indígenas ao longo dos anos. “Eu vejo algumas pessoas que antes tinham medo de falar e agora estão aí falando, reivindicando”, disse.


Advogada do Instituto Socioambiental (ISA), Renata Vieira auxiliou no processo eleitoral. Na abertura do evento ela falou sobre a abrangência da luta da mulher indígena. “A luta da mulher indígena não é uma luta por um direito que é só dela. A luta da mulher indígena é uma luta pelo território, pelos filhos, contra o alcoolismo, contra o suicídio. Pelo direito à saúde, à vida, à educação, transmissão do conhecimento. É ela quem ensina a língua ao filho. A luta da mulher indígena é de todos”, disse.
Uma das convidadas para o encontro, a delegada Grace Jardim reforçou a necessidade de as mulheres vítimas de violência denunciarem o problema. “A denúncia é importante porque, só a partir dos casos registrados na base de dados, serão encaminhados recursos ao município”, explica. Uma das demandas da própria delegada para a cidade é um abrigo para as mulheres que precisam sair de casa para serem protegidas. Ela reconhece que as pessoas que vivem nas comunidades enfrentam maiores dificuldades para fazer denúncias, mas sugeriu que as coordenadorias discutam a criação de um meio de comunicação, com apoio das associações e FOIRN, para que os casos de violência cheguem até a Polícia Civil.


PANDEMIA
O tema do encontro – Protagonismo das Mulheres pelo Bem Viver Indígena no Rio Negro – levou a falas sobre o combate à Covid-19, com as mulheres trocando experiências sobre as práticas tradicionais que utilizaram no combate à doença. Entre eles estão chás, benzimentos e defumações. Algumas delas falaram em língua indígena, como Baniwa.


Esse protagonismo pelo bem viver foi exercido inclusive durante o período mais agudo da pandemia. O DMIRN/FOIRN, em parceria com o ISA, desenvolveu a campanha Rio Negro, Nós Cuidamos, que arrecadou recursos para ações que incentivaram os indígenas a ficarem em suas aldeias, evitando a vinda à cidade e o risco maior de contágio. Além disso, o DMIRN atuou na distribuição de cestas básicas, material de limpeza e máscaras, além de auxiliar os parentes com informações sobre a Covid-19.


As indígenas relatam que no território a maioria das pessoas contraiu a Covid-19 e se tratou usando remédios caseiros. A professora e liderança Enegilda Gomes Vasconcelos, de Taracuá, resume essa situação. “A Covid-19 deu foi em massa. As pessoas pegaram ser perceber que era essa doença. Todo mundo achou que estava gripado. Depois veio a equipe de saúde, fez o teste e comprovou que todo mundo teve a Covid-19. Agora temos algumas pessoas com sequela”, diz. Em Taracuá, assim como em todo o Rio Negro, os indígenas utilizaram as práticas tradicionais.

GERAÇÃO DE RENDA

O fortalecimento das mulheres por meio da geração da renda também foi debatido no encontro. Gerente da loja de artesanatos indígenas Wariró, Luciane Mendes de Lima, explicou que a unidade vem passando por reestruturação, com organização de cadastro de artesãos e fortalecimento do diálogo com os fornecedores que vêm das comunidades. Para incrementar as vendas, a equipe vem estruturando um catálogo com as peças, suas características, preços e disponibilidade. Também são feitos contatos constantes com os consumidores em várias partes do país. A boa notícia é que, mesmo durante a pandemia, a Wariró ampliou as suas vendas. Durante todo o evento, as indígenas promoveram uma feira para venda


Questões sobre saúde da mulher e educação também foram abordados. A VIII Assembleia Eletiva das Mulheres Indígenas teve participação reduzida, com limitação de vagas em cada delegação, seguindo as regras sanitárias para evitar o contágio pelo novo coronavírus.


Apoiaram a realização do encontro o Instituto Socioambiental (ISA), Campanha Rio Negro, Nós Cuidamos, Embaixada da Noruega, União Amazônia Viva, Mosaky, Aliança pelo Clima e Norwegian Rainforest Foundation.

Por Ana Amélia/ISA e Ray Baniwa/Foirn

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