FOIRN e Instituto Socioambiental realiza seminário de avaliação e planejamento estratégico das cadeias produtivas e da economia da sociobiodiversidade no Rio Negro

De 30 de junho a 2 de julho de 2025 a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), por meio do Departamento de Negócios Socioambientais, realizou em São Gabriel da Cachoeira o Seminário de Avaliação e Monitoramento das Cadeias Produtivas e Construção do Planejamento Estratégico. O encontro reuniu coordenadores, técnicos, artesãos, produtores e parceiros, como o Instituto Socioambiental (ISA), para refletir sobre os avanços, desafios e estratégias da economia indígena no Rio Negro.

Essa economia, que se baseia na sociobiodiversidade, vai muito além da venda de produtos. É uma economia ancestral, enraizada nos saberes milenares dos povos indígenas, em seus sistemas agrícolas tradicionais e no manejo profundo e respeitoso do território. Cada produto da floresta — seja o artesanato, o mel, a pimenta Baniwa, o pescado ou os alimentos da roça — carrega conhecimento, cultura, espiritualidade e resistência.

Foto: Reprodução

Economia indígena: floresta que vira floresta novamente

Durante o seminário, foi reforçado que as economias indígenas não se reduzem a insumos para a indústria. Ao contrário, elas promovem conservação ambiental, segurança alimentar, cultura e autonomia. As roças tradicionais, como as dos Baniwa, não transformam floresta em monocultura — transformam floresta em floresta novamente. São sistemas de produção que conservam, regeneram e fortalecem os modos de vida dos povos do Rio Negro.

Como destacou uma das participantes:

“É muito injusto olhar para essas economias apenas como fornecedoras de produtos. São sistemas inteiros de conhecimento ancestral, que inspiram inovações locais e até tecnológicas, mas cujos benefícios muitas vezes não são repartidos com os povos originários.”

Planejamento estratégico e fortalecimento institucional

Sob a coordenação de Luciana, do povo Tariano, o Departamento de Negócios Socioambientais vem sendo referência na temática da economia indígena. Criado em 2021 como resposta à demanda das lideranças indígenas por geração de renda com base nos saberes tradicionais, o DNSA atua como elo entre as comunidades, instituições públicas, parceiros e mercados.

Neste seminário, foram avaliadas as iniciativas em curso, como a loja Casa Wariró, o apoio às compras públicas via PNAE e PAA, o turismo de base comunitária, e o incentivo à produção e comercialização de alimentos e artesanatos. Também foi elaborado um novo plano estratégico, buscando maior integração entre as cadeias produtivas, fortalecendo o papel das mulheres, jovens e coordenadorias regionais.

Luciana destacou:

“Nós somos 64% mulheres envolvidas nas cadeias produtivas. O fato de termos uma mulher coordenando esse departamento representa um avanço importante dentro da FOIRN e uma conquista para as mulheres do território.”

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Próximas ações e perspectivas

Entre as ações previstas para os próximos meses, estão: Plano de Negócios da Kalipana, em Santa Isabel do Rio Negro, com datas a definir; Oficina de artesanato com cipó titica com o povo Hupd’äh, no Japú, em agosto; Encontro Geral de Produtores do Rio Negro, previsto para outubro; Fortalecimento das compras públicas, ampliando a presença dos alimentos da floresta na alimentação escolar e institucional; Lançamento da Wariro Sabores, nova frente de comercialização de alimentos tradicionais; Participação na Marcha das Mulheres Indígenas, representando as cadeias produtivas do Rio Negro.

O seminário também evidenciou como a Casa Wariró tem impactado diretamente e indiretamente a geração de renda nas comunidades, sendo ponte para que parceiros externos também acessem os produtos e apoiem as iniciativas locais.

Um modelo de economia do cuidado e da reciprocidade

A economia indígena do Rio Negro é uma economia do cuidado, do coletivo, da floresta em pé. Cada produto carrega a história de um povo, o manejo de um território e o conhecimento passado por gerações. Ao fortalecer essas economias, a FOIRN reafirma seu compromisso com a autodeterminação dos povos indígenas, a valorização da cultura e a proteção do território.

A coordenação do DNSA reforça que o trabalho continuará, com planejamento, escuta e articulação, conectando as comunidades às oportunidades, sem perder de vista o que sustenta tudo isso: o território, o conhecimento tradicional e a vida coletiva.

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