A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN através da Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauarete – COIDI estiveram envolvidos na realização da I Oficina do Intercâmbio de conhecimento das Associações das Mulheres Indígenas do Distrito de Iauarete – AMIDI e Associação dos Artesãos Indígenas – ASSAI com a participação dos alunos da Escola Estadual Pahmϋri Mahsã wi’i no processo de tingimento da fibra de tucum. A mesma ocorreu nos dias 22 a 25 de setembro de 2021 no Distrito de Iauarete no Alto Rio Uaupés, as mulheres mostraram o seu conhecimento e compartilharam as técnicas tradicionais com as demais participantes da Oficina.
A diretora de referência da região Janete Figueredo Alves acompanhou o evento juntamente com Professora Cecília Albuquerque, Janete Martins Lana, Cleonilda Garrido Araújo e Araci Livino da Associação ASSAI estiveram presentes para compartilhar seus conhecimentos, elas residem em área urbana do município de São Gabriel da Cachoeira, e tiveram mais oportunidade em participar de capacitações, cursos sobre confecções de artesanatos, precificações e atendimento ao cliente.
Portanto, as mulheres das bases não têm oportunidades iguais a essa. A FOIRN recebeu esta demanda há alguns anos atrás para que apoiasse essa oficina de intercâmbio na região. Então foi realizado com participações de mulheres e jovens da Associação da AMIDI, onde tiveram trocas de ideias, tirando dúvidas entre elas e assim compartilhando seus conhecimentos e como usar as matérias-primas que podem ser encontrados no quintal, na roça, ou na floresta. Além da prática, também houve roda de conversas sobre o assunto. A participação dos alunos da Escola Estadual Pahmϋri Mahsã wi’i foi de extrema importância, pois esses jovens precisam estar envolvidos na luta do movimento indígena, e que eles possam fazer parte para dar continuidade na luta e eles são as futuras lideranças desta região. “Esse momento histórico foi de muito proveito e de muito conhecimento repassado de uma para outra, para algumas foi novidade ver o processo de tingimento com matérias que elas nunca imaginaram usar, um aprendizado que vai ficar e que estarão praticando daqui para frente” diz Verônica Alves – Vice- Presidente da AMIDI.
No encerramento foram feito uns apelos para que a FOIRN através da Diretora de Referência desta região apoie mais outros intercâmbios de conhecimentos, pois a Associação precisa de capacitação de Precificação, gestão Financeira e curso do SEBRAE sobre empreendedorismo. E que as mulheres da Associação ASSAI continuem compartilhando os seus conhecimentos adquiridos através dos cursos participados por elas e serão bem vindas para qualquer intercâmbio que vier a acontecer novamente. Os agradecimentos foram dados à FOIRN através da diretora de referência Janete Alves por atender a demanda, a ASSAI e aos parceiros que abraçam a causa indígena.
ll Encontro de Produtores Indígenas do Rio Negro – Distrito de Taracuá
No período de 16 a 18 de setembro foi realizado o Encontro de Produtores Indígenas do Rio Negro da coordenadoria DIAWI’I, na abrangência do baixo Uaupés e baixo Tiquié e reuniu mais de 100 participantes em Taracuá – Baixo Rio Uaupés.
As principais pautas do II Encontro de Produtores Indígenas do Rio Negro foram: Mapear novas cadeias produtivas da região do baixo rio Uaupés, apresentar a Casa de Produtores Indígenas do Rio Negro (Wariró) e repassar informações sobre o fornecimento de produtos da agricultura familiar às instituições. A ação aconteceu de 16 a 18 de Setembro do corrente ano, em Taracuá, tendo reunido cerca de 100 participantes no auditório da Escola Estadual Sagrado Coração de Jesus. A organização é da FOIRN, por meio do Departamento de Negócios Socioambientais e Casa Wariró, com parceria do Instituto Socioambiental (ISA) e For Eco.
Liderança histórica do movimento indígena do Rio Negro, o professor Maximiliano Correa Menezes, da etnia Tukano, participou do encontro e, durante a abertura, falou sobre a importância da ação como espaço de valorização da cultura indígena.
“É um espaço muito importante para nós de Taracuá e para indígenas de outras comunidades que estão aqui para discutir assuntos que são importantes, como a valorização da nossa cultura, dos nossos produtos, e, mais que isso, conhecer mais sobre o assunto de geração de renda, da sustentabilidade e economia indígena”, afirmou. Ele destacou a necessidade de discutir a precificação dos produtos e de definir novas cadeias produtivas que podem ser trabalhadas no futuro.
Articulador do Departamento de Negócios Socioambientais da FOIRN, Edison Gomes da etnia Baré lembrou que um dos objetivos do encontro é conscientizar sobre a importância de manter o sistema agrícola tradicional para garantir a soberania alimentar e a geração de renda. “Precisamos sempre pensar em produzir para o nosso consumo, mas também para gerar uma renda complementar”, afirma.
A gerente da Casa Wariró, Luciane Lima, reforçou a importância do encontro como momento para ouvir as demandas e anseios dos produtores indígenas da região da DIAWI´I – uma das cinco coordenadorias regionais da FOIRN -, e esclarecer dúvidas.
“A Casa Wariró faz parte da coordenação da realização dos encontros de produtores indígenas, estando presente nos encontros para ouvir as demandas, propostas de como a casa pode melhorar no atendimento aos produtores indígenas. A Wariró é casa dos produtores indígenas, por isso precisa estar perto deles”, disse.
Cerâmica Tukano e outras cadeias produtivas
A Associação das Mulheres Indígenas da Região de Taracuá (AMIRT) vem buscando organizar a produção e comercialização da cerâmica Tukano e conseguiu grandes avanços nos últimos anos, resultado de oficinas de fortalecimento com apoio da FOIRN e parceiros.
Nesse momento, a Amirt busca continuar o fortalecimento da produção da cerâmica, mas também estruturar outras cadeias produtivas.
Produtos do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, considerado patrimônio cultural pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) desde 2010, foram mencionados pelos grupos de trabalho.
Entre as alternativas enumeradas estão tipiti, cumatá, balaio, peneira, urutu, jarra, peneira, batí, aturá, vassoura, samuri, paneiro, jamachim, cuia, cuiupí, maracá, concha, farinha, beijú de vários tipos, maçoca, tapioca, arubé, caxirí, tucupí, quinhapira, pimenta moqueado, arubé, juquitaia, moqueado, piracuí, salgado, popeca.
Os próximos passos do mapeamento será o diagnóstico das potencialidades de cada produto para avaliar a viabilidade de produção e comercialização junto aos artesãos das comunidades.
“Além da cerâmica produzida pelas mulheres, também produzimos urutus e outros produtos, só precisamos nos fortalecer e valorizar nossos produtos”, disse Sebastião Duarte, professor e liderança tradicional.
Professor Sebastião Duarte – Tukano, Apresentando o GT da Vila Imaculada Conceição
História e economia indígena: exploração no passado
Lideranças indígenas destacaram a importância da juventude e das futuras gerações conhecerem a história dos povos indígenas do Rio Negro e como funcionava a comercialização dos produtos para fortalecer a reflexão sobre o futuro e a luta pelos direitos e território.
“Não muito tempo atrás, no tempo dos patrões que dominaram a região por um bom período da nossa história, eles abusaram de nossos pais e antepassados, trocando produtos industrializados com nossos produtos por um preço injusto”, disse Maximiliano Correa Menezes. “O movimento indígena vem ao longo dos anos trabalhando para garantir que os próprios povos e comunidades indígenas possam discutir a comercialização dos produtos no preço justo e defender seus territórios”, completou.
A direção da Escola Estadual Sagrado Coração de Jesus, onde o encontro aconteceu, incluiu como atividade pedagógica a programação do Encontro de Produtores Indígenas do Rio Negro – da Região Diawi´i. Todas as turmas participaram dos grupos e produziram um relatório diário do encontro, como atividade escolar.
Professor da escola, Sandro Menezes destacou que a formação de lideranças e conhecimentos sobre comercialização e economia indígena são temas de grande importância e devem ser trabalhados na escola. “O artesão, além de comercializar seu produto, precisa saber e conhecer sobre a economia indígena, precisa ser bom negociador. E um momento como esse é uma oportunidade para nossos estudantes aprenderem com os artesãos e as lideranças”, disse.
O estudante Vanderson Sampaio, finalista de ensino médio, diz que os alunos tiveram a oportunidade de participar de uma aula diferente, com temas interessantes como economia e empreendedorismo indígena, além de conhecerem como funciona a Casa Wariró.
Para Isaias Menezes, gestor da Escola, a comunidade, as lideranças e organizações locais têm o desafio de continuar o trabalho iniciado no encontro. “A Amirt já está fazendo a parte dela. Nós precisamos tomar a iniciativa de dar continuidade aos trabalhos neste encontro: apoiar e fortalecer a produção e comercialização de nossos produtos”, afirmou.
Além da comunidade Taracuá, participaram do encontro artesãos das comunidades Ipanoré, Açaí, Cunuri, Trovão e Matapi do Rio Tiquié.
AGENDA: O próximo encontro de produtores indígenas será na região dos Baniwa e Koripako (Coordenadoria Nadzoeri), na bacia do Içana, na comunidade Vista Alegre, Rio Cuiari, nos dias 28 a 30 de setembro de 2021.
<ll Encontro de Produtores Indígenas do Rio Negro – Distrito de Taracuá>
Primeiro edital do Fundo Indígena do Rio Negro (Firn) será lançado nesta sexta (10/9), em São Gabriel da Cachoeira (AM), e aportará um total de R$ 1 milhão em iniciativas de associações filiadas à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn)
Moisés Brazão, mestre de Japurutu, participa de dança durante inauguração do sistema de abastecimento de água movida por carneiro hidráulico, na comunidade Santa Isabel, localizada na Terra Indígena Alto Rio Negro (AM), próxima ao rio Ayari. Foto: Carol Quintanilha / ISA
Com a conclusão dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das terras indígenas do Rio Negro, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e seus parceiros têm agora o desafio de implementar as ações pensadas coletivamente pelos 23 povos indígenas da região, que engloba os municípios de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira, numa área de aproximadamente 13,4 milhões de hectares no estado do Amazonas.
São 90 associações de base indígenas filiadas à Foirn, que atuam em diferentes áreas como artesanato, cerâmica, produção orgânica de alimentos do sistema agrícola tradicional, educação, manejo ambiental, fortalecimento linguístico e cultural, entre outras. Todas elas poderão concorrer no primeiro edital do Fundo Indígena do Rio Negro (Firn), aberto entre os dias 10 de setembro e 30 de novembro de 2021, e que injetará R$ 1 milhão em iniciativas de três categorias: cultura, economia sustentável e segurança alimentar.
A iniciativa pioneira da Foirn, que conta com a parceria do Instituto Socioambiental (ISA) e apoio da Embaixada Real da Noruega (ERN), traz otimismo para as lideranças indígenas, que enxergam o fundo como uma oportunidade para impulsionar uma série de ações que já vem sendo pensadas há muitos anos na região por suas comunidades.
“O fundo chega para fortalecer o protagonismo das associações indígenas porque cria um mecanismo para implementar ações planejadas no PGTA. Nesse sentido, as associações serão fundamentais para o dinamismo da implementação dessas ações. Quem ganha são as comunidades indígenas porque, através de suas associações, poderão implementar seus projetos e atender os desejos que vinham reivindicando nos últimos trinta anos”, ressalta Juvêncio Cardoso (Dzoodzo), do povo Baniwa, professor e liderança da região do rio Ayari, na Terra Indígena Alto Rio Negro.
Para Cardoso, a conclusão dos PGTAs e o lançamento do Firn “inauguram um novo marco, um novo processo histórico para as comunidades indígenas do rio Negro para que elas possam garantir sua governança no território, assim como seu bem viver indígena”.
No lançamento presencial do Firn neste 10/9 também serão lançadas as publicações dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das terras indígenas do rio Negro, que integram a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas (PNGATI). As versões digitais dos planos e mais informações podem ser acessadas aqui: www.pgtas.foirn.org.br. A Foirn também prevê a realização do lançamento virtual com uma transmissão ao vivo (live) no dia 15 de setembro.
“Concluímos os planos de gestão territorial e ambiental das nossas terras indígenas e agora garantimos recursos para que as comunidades, por meio das suas associações de base, possam implementar ações locais em áreas prioritárias para o desenvolvimento sustentável que chamamos de Bem Viver”, ressalta o presidente da Foirn, Marivelton Barroso, do povo Baré.
Categorias e eixos temáticos
Impressão de grafismos no Kumurõ, o banco tukano, uma das especialidades artesanais que formam a rede de trocas do noroeste amazônico, tradicionalmente produzido pelos homens Tukano e usado como instrumento cerimonial. Oficina de discussão e produção do Kumurõ, Ilha de Duraka, Terra Indígena Médio Rio Negro I. Foto: Thiago da Costa Oliveira
Esse primeiro edital possui duas categorias para aporte de recursos: a de “projetos mirim”, de até R$ 50 mil, e a de “projetos intermediários”, no valor de até R$ 100 mil. No primeiro caso, os beneficiários terão 12 meses para execução dos recursos e, para o segundo, até 18 meses. Está previsto o apoio a 10 “projetos mirim” e 5 projetos da categoria “intermediária”, podendo ser utilizados eventuais saldos para o apoio a mais projetos.
Já os eixos temáticos são três: cultura, economia sustentável indígena e segurança alimentar. No caso de projetos culturais, o foco se volta para iniciativas de valorização dos saberes e práticas de conhecimento dos povos indígenas rionegrinos, como cantos, danças, fortalecimento das línguas indígenas, e técnicas artesanais de manejo, que favoreçam a circulação de saberes entre as gerações.
Para economia sustentável indígena são incentivadas iniciativas de geração de renda que promovam o bem viver nas comunidades através da valorização dos conhecimentos indígenas, conhecimentos técnicos e científicos, da inovação e da criatividade no uso sustentável dos recursos naturais.
Já os projetos de segurança alimentar visam fortalecer práticas e conhecimentos relacionados ao Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SATRN), além de ações que ajudem famílias e comunidades a manterem uma alimentação saudável e local, com a transmissão e produção de receitas com produtos do SATRN, a produção e manutenção de roças, intercâmbio, produção e ciculação de conhecimentos associados ao manejo sustentável das roças, pesca, caça e coleta na floresta.
“Sabemos o quanto uma iniciativa como a do Firn foi demandada em assembleias, oficinas, reuniões e também em nossos PGTAs. Conhecemos as dificuldades que as associações possuem para acessarem projetos e editais. Então, agora com o Firn esperamos que haja maior inclusão e oportunidades para as associações indígenas, incluindo grupos liderados pelas mulheres indígenas. Isso é resultado de reivindicações de muitos anos de debates. É um sonho se realizando”, celebra Janete Alves, da diretora da Foirn, do povo Desana, oriunda do rio Papuri.
Seleção, financiamento e gestão
Abertura da casa de pimenta baniwa . Comunidade Canadá. Alto Rio Negro. Foto: Carol Quintanilha/ISA
A seleção dos projetos terá as seguintes fases: checagem documental, análise da Câmara Técnica de Seleção, composta por avaliadores com conhecimento do território, mas de fora da região do Rio Negro, que analisará todos os projetos de forma igualitária, utilizando-se dos mesmos critérios de seleção. Uma vez avaliados, os projetos serão enviados junto com um parecer para que o Comitê Gestor do Firn tome a decisão final sobre quais serão os projetos selecionados.
Todos os projetos escolhidos serão contratados na primeira oficina de trabalho do Firn, a ser realizada em São Gabriel da Cachoeira. A partir daí começa a etapa de implementação. Ao longo do projeto serão realizadas semestralmente oficinas de trabalho com formações em gestão, assessoria técnica, instruções para a execução dos projetos, assessoria técnica e a entrega das prestações de contas e dos relatórios narrativos. O Firn também prevê visitas às comunidades onde os projetos estão sendo implementados e sessões de atendimento e monitoramento por sub-regiões.
A equipe do fundo explica que a estratégia do Firn integra o financiamento de projetos e a capacitação em gestão das organizações indígenas. “Por um lado, destinamos os recursos de doadores para a promoção de ações nos territórios. Por outro, utilizamos os projetos apoiados como um estímulo prático ao aprendizado em gestão, fomentando, por meio de formações e assessoria, a capacitação técnica das associações”, comenta Domingos Barreto, do povo Tukano, articulador local da iniciativa. “O Fundo é uma oportunidade de apoiar diretamente as comunidades e associações indígenas, não apenas com recursos financeiros, mas também disseminação de práticas de gestão apropriadas para a região, com acompanhamento próximo, o que favorece o desenvolvimento de bons projetos”, afirma Aloisio Cabalzar, coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do ISA.
Com PGTAs prontos, agora é hora de cobrar políticas públicas para as terras indígenas do rio Negro
Detalhe de Wii com përs (fungo), na comunidade Ariabu, Terra Indígena Yanomami
Sem dúvida o Fundo Indígena do Rio Negro (Firn) é uma iniciativa fundamental que revela o protagonismo dos povos indígenas e seus parceiros em busca da implementação das ações previstas nos seus planos de vida, como são chamados os PGTAs. Contudo, para colocar em prática os planos de gestão também são necessários esforços públicos das esferas municipal, estadual e federal, como previsto na Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas (PNGATI).
Como instrumentos de diálogo intercultural, os PGTAs do Rio Negro constituem uma ferramenta para viabilizar novas políticas públicas em áreas estratégicas como educação e saúde, orientando o Estado e suas instituições a implementar ações que sejam importantes para o desenvolvimento local e estejam em sintonia com a visão indígena de bem viver.
Como escreveu a diretoria da Foirn na abertura do documento PGTA Wasu do Alto e Médio Rio Negro:
“Os Planos de Gestão vêm reforçar a importância, o significado e as relações ancestrais que temos com os nossos territórios, assim como constituem uma valiosa ferramenta de planejamento e diálogo interno entre os diversos povos indígenas e comunidades que vivem no rio Negro. Isso vale inclusive para as relações com os parentes do lado colombiano, que desde alguns anos também vêm elaborando os seus Planos de Vida.
Mas, importante ressaltar que os PGTAs foram construídos também como instrumentos de interlocução com o Estado e parceiros de fora. Através deles pudemos dizer como nos organizamos, como vivemos e o que queremos para nossos povos e comunidades, no presente e no futuro. Também pudemos apontar o que não queremos e o que para nós constituem ameaças aos nossos territórios, à nossa vida, à nossa cultura.
Dentre os desafios, propostas e demandas levantados pelas comunidades, há coisas que dependem especialmente de nossa organização e esforço coletivo; outras dependem também da cooperação e apoio de instituições parceiras; mas há as que dependem, antes de tudo, do comprometimento do poder público e de ações e políticas orientadas e coordenadas nas esferas municipal, estadual e federal. O que queremos é que essas ações e políticas sejam construídas e implementadas com diálogo, com a participação efetiva de nossos povos e organizações representativas”.
Participantes da Oficina de Cipó realizada em Iauaratê. Foto: Juliana Albuquerque/Foirn
Considerados de recente contato, os indígenas da etnia Hupdah guardam entre seus conhecimentos tradicionais a arte da cestaria confeccionada a partir de cipó titica, encontrado na floresta Amazônica. A beleza dos balaios tem atraído atenção, com aumento da demanda por esses objetos.
Para incentivar a produção e fortalecer as cadeias de valor para geração de renda e auto sustentabilidade do povo Hupdah, a FOIRN – por meio do Departamento de Negócios Socioambientais e Casa Wariró – realizou de 2 a 4 de setembro, em Vila Fátima, Distrito de Iauaretê, em São Gabriel da Cachoeira (AM), a oficina de cestaria de cipó titica.
Nos três dias de oficina foi desenvolvido todo o processo de confecção das cestarias, desde a coleta de cipós na mata, passando pelo processo de preparação com a queima do cipó até o produto finalizado.
Gerente e articuladora da Casa Wariró, Luciane Mendes, da etnia Tariana, reforçou a importância do artesanato do povo Hupdah e informou que a procura desses produtos é crescente.
Mulheres Hupdah e Tukano buscando cipó titica durante a oficina realizada na Iauaretê. Foto: Larissa Duarte/Foirn
“Essa oficina busca a valorização dos artesanatos e do trabalho desse povo. É uma tradição passada dos mais velhos para os mais jovens. Com a valorização, a juventude vai se interessar mais por seus costumes e tradições. Também informamos como produzir e escoar, gerando renda, pois existe demanda e procura por produtos Hupdah”, informou Luciane Mendes.
A oficina também contou com a participação da secretária administrativa da FOIRN, Maria Hildete Araújo, Tariana, que falou da necessidade da criação de uma associação própria do povo Hupdah, para seu fortalecimento e regularização.
Coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas (Dmirn/FOIRN), Larissa Duarte Tukano reforçou a importância dos trabalhos das artesãs nas famílias, com incentivo à geração de renda.
Também estiveram na oficina a professora e conhecedora tradicional Cecília Albuquerque, da etnia Piratapuia, e Margarida Maia, da etnia Tukano, membros da Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira (Assai).
Indígena da etnia Hupdah, Terezinha Cruz Ramos agradeceu a iniciativa e disse que a oficina leva esperança a seu povo. “Estou muito feliz por vocês virem até a gente e realizar essa oficina de suma importância para o meu povo, para valorização da cultura e das tradições. Vamos continuar na luta e ainda mais firmes, pois vocês nos deram esperança de continuarmos trabalhando pra sustentar nossas famílias“, disse.
Vice-presidente da Associação das Mulheres Indígenas do Distrito de Iauaretê (Amidi), Veronica Sampaio Alves enfatizou a importância da realização de outras oficinas com o povo Hupdah para aprimoramento dos trabalhos das artesãs.
A oficina foi uma realização da FOIRN, através do Departamento de Negócios Socioambientais / COIDI e AMIDI com apoio da Rainforest e Embaixada Real da Noruega, através do projeto ForEco -Economia indígena do Rio Negro iniciativas de cultura material e comércio justo), em parceria com o Instituto Socioambiental – ISA.