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Jovens indígenas relatam impactos da emergência climática na Amazônia e cobram proteção ao território

Jovens apresentam propostas durante o I Seminário realizado em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Juliana Albuquerque/FOIRN

Adolescentes e jovens indígenas – muitos deles vivendo em comunidades na floresta Amazônica – denunciam o agravamento dos impactos da emergência climática e exigem que o poder público tome providências para evitar o agravamento da situação, principalmente com a garantia e proteção do território. Esses foram alguns dos resultados do I Seminário de Adolescentes e Jovens e Indígenas e Emergências Climáticas do Rio Negro – O futuro do nosso planeta depende de nossa nossa luta! que aconteceu na Casa do Saber da FOIRN, em São Gabriel da Cachoeira (AM), de 9 a 11 de agosto. A organização do encontro é do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da FOIRN (Dajirn/FOIRN), com apoio de parceiros.

Ao final do seminário, os participantes fizeram protesto contra o PL 490 e o Marco Temporal, cobrando proteção ao território como forma de manter as práticas tradicionais indígenas que protegem a floresta e o meio ambiente como um todo. Os jovens repudiaram projetos que ameaçam seus direitos e territórios.

Neste mês, o Supremo Tribunal Federal (STF) deve analisar ação avaliando a tese Marco Temporal, princípio que considera que só podem reivindicar terras indígenas as comunidades que as ocupavam na data da promulgação da Constituição, 5 de outubro de 1988. Já o PL490 prevê, entre outros pontos, modificações nos direitos territoriais indígenas garantidos na Constituição Federal de 1988, gerando um retrocesso quanto à demarcação de terras e abrindo brechas para que terras demarcadas sejam exploradas por diversos setores, como agronegócio, mineração e construção de hidrelétricas.

Presidente da FOIRN, Marivelton Barroso participou do encontro e falou da importância do seminário para que o jovem indígena possa ter um futuro sustentável e saudável. Ele também traçou um panorama sobre a mobilização e participação dos jovens no movimento indígena. “O Departamento de Jovens da FOIRN tem o papel importante de controle social: monitorar políticas públicas e cobra soluções para os jovens. E isso é primordial para a construção de um futuro sustentável”, disse.
Ao longo do encontro, os jovens trocaram experiências e relataram suas percepções sobre o clima na região do Rio Negro. Entre os principais impactos citados estão dois eventos ocorridos este ano: as cheias do Rio Negro – que bateram recorde em 2021 – e o frio por um período mais prolongado que o habitual. Na região, há o período de temperaturas amenas, conhecido por muitos como Aru, mas este ano o frio durou mais.

GT de Trabalho durante o seminário. Foto: Juliana Albuquerque

Além disso, pelo calendário tradicional do Rio Negro, segundo relato dos jovens, nos meses de agosto e setembro acontece o preparo do terreno para o plantio das roças, aproveitando a trégua das chuvas após o período do inverno chuvoso. Entretanto, este ano, agosto já chegou, mas ainda está chovendo e o rio está cheio, o que deve comprometer o processo, interferindo na segurança alimentar e na diversidade dos produtos da roça.

A data do início do seminário, 9 de agosto, coincidiu com a da divulgação do documento do Painel Internacional sobre a Mudança Climática (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) alertando que é inequívoco que a humanidade tenha aquecido a atmosfera, o oceano e a terra, o que resultou em mudanças generalizadas e rápidas no planeta. Entre as mudanças estão o aumento da temperatura e fenômenos climáticos extremos. A coincidência de datas não foi intencional, mas reforça a importância da abordagem do tema.

Um dos articuladores do I Seminário de Adolescentes e Jovens e Indígenas e Emergências Climáticas do Rio Negro é o secretário-executivo da Nadzoeri – coordenadoria regional da FOIRN -, Juvêncio Cardoso, o Dzoodzo Baniwa. Ele considera que o seminário possibilita que os jovens entendam que as mudanças que eles estão vendo em suas comunidades na floresta e que também são relatadas pelos velhos conhecedores indígenas estão ligadas à emergência climática. “Essas observações são compartilhadas nos espaços comunitários nas comunidades. Há também os relatos dos velhos, as narrativas. Cada vez tem menos peixe. Por quê?”, diz.

Ele reforça a fala dos jovens que relatam as mudanças no ambiente, lembrando que, em 2018, a região do Rio Negro enfrentou extrema seca e, neste ano de 2021, houve a cheia recorde do Rio Negro, que inundou roças, colocando em risco a segurança alimentar dos indígenas. “A roça inunda, perde-se a roça, a mandioca, a banana, a pimenta. Perde-se a diversidade de alimentos”, diz.
“Nós indígenas, preservamos a floresta, temos pouca participação no impacto negativo que gera a emergência climática. A nossa forma tradicional de viver considera que o mundo está interligado com os espíritos das plantas e animais. Mas estamos sentindo o impacto”, completa.

Segundo Dzoodzo Baniwa, para manter as práticas tradicionais que protegem o ambiente, os indígenas reivindicam o direito e proteção ao território, colocados sob ameaça por projetos como o PL 490 e o Marco Temporal. “É necessário reconhecer e garantir o direito ao território. Outra forma de política pública é a implementação de pagamento por serviços ambientais, como o ICMS Verde para quem protege mais o ambiente e apoio para implementação dos Planos de Gestão Territorial Ambiental (PGTAs) construído pelos indígenas”, explica.

Juvêncio Cardoso – Professor, pesquisador e liderança Baniwa. Foto: Eucimar Aires/FOIRN


O coordenador do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da FOIRN (Dajirn/FOIRN), Elson Kene Cordeiro, da etnia Baré, informou que o encontro foi estruturado a partir da demanda dos próprios jovens da região do Rio Negro. “Os jovens relatam que suas famílias sofrem com cheia do rio, perda de roças, escassez de peixe, mudança no tempo”, informa ele. Também coordenadora do Dajirn/FOIRN, Gleice Maia Machado, da etnia Tukano, informou que durante o encontro foram discutidas mudanças que os jovens podem promover em suas comunidades para evitar poluição e produção de lixo. Para dar o exemplo, o Dajirn providenciou copos personalizados para serem usados pelos jovens durante o evento, evitando o uso de objetos descartáveis.
Participaram do encontro representantes das cinco coordenadorias da FOIRN – Coidi, Diawi´í, Caiarnx, Caimbrn, Nadzoeri (saiba mais abaixo) – além de moradores de São Gabriel da Cachoeira, Barcelos e Santa Isabel da Cachoeira.


Ativista e voluntária do Greenpeace, Cíntia Lucena, graduanda de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), também participou do encontro, em São Gabriel, e compartilhou informações sobre os impactos das mudanças climáticas na floresta Amazônica e as consequências para a preservação da vida humana. “É um intercâmbio de percepções no seminário, com grande diversidade de jovens”, disse. Ela ressalta que os jovens são os que mais vão sentir os impactos do aquecimento global. “Eles já sentem os impactos passando por essa pandemia da Covid-19, com crise econômica, sanitária e social”, diz.

Cíntia Lucena explica que a pauta da emergência climática está diretamente conectada ao tema de direitos à terra e valorização da cultura indígena. “Os indígenas têm o método de economia que valoriza a vida e a cooperação, levando à conservação ambiental”, diz.
REDE WAYURI

Os integrantes da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas estiveram presentes no encontro. A Comunicadora Cláudia Ferraz, da etnia Wanano, informou que o grupo participou
Na quarta-feira (11) de manhã, os comunicadores participaram do Programa Papo da Maloca, na rádio FM 92,7, desenvolvido pela Rede Wayuri numa parceria entre FOIRN e Instituto Socioambiental (ISA), sempre com abordagem de temas ligados aos indígenas do Rio Negro. “Os comunicadores vão falar sobre o evento, o que chamou mais atenção, o que vão levar de informação para repassar em suas comunidades”, diz a comunicadora Cláudia Ferraz, da etnia Wanano, que apresenta o Papo da Maloca junto com Elizângela Baré. A Rede Wayuri também mantém um podcast e desenvolve uma série de atividades de comunicação e articulação com jovens indígenas. Devido à pandemia, algumas mobilizações foram reduzidas.


VIOLÊNCIA
O tema violência contra os jovens indígenas também ganhou destaque no encontro. No final de julho, o assassinato de uma jovem indígena da etnia Baré, de 15 anos, estudante, causou comoção na cidade. O acusado pelo crime é um soldado do Exército, que foi detido. O fato levou à mobilização do Fórum Interinstitucional de Políticas Públicas de São Gabriel da Cachoeira, que divulgou uma nota de repúdio contra o fato, cobrando mais segurança e proteção para a população, principalmente os mais vulneráveis, como mulheres e jovens indígenas.
Em nota, o Exército informou que não compactua com comportamentos em desacordo com a ordem jurídica vigente e repudia todos os atos de violência contra a integridade humana. Foi informado também que após concluído o processo leal pelas autoridades competentes, o Exército adotará as medidas disciplinares cabíveis.

IMPACTOS NA FLORESTA
Leia abaixo relatos de adolescentes e jovens indígenas que vivem em comunidades na floresta ou em cidades do Rio Negro e que participaram do I Seminário de Adolescentes e Jovens e Indígenas e Emergências Climáticas do Rio Negro – O futuro do nosso planeta depende de nossa nossa luta!:

  • Riseli Maísa, de 27 anos, moradora da comunidade Matapi/Rio Tiquié,
    Coordenadoria Diawii
    “Esse encontro é muito interessante. Ainda tem muita coisa que não temos conhecimento. Na comunidade já conversamos sobre cuidados com poluição, desmatamento, lixo. E já sentimos algumas mudanças no clima. Agora é época de queima de roças e, depois, plantação. Mas está chovendo, o que está atrapalhando.”
  • Leonardo Garcia da Silva, etnia Baniwa, morador da comunidade Tunuí-Cachoeira/Rio Içana
    Coordenadoria Nadzoeri
    “Nós tivemos um primeiro encontro de jovens lá na nossa região, em Tucumã, e entendemos que a mudança climática é perigosa. Antigamente não era assim. Os velhos falaram lá: aumentou o calor do sol, encheu muito o rio, ficou mais difícil o peixe. Entendemos que longe queimam a natureza, isso não acontece na nossa região, mas esse calor causa impacto lá. O meio ambiente é nosso, vamos reunir, sonhar: o ambiente é para todos!”
  • José Baltazar, etnia Baré, morador da comunidade Guia, Alto Rio Negro
    Coordenadoria Caiarnx
    “Estamos expandindo o nosso conhecimento sobre a emergência climática. E queremos saber por que as leis de meio ambiente não estão sendo devidamente aplicadas. Também queremos que sejam mantidas as leis que preservam as terras indígenas. Pelo conhecimento de nossos antepassados, agosto é época de derrubar roça, queimar e depois plantar. Era para começar de secar. O clima mudou, é agosto e o limite da água está alto.”
  • Jodelyn Alves Amaral, etnia Desano, morador da comunidade Nossa Senhora Aparecida/Iauaretê, Rio Uaupés
    Coordenadoria Coidi
    “Na nossa comunidade, toda quarta-feira tem trabalho comunitário nas roças. Mas por causa da chuva não tava dando para trabalhar, para plantar mandioca, bacaba, açaí. Tem grande diferença no clima.”
  • Nicolas Cauê, etnia Baré, morador de Barcelos
    Coordenadoria Caimbrn
    “O seminário é importante porque incentiva a gente a conhecer coisas novas, saber do movimento indígena e da importância de levar à frente a cultura indígena. Sobre o aquecimento global, já sentimos as mudanças. O calor aumentou. E o frio também aumentou. Na cidade, podemos ver mais poluição.”
  • Martinho da Silva Teixeira, etnia Yanomami, morador da comunidade Maturacá, Coordenadoria Caimbrn
    “Aos poucos a gente vai discutindo sobre as mudanças climáticas. Sim, claro que sim já sentimos o impacto. As caças eram achadas bem pertinho. Peixe era bem pertinho. Estão se distanciando muito. Pesca o dia inteiro e acha pouco peixe.”
  • Lilia França, etnia Baré, moradora de São Gabriel da Cachoeira
    “Na cidade também é possível perceber as mudanças no clima. O calor aumentou e está insuportável, este ano o rio causou alagamento em diversos pontos. Também tivemos frio que na região, o que não é comum. E, quando começa a secar, os mosquitos aumentam cada vez mais.”

Informe-se sobre quais regiões cada uma das cinco coordenadorias da FOIRN representa:
Nadzoere – Associação Baniwa e Koripaco;
Diawi´i – Coordenação das Organizações Indígenas do Tiquié, Baixo Uaupés e Afluentes;
Coidi- Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê;
Caiarnx – Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié;
Caimbrn – Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro.

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