No dia 4 de outubro de 2025, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e a Associação das Comunidades Indígenas do Médio Rio Negro (ACIMRN) celebraram um marco histórico para os povos indígenas da região. Em um evento carregado de emoção e significado, foram inaugurados o Mercado Indígena Rosilene Menezes e a nova sede da ACIMRN, no município de Santa Isabel do Rio Negro (AM).
Foto: Shayra Cruz- Comunidadora da Acimrn
As atividades começaram logo nas primeiras horas do dia, com uma feira de produtores indígenas aberta ao público às 5h da manhã. O novo mercado recebeu o nome de Rosilene Menezes, em homenagem a uma mulher indígena que atuou com dedicação na Casa de Frutas e que faleceu enquanto exercia sua função de ajudante de produção. Sua memória agora inspira o espaço que simboliza trabalho, solidariedade e resistência.
Foto: Shayra Cruz – Comunicadora da Acimrn
O Mercado Indígena Rosilene Menezes vai muito além de um local de vendas. Ele representa autonomia, valorização cultural e geração de renda para os povos indígenas, que passam a ter um espaço próprio para comercializar seus produtos tradicionais — como artesanatos, alimentos regionais e outros produtos baseados em saberes ancestrais.
O evento também marcou a inauguração oficial da nova sede da ACIMRN, construída com o apoio da FOIRN e de parceiros institucionais. O novo prédio fortalece a estrutura organizativa da associação e amplia sua capacidade de atuação junto às comunidades do Médio Rio Negro.
Foto: Shayra Cruz – Comunicadora da Acimrn
A cerimônia contou com a presença do presidente da FOIRN, Dário Baniwa, e dos diretores Carlos Neri e Hélio Tukano, além de lideranças comunitárias, agricultores, parceiros institucionais e apoiadores.
Em um clima de festa e união, a 1ª feira realizada no novo mercado celebrou a força das comunidades, com trocas, apresentações culturais e a reafirmação dos laços de cooperação entre os povos indígenas da região. A feira contou com Apoio da Secretaria Municipal de Produção e Abastecimento e Unidade Local do IDAM..
Mais do que inaugurar espaços físicos, o evento reafirmou o compromisso da FOIRN e da ACIMRN com o fortalecimento da autonomia, da cultura e da economia indígena, reforçando que o desenvolvimento no Rio Negro é feito com protagonismo e sabedoria dos próprios povos indígenas.
Ciência Indígena na Liderança da Transição Energética
A Federação das Organizações Indigenas do Rio Negro ( FOIRN) em parceria com a Unicamp, realizou a Formação da primeira turma de instaladores de sistemas fotovoltaicos, na casa do Saber da Foirn, o projeto “PROJETO SOLLAR RIO NEGRO: CENTRO DE APRENDIZAGEM INDÍGENA DO RIO NEGRO”, a formação aconteceu nós dias 29 a 03 de outubro de 2025.
A iniciativa visou integrar a Ciência Indígena com as pesquisas do Centro Paulista de Estudos da Transição Energética (UNICAMP), promovendo a autonomia energética e o fortalecimento da infraestrutura comunitária no bioma amazônico.
O projeto nasce da inquietação e da demanda do próprio território, especialmente da juventude indígena do Alto Rio Negro, e se materializa como uma “devolutiva” do conhecimento adquirido na universidade para o povo.
O foco central é a formação sobre transição energética e a implementação de sistemas fotovoltaicos (energia solar). A escolha da energia solar é estratégica, pois, nas palavras dos envolvidos, é o sistema “mais sustentável e renovável possível que dialoga com as nossas concepções como povos indígenas”.
Essa iniciativa marca um novo capítulo para São Gabriel da Cachoeira, ao democratizar o conhecimento em uma área tecnológica essencial e reforçar a gestão territorial indígena.
Oferecendo capacitação técnica e política, com foco na instalação e integração de sistemas fotovoltaicos conectados e desconectados à rede elétrica, com a participação de 30parentes indígenas selecionados das cinco coordenadorias regionais da aréa de abrangência da foirn .
Do território para a universidade — e da universidade de volta para o território
O projeto é resultado do esforço coletivo de acadêmicos, incluindo a Iniciação Científica e o TCC do estudante indígena Arlindo Baré, e a pesquisa de outros 12 estudantes indígenas da UNICAMP (FEEC), desenvolvida no Eixo V Educação, Formação e Capacitação para a Sustentabilidade Socioambiental, que agora, com apoio da FOIRN, esse conhecimento retorna para o território em forma de formação prática e estratégica.
O Centro de Aprendizagem Indígena do Rio Negro terá um espaço físico em São Gabriel da Cachoeira, mas também será móvel, possibilitando que as formações cheguem aos territórios através dos novos técnicos que foram capacitados para atuar em geração e manutenção de sistemas fotovoltaicos, com o objetivo de que os formandos se tornem multiplicadores, levando a capacitação para outros jovens, escolas e lideranças, democratizando a informação.
Além da energia solar, a visão é que o Centro seja um espaço permanente de formação em diversas áreas do conhecimento (saúde, educação, etc.), onde os primeiros 30 formandos Indigenas atuarão como multiplicadores de conhecimento.
Energia que respeita os modos de vida indígenas
Em muitas comunidades da região do Rio Negro, ainda se utiliza geradores convercionais que se utilizam fontes de energia não renovaveis, que são caros, poluentes e muitas vezes falham. Com a energia solar, os povos do Rio Negro podem ter energia limpa, estável e comunitária.
O diferencial do Sollar Rio Negro é que foi pensado desde o início com a participação dos nossos povos, respeitando os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) e os Acordos de Convivência. Nenhuma decisão foi tomada de cima para baixo.
“A energia solar é a que mais se parece com a nossa forma de ver o mundo: ela nasce do sol, é limpa, é renovável e pode ser compartilhada — Participante indígena do curso Sollar Rio Negro
Esse cuidado também vale para o tipo de tecnologia escolhido: os sistemas fotovoltaicos instalados podem ser usados com ou sem conexão à rede elétrica, o que permite atender aldeias mais afastadas com independência e segurança.
Apoio Estratégico e Parcerias para a Concretização A logística para levar formação e materiais a uma região como o Rio Negro impõe grandes desafios e custos. A concretização desta primeira etapa só foi possível graças a uma rede de apoiadores, incluindo a FOIRN, ANABB (Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil), (Instituto Vidas do Amazonas) e FUNAI que se juntaram à causa.
O projeto Sollar Rio Negro Contribui diretamente com a Justiça Climática global, demonstrando que, com apoio e respeito à governança indígena, os povos originários são os líderes na construção de futuros equitativos e resilientes.
A formação por meio do Projeto Sollar Rio Negro não é apenas técnica, ela está inserida em uma lógica de justiça energética indígena: ou seja, as comunidades indígenas não são apenas receptoras de tecnologia, mas protagonistas no processo como instaladores, mantenedores, multiplicadores e gestores.
Esse protagonismo fortalece a autodeterminação, o “bem viver” e as práticas tradicionais associadas à gestão territorial e ambiental, ao mesmo tempo em que incorpora novas tecnologias. Em outras palavras: a iniciativa dialoga com os saberes ancestrais e com as perspectivas contemporâneas de sustentabilidade.
Em um momento em que o Amazonas enfrenta desafios crescentes como mudanças climáticas, pressão por exploração de recursos, vulnerabilidades de infraestrutura, iniciativas como essa mostram que a transição energética pode e deve ser protagonizada pelas comunidades locais, adaptada às suas realidades e alinhada aos seus valores. Para o território isso significa menos dependência externa, mais segurança energética, melhoria na qualidade de vida e fortalecimento dos modos de vida indígenas.
Justiça Climática com rosto indígena
A luta pela justiça climática passa, necessariamente, por reconhecer que nossos povos são guardiões da floresta, mas também têm o direito de acessar tecnologias limpas e com controle próprio. O Sollar Rio Negro mostra que é possível fazer isso com respeito, consulta e participação.
Com esse projeto, os povos do Alto Rio Negro estão mostrando que a transição energética não precisa ser uma imposição: ela pode ser construída por nós, com nossos saberes, com nossas lideranças e com nossos sonhos de futuro.
A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) sediou, na Casa do Saber, a Pré-COP Indígena – Etapa Rio Negro, no estado do Amazonas. O evento foi organizado pela FOIRN em parceria com a APIAM (Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas), a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), nos dia 16 e 17 de Setembro de 2025.
O encontro reuniu lideranças, autoridades e representantes de organizações indígenas, indigenistas e do setor público, fortalecendo o diálogo e a construção coletiva em defesa dos povos e territórios indígenas.
Entre os presentes, estavam representantes da FOIRN, APIAM, COIAB, MPI, Funai, SESAI, ICMBio, SEDUC, Forreia, IFAM, além de autoridades locais e representantes da Justiça. Também participaram lideranças das coordenadorias regionais da FOIRN: COIDI, DIAWI’I, NADZOERI, CAIBARNX e CAIMBRN, reafirmando a união regional na luta por direitos e pela preservação da vida e da Amazônia.
Direitos, Desafios e Luta Territorial
O primeiro painel trouxe o tema “Direitos Humanos, Ambientais e Territoriais: situação territorial na região do Rio Negro, conquistas e ameaças locais”, com a participação de Dario Baniwa (FOIRN), Toya Manchineri (COIAB) e Dra. Ellen Estefany Sateré (APIAM).
As falas destacaram os impactos de grandes projetos e legislações que ameaçam os povos indígenas, os riscos do garimpo e a necessidade de articulação política para garantir os direitos territoriais.
A FOIRN reforçou seu papel como articuladora e agente de fortalecimento das comunidades, apoiando projetos de proteção territorial e promovendo a autodemarcação e a defesa dos direitos constitucionais dos povos indígenas.
Unidade e Compromisso com os Territórios
O presidente da FOIRN, Dario Baniwa, ressaltou:
“Sempre buscamos parcerias interinstitucionais para atuar aqui no Rio Negro. Nossa atuação vai além de São Gabriel da Cachoeira, alcançando também Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro. Queremos um diálogo mais fortalecido e intercultural, representando os povos do Rio Negro e fortalecendo propostas para a Amazônia e os povos indígenas do Brasil. O desafio é global, mas nossa esperança é fortalecer as futuras gerações e a sociobiodiversidade do planeta. ”
Santa Isabel do Rio Negro. Queremos um diálogo mais fortalecido e intercultural, representando os povos do Rio Negro e fortalecendo propostas para a Amazônia e os povos indígenas do Brasil. O desafio é global, mas nossa esperança é fortalecer as futuras gerações e a sociobiodiversidade do planeta. ”
As lideranças reforçaram que a FOIRN atua para fortalecer as bases e preparar lideranças locais para os desafios da demarcação, da proteção territorial e da incidência política nos espaços de decisão.
A Dra. Ellen Estefany Sateré da APIAM resumiu:
“Nossa voz é a flecha. Somos guardiões da terra. A luta não continua, ela se intensifica. ”
Caminhos para a COP30
À tarde, os debates abordaram temas centrais para a participação indígena na COP30, como créditos de carbono, fundos de financiamento e mecanismos financeiros regionais e internacionais voltados ao clima e aos povos indígenas.
Essas discussões reforçam o protagonismo indígena na construção de soluções climáticas, valorizando saberes ancestrais e a experiência de quem vive na linha de frente da preservação da Amazônia.
No segundo dia, a ministra Sônia Guajajara participou do seminário e dialogou com as lideranças do Rio Negro. Ela destacou:
“A COParente é um espaço de construção coletiva, onde a voz dos povos indígenas ecoa para além das fronteiras. Nosso papel é fundamental na luta contra a crise climática. ”
Mulheres Indígenas e Bioeconomia
Um dos destaques foi o painel sobre “Caminhos de Sustentabilidade Autônoma”, com foco em práticas comunitárias e tecnologias sociais.
Inara Waty (Sateré-Mawé, UMIAB) ressaltou a importância da participação das mulheres nos debates sobre economia indígena:
“Precisamos falar da economia indígena, invisibilizada, mas que tem as mulheres como autoras. ”
As lideranças Mariazinha Baré (APIAM) e Alva Rosa Tukano (Foreeia) também reforçaram a necessidade de ampliar o debate sobre políticas climáticas no Amazonas e de garantir a participação ativa das mulheres indígenas nas decisões.
Prioridades da FOIRN para a COP30
O presidente Dario Baniwa apresentou os trabalhos, conquistas e desafios da FOIRN e dos 23 povos do Rio Negro, com destaque para:
Fortalecimento organizacional: 5 coordenadorias regionais, 118 associações e 750 comunidades;
Formação de lideranças: foco em mulheres e jovens indígenas (DMIRN e DAJIRN);
Segurança territorial: fiscalização e vigilância contra garimpo, pesca ilegal e tráfico;
Energia solar em comunidades sem acesso à rede elétrica;
Conectividade digital para comunicação, educação, saúde e governança;
Educação e bioeconomia: valorização da pimenta baniwa, castanha, artesanato e óleos vegetais.
A voz do Rio Negro na COP30
Em novembro, todos os olhares estarão voltados para a Amazônia, que sediará a COP30 em Belém (2025), sob o lema “A Resposta Somos Nós”.
Na Pré-COP Etapa Rio Negro, foi escolhida uma delegação de 20 lideranças de diferentes etnias (Yanomami, Tukano, Baré, Wanano, Tariana, Dessana, Baniwa e Koripaco), garantindo representatividade regional.
Seis representantes do Rio Negro foram indicados para compor a delegação estadual:
Zona Azul (negociações oficiais da ONU): Dario Baniwa, Helio Tukano e Sandra;
Zona Verde (eventos paralelos, sociedade civil): Belmira, Ana Gabriela e Adelina.
A escolha, feita de forma democrática e participativa, assegura que as demandas dos povos do Rio Negro estarão presentes nos espaços nacionais e internacionais da COP30.
A Pré-COP Etapa Rio Negro não foi apenas um evento, mas um marco na preparação dos povos indígenas para a COP30, fortalecendo sua voz, sua luta e seu protagonismo global em defesa do clima, da Amazônia e da vida.
Manaus (AM), 29 de julho a 1º de agosto de 2025 — A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), por meio do Departamento de Mulheres Indígenas (DMIRN‑FOIRN) e do Departamento de Adolescentes e Jovens (DAJIRN‑FOIRN), marcou presença no III Encontro dasCacicas, promovido pela Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas – MAKIRA‑E’TA, que teve como tema “Cuidar, proteger, transformar: estratégias de enfrentamento à violência contra mulheres, crianças, adolescentes, juventude, LGBT+ e idosos indígenas”.
O encontro foi realizado no auditório da Inspetoria Salesiana Missionária da Amazônia (ISMA), em Manaus, com apoio institucional da Funai, Fundo Indígena da Amazônia Brasileira (Podáali), Fórum Internacional de Mulheres Indígenas (FIMI), Operação Amazônia Nativa (OPAN), Articulação dos Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM), Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (SEJUSC) do Amazonas e Sistema de Educação para uma transformação Antirracista (SETA).
Este encontro dialoga com edições anteriores, como o 1ºEncontro de Cacicas, realizado em 19 de dezembro de 2023, em Manaus, que buscou promover o protagonismo das mulheres indígenas por meio de debates sobre gênero, diversidade, cultura e inclusão LGBTQIAPN+. Na ocasião, atividades culturais, rodas de conversa e exposições ampliaram trocas de saberes entre lideranças de diversas etnias.
O III Encontro teve como propósito criar um espaço de construção coletiva para enfrentar as múltiplas formas de violência que atingem indígenas dentro e fora dos seus territórios (mulheres, crianças, adolescentes, juventude, pessoas LGBTQIAPN+ e idosos).
Participaram lideranças indígenas de diversas regiões do Amazonas: Médio e Baixo Madeira, Purus, Sul e Baixo Amazonas, Solimões, Vale do Javari, região metropolitana de Manaus, além da Organização de Mulheres Indígenas de Roraima (OMIR). A programação incluiu rodas de escuta, grupos de trabalho temáticos, painéis, apresentações culturais e debates estratégicos entre os municípios e segmentos indígenas.
Assembleia e Carta‑protocolo
Durante o encontro, foi realizada a Assembleia de aprovação do Protocolo de Enfrentamento à Violência, um marco essencial para fortalecer a proteção coletiva nas comunidades do Rio Negro. Também foi concebida a “Carta Guardiãs do corpo e do território”, protocolo pós‑violência na saúde indígena, que será entregue a órgãos municipais, estaduais e federais para garantir respostas adaptadas às realidades culturais indígenas.
Vozes protagonistas
A coordenadora da MAKIRA‑E’TA, Socorro Baniwa, destacou a urgência de trazer à tona os desafios vividos pelos povos indígenas:
“Queremos que nossas demandas contra violências sejam atendidas com todas as nossas particularidades…”
Já Lucia Alberta, diretora de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável da Funai, afirmou que o apoio da instituição às lideranças indígenas mostra o compromisso com a efetivação dos direitos e com a ampliação do protagonismo das mulheres indígenas nos processos decisórios:
“Apoiar e participar de um evento como este é contribuir para que os povos sejam protagonistas…”
O III Encontro das Cacicas da MAKIRA‑E’TA, com a presença da FOIRN, representou mais uma etapa fundamental na luta contra violências vividas pelas comunidades indígenas. A iniciativa fortaleceu redes de proteção, protagonismo cultural e político, e impulsionou a construção coletiva de protocolos adaptados às suas realidades. Ao longo de diferentes encontros, a MAKIRA‑E’TA reforça seu papel como liderança feminina indígena consolidada no cenário estadual, nacional e internacional.
Sede da Asiba – BarcelosComunidade CauburisComunidade Cauburis
Barcelos, AM – Entre os dias 4 e 8 de julho de 2025, importantes momentos de escuta e articulação ocorreram no Baixo Rio Negro. Lideranças e comunidades indígenas se reuniram em Barcelos em uma série de encontros históricos para impulsionar a demarcação das Terras Indígenas (TIs) Baixo Rio Negro e Caurés, e da aguardada TI Aracá-Padauiri. Diante de desafios que se arrastam há mais de duas décadas, a mensagem foi clara: a demarcação é um direito constitucional (Art.231 – CF/88), uma luta de gerações e uma garantia para o futuro.
As reuniões, organizadas pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), pela Associação Indígena de Barcelos (ASIBA) e pela Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio Rio Negro (CAIMBRN), aconteceram na sede da ASIBA e nas comunidades: Manacauaca, Dom Pedro II, São Roque e Cauburís. Com apoio da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM), o objetivo central foi esclarecer sobre o processo de demarcação, combater a desinformação e fortalecer a luta das bases do movimento indígena a favor de seus direitos.
Presidente da Foirn: Dario Baniwa – Comunidade São RoqueComunidade Cauburis
A Batalha por Território: Mais de 25 Anos de Resistência
A demarcação de terras no Baixo Rio Negro é uma saga de persistência. A TI Baixo Rio Negro e Caurés, localizada em Barcelos, tem uma história ainda mais antiga. As reivindicações pela área vêm desde os anos 1990. Devido à lentidão da FUNAI, apenas neste ano foi possível dar continuidade aos estudos de levantamentos fundiários para compor o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID).
Já a Terra Indígena Aracá-Padauiri, que abrange partes de Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro, encontra-se há anos em impasse burocrático, aguardando a publicação do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) pela presidência da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI). Essa morosidade impede o avanço do processo, deixando as comunidades em longa espera.
Diretor da Foirn Carlos Nery – Comunidade São Roque
Essas reivindicações têm raízes históricas: no passado, as lutas foram contra a escravidão de indígenas piaçabeiros e o avanço de garimpeiros, madeireiros e extrativistas ilegais, que atuavam sem qualquer garantia trabalhista e sem respeitar os modos de vida tradicionais. Atualmente, a organização social e política garantida pelo movimento indígena continua lutando por melhorias na assistência e na implementação de políticas públicas. Hoje, ameaças como a pesca comercial e esportiva desordenada intensificam a urgência da demarcação e da proteção desses territórios.
A Força da Voz Indígena
Comunidade CauburisComunidade CauburisComunidade Cauburis
Durante os encontros, as lideranças falaram com clareza e firmeza. Marilene Gervasio Reis, presidente da ASIBA, ressaltou a importância do momento para “esclarecer dúvidas sobre a demarcação”, especialmente frente à desinformação crescente.
Comunidade São Roque – Rio CauresComunidade Manacauaca
Dário Emílio (Povo Baniwa), presidente da FOIRN, afirmou: “A demarcação de terras hoje é um direito de todos, e sabemos a importância da água e da terra. Precisamos recuperar o que vem se perdendo, pensando nas futuras gerações.” Ele reforçou o compromisso da FOIRN em ouvir as demandas das comunidades e atuar com apoio da FUNAI e do Instituto Socioambiental (ISA).
Presidente da Foirn- Dario Baniwa / Comunidade Manacauaca
Hélio Gessem, diretor da FOIRN, demonstrou preocupação com as TIs ainda não demarcadas, classificando-as como essenciais para “garantir a agricultura familiar, a pesca e o sustento das comunidades indígenas”.
fazendo uso da palavra – Diretor Helio Gessem , na Sede da Asiba
Carlos Alberto Teixeira Neri, também diretor da FOIRN, homenageou lideranças históricas, como o Sr. Braz França, e destacou que o objetivo é “reconhecer e fazer valer um processo que foi iniciado há mais de 20 anos”. Ele também confrontou a desinformação, reiterando que a FOIRN defende os interesses coletivos dos povos indígenas — e não interesses individuais.
Diretor Carlos Nery – Sede da AsibaComunidade Manacauaca
João Barroso, chefe da Coordenação Técnica Local da FUNAI em Barcelos, afirmou que o órgão acompanha de perto o processo e as ameaças sofridas pelas lideranças, muitas vezes oriundas de “empresários e indivíduos ligados ao governo municipal com interesses econômicos”. Ele reforçou o compromisso da FUNAI com a defesa dos direitos dos povos indígenas, assegurados pelo artigo 231 da Constituição Federal de 1988.
João Barroso (chefe da Coordenação Técnica Local da FUNAI em Barcelos) – Sede da Asiba
Demarcação e Turismo: Mitos x Realidade
Um dos temas com mais desinformação abordados nos encontros foi a pesca esportiva após a demarcação. O advogado Dr. Adriano, da assessoria jurídica da FOIRN, esclareceu que a demarcação não resultará na expulsão de não indígenas nem na proibição de atividades econômicas, mas sim na implementação de regras claras e justas.
Carlos Neri, com vasta experiência em turismo de pesca, afirmou: “Hoje coordeno nove projetos de pesca dentro de terras indígenas. Posso afirmar que não haverá problemas desde que se sigam as regras da legislação.” Ele explicou que a Instrução Normativa nº 03/2015 da FUNAI regula o turismo em TIs, exigindo um plano de visitação elaborado pelas associações em parceria com as comunidades. O plano, aprovado pela FUNAI, garante sustentabilidade e benefícios diretos às comunidades indígenas.
Líderes locais, como João Leandro da comunidade de Bacabal e Carlos Alberto da Paixão, presidente da Associação Indígena de Base Aracá e Demini (AIBAD), relataram e entregaram carta com reivindicação e denuncia de casos de forte aliciamento por empresas de turismo e pescadores comerciais que desrespeitam os territórios. Carlos Neri alertou sobre os perigos das fake news e o uso da tecnologia para disseminar desinformação por grupos com interesses contrários à demarcação.
O Chamado Urgente por Compromisso Governamental
Diretor Carlos Nery – Comunidade Cauburis
Embora as TIs estejam judicializadas e o governo federal tenha um prazo de dois anos para concluir o processo, a lentidão continua. A FOIRN reforça que é necessário um compromisso firme do governo brasileiro com os direitos dos povos indígenas do Rio Negro.
Vale lembrar que a demarcação das TIs é um direito assegurado pela Constituição aos povos que ocupam tradicionalmente essas terras — e não uma questão de consulta à população não indígena e tem regras para o processo.
A FOIRN, juntamente com suas organizações de base como a CAIMBRN e a ASIBA, permanece aberta ao diálogo e empenhada em combater a desinformação que tenta enfraquecer o processo. A demarcação é responsabilidade do Estado brasileiro, por meio da FUNAI. Por isso, qualquer informação legal deve ser buscada junto a esse órgão.
Além das terras mencionadas, o Rio Negro ainda tem outras TIs em processo, como a TI Jurubaxi-Tea, em fase de demarcação física, e a TI Cué-Cué/Marabitanas. A urgência da demarcação e o compromisso do Estado com os povos indígenas do Médio e Baixo Rio Negro ecoam como clamores históricos.
Dário Baniwa, presidente da FOIRN, finalizou reafirmando o compromisso da federação: “A gente não vai atuar contra vocês. Estamos aqui para ouvir, levar as demandas e dar continuidade a essa luta. É um trabalho diário, e cada um fazendo sua parte, iremos longe.”
A união das lideranças, a clareza dos argumentos e a força das comunidades reforçam: a demarcação não é apenas um direito, é uma urgência histórica e um passo essencial para a proteção ambiental e o futuro sustentável dos povos indígenas do Amazonas e do Brasil.
A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), por meio do seu Departamento de Educação Escolar Indígena (DEEI), realiza entre os dias 07 a 10 de julho de 2025, na comunidade Roçado, situada no rio Uneuxi (região da CAIMBRN), a Oficina Pedagógica de Formação de Professores Indígenas do Povo Nadëb, com foco na construção coletiva do primeiro Projeto Político-Pedagógico do Povo Nadëb (PPPN) no município de Santa Isabel do Rio Negro/AM.
Este evento configura-se como um marco histórico, político, pedagógico e epistêmico na trajetória da educação escolar indígena na região do Rio Negro. Pela primeira vez, o povo Nadëb — com sua riqueza sociolinguística, espiritual e ecológica — elabora um projeto pedagógico próprio, fundado em sua cosmovisão, em seus valores civilizatórios e nos modos tradicionais de ensino e aprendizagem, que se entrelaçam com os ciclos da floresta, das águas e do território.
A realização desta oficina pedagógica tem como base metodológica a perspectiva intercultural crítica, com centralidade nas epistemologias indígenas e no protagonismo dos professores, lideranças, anciãos e demais sujeitos formadores do território. A proposta pedagógica em construção rompe com o modelo hegemônico da escola monocultural e insere o povo Nadëb no debate nacional sobre a descolonização dos currículos e a reterritorialização dos saberes indígenas na escola.
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Durante os quatro dias de oficina, os participantes estão engajados em um processo dialógico de reflexão e sistematização de práticas educativas ancoradas em pilares fundamentais, como:
A sustentabilidade cultural e territorial como eixo estruturante da escola indígena;
A valorização da oralidade e da memória coletiva, com base nos conhecimentos dos anciãos e pajés;
A centralidade da língua Nadëb como veículo do pensamento e da pedagogia comunitária;
A governança pedagógica comunitária, fundamentada na autonomia e autodeterminação dos povos indígenas;
A integração dos saberes tradicionais e científicos de maneira complementar e respeitosa;
A construção de um currículo próprio, que articule tempo-escola e tempo-comunidade.
A ação é coordenada pela equipe técnica do DEEI/FOIRN, composta por Zilma Rosana, assessora pedagógica, Miguel Cortez, assistente administrativo, e Iracema Sanches, articuladora da Educação Escolar Indígena do município. A atividade conta ainda com o apoio estratégico da Secretaria Municipal de Educação de Santa Isabel do Rio Negro (SEMED/SIRN), representada pela pedagoga Suely Góis Coelho e pelo assistente administrativo Raniel Gonçalves, reafirmando a importância da corresponsabilidade institucional na efetivação dos direitos educacionais dos povos indígenas.
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A construção do PPPN não é apenas um instrumento técnico-burocrático, mas sim um manifesto político-pedagógico, que materializa o direito à educação diferenciada, específica e territorializada, conforme preconizado pela Constituição Federal de 1988, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN/1996) e pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena. Mais do que um documento institucional, o PPPN do povo Nadëb expressa a resistência, a ancestralidade e o projeto de futuro de um povo que, por séculos, enfrentou processos de invisibilização e negação de sua identidade. Agora, por meio da escola indígena, abre caminhos para a reafirmação de sua dignidade cultural, social e espiritual.
A FOIRN, por meio do DEEI, reafirma seu compromisso com a educação como território de luta, emancipação e reconstrução da memória dos povos indígenas. Este passo dado pelo povo Nadëb é um exemplo inspirador para os demais povos do Rio Negro e do Brasil, demonstrando que a educação indígena precisa ser construída com os povos e não apenas para os povos — com escuta, com diálogo e, sobretudo, com respeito profundo às epistemologias originárias.
A história da educação indígena em Santa Isabel do Rio Negro será reescrita a partir deste momento. E será escrita com a tinta da ancestralidade Nadëb.
De 30 de junho a 2 de julho de 2025 a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), por meio do Departamento de Negócios Socioambientais, realizou em São Gabriel da Cachoeira o Seminário de Avaliação e Monitoramento das Cadeias Produtivas e Construção do Planejamento Estratégico. O encontro reuniu coordenadores, técnicos, artesãos, produtores e parceiros, como o Instituto Socioambiental (ISA), para refletir sobre os avanços, desafios e estratégias da economia indígena no Rio Negro.
Essa economia, que se baseia na sociobiodiversidade, vai muito além da venda de produtos. É uma economia ancestral, enraizada nos saberes milenares dos povos indígenas, em seus sistemas agrícolas tradicionais e no manejo profundo e respeitoso do território. Cada produto da floresta — seja o artesanato, o mel, a pimenta Baniwa, o pescado ou os alimentos da roça — carrega conhecimento, cultura, espiritualidade e resistência.
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Economia indígena: floresta que vira floresta novamente
Durante o seminário, foi reforçado que as economias indígenas não se reduzem a insumos para a indústria. Ao contrário, elas promovem conservação ambiental, segurança alimentar, cultura e autonomia. As roças tradicionais, como as dos Baniwa, não transformam floresta em monocultura — transformam floresta em floresta novamente. São sistemas de produção que conservam, regeneram e fortalecem os modos de vida dos povos do Rio Negro.
Como destacou uma das participantes:
“É muito injusto olhar para essas economias apenas como fornecedoras de produtos. São sistemas inteiros de conhecimento ancestral, que inspiram inovações locais e até tecnológicas, mas cujos benefícios muitas vezes não são repartidos com os povos originários.”
Planejamento estratégico e fortalecimento institucional
Sob a coordenação de Luciana, do povo Tariano, o Departamento de Negócios Socioambientais vem sendo referência na temática da economia indígena. Criado em 2021 como resposta à demanda das lideranças indígenas por geração de renda com base nos saberes tradicionais, o DNSA atua como elo entre as comunidades, instituições públicas, parceiros e mercados.
Neste seminário, foram avaliadas as iniciativas em curso, como a loja Casa Wariró, o apoio às compras públicas via PNAE e PAA, o turismo de base comunitária, e o incentivo à produção e comercialização de alimentos e artesanatos. Também foi elaborado um novo plano estratégico, buscando maior integração entre as cadeias produtivas, fortalecendo o papel das mulheres, jovens e coordenadorias regionais.
Luciana destacou:
“Nós somos 64% mulheres envolvidas nas cadeias produtivas. O fato de termos uma mulher coordenando esse departamento representa um avanço importante dentro da FOIRN e uma conquista para as mulheres do território.”
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Próximas ações e perspectivas
Entre as ações previstas para os próximos meses, estão: Plano de Negócios da Kalipana, em Santa Isabel do Rio Negro, com datas a definir; Oficina de artesanato com cipó titica com o povo Hupd’äh, no Japú, em agosto; Encontro Geral de Produtores do Rio Negro, previsto para outubro; Fortalecimento das compras públicas, ampliando a presença dos alimentos da floresta na alimentação escolar e institucional; Lançamento da Wariro Sabores, nova frente de comercialização de alimentos tradicionais; Participação na Marcha das Mulheres Indígenas, representando as cadeias produtivas do Rio Negro.
O seminário também evidenciou como a Casa Wariró tem impactado diretamente e indiretamente a geração de renda nas comunidades, sendo ponte para que parceiros externos também acessem os produtos e apoiem as iniciativas locais.
Um modelo de economia do cuidado e da reciprocidade
A economia indígena do Rio Negro é uma economia do cuidado, do coletivo, da floresta em pé. Cada produto carrega a história de um povo, o manejo de um território e o conhecimento passado por gerações. Ao fortalecer essas economias, a FOIRN reafirma seu compromisso com a autodeterminação dos povos indígenas, a valorização da cultura e a proteção do território.
A coordenação do DNSA reforça que o trabalho continuará, com planejamento, escuta e articulação, conectando as comunidades às oportunidades, sem perder de vista o que sustenta tudo isso: o território, o conhecimento tradicional e a vida coletiva.
No dia 04 de julho de 2025, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), por meio do Departamento de Educação Escolar Indígena (DEEI), promoveu uma importante reunião técnica com a equipe da Secretaria Municipal de Educação de Santa Isabel do Rio Negro (SEMED/SIRN). O encontro teve como foco a articulação de ações conjuntas voltadas à implementação da atividade de Orientações Pedagógicas para a elaboração dos Projetos Político-Pedagógicos (PPPs) nas unidades escolares situadas em comunidades indígenas do município.
A reunião, realizada na sede da SEMED/SIRN, teve como objetivo principal definir estratégias metodológicas e operacionais que garantam a construção participativa dos PPPs, respeitando as especificidades socioculturais, linguísticas e históricas dos povos indígenas da região. Entre os pontos discutidos, destacaram-se a valorização dos saberes tradicionais, a promoção de práticas pedagógicas diferenciadas e a importância da escuta ativa das comunidades no processo de formulação dos projetos educativos.
A ação integra o plano estratégico do Departamento de Educação Escolar Indígena – DEEI/FOIRN para o fortalecimento da Educação Escolar Indígena, em consonância com a legislação educacional vigente, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas e os princípios constitucionais de respeito à diversidade étnica e cultural.
Como parte dessa iniciativa, está prevista a realização de uma oficina pedagógica entre os dias 07 e 10 de julho de 2025, na Comunidade Indígena Roçado, localizada na região da Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro e Afluentes (CAIMBRN). A oficina reunirá professores indígenas, lideranças comunitárias e equipes técnicas, com o intuito de promover espaços de formação continuada, reflexão crítica e elaboração coletiva dos PPPs, utilizando metodologias dialógicas e territorializadas.
Foto: Reprodução
Para a assessora pedagógica da FOIRN, Zilma Rozana Azevedo Oliveira, “esse momento é fundamental para assegurar que a Educação Escolar Indígena se consolide com base na autonomia das comunidades, respeitando seus modos próprios de ensinar e aprender. O PPP é um instrumento político e pedagógico que precisa refletir a realidade e os projetos de vida dos povos indígenas”.
Miguel Cortez – Assessor Administrativo (DEEI/FOIRN)
Iracema Sanches – Articuladora da Educação Escolar Indígena (SIRN)
Márcia Zedan – Secretária Municipal de Educação (SIRN)
Suely Góis Coelho – Pedagoga da SEMED/SIRN
A FOIRN, por meio do DEEI, reafirma seu compromisso institucional com a construção de uma educação indígena de qualidade, contextualizada e construída a partir dos territórios, contribuindo para a afirmação das identidades e o fortalecimento da gestão educacional nas comunidades.
A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) através do Presidente Dario Baniwa, marcou presença no I Fórum Internacional Indígena sobre Segurança Pública, Justiça Social e Acordo de Paz em Contexto de Fronteira, que acontece em Tabatinga, Amazonas, de 23 a 26 de junho de 2025.
A convite da Articulação dos Povos Indígenas do Amazonas (APIAM) e da Federação das Organizações, dos Caciques e das Comunidades do Povo Ticuna (FOCCIT), a FOIRN participa ativamente deste encontro crucial. O fórum reúne diversas organizações indígenas da região amazônica e dos territórios fronteiriços de Brasil, Peru e Colômbia.
Parcerias Estratégicas para o Bem Viver Indígena.
O evento conta com o apoio fundamental de instituições e parceiros estratégicos que contribuem com conhecimento técnico, articulação territorial e apoio institucional. Entre eles estão:
• UNICEF Brasil – Coordenação Técnica para Assuntos Indígenas
• Amazon Conservation Team (ACT) – Brasil e Colômbia
• Fundación Caminos de Identidad (FUCAI) – Colômbia
• Conselho Indigenista Missionário (CIMI)
• Centro de Trabalho Indigenista (CTI)
• Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
• Instituto Federal do Amazonas (IFAM)
A presença e o comprometimento desses parceiros são essenciais para fortalecer as ações conjuntas e a construção de estratégias voltadas ao bem viver, à proteção dos territórios e ao protagonismo dos povos indígenas na Amazônia.
Objetivos do Fórum: Enfrentando Desafios da Tríplice Fronteira
O I Fórum Internacional Indígena tem como objetivo central criar um espaço de articulação interinstitucional e transfronteiriça para enfrentar os desafios específicos dos povos indígenas da tríplice fronteira, tais como:
• Fortalecimento da Segurança Pública Indígena: O evento discute a necessidade de integrar instituições (municípios, estados, União) com lideranças indígenas para ampliar o alcance das políticas públicas que garantem documentos, proteção territorial, segurança climática e atendimento em saúde mental. A Funai, durante ações em Tabatinga, ressaltou a importância dessa integração.
• Enfrentamento ao Narcotráfico e Seus Efeitos Sociais: Tabatinga foi priorizada para a implantação do “Centro de Acesso a Direitos e Inclusão Social (CAIS) Povos Indígenas”, visando combater o uso problemático de álcool e drogas e diminuir a cooptação de jovens indígenas pelo narcotráfico.
• Promoção da Justiça Social e do Acesso a Direitos: O fórum busca facilitar o acesso dos povos originários aos sistemas de justiça, assistência social e saúde. Para isso, articula ações conjuntas via Sistema Único de Saúde (SUS), Sistema Único de Assistência Social (SUAS), Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e o sistema indigenista, com foco na inclusão social e no enfrentamento das vulnerabilidades.
• Construção de Redes Colaborativas e Conhecimento Local:
O encontro promove a criação de redes entre universidades (como a Unicamp), poder público, organizações indígenas e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Isso fortalece uma visão comunitária e territorial integrada em prol da segurança regional e da justiça social.
A Participação da FOIRN
A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) teve uma participação estratégica no I Fórum Internacional Indígena sobre Segurança Pública e Justiça Social. Nossas ações focaram em:
• Fortalecer a articulação política e institucional com outras organizações indígenas e autoridades públicas ligadas à segurança e justiça nos territórios indígenas.
• Compartilhar as experiências do movimento indígena do Rio Negro no enfrentamento a desafios como violências territoriais, presença de ilícitos e vulnerabilidades sociais, especialmente entre a juventude indígena.
• Contribuir para o debate sobre políticas públicas, baseando-se em experiências concretas de proteção comunitária, inclusão social, segurança cultural e defesa dos direitos coletivos.
• Reafirmar a importância do protagonismo indígena na construção de soluções sustentáveis e interculturais para problemas comuns aos povos da Amazônia, em especial nas áreas de fronteira.
A FOIRN reforçou ainda o papel fundamental das lideranças indígenas, das mulheres e da juventude na formulação de estratégias para a justiça social e a segurança em seus territórios.
Destacamos a necessidade de políticas que respeitem os modos de vida, os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs), os Protocolos de Consultas das organizações sociais e a autonomia dos povos originários.
São Gabriel da Cachoeira (AM), 20 de junho de 2025
Lideranças indígenas das associações da Região Cué-Cué/Marabitanas, reunidas nos dias 19 e 20 de junho, reforçaram a urgência da conclusão das etapas administrativas finais da demarcação da Terra Indígena Cué-Cué/Marabitanas. A área foi declarada de posse permanente dos povos indígenas pela Portaria nº 1.703 do Ministério da Justiça, de 19 de abril de 2013, e representa um marco na proteção territorial no município de São Gabriel da Cachoeira, consolidando-o como o município com a maior extensão de Áreas Protegidas da União no Brasil.
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O encontro foi promovido pelas lideranças da CAIBARNX (Coordenadoria das Associações Indígenas do Balaio, Alto Rio Negro e Xié), com presença da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), representada pelo diretor Edison Baré, e da APIAM (Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amazonas), por meio de Mariazinha Baré. Também participaram representantes da FUNAI, GT de lideranças Baré da região do Rio Negro e outras instituições governamentais.
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Durante os dois dias de diálogos, os participantes discutiram temas centrais para os povos indígenas da região, como os direitos garantidos pela Constituição Federal de 1988 (Art. 231), a Convenção 169 da OIT, os processos fundiários e os instrumentos de governança territorial, como o Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) e o Protocolo de Consulta Livre, Prévia e Informada.
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Outro ponto de destaque foi o debate sobre a atual situação do processo de demarcação da Terra Indígena Cué-Cué/Marabitanas e a elaboração de um plano de ação coletivo para a conclusão definitiva do processo, em articulação com os órgãos competentes.
São Gabriel da Cachoeira: um território estratégico para políticas públicas.
São Gabriel da Cachoeira é o terceiro maior município em extensão territorial do Brasil, com 10.974.380 hectares, dos quais mais de 92% são compostos por Terras Indígenas e Unidades de Conservação. A TI Cué-Cué/Marabitanas, com 808.645 hectares, está localizada integralmente no município e tem aproximadamente 25% de sua área sobreposta ao Parque Nacional do Pico da Neblina. Essa configuração territorial complexa exige uma articulação específica para a gestão integrada entre os povos indígenas e o Estado.
Além do Parque Nacional, a Reserva Biológica Estadual do Morro dos Seis Lagos está completamente sobreposta à Terra Indígena Balaio, demonstrando o entrelaçamento entre áreas de conservação e territórios tradicionais, o que reforça a necessidade de reconhecimento, respeito e gestão compartilhada baseada nos PGTA’s.
O mapa apresentado durante o encontro ilustra essas sobreposições e a existência de uma “janela” territorial ainda sem destinação específica entre a TI Cué-Cué/Marabitanas e a TI Médio Rio Negro II, o que levou as lideranças a proporem uma adequação nos limites do Parque Nacional, alinhada às demandas dos povos da região e à proteção plena dos territórios indígenas.
Desafios urbanos e a urgência de um novo plano diretor.
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A área urbana de São Gabriel da Cachoeira, conforme o Plano Diretor de 2006, está delimitada em 1.580 hectares. No entanto, ainda restam 70.170 hectares passíveis de uso planejado para expansão da sede municipal. Diante das mudanças e necessidades urbanas ao longo dos últimos 19 anos, as lideranças indígenas destacaram a urgência de se elaborar um novo plano diretor que respeite os limites territoriais indígenas, os acordos de consulta e os princípios do desenvolvimento sustentável.
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A FOIRN, por meio de suas lideranças, reafirmou seu compromisso em continuar articulando os povos e associações da região para garantir o pleno reconhecimento dos direitos territoriais e culturais dos povos indígenas, fortalecendo o protagonismo das comunidades na gestão de seus territórios e na incidência junto aos governos.