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Reinauguração da Casa do Saber da FOIRN reforça importância do espaço para a luta e cultura indígenas do Rio Negro

Integrantes do Grupo de danças Tuyuka apresentam na reinauguração da Casa do Saber da Foirn em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Ana Amélia/Foirn

A cobertura da palha de caranã, os esteios de madeira, os grafismos, a engenharia indígena: esses são alguns dos elementos da Casa do Saber – Maloca da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), em São Gabriel da Cachoeira (AM), reinaugurada nesta segunda-feira, 19 de Abril, Dia dos Povos Indígenas, após ficar fechada desde setembro de 2020 para reformas.

A abertura da solenidade foi conduzida pelo presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, da etnia Baré, e contou com danças tradicionais indígenas e com a presença de representantes das instituições e sociedade civil organizada. Mas, antes, o principal elemento dentro da cultura tradicional: o indígena Mário Tenório, da etnia Tuyuka, fez o benzimento da estrutura. Também como parte das comemorações do 19 de Abril, nesta segunda-feira foi inaugurada a usina de oxigênio do Rio Negro, doada pelo Greenpeace à FOIRN.

Presidente da FOIRN, Marivelton Baré relembrou momentos importantes do movimento indígena, reforçando a importância da Casa do Saber como espaço dos povos tradicionais, sua luta e resistência, proteção e cultura.

“Essa Maloca faz parte de trajetória do movimento indígena do Rio Negro Negro, com várias lutas, como as enfrentadas na época da Ditadura Militar, quando foi um desafio para a gente lutar pela criação dessa organização. Era só uma casinha pequena onde nossas lideranças eram perseguidas e ameaçadas. Tudo isso fez parte do processo e mostra a resistência dos povos do Rio Negro. Depois as empresas mineradoras chegaram à região de forma devastadora, cooptando lideranças, criando divisão entre as populações pelos interesses econômicos”, disse.

Marivelton Barroso também relembrou o papel importante de lideranças indígenas e ex-presidentes da FOIRN, como Braz França (Baré), em muitas conquistas, entre elas a demarcação de terras, os avanços na organização da educação e saúde indígena.

Ele reforçou que os povos indígenas querem respeito ao espaço de decisão e têm instrumentos – como o Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA), elaborado em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) para ordenar o desenvolvimento. “Terra indígena não é empecilho para desenvolvimento. Tem que buscar meios alternativos”, declarou.

Ao falar dos jovens, Marivelton Barroso disse que é obrigação do movimento indígena promover ações que integrem a juventude. Ele mesmo foi membro do movimento de juventude indígena e disse que é necessário dar oportunidades aos mais novos e reforçou que os jovens podem chegar aonde quiserem, nas mais diversas instituições.

O trabalho em parceria com as ONGS também foi lembrando por Baré, mais cedo, durante a inauguração da usina de oxigênio. “Estamos trabalhando com parcerias sérias. Falam que as organizações agem por interesse minerário. Se fosse, não estaríamos hoje inaugurando essa usina de oxigênio que irá proteger vidas”, disse.

Mestre Luiz Baniwa foi responsável pela reconstrução da Casa do Saber da Foirn. Foto: Ana Amélia/Foirn

Responsável pelas obras de reestruturação da Casa do Saber, a liderança indígena e conhecedor tradicional Luiz Laureano, do povo Baniwa, disse que a estrutura foi construída de forma a ter espaço para cada uma das etnias do Alto Rio Negro. “É muita alegria estar aqui, nesse dia de festa. Essa casa deve abrigar e proteger os povos indígenas e os seus parceiros”, disse. Luiz Laureano também participou da dança tradicional Baniwa na abertura do evento. Em seguida, houve apresentação cultural do povo Tuyuka.

Participaram da inauguração da Casa do Saber a diretoria da FOIRN, integrantes da federação e de associações indígenas e autoridades do município, entre elas a vice-prefeita Eliane Falcão; o administrador do Instituto Socioambiental (ISA) em São Gabriel da Cachoeira, Wizer Oliveira; o diretor de operações do Greenpeace Brasil, Agnaldo Almeida; o presidente e cofundador da organização Expedicionários da Saúde (EDS), o médico ortopedista Ricardo Affonso Ferreira; o comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva, General Alexandre Ribeiro de Mendonça; a diretora do Hospital de Guarnição do Exército, tenente-coronel Anaditália Pinheiro; o coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN), Ernani Souza; coordenadora do Dsei Yanomami, enfermeira Clara; coordenador interino da Funai, Marcos Albino.

LUTO

Os integrantes do movimento indígena vítimas da Covid-19 foram homenageados durante a inauguração da Casa do Saber. Diretor de referência para a Nadzoeri – Organização Baniwa e Koripako, Isaías Fontes morreu no início de fevereiro, após ficar internado em Manaus. Ele contraiu o novo coronavírus em São Gabriel durante a segunda onda da pandemia, teve o quadro agravado e chegou a ser transferido para hospital da capital, mas não resistiu. Outras importantes lideranças foram lembradas, como Higino Tuyuka, Feliciano Lana entre outros.

USINA DE OXIGÊNIO

Dentro das ações de combate à pandemia na região, foi oficialmente inaugurada nessa segunda-feira a Usina de Oxigênio do Rio Negro, doada pelo Greenpeace à FOIRN. O equipamento já está em funcionamento e garantirá o abastecimento de oxigênio em São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.

A nova usina foi acionada pelo presidente da FOIRN, Marivelton Baré, pelo diretor de operações do Greenpeace Brasil, Agnaldo Almeida, e pela vice-prefeita Eliane Falcão.

Marivelton Baré reforçou a importância das parcerias interinstitucionais que vêm possibilitando as ações de combate à Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira.

Foi assinado termo de cessão e gestão entre FOIRN e Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira. O equipamento está instalado na Unidade Básica de Saúde (UBS) Miguel Quirino, em São Gabriel, e será gerido pela administração municipal. Os municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos também serão beneficiados.

Segundo Agnaldo Almeida, do Greenpeace, no início deste ano, durante o pico da segunda onda da pandemia e da crise do oxigênio no Estado do Amazonas, a organização transportava cerca de 15 cilindros de oxigênio a cada dois dias, numa logística trabalhosa e dispendiosa. A partir dessa demanda, foi desenhada a estrutura da nova usina de oxigênio, que saiu do Sul do país – o equipamento foi produzido no Paraná – e trazida até São Gabriel em trajeto de avião e barco.  A produção do insumo pode atender a um aumento da demanda em uma possível terceira onda e a pacientes com outras enfermidades respiratórias. “Eu trabalho em outras partes do Amazonas e gostaria de ressaltar que o modelo adotado na região do Rio Negro de parcerias para combate à Covid-19 é exemplar”, disse. Junto com a usina, foram doados à FOIRN um total de 90 cilindros de oxigênio.

Administrador do Instituto Socioambiental (ISA) em São Gabriel da Cachoeira, Wizer Oliveira ressaltou que a usina traz alívio depois de um período de agonia passado por todo o Estado com falta do insumo tão necessário aos pacientes com Covid-19.

Presente ao evento de inauguração da usina, o Secretário Municipal de Esportes de Santa Isabel do Rio Negro, Evandro Aquino reforçou que a conquista é primordial para o município. A cidade chegou a apresentar falta de oxigênio e teve o socorro da FOIRN e parceiros no auge da crise. Para abastecer os cilindros de oxigênio em Manaus, é necessário percorrer cerca de 600 km. Já a distância entre Santa Isabel e São Gabriel é de cerca de 200km.

Diretora do Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira (HGuSGC), tenente coronel Anaditália Pinheiro, disse que a nova usina também pode auxiliar a estrutura hospitalar.  “Em São Gabriel da Cachoeira podemos ter problemas no fornecimento de energia elétrica em decorrência de um raio ou outra eventualidade. Nesses casos, a nova usina pode funcionar como um backup para abastecimento de cilindros”, informou.

Sobre uma possível terceira onda, ela disse que todo o país deve ser preparar e que o hospital vem reforçando medicamentos, equipamentos e recursos humanos. Sobre o kit intubação – série de medicamentos utilizados no processo de intubação – ela informou que há estoque no hospital.

(Ana Amélia Hamdan/Colaboradora FOIRN)

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