Cecília Albuquerque – Piratapuia, fundadora da Assai e conhecedora tradicional, apresenta a cartilha. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Mulheres Indígenas de várias etnias do Rio Negro lançaram na manhã deste sábado, 20/03, a Cartilha Conhecimento Indígena: Plantas medicinais e receitas usadas contra a Covid-19 no Rio Negro, em iniciativa conjunta da Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira (ASSAI) e Instituto Socioambiental (ISA), apoiada pela FOIRN.
A cartilha é fruto de oficina realizada no início de setembro de 2020, idealizada pela indígena Cecília Albuquerque, da etnia Piratapuia, uma das fundadoras da ASSAI. Além de receitas, a obra compartilha depoimentos de conhecedores tradicionais sobre o uso da medicina tradicional na pandemia.
“Nós Indígenas do Rio Negro reforçamos durante a pandemia de Covid-19 em 2020 o valor que a nossa medicina e nossos saberes ancestrais têm. Nós usamos muitos remédios feitos com plantas, cipós, raízes, folhas, tudo tirado dos nossos quintais ou da floresta. Nesse momento de angústia para toda a humanidade, esse conhecimento foi fonte de cura, esperança e resistência diante de uma doença desconhecida que não tem cura”, diz Cecília Albuquerque na apresentação da cartilha. Dona Cecília informa que o saber tradicional é complementar aos conhecimentos científicos: ela já tomou as duas doses da vacina contra a Covid-19.
Lançamento da cartilha comemorou o Dia do Artesão (19 de março). Foto: Ray Baniwa/Foirn
No lançamento o Presidente da Foirn, Marivelton Rodriguês Baré destacou a importância da Assai, dos conhecimentos tradicionais no enfrentamento da Covid-19 e elogiou o trabalho desenvolvido pelas mulheres indígenas que fazem parte da associação. “É muitobom o trabalho que a Assai tem realizado, especialmente na produção de cartilha sobre a medicina tradicional. Precisamos destacar, dar visibilidade e valorizar esses conhecimentos indígenas. E a nossa obrigação é apoiar essas iniciativas e trabalhos que nossas associações de base realizam, como é o caso da Assai, que tem feito trabalho exemplar”, disse.
Coordenadora do Departamento de Mulheres Indígena (DMIRN) e diretora interina da FOIRN, Dadá Baniwa diz que a cartilha é importante para levar conhecimentos tradicionais inclusive a alguns indígenas que já não estão mais fazendo uso dos remédios da floresta. “A FOIRN e do Departamento de Mulheres incentivam o uso de remédios tradicionais em conjunto com as medidas de preventivas. Com essa cartilha fica mais fácil compartilhar esse conhecimento. Mulheres de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos já receberam a cartilha e vão ajudar nesse compartilhamento”, disse.
O conhecedor tradicional Ercolino, da etnia Dessana, ajudou muita gente com benzimentos na primeira e segunda ondas da pandemia. Ele também já tomou as duas doses da vacina contra a Covid-19. “Com os benzimentos e vacina, a proteção fica mais forte”, diz. Para evitar a terceira onda, ele recomenda evitar aglomerações, tomar a vacina e manter os tratamentos tradicionais.
Dona Ilza da Silva, da etnia Baré, teve a Covid-19 na segunda onda e recomenda a todos que permaneçam tomando os chás. “Parece que a Covid-19 veio para ficar, não vai embora fácil. Então tem que continuar tomando os chás”, diz. Ela é uma das artesãs que compartilhou seus conhecimentos que estão na cartilha.
A cartilha chega para fortalecer ainda mais a luta contra Covid-19 no Rio Negro. Apesar da chegada da vacina na região, os cuidados como uso de máscaras, lavagem das mãos com sabão e principalmente o uso da medicina tradicional é necessário e deve continuar.
Representantes de instituições locais e parceiros da Foirn visitam o local onde a usina será instalado em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Eucimar Aires/Foirn
Parceria entre a FOIRN e o Greenpeace firmada dentro de ações de combate à pandemia da Covid-19 possibilitará a instalação de uma usina de oxigênio em São Gabriel da Cachoeira que beneficiará a região do Rio Negro.
O equipamento deve entrar em funcionamento no próximo mês e será usado para envaze de cilindros, tendo capacidade para encher 12 equipamentos. O anúncio foi feito nesta terça-feira, 16/3, pelo presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, Baré, em encontro na Maloca – Casa do Saber da FOIRN, com a presença do diretor de operações do Greenpeace Brasil, Agnaldo Almeida, e autoridades do município.
A usina de oxigênio será doada pelo Greenpeace à FOIRN, que vai celebrar termo de cessão e gestão com a Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira. A partir daí serão firmados acordos para que os municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos também sejam beneficiados pela estrutura.
Marivelton Rodriguês Baré, Presidente da Foirn, destaca a importância da parceria para esta conquista. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Marivelton Baré reforçou que essa é uma conquista interinstitucional conduzida pela federação. “É uma ação interinstitucional da FOIRN, Greenpeace, Instituto Socioambiental (ISA), Expedicionários da Saúde (EDS), FUNAI, Prefeitura. E chega após as maiores dificuldades enfrentadas na segunda onda, com alto índice de contaminação e mortes. Vem suprir uma necessidade para além da pandemia, pois há outras doenças que demandam o uso desse insumo. Além disso, resolve um problema logístico, pois não será necessário mais fazer os envazes de cilindros em Manaus”, disse.
Em meio à chamada segunda onda da pandemia, o Estado do Amazonas, em especial Manaus, viveu este ano uma crise sanitária provocada pela falta de oxigênio. Em São Gabriel da Cachoeira não houve desabastecimento do produto devido ao grande esforço interinstitucional, mas a cidade chegou a operar no limite.
A usina adquirida pelo Greenpeace custa R$ 450 mil, mas incluindo o valor do transporte e instalação, o montante chega a R$ 700 mil. O equipamento será instalado em área da Unidade Básica de Saúde (UBS) de Saúde Miguel Quirino. Na terça-feira, após o encontro da FOIRN, uma comitiva visitou o local.
Diretor de operações do Greenpeace Brasil, Agnaldo Almeida, disse que durante a crise do oxigênio, a principal preocupação da organização foi com nossos parceiros, entre eles o movimento indígena.
“Na crise desenvolvemos alguns planos para ajudar e, durante esse processo, surgiu a ideia de garantir a compra de uma usina para que ela ficasse como legado desse trabalho no Rio Negro, não só pensando no momento de pandemia. É um legado que vai ficar para a cidade e para o entorno em momentos futuros também”, disse.
Durante o encontro houve exposição do modelo da parceria e apresentação das especificações técnicas da usina. Participaram da reunião, entre outras autoridades, a vice-prefeita Eliane Falcão; a coordenadora da Coiab, Nara Baré; o coordenador regional da Funai – Coordenadoria Regional Rio Negro, Auri Santo Antunes de Oliveira; o coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN), Hernane Souza; administrador do ISA – São Gabriel da Cachoeira, Wizer Oliveira; Diretora do Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira (HGu), tenenete-coronel Anaditália Pinheiro; vereador Messias Ambrósio. Também estiveram no encontro representantes de associações de base, diretores e coordenadores de departamento da FOIRN.
DABUCURI
O encontro na Maloca – Casa do Saber da FOIRN marcou o fim das obras de reforma da estrutura, que vinham ocorrendo desde setembro de 2020. Liderança indígena e conhecedor tradicional, Luiz Laureano, da etnia Baniwa, foi o responsável pela reestruturação na maloca. Nessa terça-feira, ele conduziu um Dabucuri para reabertura da Casa do Saber. A inauguração oficial deve acontecer em abril, coincidindo com a chegada da usina de oxigênio a São Gabriel da Cachoeira.
Manter os cuidados preventivos continuam sendo fundamentais na luta contra a Covid-19.
Indígenas da etnia Baniwa e Tukano são as novas coordenadoras do Departamento de Mulheres da FOIRN.
Mulheres indígenas do Rio Negro participantes da VIII Assembleia Eletiva das Mulheres. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Após um dia de debates sobre propostas e demandas de mulheres indígenas, as duas novas coordenadoras do Departamento de Mulheres Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN) foram eleitas nesta sexta-feira (30). Venceram as eleições e vão comandar o departamento, de 2021 a 2024, Maria do Rosário Piloto Martins, a Dadá Baniwa, que concorreu pela coordenadoria NADZOERE (Associação Baniwa e Koripaco), e Larissa Duarte, da etnia Tukano, indicada pela coordenadoria DIAWI´I (Coordenação das Organizações Indígenas do Tiquié, Baixo Uaupés e Afluentes).
Maria do Rosário Baniwa e Larissa Duarte Tukano foram eleitas para a gestão 2021 a 2024 do Departamento das Mulheres Indígenas do Rio Negro/Foirn. Foto: Ray Baniwa/Foirn
A escolha ocorreu na VIII Assembleia Eletiva das Mulheres Indígenas, que teve como tema Protagonismo das Mulheres pelo Bem Viver Indígena no Rio Negro e aconteceu na quinta e sexta-feira (29 e 30), no ginásio do Colégio São Gabriel, em São Gabriel da Cachoeira (AM), com ampla representatividade das coordenadorias regionais da FOIRN. Mulheres de várias etnias, como Tukano, Baré, Tariano, Wanano, Yanomami, Dãw, participaram do encontro.
Dadá Baniwa tem mestrando em linguística e línguas indígenas pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro, é fluente em Baniwa e disse que quer atuar em colaboração com a diretoria e coordenadorias da FOIRN, pensando em todos as mulheres do Rio Negro. Larissa disse que sempre conviveu com o movimento indígena, sendo que seu pai Sebastião Duarte teve participação da criação da FOIRN. “Sou mãe, mulher, artesã, trabalho na roça e sei representar as pessoas”, disse. Ela é falante da língua Tukano.
No total, 55 mulheres votaram, sendo 10 de cada coordenadoria regional da FOIRN e cinco da Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira (Assai), representando a sede. Dadá Baniwa recebeu 23 votos, enquanto Larissa ficou com 11. Também concorreram ao cargo Margarida Maia, da etnia Tukano, representante da COIDI (Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê), e Belmira Melgaço, Baré, representado a CAIARNX (Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié). Cada uma delas teve 10 votos, sendo registrado um voto nulo. A CAIMBRN (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro) participou do encontro, mas não apontou concorrente.
As atuais coordenadoras, Elisângela da Silva, da etnia Baré, e Janete Alves, da etnia Desana, conduziram a assembleia e se mostraram satisfeitas com a mobilização feminina. Elas continuarão atuando no movimento indígena. Elisângela é do conselho fiscal da FOIRN e presidente da Associação das Mulheres Indígenas do Rio Negro (AMIRN). Janete Alves ocupará o cargo de diretora de referência da COIDI na FOIRN
Mulheres de várias etnias compartilharam suas experiências de enfrentamento da covid-19 no Rio Negro. Foto: Ana Amélia/ISA
Um importante encaminhamento do encontro foi uma carta-manifesto – assinada pelas mulheres de todas as coordenadorias regionais da FOIRN – reivindicando a manutenção de uma delegada mulher em São Gabriel da Cachoeira, além da implantação de uma Defensoria Pública, com titular mulher, e uma Secretaria Especializada da Mulher no município, para facilitar o acesso ao sistema de Justiça e garantir a proteção ao direito das mulheres. A atual titular da delegacia, Grace Jardim, é a primeira delegada mulher do município. Ela estruturou uma equipe feminina e atuou no combate à violência contra a mulher, mas deixará o município no final deste ano.
Delegada Grace Jardim e Renata Vieira, advogada do ISA participaram da assembleia das mulheres indígenas do Rio Negro. Foto: Ana Amélia/ISA
A carta-manifesto foi lida por Janete Alves. O documento será encaminhado às autoridades de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos. Além disso, as mulheres querem o apoio do DMIRN/FOIRN para patentear os remédios tradicionais utilizados contra a Covid-19 entre os povos indígenas do Rio Negro. As práticas tradicionais foram amplamente utilizadas por essa população e, conforme os indígenas, foi o que evitou que a situação se agravasse.
Delegadas vieram das cinco Coordenadorias Regionais da Foirn: Caiarnx, Caimbrn, Nadzoeri, Diawi´i e Coidi. Foto: Ana Amélia/ISA
Durante a VIII Assembleia Eletiva, as mulheres cobraram iniciativas para garantir o bem viver e o reforço da estrutura das associações para que elas tenham autonomia de ações. Elas querem alojamentos para quando vierem à cidade, embarcações exclusivas para as suas atividades, combustível para viajar e mobilizar as bases, oficinas de capacitação e incremento de renda, atendimento à saúde, medidas de segurança, promoção das práticas tradicionais, entre outros. Primeira coordenadora do DMIRN e uma das fundadoras da Assai, a professora artesã Cecília Albuquerque participou da assembleia. Ela considera que um dos desafios da nova gestão é a articulação com as associações de base do território indígena. Para Cecília, é visível o fortalecimento das mulheres indígenas ao longo dos anos. “Eu vejo algumas pessoas que antes tinham medo de falar e agora estão aí falando, reivindicando”, disse.
Advogada do Instituto Socioambiental (ISA), Renata Vieira auxiliou no processo eleitoral. Na abertura do evento ela falou sobre a abrangência da luta da mulher indígena. “A luta da mulher indígena não é uma luta por um direito que é só dela. A luta da mulher indígena é uma luta pelo território, pelos filhos, contra o alcoolismo, contra o suicídio. Pelo direito à saúde, à vida, à educação, transmissão do conhecimento. É ela quem ensina a língua ao filho. A luta da mulher indígena é de todos”, disse. Uma das convidadas para o encontro, a delegada Grace Jardim reforçou a necessidade de as mulheres vítimas de violência denunciarem o problema. “A denúncia é importante porque, só a partir dos casos registrados na base de dados, serão encaminhados recursos ao município”, explica. Uma das demandas da própria delegada para a cidade é um abrigo para as mulheres que precisam sair de casa para serem protegidas. Ela reconhece que as pessoas que vivem nas comunidades enfrentam maiores dificuldades para fazer denúncias, mas sugeriu que as coordenadorias discutam a criação de um meio de comunicação, com apoio das associações e FOIRN, para que os casos de violência cheguem até a Polícia Civil.
PANDEMIA O tema do encontro – Protagonismo das Mulheres pelo Bem Viver Indígena no Rio Negro – levou a falas sobre o combate à Covid-19, com as mulheres trocando experiências sobre as práticas tradicionais que utilizaram no combate à doença. Entre eles estão chás, benzimentos e defumações. Algumas delas falaram em língua indígena, como Baniwa.
Esse protagonismo pelo bem viver foi exercido inclusive durante o período mais agudo da pandemia. O DMIRN/FOIRN, em parceria com o ISA, desenvolveu a campanha Rio Negro, Nós Cuidamos, que arrecadou recursos para ações que incentivaram os indígenas a ficarem em suas aldeias, evitando a vinda à cidade e o risco maior de contágio. Além disso, o DMIRN atuou na distribuição de cestas básicas, material de limpeza e máscaras, além de auxiliar os parentes com informações sobre a Covid-19.
As indígenas relatam que no território a maioria das pessoas contraiu a Covid-19 e se tratou usando remédios caseiros. A professora e liderança Enegilda Gomes Vasconcelos, de Taracuá, resume essa situação. “A Covid-19 deu foi em massa. As pessoas pegaram ser perceber que era essa doença. Todo mundo achou que estava gripado. Depois veio a equipe de saúde, fez o teste e comprovou que todo mundo teve a Covid-19. Agora temos algumas pessoas com sequela”, diz. Em Taracuá, assim como em todo o Rio Negro, os indígenas utilizaram as práticas tradicionais.
GERAÇÃO DE RENDA
O fortalecimento das mulheres por meio da geração da renda também foi debatido no encontro. Gerente da loja de artesanatos indígenas Wariró, Luciane Mendes de Lima, explicou que a unidade vem passando por reestruturação, com organização de cadastro de artesãos e fortalecimento do diálogo com os fornecedores que vêm das comunidades. Para incrementar as vendas, a equipe vem estruturando um catálogo com as peças, suas características, preços e disponibilidade. Também são feitos contatos constantes com os consumidores em várias partes do país. A boa notícia é que, mesmo durante a pandemia, a Wariró ampliou as suas vendas. Durante todo o evento, as indígenas promoveram uma feira para venda
Questões sobre saúde da mulher e educação também foram abordados. A VIII Assembleia Eletiva das Mulheres Indígenas teve participação reduzida, com limitação de vagas em cada delegação, seguindo as regras sanitárias para evitar o contágio pelo novo coronavírus.
Apoiaram a realização do encontro o Instituto Socioambiental (ISA), Campanha Rio Negro, Nós Cuidamos, Embaixada da Noruega, União Amazônia Viva, Mosaky, Aliança pelo Clima e Norwegian Rainforest Foundation.
Participantes da Assembleia Geral da Coidi, realizado em Iauaretê. Foto: Raquel Uendi/ISA
As assembleias regionais para eleição da diretoria e presidência que estarão à frente da FOIRN no período 2021-2024 foram concluídas. O último encontro aconteceu nos dias 16 e 17 de outubro, na Via São Domingos Sávio, Distrito de Iauaretê, na fronteira Brasil-Colômbia. Um dos destaques do encontro da Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê (Coidi) foi a escolha de duas lideranças femininas. Janete Figueiredo Alves, do povo Dessana, foi eleita como diretora de referência da Coidi, enquanto Adilma Auxiliadora de Lima Sodré ocupará a coordenadoria regional. Janete Alves agradeceu a confiança e disse que pretende trabalhar em coletividade. “Estou muito feliz em ter recebido votos de confiança pela minha base. Pretendo trabalhar de acordo com demandas da Região da COIDI. Melhor coisa é trabalhar em coletivo, fazer planejamento em conjunto, visando ao bem viver. Tem muito trabalho a fazer, temos que dar a continuidade. Para isso, eu conto com apoio dos demais diretores, assessores, parceiros e das lideranças da minha região, apoio das lideranças do Movimento de Mulheres Indígenas. Estou assumindo uma nova missão, claro que não vai ser fácil, mas eu quero fazer o meu melhor. E caminhar junto, trabalhar em coletividade, assim como nossos avôs trabalhavam e assim alcançarmos um bom resultado”, disse
A assembleia da COIDI reuniu cerca de 100 participantes das calhas de rios como Médio Waupés, Japu e Papuri. Estiveram presentes representantes das oito associações de base, sendo elas ACIARP, ACII, ACIMERWA, ACIRJA, ACIRWA, AMIDI, ONIMIRP e ONIARWA. Presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, da etnia Baré, participou da assembleia, assim como outras lideranças e membros da equipe da federação indígena. Durante a assembleia foi feita alteração do estatuto da COIDI, após a discussão apresentada pelos delegados e com auxílio da assessoria jurídica da FOIRN. As lideranças avaliaram os trabalhos realizados pela coordenadoria nos anos de 2017 a 2020 e encaminharam propostas para melhoria dos trabalhos futuros. Professor e liderança indígena, Leonardo Ferraz Penteado destacou a importância de participar das assembleias regionais. “A participação na assembleia nos faz abrir os olhos para seguir a luta, tendo um mesmo pensamento e uma só ideia, mas, claro, trabalhando em coletividade, por dias melhores que tanto esperamos para nossa região. Nossa esperança está na nova geração, eles são nossos futuros líderes. Como educadores e atuais líderes, é nossa missão deixá-los preparados para o futuro”, disse.
Participantes seguiram as orientações das autoridades sanitárias, como o uso obrigatório de máscaras. Foto: Raquel Uendi/ISA
Este ano, as assembleias regionais tiveram como tema “Pandemia e Saberes Tradicionais dos Povos Indígenas”. O Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (Dsei-ARN) participou do encontro, com apresentação do Panorama da Covid-19. Lideranças indígenas explanaram a importância da valorização dos conhecimentos tradicionais utilizados durante a pandemia.
O benzedor e conhecedor Ercolino Jorge Araújo Alves, Dessana, atuou em conjunto com o Dsei-ARN durante a pandemia. “Na chegada da pandemia, muitas pessoas passaram a procurar benzedores. O DSEI- ARN me convidou para atuar como benzedor e aceitei. Curei muitos parentes e até hoje continuo atuando em minha residência”, diz. Entre algumas plantas que ele indica para serem usadas contra a Covid-19 estão carapanaúba, mucurama, capim santo, saracura, saratudo, folha de pirarucu, casca de umiri, casca de jatobá, limão, alho, cebola e jambu. “Os remédios tradicionais são iguais a remédios dos brancos, deve seguir receituário indígena, se não seguir orientação o remédio pode não ter cura, pode prejudicar a saúde. E assim o benzedor às vezes fica como não tivesse acertado de benzer. Para tudo deve-se fazer jejum. Foi seguindo essas orientações que nossos antepassados se livraram do mal e se curaram”, completa.
Participantes da assembleia da sub-regional da Foirn realizado na comunidade Monte Alegre, Baixo Uaupés. Foto: Ednéia Teles/FOIRN
Representantes das 12 associações de base da Coordenadoria DIAWI’I participaram da assembleia regional eletiva realizada na comunidade Monte Alegre, no Baixo Uaupés, nos dias 9 e 10 de outubro. Durante o encontro foram traçadas estratégias de nova governança da coordenadoria DIAWI’I. A partir da assembleia, essa região passará a desenvolver os trabalhos por três microrregiões: Microrregião Alto Tiquié, Microrregião Médio Rio Tiquié; Microrregião Baixo Tiquié e Baixo Uaupés.
Durante a plenária foi reeleito para o cargo de diretor de referência da região do DIAWI’I o senhor Nildo José Miguel Fontes, da etnia Tukano. Para a coordenadoria regional foi escolhida dona Rosilda da Silva, também da etnia Tukano, resultado muito comemorado pelas mulheres indígenas. O novo mandato vai de 2021 a 2024.
Este ano o tema dos encontros é “Pandemia e os saberes tradicionais dos povos indígenas” e, como aconteceu nas outras reuniões regionais, as lideranças destacaram a importância do uso dos remédios e outras práticas tradicionais no enfrentamento à Covid-19.
Para o indígena Roberval Azevedo, os remédios tradicionais evitaram que os casos de Covid-19 se agravassem. “Remédio tradicional salvou nossas famílias, combateu a Covid-19, como também outros males que afetam os povos indígenas. Nossos remédios tradicionais evitaram internações e intubações no hospital. Mesmo assim muitos parentes foram a óbitos, principalmente nossos pajés, conhecedores tradicionais, nossas parteiras e entre outros que foram a óbito principalmente por Covid-19”, disse.
Presente ao encontro, o indígena Antônio Marques avaliou que é necessário manter os cuidados contra a doença. “Mediante o conhecimento dos pajés, vem segunda onda do novo coronavírus. E virá muito mais forte, irá causar perdas e muito choro entre as famílias, e que pessoas devem ter mais cuidado e continuar se tratando com pajés e remédios tradicionais”, disse.
Cerca de 130 pessoas participaram da assembleia, que contou com a participação de representantes das coordenadorias NADZOERI, CAIMBRM, CAIARNX, COIDI. Representantes do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (Dsei-ARN) e Condisi-ARN também estiveram presentes. O evento seguiu orientações sanitárias para evitar a Covid-19, havendo distribuição de máscaras e material higiênico.
Lideranças Tukano com máscara durante a assembleia. O evento seguiu os protocolos de saúde devido a pandemia da Covid-19. Foto: Ednéia Teles/FOIRN
Um dos participantes do encontro, Otávio Bruno Neves, da etnia Tukano, reforçou a importância da reunião democrática. “Estou achando muito importante participar da assembleia como convidado, pois estamos em um país democrático, no século XXI: nossas atividades, nossos problemas devem ser resolvidos em conjunto. Isso se chama democracia. Estamos aqui também para eleger nossos representantes do movimento indígenas. É válido ouvir lideranças, e a FOIRN tem nos representado muito bem”, disse.