Participantes da Assembleia Geral da Coidi, realizado em Iauaretê. Foto: Raquel Uendi/ISA
As assembleias regionais para eleição da diretoria e presidência que estarão à frente da FOIRN no período 2021-2024 foram concluídas. O último encontro aconteceu nos dias 16 e 17 de outubro, na Via São Domingos Sávio, Distrito de Iauaretê, na fronteira Brasil-Colômbia. Um dos destaques do encontro da Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê (Coidi) foi a escolha de duas lideranças femininas. Janete Figueiredo Alves, do povo Dessana, foi eleita como diretora de referência da Coidi, enquanto Adilma Auxiliadora de Lima Sodré ocupará a coordenadoria regional. Janete Alves agradeceu a confiança e disse que pretende trabalhar em coletividade. “Estou muito feliz em ter recebido votos de confiança pela minha base. Pretendo trabalhar de acordo com demandas da Região da COIDI. Melhor coisa é trabalhar em coletivo, fazer planejamento em conjunto, visando ao bem viver. Tem muito trabalho a fazer, temos que dar a continuidade. Para isso, eu conto com apoio dos demais diretores, assessores, parceiros e das lideranças da minha região, apoio das lideranças do Movimento de Mulheres Indígenas. Estou assumindo uma nova missão, claro que não vai ser fácil, mas eu quero fazer o meu melhor. E caminhar junto, trabalhar em coletividade, assim como nossos avôs trabalhavam e assim alcançarmos um bom resultado”, disse
A assembleia da COIDI reuniu cerca de 100 participantes das calhas de rios como Médio Waupés, Japu e Papuri. Estiveram presentes representantes das oito associações de base, sendo elas ACIARP, ACII, ACIMERWA, ACIRJA, ACIRWA, AMIDI, ONIMIRP e ONIARWA. Presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, da etnia Baré, participou da assembleia, assim como outras lideranças e membros da equipe da federação indígena. Durante a assembleia foi feita alteração do estatuto da COIDI, após a discussão apresentada pelos delegados e com auxílio da assessoria jurídica da FOIRN. As lideranças avaliaram os trabalhos realizados pela coordenadoria nos anos de 2017 a 2020 e encaminharam propostas para melhoria dos trabalhos futuros. Professor e liderança indígena, Leonardo Ferraz Penteado destacou a importância de participar das assembleias regionais. “A participação na assembleia nos faz abrir os olhos para seguir a luta, tendo um mesmo pensamento e uma só ideia, mas, claro, trabalhando em coletividade, por dias melhores que tanto esperamos para nossa região. Nossa esperança está na nova geração, eles são nossos futuros líderes. Como educadores e atuais líderes, é nossa missão deixá-los preparados para o futuro”, disse.
Participantes seguiram as orientações das autoridades sanitárias, como o uso obrigatório de máscaras. Foto: Raquel Uendi/ISA
Este ano, as assembleias regionais tiveram como tema “Pandemia e Saberes Tradicionais dos Povos Indígenas”. O Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (Dsei-ARN) participou do encontro, com apresentação do Panorama da Covid-19. Lideranças indígenas explanaram a importância da valorização dos conhecimentos tradicionais utilizados durante a pandemia.
O benzedor e conhecedor Ercolino Jorge Araújo Alves, Dessana, atuou em conjunto com o Dsei-ARN durante a pandemia. “Na chegada da pandemia, muitas pessoas passaram a procurar benzedores. O DSEI- ARN me convidou para atuar como benzedor e aceitei. Curei muitos parentes e até hoje continuo atuando em minha residência”, diz. Entre algumas plantas que ele indica para serem usadas contra a Covid-19 estão carapanaúba, mucurama, capim santo, saracura, saratudo, folha de pirarucu, casca de umiri, casca de jatobá, limão, alho, cebola e jambu. “Os remédios tradicionais são iguais a remédios dos brancos, deve seguir receituário indígena, se não seguir orientação o remédio pode não ter cura, pode prejudicar a saúde. E assim o benzedor às vezes fica como não tivesse acertado de benzer. Para tudo deve-se fazer jejum. Foi seguindo essas orientações que nossos antepassados se livraram do mal e se curaram”, completa.
Participantes da assembleia da sub-regional da Foirn realizado na comunidade Monte Alegre, Baixo Uaupés. Foto: Ednéia Teles/FOIRN
Representantes das 12 associações de base da Coordenadoria DIAWI’I participaram da assembleia regional eletiva realizada na comunidade Monte Alegre, no Baixo Uaupés, nos dias 9 e 10 de outubro. Durante o encontro foram traçadas estratégias de nova governança da coordenadoria DIAWI’I. A partir da assembleia, essa região passará a desenvolver os trabalhos por três microrregiões: Microrregião Alto Tiquié, Microrregião Médio Rio Tiquié; Microrregião Baixo Tiquié e Baixo Uaupés.
Durante a plenária foi reeleito para o cargo de diretor de referência da região do DIAWI’I o senhor Nildo José Miguel Fontes, da etnia Tukano. Para a coordenadoria regional foi escolhida dona Rosilda da Silva, também da etnia Tukano, resultado muito comemorado pelas mulheres indígenas. O novo mandato vai de 2021 a 2024.
Este ano o tema dos encontros é “Pandemia e os saberes tradicionais dos povos indígenas” e, como aconteceu nas outras reuniões regionais, as lideranças destacaram a importância do uso dos remédios e outras práticas tradicionais no enfrentamento à Covid-19.
Para o indígena Roberval Azevedo, os remédios tradicionais evitaram que os casos de Covid-19 se agravassem. “Remédio tradicional salvou nossas famílias, combateu a Covid-19, como também outros males que afetam os povos indígenas. Nossos remédios tradicionais evitaram internações e intubações no hospital. Mesmo assim muitos parentes foram a óbitos, principalmente nossos pajés, conhecedores tradicionais, nossas parteiras e entre outros que foram a óbito principalmente por Covid-19”, disse.
Presente ao encontro, o indígena Antônio Marques avaliou que é necessário manter os cuidados contra a doença. “Mediante o conhecimento dos pajés, vem segunda onda do novo coronavírus. E virá muito mais forte, irá causar perdas e muito choro entre as famílias, e que pessoas devem ter mais cuidado e continuar se tratando com pajés e remédios tradicionais”, disse.
Cerca de 130 pessoas participaram da assembleia, que contou com a participação de representantes das coordenadorias NADZOERI, CAIMBRM, CAIARNX, COIDI. Representantes do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (Dsei-ARN) e Condisi-ARN também estiveram presentes. O evento seguiu orientações sanitárias para evitar a Covid-19, havendo distribuição de máscaras e material higiênico.
Lideranças Tukano com máscara durante a assembleia. O evento seguiu os protocolos de saúde devido a pandemia da Covid-19. Foto: Ednéia Teles/FOIRN
Um dos participantes do encontro, Otávio Bruno Neves, da etnia Tukano, reforçou a importância da reunião democrática. “Estou achando muito importante participar da assembleia como convidado, pois estamos em um país democrático, no século XXI: nossas atividades, nossos problemas devem ser resolvidos em conjunto. Isso se chama democracia. Estamos aqui também para eleger nossos representantes do movimento indígenas. É válido ouvir lideranças, e a FOIRN tem nos representado muito bem”, disse.
“Dizem que não existe remédio para combater a covid-19. Mas, nós povos indígenas estamos combatendo essa doença com nosso conhecimento tradicional”, afirma José Maria Ferreira, liderança Yanomami durante a Assembleia Geral das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro (Caimbrn), realizado em Canafé, no município de Barcelos, nos dias 2 e 3 de outubro. A IX assembleia definiu representatividade regional para os próximos quatro anos e aprovou estatuto social da coordenadoria
Deledados das 12 associações de base da região do Médio e Baixo Rio Negro. Foto: Ray Baniwa/Foirn
A Comunidade de Canafé, localizada na região do baixo Rio Negro, no município de Barcelos, recebeu lideranças indígenas de doze associações de base da Caimbrn. Como em outras assembleias sub-regionais já realizadas, os participantes seguiram as orientações de órgãos de saúde, como o uso obrigatório de máscaras e álcool em gel.
Foi unânime as afirmações das lideranças indígenas sobre uso da medicina tradicional ao longo dos últimos meses para tratar os doentes de covid-19. A Associação das Comunidades Indígenas do Médio Rio Negro (Acimrn), fez um levantamento sobre o uso da medicina tradicional usado durante a pandemia, que destacou a diversidade do conhecimento dos povos indígenas que habitam a região. “Identificamos que cada povo e comunidade usa diferentes tipos de remédio caseiro, disse Carlos Nery Piratapuia, liderança e membro da Caimbrm.
Bruno Martins, secretário da Associação das Comunidades Indígenas do Baixo Rio Negro (Acibrn), conta que a covid-19 pegou de surpresa as comunidades de abrangência da associação. “Não sabíamos que a doença já estava no nosso meio. Quando descobrimos, muitos de nós já estavam contaminados”, afirma. “Antes tínhamos café e caribé, um costume que mantemos com os parentes da comunidade. Depois que chegou a pandemia, mudou tudo. Ainda bem que nossos pais e conhecedores tradicionais nos ajudaram a combater a doença com nossos remédios caseiros”, completa.
José Mário Yanomami, disse que a principal preocupação que tiveram com a chegada da doença foi sobre os mais idosos. “A nossa preocupação com eles foi grande, pois, vimos na TV que por onde chegava a doença matava muita gente. Graças a eles, que guardam os conhecimentos do nosso povo, conseguimos enfrentar a doença. Mudou muita coisa na nossa vida. E precisamos continuar nos cuidando e cuidar da nossa floresta, pois é dela que tiramos os nossos remédios”, disse.
Sobre a mudança na vida das pessoas nas comunidades, a presidente da Associação Indígena de Barcelos (Asiba), Maria Lourenço, do povo Baniwa, relatou que o isolamento social que acabou sendo obrigatório, afetou muito a convivência as comunidades. “Tivemos que passar a seguir as orientações do pessoal da saúde, como o isolamento social e o uso de máscara. Não consigo usar isso, não estou acostumada, quando coloco, já quero tirar”, comentou Maria sobre o uso da máscara.
Médio e Baixo Rio Negro aclamam diretor de referência
A Comissão Eleitoral instituída pelo parecer do Conselho Diretor, coordenou os trabalhos durante o processo eleitoral. A calha do médio e baixo rio Negro foi dividido em 4 regiões para melhor organização e participação das lideranças indígenas na representatividade regional. Portanto, cada região indicou um representante para concorrer, e a sequência seguiu conforme o número de votos.
O resultado da apuração foi: Coordenação Regional da Caimbrn: Carlos Nery (23 votos) – Coordenador, Vice Coordenador: Samero Andrade (13 votos), Coordenador Secretário: José Mario Yanomami (12 votos) e Coordenador Tesoureiro: Evaldo Bruno (10 votos).
“Estamos totalmente satisfeitos com a atuação do nosso diretor de referência”, foi a avaliação unânime das 12 associações de base da Caimbrn, sobre a atuação do atual diretor de referência, Marivelton Rodriguês Baré. “Esteve sempre presente quando precisamos”, foi uma das afirmações mais comuns ao longo das apresentações das avaliações da gestão 2017-2020. Portanto, o atual diretor de referência da região, foi aclamado pelas 12 associações presentes na assembleia para a gestão 2021- 2024 da Foirn.
O reconhecimento do trabalho do atual diretor de referência pelas comunidades e associações de base se deve ao intenso trabalho de mobilização desde da primeira gestão como diretor de referência, porém, os destaques foram os trabalhos da atual gestão, como presidente da Federação, como a implantação de projetos de turismo comunitários indígenas, avanço nos processos de demarcação de terras indígenas, fortalecimento das associações de base, enfrentamento ao Covid-19, melhoria de infraestrutura de comunicação, entre outros.
O diretor Marivelton reconheceu que sua força e incentivo vem da base. “Em vários momentos que me senti sozinho ao longo desses anos, vocês (lideranças e comunidades) estavam lá para me dar força e lutar junto comigo. E vamos seguir lutando pela demarcação de nossos territórios, pela educação diferenciada e saúde indígena, afirmou.
A Organização Baniwa e Koripako Nadzoeri reuniu lideranças da bacia do Içana em Santa Rosa nos dias 23 e 24 de setembro para avaliar os impactos da pandemia da covid-19 na região; Diretor Isaias Fontes e secretário geral da Nadzoeri, Juvêncio Cardoso, foram reeleitos
As 11 associações de base da Bacia do Içana delegaram seus representantes para participar da assembleia da Nadzoeri, realizado na comunidade Santa Rosa – Médio Rio Negro. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Seguindo os protocolos e recomendações sanitárias, cerca de 80 participantes estiveram reunidos em Santa Rosa, comunidade localizada na região do médio Rio Içana para avaliar os impactos da pandemia da covid-19 nas comunidades Baniwa e Koripako.
O tema central das discussões e apresentações foi os Conhecimentos Tradicionais e sua importância no combate e tratamento de casos nas comunidades. “Se não fosse os remédios caseiros e o conhecimento tradicional a situação teria sido pior”, lembrou a enfermeira Hamyla Tridade Baré, que representou o Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN), e apresentou os dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai/Ministério da Saúde) durante o evento.
Segundo os dados da Sesai, apresentados na assembleia, 50% das comunidades Baniwa e Koripako tiveram casos confirmados, isso representa um total de 247 pessoas. Mas, ainda de acordo com esses dados, há um indicador preocupante: até dia 21/09, apenas 6 pessoas da etnia Koripako, da região do Alto Içana, foram confirmados como casos positivos para covid-19. Ou seja, apesar de ter confirmação de casos na região em abril, especialmente nas comunidades do baixo e médio Içana, é agora que casos estão aparecendo e sendo confirmados na região do alto Içana. Uma preocupação encaminhada pela assembleia para o Dsei-ARN.
Sobre os dados da Sesai apresentados na assembleia, o presidente da Foirn, Marivelton Barroso Baré, lembrou que ainda há subnotificações de casos na região, incluindo nas comunidades Baniwa e Koripako. “Desde o início da pandemia recebemos relatos de casos nas comunidades, que não entraram nas estatísticas da Sesai por falta de testes. Isso mostra que tem mais casos do que apresentado nos registros oficiais”, disse.
Conhecimentos tradicionais e impactos da covid-19 nas comunidades
Em toda a bacia do Içana os grupos de trabalho relataram uso de algum tipo de remédio caseiro ou medicina tradicional. Em alguns, houve registro de uso de benzimento no processo de tratamento de doentes.
“Nosso convívio social e psicológico foi afetado. Somos povo que vive junto e compartilha a convivência com nossos parentes nas comunidades, não estamos acostumados a ficar isolado dos outros. Por isso, nossos remédios foram muito importantes para enfrentar a doença que chegou e mudou a nossa forma de conviver na comunidade”, relatou Hilário Fontes, da comunidade Ukuqui Cachoeira, da região do alto Ayarí, onde há 22 comunidades Baniwa.
“A covid-19 chegou e atrapalhou tudo. Mudou o calendário escolar, programação de atendimentos à saúde e outros eventos que fazem parte da nossa vida social”, comentou Carlos de Jesus, relator da região do baixo Içana. Segundo o grupo, umas das mudanças negativas que a pandemia da covid-19 trouxe foi a necessidade de isolamento social e quarentena, coisa que as comunidades não estão acostumadas.
“As nossas comunidades e associações de base conheceram os esforços conjunto da Foirn e instituições locais e parceiros através das ações realizadas durante a pandemia”, afirmou o Juvêncio Cardoso, Secretário Geral da Nadzoeri.
Após as apresentações dos grupos de trabalho, o diretor Presidente da Foirn, Marivelton Baré apresentou as ações da Foirn no âmbito do Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19 no Município de São Gabriel da Cachoeira através das Campanhas Rio Negro, Nós Cuidamos, Aliança Pelos Povos da Floresta e União Amazônia Viva.
Ficou claro a todos na assembleia que, a vacina ainda não está disponível, os cuidados devem continuar, as pessoas devem continuar seguindo as orientações das autoridades de saúde, os conhecimentos tradicionais continuará sendo uma importante alternativa no enfrentamento da covid-19 nas comunidades indígenas do Rio Negro.
Delegadas mulheres representantes das associações de mulheres Baniwa marcaram presença na assembleia. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Representatividade Baniwa e Koripako para próximos quatro anos
A assembleia da Nadzoeri foi também um espaço importante para os povos Baniwa e Koripako definirem quem irá representar a região no âmbito do movimento indígena do Rio Negro nos próximos 4 anos, onde foram definidos o diretor de referência para a diretoria da Foirn, diretoria da Coordenadoria Regional (Nadzoeri), Conselheiros do Conselho Diretor da Foirn e delegados para a assembleia geral da Foirn previsto para mês de novembro.
As associações de base apresentaram candidatos para concorrer a vaga de diretor da Foirn, foram eles: Isaias Fontes (atual diretor), Ronaldo Apolinário, Deusimar Moraes e Augusto Garcia. Cada associação de base teve 5 delegados (as) com direito a voto, foram 55 delegados no total. O resultado da apuração, definiu a reeleição do atual diretor Isaias Pereira Fontes com 58% dos votos.
Para a coordenadoria Nadzoeri, cada microrregião (são 5 no Içana) indicou um representante para fazer parte da diretoria. A eleição foi feita apenas para definir o Secretário Geral e o Secretário Financeiro, os demais seguiram a ordem de Secretários Adjuntos de acordo com os votos recebidos, sendo Adjunto 1, 2 e 3 respectivamente.
Também foram definidos os delegados Baniwa e Koripako para representar a região na assembleia geral da Foirn, Conselheiros do Conselho Diretor, bem como membro para a Comissão Fiscal do Conselho Diretor.
Comunidade Santa Rosa faz Dabucuri para encerrar a assembleia
Comunidade Santa Rosa preparou Dabucuri para encerramento da assembleia. Foto: Lília França/Rede Wayuri
A pandemia afetou a vida nas comunidades, mas, o dar e o compartilhar continua intacto. Apesar das mudanças na forma de convivência nas comunidades Baniwa e Koripako, a cultura e a vida segue firme na região. Para encerrar as atividades da assembleia, a comunidade Santa Rosa ofertou um dabucuri para os participantes, onde foram lembradas as regras de partilhar e dividir com os cunhados (no caso da assembleia, os participantes).
O dabucuri reforça a importância do fortalecimento dos laços de amizade e companheirismo no trabalho para as lideranças Baniwa e Koripako que estão na linha de frente da representatividade regional. O bem-viver Baniwa e Koripako enfrenta a covid-19, e irá resistir.
Participantes da Assembleia da Caiarnx, realizado na comunidade Tabocal dos Pereira, alto Rio Negro. Foto: Raquel Uendi/ISA
As lideranças das coordenadorias regionais da FOIRN que vão atuar na gestão 2021/2024 começaram a ser definidas com a realização, nos dias 17 e 18 de setembro, da V Assembleia Regional Eletiva da Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro, Xié e TI Balaio (CAIARNX). Este ano, o tema das assembleias é Pandemia e os Saberes Tradicionais do Povos Indígenas do Alto Rio Negro.
O encontro da CAIARNX reuniu cerca de 80 pessoas e seguiu as orientações sanitárias para reduzir o risco de contaminação pelo novo coronavírus.
Juventude Indígena presente na assembleia. O evento seguiu todas as orientações e protocolos sanitários, como uso obrigatório de máscaras e álcool em gel disponível para os participantes. Foto: Raquel Uendi/ISA
O atual diretor da Caiarnx, Adão Francisco Henrique, da etnia Baré, foi reeleito para o cargo. Já o coordenador regional eleito é Ronaldo Ambrósio Melgueiro, da etnia Baré. Outras quatro assembleias regionais vão acontecer até 17 de outubro. A assembleia geral eletiva da Foirn está marcada para ocorrer os dias 26 e 27 de novembro.
Durante a assembleia da CAIARNX, que ocorreu na Comunidade Tabocal dos Pereiras, São Gabriel da Cachoeira (AM), foram discutidos e encaminhados temas importantes para o movimento indígena, como por exemplo a necessidade de fortalecer a participação das mulheres e jovens, reforçar a rede de comunicadores, melhoria da articulação da diretoria regional nas comunidades e reforço da mobilização junto ao Governo Federal e outras instâncias do poder público para que não haja perda de direitos.
Presidente da Foirn, Marivelton Barroso, da etnia Baré, participou da assembleia e ressaltou que esse é um momento positivo, apesar dos grandes desafios. “Que os trabalhos sigam sendo fortalecidos apesar dos desafios do atual cenário político brasileiro, que não está fácil. O governo, que é oposição às causas do movimento indígena, questões sociais, minorias. Principalmente nós no território indígena somos constantemente atacados, vários direitos sendo diminuídos. Temos cada vez mais que fortalecer e unir os 23 povos indígenas aqui da região”, disse.
Intalação de nova radiofonia na comunidade Mafi, município de Santa Isabel do Rio Negro. Foto: Foirn
A rede de comunicação por radiofonia está sendo fortalecida nas comunidades indígenas do Rio Negro em projeto desenvolvido em parceria entre Foirn, Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN) e Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi). Desde maio, já foram instalados 92 kits de radiofonia. No total, serão entregues aparelhos a 152 comunidades. O presidente da Foirn, Marivelton Barroso Baré, está realizando viagens pela região para a implementação desta ação.
Considerada fundamental para a vigilância, proteção e gestão territorial desde o início da luta pela demarcação das terras indígenas, a radiofonia também é importante instrumento de controle social. Esse sistema de comunicação ganhou ainda mais relevância durante a pandemia, sendo primordial para o combate à Covid-19.
Na última semana de agosto, oito comunidades indígenas receberam kits de radiofonia. Em viagem realizada pela Foirn, Dsei-ARN e Condisi, foram instalados equipamentos nas comunidades do Médio e Baixo Rio Negro. São elas: Mafi, Cujubim, Ilha do Chile, Tabocal do Enuixi, Lajinha, Acu Acu, São Joaquim e Tapereira. Os recursos desse projeto são da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).
Para o presidente do Condisi, Jovânio Normando Baré, essa é uma luta antiga das lideranças e ver comunidades indígenas recebendo os kits de radiofonia é realizar um sonho. “Agora as pessoas que não tinham como receber ou passar mensagem, vão poder se comunicar com outras. Isso só está sendo possível através da forte parceria Condisi, Dsei-Alto Rio Negro e Sesai com a Foirn, que tem sido fundamental nesse processo”, diz.
Jovânio Normando fez parte da equipe de viagem de instalações desses equipamentos nas comunidades na região do Médio e Baixo Rio Negro, junto com o Presidente da Foirn, Marivelton Barroso Baré.
Com mais comunidades conectadas, a rede de comunicação através de radiofonia do Rio Negro fica maior e fortalecida. Esse trabalho de comunicação liderado pela Foirn com contribuição de parceiros tem sido fundamental para combate à Covid-19 e nas comunidades indígenas.
Marivelton Rodrigues Baré, Presidente da Foirn passando informações para as comunidades através da radiofonia. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Histórico
As primeiras rádios no Rio Negro foram instaladas em 1994. Quatro delas foram adquiridas com apoio da Aliança Pelo Clima, sendo que oito equipamentos tiveram recursos dos Amigos da Terra. Esses aparelhos foram instalados em pontos estratégicos após ampla discussão com as organizações de base filiadas à Foirn na época. “A primeira radiofonia no Rio Negro foi instalada na comunidade Ilha das Flores”, lembra Maximiliano Corrêa Tukano, liderança que participou daquele momento histórico para a comunicação indígena na região.
“Esse meio de comunicação chegou para apoiar a comunicação para a vigilância e gestão do território devido a intensas invasões de garimpeiros e empresas mineradoras. E posteriormente foi fundamental no processo de demarcação das terras indígenas e no início do Dsei. Nos anos seguintes, ampliamos para os outros municípios onde atua o movimento indígena. Fortalecer a nossa comunicação com as bases vai proteger o nosso território”, completa.
Mulheres Baniwa presentes na assembleia realizado na comunidade Buia Igarapé. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Na última sexta-feira, 28/08, mulheres Baniwa da região do Baixo Içana se reuniram na comunidade Buia Igarapé, na Terra Indígena Alto Rio Negro, para discutir a reativação da Associação das Mulheres Indígenas do Baixo Içana (Amibi). Participaram da assembleia as comunidades de Boa Vista, Wirarí Ponta, Jawacanã, Camarão, Ituim, Pirayawara e Assunção do Içana.
A assembleia começou com uma apresentação do histórico da associação feita por Vírgilia Almeida, umas das líderes mobilizadoras do encontro. “A nossa associação é importante para nós. Através dela podemos nos fortalecer e lutar por aquilo que desejamos melhorar nas nossas comunidades”, destacou. “Ela (associação) ficou adormecida por muito tempo. Mas, agora é o momento de reativar e retomar os trabalhos”, completou.
Presente na assembleia, a coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro, Elizângela da Silva Baré, frisou que uma associação fortalecida e ativa é importante para unir as mulheres e comunidades, contribuindo para a boa governança indígena do território. “Uma associação forte e ativa anima o trabalho das mulheres. Não só delas, mas, os homens também precisam participar e fazer parte de uma associação das mulheres”, disse.
Professor da comunidade, Alípio Martins reforçou a importância da associação e da luta coletiva. “Aqui na região do Baixo Içana precisamos fortalecer a nossa associação para através dela buscar mais melhorias coletivas para nós, coisa que não temos feito nos últimos anos”, lembrou.
Após as reflexões e debates, as mulheres se organizaram para definir e indicar nomes para concorrer à diretoria. Foi decidido que a escolha fosse feita por votação. Das duas chapas propostas, a segunda ganhou com a seguinte definição: Madalena Fontes Olimpio (Presidente), Sabrina Pereira (Vice-Presidente), Genilson Martins (Secretário), Alciane Gonçalves (Tesoureira), Neury Jane Martins (Conselheiro) e Alípio Martins (Conselheiro).
Madalena Fontes Olimpio, presidente eleita da Associação das Mulheres do Baixo Içana. Foto: Ray Baniwa/Foirn
O encontro serviu também para exposição e venda de artesanatos, apresentação e distribuição da Cartilha sobre a prevenção da violência contra a mulher, para apresentação dos trabalhos e agenda de ações dos departamentos das mulheres e da juventude da Foirn, que terá suas assembleias eletivas nesse segundo semestre. As mulheres saíram fortalecidas da assembleia. “Nosso primeiro trabalho vai ser legalizar a nossa associação e começar os nossos trabalhos de mobilização e fortalecimento”, disse Madelena, a nova presidente eleita.
Exposição de artesanatos durante a assembleia. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Cautela e preocupação nas comunidades
Como as demais comunidades indígenas das regiões do Rio Negro, Buía Igarapé também registrou casos de covid-19 nos últimos meses. Incluindo um registro de óbito. Por isso, houve grande preocupação da coordenação da assembleia em seguir as orientações das autoridades de saúde, como o uso de máscaras e distanciamento social durante o evento.
O diretor da Foirn de referência da região do Içana, Isaias Fontes, chegou de volta à comunidade Buia depois de uma viagem ao alto Içana e apresentou as preocupações das comunidades em relação a presença da covid-19 na região. E falou do trabalho de monitoramento através de oxímetro que está sendo feito pela Foirn em parceria com a Fiocruz-Amazônia através dos agentes indígenas de saúde nas comunidades. “Todas as comunidades Baniwa já foram infectadas, por isso estamos realizando esse monitoramento para acompanhar as situações e casos que precisam de atenção. Mesmo quem já pegou, precisa continuar se cuidando”, afirmou.
Esse trabalho é feito através de treinamento dos agentes indígenas de saúde por um biólogo para monitorar pacientes que precisam de atenção e acompanhamento por parte dos profissionais de saúde.
Lideranças indígenas se reúnem em conselho para debater e definir agenda do movimento no segundo semestre de 2020, em São Gabriel da Cachoeira (AM)
Participantes da XXXVIII Reunião do Conselho Diretor da Foirn – São Gabriel da Cachoeira.
O Conselho Diretor da Foirn, a segunda instância mais importante de deliberações no âmbito do movimento indígena do Rio Negro, depois da assembleia geral, reuniu-se no último dia 4 de agosto para discutir e encaminhar novas datas para as assembleias sub-regionais e geral da Federação em decorrência da pandemia de Covid-19. Por recomendações das autoridades de saúde, foi necessário adiar toda a programação prevista para o primeiro semestre.
Por conta do cenário atual da pandemia no Rio Negro, a reunião do Conselho Diretor foi um evento diferente, com menos participantes e muitos cuidados para seguir as normas sanitárias. Foram realizados também testes rápidos de Covid-19 para todas as lideranças participantes e kits de higiene e proteção (álcool em gel e máscaras), incluindo o distanciamento social.
A reunião seguiu todos protocolos e recomendações sanitárias.
Durante a reunião, as discussões e debates se voltaram para o impactos do novo coronavírus nas comunidades indígenas e sobre a agenda de realização das assembleias sub-regionais e a geral da Foirn, tendo em vista que a atuação da federação e uma das suas coordenadorias regionais, a Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro (Caimbrn) abrange três municípios – São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos. Assim, pela sua extensão, a região possui diferentes situações epidemiológicas e de enfrentamento da pandemia até agora.
As lideranças presentes manifestaram suas preocupações com a realização das assembleias sub-regionais diante das condições atuais. Mas, também defenderam a importância desses eventos como espaços democráticos de escolha de seus representantes regionais, assim como da diretoria da Foirn para a próxima gestão.
Para o Coordenador do Conselho Diretor, Carlos Nery Teixeira Piratapuia, de Santa Isabel do Rio Negro, a situação no município ainda continua crítica. “Acredito que em Santa Isabel ainda não chegamos ao pico de contaminação. Diante dessa situação, precisamos avaliar e sermos cautelosos”.
O presidente da Foirn, Marivelton Barroso Baré, lembrou que para a realização da reunião do Conselho Diretor, muitos fatores foram levados em consideração, principalmente as orientações sanitárias. E que as assembleias sub-regionais e a geral também precisarão ser realizadas de acordo com essas orientações e recomendações. “Para essa reunião reduzimos os dias de reunião, participantes e as pautas a serem discutidas devido às condições que estamos por causa da pandemia”, afirmou.
Temas e novas datas das assembleias
Pandemia e os saberes tradicionais dos Povos Indígenas do Rio Negro será o tema central das assembleias, que será trabalhado nas regionais de acordo com as especificidades locais. Os jovens e mulheres terão nas suas assembleias esses temas para abordar.
Veja abaixo as novas datas aprovadas:
– Nadzoeri (Bacia do Içana e Afluentes) – 23 a 24 de setembro de 2020, comunidade de Santa Rosa – Médio Içana;
– Coidi (Médio, Alto Uaupés e Rio Papuri) – 03 a 04 de setembro de 2020, Vila São Domingos – Distrito de Iauaretê.
– Caiarnx (Alto Rio Negro e Xié, TI Balaio) – 17 a 18 de setembro de 2020, na comunidade Tabocal dos Pereira – Alto Rio Negro.
– Caimbrn (Médio e Baixo Rio Negro) – 02 a 03 de outubro, na comunidade de Canafé – Baixo Rio Negro.
– Diawii (Baixo Uaupés, Rio Tiquié e Afluentes) – 09 e 10 outubro de 2020, comunidade Matapí – Baixo Uaupés.
– Assembleias das Mulheres Indígenas do Rio Negro (Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro/Foirn)- 29 a 31 de outubro de 2020.
– Assembleia dos Adolescentes e Jovens Indígenas do Rio Negro (Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas do Rio Negro), 05 a 06 de novembro de 2020. Tema: Pandemia da Covid-19 e a Emergência Climática: Desafios para a juventude indígena do Rio Negro.
– Assembleia Geral da Foirn – 26 a 27 de novembro de 2020, Casa dos Saberes da Foirn, São Gabriel da Cachoeira.
Vale frisar que em caso de piora da situação epidemiológica na região, essas datas acima poderão ser alteradas, conforme definiu o Conselho Diretor.
É com muita tristeza que recebemos e compartilhamos a notícia do falecimento do Firmiano Lobo, conhecedor tradicional e kumu Miriti-Tapuya de Iraity, do médio Tiquié, Terra Indígena Alto Rio Negro (AM). Firmo foi mais uma vítima do Covid-19, faleceu no dia 09/07 em Manaus, aos 71 anos.
Como conhecedor tradicional participou ativamente das atividades da Associação das Comunidades Indígenas do Médio Tiquié – ACIMET e da formação dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental da região do Tiquié.
A Foirn se solidariza com os familiares e com a comunidade Iraity pela perda irreparável para os povos indígenas do Rio Negro.
Legado do Poani – Higino Pimentel Tenório aos irmãos maiores, menores Tuyuka
Dʉpo – Justino Sarmento Rezende
Foto: Raoni Valle
Dia 18 de junho de 2020, às 23h30min de Manaus, o coração do Poani – Higino Pimentel Tenório, deixou de viver nesse patamar, patamar de leite (õpekõ pati) e patamar de suco doce (tõko pati), vítima da Covid-19. Higino é um dos Tuyuka que criou uma ponte importante entre os conhecimentos considerados tradicionais tuyuka e a construção de um novo modelo de Educação Escolar Tuyuka, fundamentando-se em conhecimentos originários tuyuka e outros conhecimentos de outras sociedades.
Com esse texto faço lembranças daquilo que ele falou sobre a Educação Escolar Tuyuka. E, completo com os “extratos” de um dos assessores falou sobre essa Escola e sobre o Higino.
No ano de 2005, na comunidade Mopoea – comunidade São Pedro onde é a sede da Escola Tuyuka, eu conversei com o Higino. Higino pode fazer a sua apresentação!
Higino: eu me chamo Higino Pimentel Tenório, é nome dos brancos. Nome do benzimento da minha alma segundo os costumes de nossos avós é Poani. Eu estou chegando numa idade de maturidade, tenho cinquenta e um anos de idade.
Eu perguntei: Higino, como começou a ideia de construir a Escola Tuyuka?
Higino: agora eu vou contar um pouco como nós começamos a pensar e trabalhar na Escola Tuyuka para aqueles que quiserem saber desta história. Assim, quem for estudar esta história saberá contar para os outros como nós começamos. Desde o início quando nós começamos a pensar sobre a Escola Tuyuka, estava comigo o meu irmão menor (consideração étnica) Chico (Francisco) Meira, de Cachoeira Comprida (comunidade). Naquela época, nós observávamos que os estudos (escola ocidental), estavam provocando o abandono dos nossos lugares de origem, iam para colégio dos missionários em Pari-Cachoeira.
Com isto pareciam que todas nossas comunidades estavam descendo para Pari-Cachoeira. As nossas comunidades de origem estavam diminuindo muito em número de habitantes. Vendo isso, Chico Meira dizia para mim, meu irmão maior, por que nós não podemos abrir escolas aqui, como fazem os missionários, para trabalharmos aqui, ensinar para os nossos filhos ou nós não sabemos fazer?
Eu dizia para ele que, se nós fôssemos propor para os missionários que queremos fazer isso, com certeza eles aceitariam, mas só que nós não estudamos bem sobre isso, como nós não sabemos como funcionam os estudos, não dá para termos iniciativas em fazer escolas. Nós pensamos em fazer as escolas, nós pensávamos fazer escola um dia porque nós acreditávamos que a ajuda nós poderíamos encontrar. Levando este pensamento para frente, sem deixar parar, sem esquecer, falando com toda a força sobre este assunto e, se quiséssemos fazer nós encontraríamos ajuda.
Depois disso, nós criamos o CRETIART (Conselho Regional das Tribos Indígenas do Alto Rio Tiquié (1992)) com meus colegas, Anacleto (Anacleto Lima Barreto/Tukano) e seu irmão Paulinho (João Paulo Lima Barreto), pois eles queriam e propuseram criar este conselho, e eu aceitei. Eu me tornei presidente do Conselho.
Nesta época estava acontecendo o Seminário da COPIAR (Comissão de Professores Indígenas do Amazonas e Roraima), onde os professores estavam propondo ações para o governo, para as autoridades, para quem tem o poder, como os professores indígenas queriam trabalhar. Mandaram-me para lá, para escutar o que eles estavam tratando.
Eu fui neste Seminário, lá se falava sobre escola indígena, escola diferenciada, sobre a escola que queremos. Falavam, também que os estudos dos brancos, educação ocidental não estavam nos respeitando há muito tempo, há quinhentos anos que a língua dos brancos vinha destruindo as nossas línguas, pensamentos de nossos avós, conhecimentos de nossos avós, cantos/danças de nossos avós e os pensamentos que lhes ajudavam a viver bem. Isto estava acabando cada vez mais conosco e nós estávamos ficando cada vez mais desrespeitados. Lá falaram que nós devemos ter forças, pois há muito tempo que os brancos nos humilham e com isso nós somos desrespeitados. Ao ouvir o que eles falavam, eu dizia: entre nós também é assim, dizia que eu já pensava daquela forma, que existem os meus parentes que falavam da necessidade de fazer isso, permanecer nas nossas aldeias.
Eu comecei a pensar que se pensarmos em fazer isso, dá para conseguir fazer. Depois eu participei de vários seminários. Até há pouco tempo, antes de começar a Escola Tuyuka eu participava, ainda. Este tempo foi logo depois que tinha sido aprovada a nova Constituição Federal, em 1988 pelos deputados e Congresso.
Depois disso, passados dez anos, isso só ficou escrito no papel e não foi realizado na prática. Lá tinha muitas conversas, falavam demais, propondo como iriam trabalhar, mas ficava só no papel. Não estavam trabalhando para concretizar. Um dia eu pensei comigo, eu vou concretizar isso, para ver o que vai acontecer.
Eu voltava dos seminários para a aldeia e falava para os meus parentes o que havia sido tratado nestes seminários. Dizia para eles que as coisas estavam melhorando, pois nós mesmos precisamos criar nossas escolas, para ensinar com a nossa língua, ensinar a ser aquilo que os nossos avôs eram, também aprender os conhecimentos dos brancos e saber o que destes ensinamentos nos podem ajudar, precisamos aprender a selecionar os conhecimentos dos brancos, mas a nossa cultura não se deve perder. Por isso, devemos estudar em nossa língua, escrever em nossa língua. Como nós temos mulheres do povo tukano, os nossos filhos só falavam a língua tukano e a nossa língua tuyuka estava acabando cada dia.
Vendo isso, eu disse para os meus parentes o que estava passando conosco e propus criar uma Escola Tuyuka. Algumas pessoas não queriam me acreditar diziam que eu estava falando à toa e que não iria conseguir fazer nunca, como é que iria ensinar uma coisa dessas, se muito tempo antes já se tinha sido jogado fora, se os brancos mandaram jogar fora, era sinal de que não era coisa boa, a nossa língua era má, que isto era coisa de índios, por que nós teríamos que escrever em nossa língua e ensinar para os nossos filhos, estes pensamentos que estavam presentes nas pessoas?
Dentro deste tempo, no ano de 1995, quando eu era ainda presidente do CRETIART convidaram-me para ir à Áustria. Naquela época, os brancos do outro lado, falavam muito sobre estes temas indígenas. Diziam para não esquecermos a nossa cultura, pediam para que nós estudássemos a nossa cultura. Diziam que no passado eles tinham feito muito mal para nós indígenas, diziam também que, hoje, não era mais assim. Hoje era para levar outros pensamentos, e, que nós precisamos estudar a nossa cultura, crescer em conhecimento da nossa cultura. Eles insistiam muito conosco sobre isso. Eu falei lá, disse o que eu havia pensado (Escola Tuyuka) e me disseram que a ajuda nós teríamos.
Vendo isso, eu voltei muito animado e chegando à aldeia disse que vamos trabalhar do jeito que tínhamos pensado, pois já estava bem melhor e os brancos iriam nos ajudar. Disse também que a dificuldade estava na aldeia, mas com a ajuda deles nós começaríamos ensinando para os nossos filhos a escrever em nossa língua e era isso que era preciso estudar. Quando eu falei isso, muitas pessoas não gostaram. Eles diziam que eu estava falando à toa e que nós nunca chegaríamos a estudar daquela forma, diziam que com as nossas coisas nós não chegaríamos aos outros conhecimentos como a de saber pilotar um avião, coisas deste tipo. Diziam que a nossa cultura não é para escrever e que mesmo estudando a nossa cultura nós não conseguiríamos conquistar outras coisas.
Antes ainda, quando tínhamos decidido ensinar sobre a nossa cultura, José (José Barreto Ramos) foi fazer um curso. Ele disse para mim que no curso haviam dito que tinham que ensinar a nossa cultura. Eu disse para ele, titio é bom ensinar mesmo a nossa cultura. Assim, ele trabalhou durante dois anos, alfabetizando as crianças. Depois ele desanimou, não teve um bom final.
Quando nós começamos a escola aqui nós discutimos como se podia trabalhar. Os nossos filhos falavam só a língua tukano e decidimos ensinar a falar a nossa língua, isto os pais gostaram. Disseram que isso era necessário, pois a nossa língua estava desaparecendo, disseram, vamos ensiná-los. Somente nós adultos estávamos falando a nossa língua, os novos não falavam mais, como Geraldino (Geraldino Pimentel Tenório) começou a falar já jovem, também Rafael (Rafael Marques Tenório) começou a falar já jovem, também as filhas do Feliciano (Feliciano Tenório) começaram a falar a língua tuyuka com a Escola Tuyuka.
A língua tuyuka não existiria mais, pois já estava acabando. Por isso, nós trabalhamos com isso. O meu pensamento era este: nós não vamos morrer, nós podemos morrer se perdemos a nossa língua, se perdemos a nossa língua nós podemos morrer, pois com a língua dos outros nós não podemos falar aquilo que os nossos avós falavam.
Hoje em dia eu vejo, às vezes chegam alguns brancos perto de mim, antropólogos e quando tem festa eles me perguntam o que eles estão dizendo na festa. Só que não dá para explicar certo o que está acontecendo, o que estão dizendo, pois com a língua do outro não conseguimos explicar bem o sentido das coisas. Só dá para dizer superficialmente que estão oferecendo o ipadu, não conseguimos explicar em profundidade o que ele está dizendo em nossa língua, com a língua do outro não dá para explicar.
Foi sobre isso que nós trabalhamos muito aqui, como dizem os brancos, sobre o fortalecimento da identidade cultural. Primeiro nós queríamos fortalecer a nossa língua. Sobre isto nós trabalhamos aqui na Escola Tuyuka. Esse é o mais importante. O fortalecimento da língua exigia que falássemos a nossa língua tuyuka e escrevêssemos em língua tuyuka.
Os dois elementos tinham que andar juntos, falar e escrever. Por isso, o nosso trabalho está saindo certo. Hoje, nós vemos que os alunos e os professores sabem escrever e falar a língua tuyuka. Por isso, nós professores observamos que nós estamos nos fortalecendo, estamos conseguindo, estamos acertando trabalhar com a nossa língua. Esta parte recebeu muita dedicação por nossa parte. Nós escrevemos e estudamos os nossos conhecimentos com a nossa língua. Todos os alunos aqui sabem as histórias. Foi o que nós estudamos mais, falam e escrevem, sabem algumas coisas sobre os conhecimentos dos anciãos, histórias dos anciãos, sabem as nossas histórias, história dos outros, sabem algumas histórias dos brancos.
Alguns já haviam estudado sobre a história dos brancos. Por isso, por terem já estudado na outra escola, sabiam as histórias da chegada dos brancos. Daqui para frente será diferente, se eles quiserem saber as histórias dos brancos, aí teremos que ensiná-los. Quem concluiu agora, como já conheciam a cultura dos brancos, não pediram muito para que ensinássemos sobre isso. Mas o que eles precisavam era saber falar em português e isso nós lhes ensinamos nesses anos. Eles quiseram aprender dizendo que não queriam passar vergonha, aonde chegassem gostariam de saber falar a língua portuguesa com os brancos.
Outros queriam aprender por entender que eles podem seguir estudando nas cidades, por isso, queriam aprender a falar a língua portuguesa, disseram mais, que a língua tuyuka eles já sabiam escrever. Nós concordamos com a visão dos alunos, pois com a conclusão do quarto ciclo não sabemos tudo e propomos estudar mais um pouco, mais três anos, nestes anos aprenderiam a língua portuguesa e aprenderiam a trabalhar, foi assim que começamos o chamado quinto ciclo. Como nós não temos professores para o ensino médio, o que propomos foi de acrescentar os conhecimentos. É isso que estamos fazendo. O que nós pensamos é ir estudando, ensinando durante três anos, depois que eles saírem com os conhecimentos nós vamos mostrar para o governo como nós trabalhamos, o quanto nós trabalhamos, mostrar o currículo com o qual trabalhamos, mostrar como através do estudo feito, os nossos parentes, estão vivendo melhor, é isso que queremos mostrar para o governo. Já mostramos para ele com o nosso trabalho até oitava série, aquilo que nós chamamos de quarto ciclo, se der certo, também com o ensino médio, queremos mostrar como nós Tuyuka pensamos para que, quando quiserem criar ensino médio indígena nós tenhamos um modelo, um desenho de como seria um ensino médio indígena, o que nós queremos é contribuir.
Higino, diga alguma coisa sobre como chegaram os assessores de vocês pela primeira vez?
Higino: um tempo atrás, chegavam vários antropólogos nesta região, chegavam a diferentes lugares e com diferentes famílias. A antropóloga Dominique (Dominique Buchillet) trabalhou com os Desana. Um dia eu perguntei para ela o que realmente ela vinha estudar. Ao ouvir isso, ela perguntou se eu também estava querendo algum antropólogo. Ouvindo isso eu disse que nós Tuyuka também queríamos, mas nenhum antropólogo chegava com a gente.
Aí ela disse, tem um em São Paulo, eu sei quem é ele está fazendo mestrado. Disse que o nome dele era Aloísio e perguntou se eu o queria. Ela disse para mim que se eu o quisesse que eu escrevesse uma carta. Eu aceitei e convidei, ele chegou um dia. Ele veio de motor, conseguiu a passagem, chegou aqui. Então ele começou trabalhar aqui, como ele queria, por longo período, durante três anos ficou conosco.
Naquela época circulavam muitos comentários dizendo que os antropólogos eram maus, que os antropólogos gostavam de roubar, que levavam os nossos conhecimentos para fora e lá eles ganhavam dinheiro com isso. Sabendo disso, eu fiquei pensando que este também faria a mesma coisa. Por isso, eu disse para ele: Aloísio nós vamos fazer um acordo entre nós, você veio estudar a nossa cultura, eu também quando você terminar o seu mestrado eu quero ser antropólogo. Você me ajuda a subir, porque eu que irei ensinar mais a você. Ele concordou que seria assim. Eu disse a ele, você veio para trabalhar conosco.
Pensamento sobre escola nós já tínhamos. Eu disse a ele: nós estávamos pensando em fazer a escola. Ele disse: está bem, se quiserem fazer tal escola, eu vou ajudar a vocês, com algumas coisas que vocês precisarem ou se quiserem minha assessoria eu vou ajudar mostrando como devem fazer. Disse, essa será a forma como eu ajudarei a vocês. Eu disse a ele, o seu compromisso conosco será este, que você vai nos deixar só quando nós entendermos bem e depois que nós tivermos estudado bem. Se você nos deixar na metade do trabalho não irá prestar entre nós, pois nós iremos denunciar a você. Ele disse: está bem, não farei isso com vocês. Por isso, o trabalho de assessoria começou com ele.
Naquela época não existia o Instituto Socioambiental (ISA) aqui, faz pouco tempo que começou aqui. Enquanto ele estava trabalhando aqui, depois de dois anos chegou a mulher dele. Ela, a dona Flora, sendo uma mulher, ela nos explicou muito melhor como nós deveríamos trabalhar, organizou, mostrou como nós deveríamos trabalhar.
Depois disso a FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) organizou como seria a assessoria. Em Noruega, eles falaram como o governo brasileiro, embora tivesse lei que tratasse da educação indígena, continuava fazendo a mesma coisa como vinha fazendo há séculos. Falaram que, embora haja lei que trata sobre a Educação Diferenciada, o governo fazia a mesma educação (ocidental). Lá contaram como haviam pensado em construir as escolas indígenas, ouvindo isso os membros da RAINFOREST (NORWEGIAN RAINFOREST FOUNDATION) se dispuseram a ajudar com dinheiro e pediram para fazer projeto. Foi quando fizeram um projeto chamado Projeto de Educação do Rio Negro e enviaram para lá. Por isso, o dinheiro chegava na FOIRN.
Nós tínhamos um pensamento, a dona Flora nos contou como estava organizado. Ela nos convidou para falar sobre isso na FOIRN. Naquela época o presidente era Brás França, mas naqueles dias, houve eleição e foi eleito o Pedro Garcia. Vendo isso, nós propusemos uma forma de arrancar o dinheiro para a nossa Escola, iríamos ver quanto nós precisaríamos, fizemos aqui mesmo o que nós iríamos precisar para apresentar na FOIRN. Assim surgiu o chamado Projeto Tuyuka, que é componente da FOIRN, do Projeto de Educação do Rio Negro, também hoje está dentro disso.
Só o dinheiro que é descentralizado. A coordenação da FOIRN passou para nós a administração do dinheiro do Projeto Tuyuka, no início não queriam. Nós é que pedimos que nós mesmos, poderíamos administrar o dinheiro, pois assim nós aprenderíamos a administrar e, dissemos para eles que se eles ficarem administrando por nós, nós nunca iríamos aprender. Eles concordaram e, por isso, mesmo que seja um mesmo programa, o dinheiro para Projeto Tuyuka já vem separado de Noruega. Assim que começou a questão da assessoria. Naqueles dias, para serem assessores, a Flora entrou no ISA. Por isso, a dona Flora nos assessorou muito bem.
Nós não conhecíamos tão bem como o governo era. Eles disseram para nós, que iríamos sentir dificuldades, ficaram de ajudar naquilo que fosse difícil para nós, e os trabalhos que fossem fáceis, nós continuaríamos fazendo. Eles ficaram de nos ajudar nas questões de negociação, burocracia, iriam ajudar com os papéis e disseram para nós trabalharmos com o que nós sabíamos trabalhar. Eu disse: está muito bom, nós não sabemos destas coisas dos brancos, vocês é que sabem destas coisas, vocês são netos de quem sempre falou disso, conversem entre vocês, a nosso favor, e, para nós está bem o que nós queremos trabalhar, nós vamos trabalhar aqui. Assim surgiu a assessoria.
Perguntei ao Higino: e a Prefeitura Municipal de São Gabriel da Cachoeira como fez com os estudos de vocês na questão de reconhecimento?
Higino: os prefeitos sempre mudam rápido. Com as suas mudanças, muitas vezes, as coisas ficam difíceis. Aqui apareceu um que pensavam bem sobre a escola indígena, Amilton (Amilton Bezerra Gadelha, 1997-2000). Mesmo considerado ruim por muitos, ele tinha boas ideias sobre a escola indígena e apoiava a educação indígena. Ele havia feito a Lei Orgânica (do Município), tinha estabelecido o plano de carreira dos professores indígenas, havia criado a categoria de escola indígena. Logo depois que terminou o mandato dele, entrou outro (Raimundo Quirino Calixto, 2001-2004), este já não quis mais saber disso.
O primeiro reconhecimento da nossa escola aconteceu, não por vontade política dele, mas por causa de nossa pressão, nós pressionamos, falamos que nós queríamos, pois isto estava garantido na lei, por isso, reconheceram. A secretária municipal de educação daquela época não queria nem saber, ela dizia que nós não deveríamos ser diferentes dos outros, e, nós dizíamos para ela, que a lei amparava a nossa prática, nós levávamos para ela os nossos trabalhos para mostrar o que estávamos fazendo, vendo isso, começou a acreditar no nosso trabalho, foi com o prefeito para pedir o reconhecimento, criação da escola indígena, ato da criação da nossa escola. De repente, sem a gente esperar ela nos entregou, dizendo que a nossa escola já possuía o ato de criação, assim ela nos entregou, no dia 25 de março de 2001.
Ali aconteceu o primeiro passo para o reconhecimento da nossa escola. Mesmo depois disso continuamos tendo dificuldades e dessa vez era a respeito do termo Escola Diferenciada. Os assessores diziam para nós que quando se denominam uma Escola Diferenciada, ela terá que ser diferente em tudo, no boletim de notas e nas frequências dos alunos e vocês que devem definir como marcar as frequências, como trabalhar com as notas. Se decidirem não dar notas devem encontrar outra forma, vocês é que deverão encontrar uma forma, diziam para nós. Esses elementos ficaram muito tempo sem serem reconhecidos.
Na Secretaria (da educação do Município) nos diziam que queriam as notas dos alunos e que nós tínhamos feito de qualquer jeito e daquele jeito não queriam. Nós dizíamos, para nós não é assim, nós trabalhamos na Escola Diferenciada, esta forma de trabalhar é que nós organizamos e nós estamos obedecendo a isso, nós decidimos que usaremos o sistema de avaliar o aluno com o parecer descritivo. Nós estamos obedecendo a isso, dizíamos. Vocês é que não estão querendo nos obedecer, esta forma de trabalhar é à vontade das pessoas da comunidade, vocês é que não obedecem. Depois de ficar dizendo isso por muito tempo acabaram aceitando.
Também não queriam reconhecer a nossa Política Pedagógica, por isso, há pouco tempo atrás resolvemos na base da pressão. Promovemos uma audiência pública. Discutimos por que nossa Escola não recebia nenhuma assistência e a merenda escolar não chegava bem, chegaram muitas pessoas da SEDUC e do Ministério da Educação. Por isso, há pouco tempo atrás pressionamos para que reconhecessem a nossa Política Pedagógica. Parece que nestes últimos dias reconheceram nossa Política Pedagógica, eu também não vi, ainda. Agora que a prefeitura, com a nova secretária da educação (Irmã Edilúcia de Freitas) que começa a reconhecer os nossos trabalhos aqui no município, pois a nossa escola é municipal. Lá no MEC faz tempo que está reconhecida, eles sabem que o nosso trabalho está sendo bem desenvolvido. A dificuldade está perto de nós (no município), a dificuldade está aqui no começo.
Higino, como acontece o processo de Ensino-Aprendizagem na Escola Tuyuka? Como é que vocês estudam mesmo?
Higino: a ideia que tivemos era que os alunos estudariam, mas imaginamos de que forma eles aprenderiam melhor. Nossa forma de aprender funciona através de pesquisas, professor será pesquisador, o aluno será pesquisador, nós não seremos professores, mas ensinaremos aos alunos aquilo que sabemos. Aquilo que nós não soubermos, o nosso parente ancião sábio será como professor, ele virá aqui e nos ensinará, esta era a nossa ideia. Também os alunos quando não souberem eles vão pesquisar. Pesquisam em casa. Depois trazemos para sala de aula, eles mostram como eles trabalharam. O professor avalia o trabalho e às vezes, quando o trabalho não está bem feito, pede para pesquisar novamente, e, eles vão.
Assim nós trabalhamos, mas como nosso trabalho está iniciando nós não temos livros escritos, mas os nossos conhecimentos estão somente na memória, nós nos tornamos pesquisadores. Os alunos trabalham com aquilo que antes nada estava registrado. Nós aprendemos pesquisando, aquilo que o professor não souber, ele vai pesquisar com os anciãos, mesmo sendo professores somos pesquisadores. Os alunos pesquisam junto aos anciãos. Nós também para explicarmos melhor aos alunos vamos pesquisar com os anciãos. Os anciãos ficam na escola, eles não estudaram nas escolas, mas são pessoas que já construíram conhecimentos, se pensarmos bem, eles que são verdadeiros professores. Esta que é a realidade.
Higino: de onde vocês ouviram dessa forma de trabalhar ou foram vocês mesmos que criaram?
Higino: a assessoria disse para nós que, também entre os brancos existem as chamadas Escolas étnicas. Dizem que em São Paulo existe uma escola, uma escola dentro da realidade, escola do operário, escola dos favelados, onde eles trabalham com a realidade deles. Disseram para nós que devíamos trabalhar com a nossa realidade, com a cultura de nossos avós, com os pensamentos de nossos avós, com os trabalhos de nossos avós, perguntando, pensando, escrevendo, trabalhando, descobrindo como eles faziam, isso seria para nós uma vida. Por isso nós trabalhamos com isso.
A nossa vida aqui está boa, por isso, nós pensamos nisso, ajudar a mãe, ajudar nos trabalhos, vai estudar. Aqui nós lecionamos durante quinze dias, quando precisamos mais tempo chegamos até vinte dias. Depois de vinte dias nós mandamos os alunos para suas famílias. Se nós ficarmos muito tempo com eles, eu já via, pois uma vez eu deixei a minha filha no colégio dos missionários, porém deixei-a aos cuidados de uma família, quando eu fui buscá-la e trouxe de volta para casa, ela havia esquecido aquilo que ela ajudava a mãe, esqueceu quase tudo, estava preguiçosa, quando pedia para varrer a casa, não queria mais varrer. Ela havia ficado como aluna externa, talvez a família onde ela morava não mandava fazer as coisas, pois os filhos dos outros sempre causam medo.
Por isso, aquilo que faz parte da vida dela, ela havia perdido. Por isso, sabendo destas experiências, nós ensinamos e liberamos para voltarem para as suas famílias. Nós não queremos que os alunos percam o ritmo da casa, se concentrarmos os alunos aqui durante um ano, nós estaríamos estragando os filhos dos outros, com estes pensamentos é que nós trabalhamos de forma diferente.
O que os professores da Escola Tuyuka ensinam? Como é que eles ensinam?
Higino: os professores na escola dos brancos, eles usam um currículo disciplinar, dão aula a partir daquilo que já vem determinado. Quem ensina matemática só ensina matemática, quem ensina português só português, quem ensina geografia só geografia, ensina o conteúdo que já vem preparado. Por isso, os professores que estão aqui, no início como não tinham livros, pareciam que não sabiam ensinar, nesta escola diferenciada. Eu observei os professores que trabalham comigo e, eles diziam, nós não temos livros, como é que nós podemos trabalhar. Aqui não é mais como era lá, pois aqui num mesmo tema já estão presentes, aquilo que os brancos chamam de temas transversais e interdisciplinares, é isso que tem aqui.
Quando um professor está falando de um tema, lá também está matemática, geografia etc. É neste ponto que nós professores sentimos muitas dificuldades. Quem já trabalhou como professor durante vinte anos, segundo o modelo dos brancos, acostumado a sempre repassar os assuntos, ele já estava muito acomodado e sua cabeça já estava acomodada. Ele era como alguém a acostumado a comer comida já preparada no prato, se não tiver este prato pronto ele iria passar fome, fome de sabedoria e fome de conhecimento. Este professor tinha se tornado um professor preguiçoso. Até hoje, alguns professores têm as mesmas dificuldades, ainda não compreendem, pois eles tinham se tornado como um aparelho de gravação. Gravavam os conteúdos dos livros, quando acabava aquele livro não sabiam mais onde encontrar outros conteúdos.
Lá na escola dos brancos, a gente dá aula o que foi dito que se deve dar naquele dia. Quando o aluno não aprendia tínhamos que bater e dar os cascudos. Aqui não é mais assim. O professor tem que consultar ao aluno sobre o que ele quer aprender, depois que o aluno diz o que ele quer aprender, o professor quando não souber um tema ele deve dizer que não sabe e convidar o aluno para sair para a pesquisa. Atualmente nós pensamos em trabalhar assim. No passado não existia isso, o professor era aquele que sabia e os alunos eram aqueles que não sabiam, o professor estava ensinando para quem não sabia. Aqui é diferente, aqui o professor deve dizer que não sabe de um tema, ele sabe pesquisando, ele deve dizer para o aluno, vamos pesquisar juntos.
Higino, como é que os alunos aprendem no Processo de Ensino-Aprendizagem na Escola Tuyuka?
Higino: no tempo de estudos, quem quiser conhecer vai pesquisar. Aqui nós não ficamos acompanhando de perto, não ficamos controlando o aluno. Nós deixamos que os alunos possam voltar para as suas casas, mas falamos para que eles estudem. Pedimos que quando forem para casas mostrem para as mães, o que estudaram, o que aprenderam a plantar, aprendam a viver com aquilo que aprenderam.
Outra coisa que trabalhamos em qualquer lugar é sobre o lixo e sobre as doenças, de acordo como eles pediram. A meu ver os alunos já aprenderam demais sobre o lixo (coleta de lixos), em qualquer que você entrar não vai encontrar lixo. Os estudos que fazemos devem gerar a vida. Por isso, nós estudamos o que vai trazer a vida para as pessoas. Eles vivem isso, aqui na Escola como nas suas casas, acrescentam seus conhecimentos com a prática. Também com relação à plantação acontece a mesma coisa. Sobre as leis também, eles conhecem as diversas leis que falam sobre a educação, sobre os seus direitos. Por isso, em qualquer discussão eles sabem falar a partir do conhecimento da lei.
Higino, as pessoas das comunidades como é que elas faziam para ajudar em vossos estudos aqui na Escola Tuyuka?
Higino: os moradores das aldeias ajudavam ensinando e vendo. Para mostrar que os alunos estavam aprendendo, nós convidamos os moradores da aldeia para que participem das exposições dos trabalhos dos alunos e que os alunos iriam explicar para os moradores sobre os temas estudados. Depois que acabavam de explicar, a comunidade ia entendendo como funcionava uma realidade, e, chegando a casas eles ajudavam aos seus filhos, lembrando para o filho o que ele havia falado na exposição, perguntavam se estava lembrado do que falou. Assim os pais ajudavam no crescimento dos conhecimentos de seus filhos.
Também a comunidade e o capitão (líder da comunidade) lembravam para eles do que eles falavam na exposição, e, lembravam para eles do que ainda falta para aprenderem. Assim que funciona, se não fizer isso, não funciona. Quando não se apresentavam os trabalhos para a comunidade, a comunidade parece que não ajuda. A meu ver, a apresentação dos trabalhos na comunidade é muito importante. Quando tem a exposição os moradores da aldeia participam e depois ajudam a lembrar do que falaram. Quando não apresentam os trabalhos à comunidade fica alheia, como se não estivesse sabendo nada dos alunos, assim eu vi. Durante este ano (2005) esta parte foi fraca aqui, no ano anterior nós trabalhamos muito nesta parte. Por isso, a comunidade ajudou muito aos alunos no ensino.
Higino, aqui que se estuda aqui como ajuda na vida das pessoas e das suas comunidades?
Higino: antes de começar a Escola Tuyuka eu vivia muito isolado, sozinho mesmo, vivia individualmente. Hoje com a Escola, como dizem os brancos, tenho mais vontade, sinto como membro. Eu vejo que os meus parentes querem crescer e veem o que está melhorando com a Escola, com os estudos começamos a pensar juntos, começamos a viver juntos, estamos juntando de novo, formando uma comunidade, uma coletividade.
A nossa Escola Tuyuka está provocando o bem estar entre nós, com isso eu me sinto muito respeitado e me faz sentir bem. Da mesma forma a língua tuyuka, a língua foi a meu ver a maior conquista. A língua tuyuka voltou a ser mais viva, estamos começando a viver e a Escola influenciou muito para que isso acontecesse. Os moradores da comunidade de Assunção (Onça-igarapé) só falavam a língua tukano, não dava para conversar bem com eles, mesmo sendo um Tuyuka tinha falar em língua tukano. Hoje não tem mais isso, a Escola influenciou muito para a volta da língua tuyuka, linguisticamente tornamos fortes.
Os alunos que estudaram aqui, quando são convidados para trabalhar por uma família e pela comunidade, trabalham com muita alegria. É isso que eles ajudam mais. Nós vemos que eles ajudam a suas mães com alegria. No dia do trabalho comunitário eles que chegam por primeiro, ajudam nos trabalhos, nunca faltam ao trabalho. Nos anos anteriores não era assim. Quem estudou em Pari-Cachoeira dizia: eu iria trabalhar com a comunidade se eu estivesse sendo pago, se eu fosse pago iria ajudá-los. Este tipo de pensamento não existe, hoje. Nós percebemos muito isso. Está começando a fortalecer, mas é preciso insistir mais, ainda. Se esquecer de insistir será fácil acabar novamente.
Antes do começo da escola era muito ruim em dias de festas. Enquanto nós tocávamos e dançávamos cariço aqui com a comunidade (Casa Comunitária) os jovens entravam em outra casa, tocavam a música dos brancos para dançar. Hoje em dia não existe mais aqui. Não há quem fica querendo dançar outras músicas, ficamos num mesmo lugar. Quando está acontecendo danças tuyuka, todos estão dançando lá, uns tocam/dançam o cariço, todos os meninos/as. Por isso, eu insistia muito com eles, nós pessoas humanas temos que ser corretos. Quando acontecem danças dos brancos, vamos todos dançar e nos alegrar, se têm danças tuyuka vamos todos participar e alegrar. Quem não gosta, também deve ficar lá, se gostar de alguma música participa. Por isso, as festas aqui estão funcionando bem. Só não vai quem está adoentado. Temos dias para dançar as músicas dos brancos, dias do caxiri e de nossas tradições. Hoje eu vejo assim, antes não existia isso.
Higino, segundo a sua visão por que eles começaram a gostar disso?
Higino: a meu ver, o fato de gostar de nossas tradições depende muito dos pais. Se o pai mostra que aquilo é nosso e que precisamos valorizar isso, todos de sua família irão gostar. Se um pai de família começa a dizer que as nossas tradições não prestam, todos os seus filhos não irão gostar. Por isso, o meu ver os adultos que colocam o valor. A Escola precisa colocar o valor das tradições, pois os alunos estão olhando para nós, por isso o professor tem que colocar como valor a nossa cultura e os pais, também. Parece que assim funciona melhor.
Higino, depois que começou a Escola Tuyuka como é que você se sente sendo Tuyuka?
Higino: depois de seis anos eu me vejo assim. Eu estou vendo que o que eu pensei está saindo corretamente, é sentimento de que acertamos e fico feliz porque está bem. Eu vejo que sobre o que eu havia pensado, concretizamos e deixei pensamentos para os meus parentes, eu acertei trabalhar com isso, não sozinho, mas com a ajuda dos meus colegas professores e com a ajuda das comunidades acertamos tudo isso, penso comigo. Eu não saberia dizer como pensam os outros, mas eu penso que acertamos, mas depois destes seis anos é necessário ir fortalecendo os ideais, mas digo também que vai ser fortalecida porque muitos estão estudando, outros estão estudando na universidade, seremos mais fortes posteriormente, todos seremos fortes. Penso comigo, no início, eu andava falando sozinho, o que eu dizia para alguém ou para os outros, agora está concretizado, e, os meus parentes sabem do que já existe.
Higino, e as mulheres de outros povos Tukano, Desana, Bará, Yebamasa como é que elas ajudavam na Escola Tuyuka?
Higino: nossas mulheres tukano no início perguntavam, por que, nós queríamos estudar as coisas detestáveis dos Tuyuka. Depois que começou a Escola, elas falam que nós estamos estudando o que é nosso. Elas (tukano) continuam falando a língua delas, mas não sabem falar a nossa língua tuyuka. Mas mesmo assim ajudam dizendo que nós estamos falando a nossa língua, que são coisas nossas.
Elas dizem que é isso que vocês precisam fazer, são riquezas de vossos avós. Elas dizem que querem o bem dos seus filhos, que falem na língua deles, que aprendam a trabalhar e vivam bem. Elas querem o bem dos filhos, dizem para os filhos estudarem, dizem que é de vocês, estudem bem. Dizem para os seus filhos não desanimar. Com isto elas ajudam bastante. As mulheres sábias, quando vão pesquisar com elas, elas informam sobre o que sabem e dizem como é. Sobre os trabalhos, elas dizem como se deve trabalhar. As mulheres que ouviram conhecimentos do pai, dizem, o meu pai me falou assim. As mulheres Bará são diferentes das tukano, elas falam só a língua tuyuka, parece que elas gostam mais da nossa língua. Da mesma forma as mulheres Yebamasa falam a língua tuyuka.
Higino, um dia desses, você me disse que, mesmo que esta escola seja uma Escola Tuyuka, pessoas de diversos povos estudam aqui nesta Escola. E, você disse também que está pensando noutra realidade que trata da educação intercultural. Como você está vendo essa questão?
Higino: aqui, a respeito de trabalhar com as pessoas de diversos povos, atualmente temos pouca coisa preparada. Falamos para os professores que durante as aulas, para que os alunos de outros povos não esqueçam suas línguas, devem dar um espaço (tempo), peçam para que eles falem nas suas línguas ou quando chega alguém de seu povo pedir que entre na sala, que conte suas histórias e que conte em sua língua, para quem é Yebamasa e Bará.
Esta é a forma com a qual trabalhamos, por enquanto. Mesmo pensando assim, nós ainda não conseguimos uma forma melhor para trabalhar com a questão da interculturalidade, não conseguimos preparar, ainda, está difícil para nós. Quem sabe daqui para frente (com ensino médio) é que vamos pensar melhor, como ensinar nessa situação ou dividir em grupos por etnias, mesmo estudando na mesma escola, para que eles não esqueçam suas línguas e evitar o etnocídio. Essa realidade que preocupa para quem é coordenador, dá medo, pois nós pensamos em estar repetindo a mesma coisa que fez a educação ocidental?
Na Escola Tuyuka, somente a língua tuyuka vai ter a primazia, supremacia, superioridade, desrespeitando outras línguas? Se pensarmos assim aqui está o risco que futuramente pode ocorrer, levando a outros dizerem que a Escola Tuyuka fez isso com outras etnias, isso pode causar vergonha para nós. Está assim no momento, nós nos preocupamos com isso, mas não temos um método que nos ajude a trabalhar melhor com esta questão.
Higino, se compararem os estudos dos brancos e os estudos daqui onde está diferença?
Higino: para nós, o que podemos dizer que é novidade é o fato de termos decidido e construído uma política educacional. Nós mesmos fizemos isso, professores e comunidade, eles decidiram o que deveria ser ensinado. Outra novidade é fato de estarmos trabalhando somente com professores Tuyuka, se queremos admitir o outro, ele tem que ser alguém que fale a nossa língua. Outra novidade trata sobre a nota. Nós não temos a frequência (chamada dos alunos). Nossos alunos não faltaram nenhum dia de aula, mesmo que não tenha a frequência, este é o melhor modo que temos.
Na escola ocidental nós íamos para aula com medo de levar falta. Essa escola é diferente, os alunos não têm medo, não existe a falta. Nós ensinamos a gostar da Escola, ensinamos coisas boas. Nós falamos para eles, venham estudar com gosto, pois nós vamos ensinar para eles o que será para vida deles, por isso, eles vêm. Nota nós não damos, pois sabemos que toda pessoa é conhecedora das coisas. Um sabe nadar, outro sabe pescar, ao nosso modo de ver a nota não olha para a questão do saber do aluno, mas somente aquilo que ele fez naquele momento (prova, trabalho). A nota exclui outros conhecimentos que a pessoa possui.
Higino, no início, vocês pensaram uma forma para ensinar aos seus filhos, para que eles conseguissem aprender certas coisas. No seu modo de ver, depois dessa primeira que turma que terminou, pode se dizer que vocês atingiram o objetivo?
Higino: para nós, o que nós queríamos muito era fortalecer a nossa língua, aquilo que nos deixava como mortos, já conseguimos concretizar, acertamos mesmo em fazer esse trabalho de recuperação da nossa língua. Se nós não tivéssemos feito isso, nesse ano já não existiria mais a nossa língua. Essa conquista é que nos dá prazer de dizer que somos Tuyuka, falantes de nossa língua tuyuka e podemos dizer que falamos a nossa língua. Com isso podemos dizer que estamos vivendo de novo.
Higino, quando as pessoas de outros povos, pessoas de outras regiões, quando os brancos vão conhecendo os vossos trabalhos como você pensa sobre isso?
Higino: nós estamos servindo como referências de trabalho nesse campo para os outros. Veja você, que o que nós pensamos e o que nós trabalhamos já estão indo à região do Pirá (Pirá-Paraná/Colômbia). Eles levam para lá o que trabalhamos aqui. Dizem que vão trabalhar como nós trabalhamos aqui. Diante disso eu penso assim: se mostrarmos os nossos trabalhos, um dia será que os indígenas vão mostrar para os brancos os seus trabalhos, seus conhecimentos, mostrarão que são fortes, que são respeitados pelos brancos? A partir do que nós mostramos para os brancos, eles nos respeitam, eles dizem que nós sabemos, antes eles diziam que nós não sabíamos nada, diziam que éramos pessoas sem sentimentos, que éramos ruins, que nós não tínhamos conhecimentos, mas agora eles vendo o que nós fazemos e espalhando as notícias de nossos trabalhos estão nos ajudando, eu penso assim.
Concluo com os testemunhos do Professor José Ribamar Bessa Freire, são “extratos” de uma entrevista feita no dia 21 de setembro de 2006.
“Eu estive entre os Tuyuka duas vezes. Uma vez para avaliar a escola. Eu fui como avaliador dos projetos FOIRN/ISA [Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro/Instituto Socioambiental] no Rio Negro. E, um dos objetos da avaliação era a Escola Tuyuka. Depois eu fui convidado para dar uma Oficina de História, ensino de História”.
“A organização [da Escola] eu achei fantástica! Você passa quinze dias numa aldeia. Os alunos de outras três [duas?] vêm, assistem as aulas. E, voltam para casa. Passam quinze dias em casa, pesquisando, etc. Depois vão se reunir numa outra aldeia. É rotativo. Isso é muito legal”.
“Eu assisti, por exemplo, uma aula dada por uma professora, numa sala multi-seriada, onde tinha alunos de cinco e seis anos que estavam aprendendo a ler; alunos de sete, oito, nove e dez anos que já tinham uma prática de leitura e escrita. O que é que nosso Sistema Nacional de Educação e como é que ele encara isso? É impossível trabalhar, você tem que separar. Por quê? Porque a diversidade é vista como obstáculo para o processo de ensino-aprendizagem. Então, você não pode colocar pessoas que não são alfabetizadas com pessoas recém-alfabetizadas e com outros que já estão lendo e escrevendo que são maiores porque são muito diferentes. Tem de agrupar de acordo com as características comuns de cada grupo. De repente, eu vejo essa diversidade que a gente vê como obstáculos, os Tuyuka usando como recurso pedagógico. O que é que eles fizeram? A professora pediu para as crianças que não sabem ler e escrever, que estavam aprendendo, para entrevistarem os velhos para trazerem histórias, narrativas dos velhos. As crianças vieram no dia seguinte e contaram as narrativas que elas tinham ouvido. Enquanto elas estavam contando, quem sabia ler e escrever escrevia as histórias que as crianças estavam contando. A professora pegava e corrigia a escrita, e usava este texto para alfabetizar os alunos. Então, digamos que há uma relativa harmonia naquela forma de trabalhar a diversidade dentro da sala de aula. Isso é achei fantástico!”
“Como já disse a Escola Tuyuka não se enquadra dentro do que chamamos de Escola Bilíngue. Ela é uma Escola Monolíngue. Que lindo! Meninos de cinco e seis anos, lendo e escrevendo em tuyuka fluentemente. Na oficina que eu dei depois, foram alunos de nove e dez anos que fizeram registro. Você precisava ver a capacidade de escrever tudo em tuyuka! E, depois eles pegavam aquilo ali e falavam em tuyuka e alguém traduzia para mim, pois eu não domino a língua [tuyuka]. Mas eles estão insistindo na questão da língua. Eu perguntei do Higino [Higino Pimentel Tenório – diretor da Escola Tuyuka]: mas quando essas crianças terminarem aqui o Ensino Fundamental e quiserem sair para fazer Segundo Grau, por exemplo, como é que elas vão fazer, se vocês não estão trabalhando muito a língua portuguesa? Aí ele [Higino] me disse uma coisa que eu achei fantástica, uma coisa que deveria estar presente na maioria das escolas indígenas: o objetivo da Escola Tuyuka não é formar pessoas para fazer o Segundo Grau. O objetivo da Escola Tuyuka é ensinar a trabalhar com a vida tuyuka, ensinar as crianças a viverem bem aqui entre os Tuyuka”.
“Mas, Higino, e se a criança quiser fazer o Segundo Grau? Ele disse: nós já pensamos nisso! Nós vamos fazer uma espécie de vestibulinho aqui. Pega seis meses e trabalha os conteúdos com quem quiser ir mais adiante”.
“Eu fiz outra provocação e digo: Higino, o Município de São Gabriel reconheceu o Tukano, Baniwa e o Nheengatú como línguas co-oficiadas ao Município, qual a política a Escola Tuyuka vai ter, por exemplo, em relação ao Tukano que uma língua co-oficial? Ele me deu uma resposta que eu achei genial! Disse: nós estamos esperando para ver o que é que os Tukano vão fazer com tuyuka nas escolas deles. E, nós vamos fazer exatamente com o tukano! Enquanto eles não fazem nada nós, também, não fazemos nada!”
“Higino é um sábio na área de educação porque ele acumulou tudo aquilo, que é da tradição tuyuka e, também, aprendeu nesse contato com o mundo lá de fora. Pois, eu acho que não é de desprezar esse contato”.
“Uma maloca tuyuka é uma contribuição enorme de civilização! Aquilo lá é uma coisa emocionante! Você entra, eu não estou exagerando porque eu fiz isso, você bota o braço meio-dia para fora, você está em baixo da linha do Equador. Você bota braço para fora, queima, queima o braço. É agradável isso! O pé direito [da maloca] altíssimo. O material que trabalha palha e madeira. O chão de barro batido. É uma sabedoria! Não é qualquer indivíduo, não é qualquer cultura que chega a conceber essa forma de construção! Nós não tivemos no Amazonas aquelas construções, aqueles monumentos que teve no Machu Picchu [Peru], de pedra e aquelas pirâmides do México, mas nós tivemos uma coisa que o tempo pode acabar com a palha e madeira, mas não acaba com a forma de construir. (…). Como é possível os Tuyuka, eles estão aí há séculos e séculos, olhando e observando o que é melhor. A maloca tuyuka é uma catedral. Você entra e vê aquela coisa magnífica! (…). Você entrar numa maloca tuyuka dá, também, aquela sensação de que você está na frente de uma civilização! Eu acho que essas coisas são importantes. É importante o Tuyuka ter consciência disso para começar a educar e informar a sociedade regional, nacional de que esses conhecimentos são conhecimentos que não se podem perder, pois são contribuições da civilização”.
“Eu vi a filha do Higino de 15 anos [Dulce Maria Barreto Tenório, hoje com 17 anos], tinha lá uma oficina de formação de agentes agro-florestais. Estava lá o Renato do Acre dando oficina. Eu estava com Pieter [Pieter van der Veld – agrônomo], o holandês. A gente estava lá fora. Veio a filha do Higino e chegou ao quadro e ela foi listando 68 variedades de mandioca que ela conhece. O nome termina com – kirikʉ. E, o Pieter que estava comigo, olhou para mim e disse: pelo menos duas ou três variedades nem a tua Universidade nem a minha, nenhuma Universidade do mundo conhece. E essa menina de 15 anos tem um saber que não é pessoal, mas um saber coletivo”.
“Os Tuyuka estão aí. São 1000 pessoas que falam a língua, 500 na Colômbia e 500 aqui. O que é que o Aryon diz: enquanto a língua está sendo falada existe como língua. Ele diz que as línguas faladas são como peças de quebra-cabeça. Quando desaparece uma língua é como se desaparecesse uma peça desse quebra-cabeça, e depois você tem dificuldades para recompor os termos do conhecimento humano. Então, a língua Tuyuka, ela não é importante para os Tuyuka só, ela não é importante para os índios do Brasil só, ela é importante para a humanidade! Por isso que hoje, UNESCO e organismos internacionais estão preocupados com aquilo que eles chamam de línguas em perigos. Eles sabem que se desaparecer a língua tuyuka, desaparece um pedacinho da humanidade. E, você não deve deixar desaparecer isso! Eu acho que a Escola Tuyuka está apontando para isso”.
“Eu acho que a Escola Tuyuka pode contribuir para gerar políticas públicas e já está contribuindo, porque eu desci, por exemplo, lá em baixo no Uaupés. Eu paro lá e me parece que era Cunuri [em Uriri, a Gorete lecionava]. Lá estava professora alfabetizando em tukano, a professora era Gorete que tinha sido professora na Escola Tuyuka e tinha levado isso para lá. Os Tukano estão aprendendo com os Tuyuka. Aos Tukano lá de São José [Escola Tukano – Yupuri, Rio Tiquié], eu dei uma oficina um ano depois. Eles olharam a Escola Tuyuka e disseram: nós queremos isso, também. Então aquela experiência piloto começa a se alastrar um pouco e servir de modelo para outros trabalhos”.