Cecília Albuquerque – Piratapuia, fundadora da Assai e conhecedora tradicional, apresenta a cartilha. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Mulheres Indígenas de várias etnias do Rio Negro lançaram na manhã deste sábado, 20/03, a Cartilha Conhecimento Indígena: Plantas medicinais e receitas usadas contra a Covid-19 no Rio Negro, em iniciativa conjunta da Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira (ASSAI) e Instituto Socioambiental (ISA), apoiada pela FOIRN.
A cartilha é fruto de oficina realizada no início de setembro de 2020, idealizada pela indígena Cecília Albuquerque, da etnia Piratapuia, uma das fundadoras da ASSAI. Além de receitas, a obra compartilha depoimentos de conhecedores tradicionais sobre o uso da medicina tradicional na pandemia.
“Nós Indígenas do Rio Negro reforçamos durante a pandemia de Covid-19 em 2020 o valor que a nossa medicina e nossos saberes ancestrais têm. Nós usamos muitos remédios feitos com plantas, cipós, raízes, folhas, tudo tirado dos nossos quintais ou da floresta. Nesse momento de angústia para toda a humanidade, esse conhecimento foi fonte de cura, esperança e resistência diante de uma doença desconhecida que não tem cura”, diz Cecília Albuquerque na apresentação da cartilha. Dona Cecília informa que o saber tradicional é complementar aos conhecimentos científicos: ela já tomou as duas doses da vacina contra a Covid-19.
Lançamento da cartilha comemorou o Dia do Artesão (19 de março). Foto: Ray Baniwa/Foirn
No lançamento o Presidente da Foirn, Marivelton Rodriguês Baré destacou a importância da Assai, dos conhecimentos tradicionais no enfrentamento da Covid-19 e elogiou o trabalho desenvolvido pelas mulheres indígenas que fazem parte da associação. “É muitobom o trabalho que a Assai tem realizado, especialmente na produção de cartilha sobre a medicina tradicional. Precisamos destacar, dar visibilidade e valorizar esses conhecimentos indígenas. E a nossa obrigação é apoiar essas iniciativas e trabalhos que nossas associações de base realizam, como é o caso da Assai, que tem feito trabalho exemplar”, disse.
Coordenadora do Departamento de Mulheres Indígena (DMIRN) e diretora interina da FOIRN, Dadá Baniwa diz que a cartilha é importante para levar conhecimentos tradicionais inclusive a alguns indígenas que já não estão mais fazendo uso dos remédios da floresta. “A FOIRN e do Departamento de Mulheres incentivam o uso de remédios tradicionais em conjunto com as medidas de preventivas. Com essa cartilha fica mais fácil compartilhar esse conhecimento. Mulheres de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos já receberam a cartilha e vão ajudar nesse compartilhamento”, disse.
O conhecedor tradicional Ercolino, da etnia Dessana, ajudou muita gente com benzimentos na primeira e segunda ondas da pandemia. Ele também já tomou as duas doses da vacina contra a Covid-19. “Com os benzimentos e vacina, a proteção fica mais forte”, diz. Para evitar a terceira onda, ele recomenda evitar aglomerações, tomar a vacina e manter os tratamentos tradicionais.
Dona Ilza da Silva, da etnia Baré, teve a Covid-19 na segunda onda e recomenda a todos que permaneçam tomando os chás. “Parece que a Covid-19 veio para ficar, não vai embora fácil. Então tem que continuar tomando os chás”, diz. Ela é uma das artesãs que compartilhou seus conhecimentos que estão na cartilha.
A cartilha chega para fortalecer ainda mais a luta contra Covid-19 no Rio Negro. Apesar da chegada da vacina na região, os cuidados como uso de máscaras, lavagem das mãos com sabão e principalmente o uso da medicina tradicional é necessário e deve continuar.
Representantes de instituições locais e parceiros da Foirn visitam o local onde a usina será instalado em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Eucimar Aires/Foirn
Parceria entre a FOIRN e o Greenpeace firmada dentro de ações de combate à pandemia da Covid-19 possibilitará a instalação de uma usina de oxigênio em São Gabriel da Cachoeira que beneficiará a região do Rio Negro.
O equipamento deve entrar em funcionamento no próximo mês e será usado para envaze de cilindros, tendo capacidade para encher 12 equipamentos. O anúncio foi feito nesta terça-feira, 16/3, pelo presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, Baré, em encontro na Maloca – Casa do Saber da FOIRN, com a presença do diretor de operações do Greenpeace Brasil, Agnaldo Almeida, e autoridades do município.
A usina de oxigênio será doada pelo Greenpeace à FOIRN, que vai celebrar termo de cessão e gestão com a Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira. A partir daí serão firmados acordos para que os municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos também sejam beneficiados pela estrutura.
Marivelton Rodriguês Baré, Presidente da Foirn, destaca a importância da parceria para esta conquista. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Marivelton Baré reforçou que essa é uma conquista interinstitucional conduzida pela federação. “É uma ação interinstitucional da FOIRN, Greenpeace, Instituto Socioambiental (ISA), Expedicionários da Saúde (EDS), FUNAI, Prefeitura. E chega após as maiores dificuldades enfrentadas na segunda onda, com alto índice de contaminação e mortes. Vem suprir uma necessidade para além da pandemia, pois há outras doenças que demandam o uso desse insumo. Além disso, resolve um problema logístico, pois não será necessário mais fazer os envazes de cilindros em Manaus”, disse.
Em meio à chamada segunda onda da pandemia, o Estado do Amazonas, em especial Manaus, viveu este ano uma crise sanitária provocada pela falta de oxigênio. Em São Gabriel da Cachoeira não houve desabastecimento do produto devido ao grande esforço interinstitucional, mas a cidade chegou a operar no limite.
A usina adquirida pelo Greenpeace custa R$ 450 mil, mas incluindo o valor do transporte e instalação, o montante chega a R$ 700 mil. O equipamento será instalado em área da Unidade Básica de Saúde (UBS) de Saúde Miguel Quirino. Na terça-feira, após o encontro da FOIRN, uma comitiva visitou o local.
Diretor de operações do Greenpeace Brasil, Agnaldo Almeida, disse que durante a crise do oxigênio, a principal preocupação da organização foi com nossos parceiros, entre eles o movimento indígena.
“Na crise desenvolvemos alguns planos para ajudar e, durante esse processo, surgiu a ideia de garantir a compra de uma usina para que ela ficasse como legado desse trabalho no Rio Negro, não só pensando no momento de pandemia. É um legado que vai ficar para a cidade e para o entorno em momentos futuros também”, disse.
Durante o encontro houve exposição do modelo da parceria e apresentação das especificações técnicas da usina. Participaram da reunião, entre outras autoridades, a vice-prefeita Eliane Falcão; a coordenadora da Coiab, Nara Baré; o coordenador regional da Funai – Coordenadoria Regional Rio Negro, Auri Santo Antunes de Oliveira; o coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN), Hernane Souza; administrador do ISA – São Gabriel da Cachoeira, Wizer Oliveira; Diretora do Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira (HGu), tenenete-coronel Anaditália Pinheiro; vereador Messias Ambrósio. Também estiveram no encontro representantes de associações de base, diretores e coordenadores de departamento da FOIRN.
DABUCURI
O encontro na Maloca – Casa do Saber da FOIRN marcou o fim das obras de reforma da estrutura, que vinham ocorrendo desde setembro de 2020. Liderança indígena e conhecedor tradicional, Luiz Laureano, da etnia Baniwa, foi o responsável pela reestruturação na maloca. Nessa terça-feira, ele conduziu um Dabucuri para reabertura da Casa do Saber. A inauguração oficial deve acontecer em abril, coincidindo com a chegada da usina de oxigênio a São Gabriel da Cachoeira.
Manter os cuidados preventivos continuam sendo fundamentais na luta contra a Covid-19.
A comunidade Waruá, do povo Dãw, em São Gabriel da Cachoeira (AM), comemorou este ano, pela primeira, vez o Dia Internacional da Mulher.
Mesmo com os desafios e perdas impostos pela pandemia da Covid-19, as mulheres se reuniram, seguindo os protocolos de segurança, demonstrando união de forças e solidariedade nesse momento difícil.
O objetivo do encontro, realizado no próprio Dia 8 de Março, segunda-feira, foi ressaltar o papel importante da mulher indígena na sociedade. Durante a comemoração, as mulheres indígenas deram depoimentos fortes e emocionantes.
“A mulher indígena é batalhadora, trabalha dia a dia, procura sempre afazeres na roça, em casa, seja onde estiver. Mas não podem esquecer que ela também se cansa”, disse a professora Auxiliadora Fernandes, liderança do povo Dãw.
Durante o encontro na comunidade Waruá, as mulheres guerreiras lembraram a importância da luta constante das mulheres e da conquista de espaços na educação, política, cultura, esportes, direitos sociais.
O Departamento de Mulheres Indígenas da FOIRN – DMIRN/FOIRN participou do encontro no Waruá.
Este ano, devido à pandemia, o DMIRN/FOIRN utilizou as redes sociais para prestar homenagem às mulheres, evitando encontros presenciais. “Lugar da Mulher Indígena é onde ela quiser” foi a principal mensagem que acompanhou fotos e vídeos de lideranças e outras mulheres que contribuem com seus saberes e experiências com o movimento indígena.
Confira mensagens das mulheres indígenas:
“Lugar de Mulher é onde ela quiser, seja mulher artesã, mulher na roça, cuidadora da família… Feliz Dia Internacional da Mulher a todas as guerreiras do Rio Negro e do Brasil.”
Janete Alves, Dessana, Diretora-executiva da FOIRN
“Não é dia só de comemorar, mas de nós reivindicarmos nossos direitos. Direito de expressão, direito de participação.”
“Todas nós temos obstáculos, mas sempre vencemos e chegamos onde queremos estar.”
Eliane Falcão, vice-prefeita de São Gabriel da Cachoeira
“Quero dizer a você mulher: seja firme! Seja perseverante. Sejamos sempre guerreiras, não devemos desistir diante das desigualdades sociais que enfrentamos, diante de todas as dificuldades, preconceitos e discriminações.”
Marivelton Baré , Presidente da FOIRN. Foto: Juliana Radler/ISA
Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium
MANAUS – O líder indígena do povo Baré e presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Marivelton Barroso, de 29 anos, foi eleito nessa sexta-feira, 26, um dos cinco vencedores do prêmio internacional de viagens “Changing Your Mind 2021” (Mudando Sua Mente 2021), da revista americana Vanity Fair, um dos periódicos mais consagrados do mundo.
A categoria premia as personalidades que mais se destacam pelo mundo com seus projetos inovadores de turismo. Marivelton levou o prêmio por sua atuação na promoção do turismo sustentável nas comunidades indígenas de Santa Isabel do Rio Negro, no interior do Amazonas, com o projeto “Serras Guerreiras de Tapuruquara”, construído e apoiado pela organização não governamental (ONG) Garupa, em parceria com outras entidades.
“O prêmio vem de uma forma bastante surpresa e ao mesmo tempo emocionante que é ter o reconhecimento de um trabalho que é feito em grupo. A nossa representatividade se dá no âmbito coletivo. O ‘Serras Guerreiras…’ permite o visitante conhecer toda a nossa realidade, contada por nós, levada por nós e poder ter a dimensão do que é viver na Amazônia e na Terra Indígena aqui no Rio Negro”, disse Marivelton neste sábado, 27, em entrevista à REVISTA CENARIUM.
Luta pelos direitos
Natural de Santa Isabel do Rio Negro, Marivelton Baré luta pelos direitos dos povos indígenas do médio e baixo Rio Negro há, pelo menos, 16 anos. Ele conta que o projeto surgiu da vontade da comunidade de mostrar aos turistas um pouco mais da cultura local, em 2017. Para isso, era preciso buscar parceiros e promover atividades sustentáveis que pudessem gerar emprego e renda aos indígenas da região.
“A gente já tinha o atrativo, mas precisaria dos parceiros para promover o turismo e graças a ele conseguimos oferecer aos turistas uma experiência inovadora, envolvendo cinco comunidades de Santa Isabel do Rio Negro. O turista pode ver as apresentações culturais, pode degustar da alimentação regional, visitar trilhas, subir as serras. Na comunidade, vai poder ver a exposição de artesanatos. É uma vivência ímpar para quem nunca veio à região à procura de produtos indígenas do rio Negro”, salientou.
Em 2018, o líder indígena com o apoio da comunidade começou a experiência de trabalhar com turismo em Santa Isabel do Rio Negro. A iniciativa foi estabelecida com o apoio dos parceiros. Segundo o presidente da Foirn, a proposta se manteve em um ritmo bom até a pandemia da Covid-19 se instalar nas comunidades tradicionais na Amazônia e suspender as viagens.
“Toda renda com o turismo é gerada para as famílias. A pandemia veio para atrapalhar, devastou nossa região, levou nossos familiares e, praticamente, suspendeu com essa continuidade do projeto que busca, a partir da percepção indígena, mostrar como vive nosso povo”, finalizou o líder Baré.
Equipe DMIRN/FOIRN promove distribuição de máscaras aos idosos durante nova fase da campanha de imunização contra a Covid-19
Em ação de solidariedade e conscientização sobre a importância da prevenção e da imunização contra a Covid-19, o Departamento de Mulheres Indígenas da FOIRN (DMIRN/FOIRN) promoveu, neste sábado (20/02), a entrega de máscaras a idosos que receberam a segunda dose da vacina e a profissionais de saúde. Foram distribuídas cerca de mil máscaras confeccionadas por mulheres indígenas em iniciativa da Campanha “Rio Negro, Nós Cuidamos”, desenvolvida pela FOIRN em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) para ações de proteção dos povos tradicionais durante a pandemia.
“Essa é uma ação de preservação da vida, de precaução contra a Covid-19. A gente pode ver que os idosos estão mesmo usando as máscaras e sabemos que alguns deles não têm recursos para comprar a proteção. Outros vivem sozinhos e precisam de apoio para os cuidados”, disse a coordenadora do DMIRN e diretora interina da FOIRN, Maria do Carmo Piloto Martins, a Dadá Baniwa.
A entrega das máscaras aconteceu nos postos de vacinação da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) de São Gabriel da Cachoeira, que promoveu a segunda fase da campanha de vacinação contra a Covid-19 para os idosos. A primeira fase foi realizada em 23 de janeiro, quando o DMIRN retomou a Campanha “Rio Negro, Nós Cuidamos”, com entrega de máscaras e kits de higiene. Até 18 de fevereiro, um total de 6.557 pessoas já tinham sido vacinadas.
Enfermeira da Semsa, Alberta Socorro Andrade avalia na primeira etapa alguns indígenas estavam receosos em receber a medicação, mas nessa segunda etapa estavam todos mais confiantes. Profissionais de saúde orientam a manter os cuidados preventivos mesmo após a segunda dose, pois a vacina leva até quatro semanas para fazer efeito.
Coordenadora do Programa Nacional de Imunização (PNI) em São Gabriel da Cachoeira, a enfermeira Laryssa Feitosa informou que o município já recebeu aproximadamente 31 mil doses do imunizante contra a Covid-19. A primeira remessa, de 27 mil doses, foi destinada ao Distrito Sanitário Especial Alto Rio Negro (Dsei-ARN), Dsei Yanomami e profissionais de saúde. Logo em seguida vieram os idosos. O próximo passo é vacinar profissionais de saúde de serviços particulares e, em seguida, será dado prosseguimento à imunização de profissionais de saúde que trabalham na parte administrativa dos serviços públicos.
A ação de entrega de máscaras teve apoio do Departamento de Jovens da Foirn (DAJIRN/FOIRN) e Setor de Comunicação (Setcom). Lembre-se parente: tome a vacina! Só vamos conseguir controlar a pandemia se muita gente for vacinada!
Leia depoimentos de quem já está vacinado contra a Covid-19:
Remédios tradicionais e imunização
A professora, artesã e conhecedora indígena Cecília Albuquerque, da etnia Piratapuia, foi até o ginásio do Colégio São Gabriel para receber a dose de vacina contra a Covid-19. “Espero que todos possam tomar a vacina para não pegar a doença. Doer não dói. E salva vidas”, diz. Dona Cecília fez usos de remédios tradicionais durante toda a pandemia e continua preparando e tomando os chás.
Primeiro casal de idosos a ser vacinado
O casal Mariquinha Navarro Campos, de 86 anos, da etnia Piratapuya, e Lauriano Freire Campos, de 88 anos, da etnia Tariano, tomaram a segunda dose da vacina nesse sábado (20/02). Eles foram os primeiros idosos de São Gabriel a receberem a vacina, em 19 de janeiro. “Eles não tiveram qualquer problema. Passaram bem o tempo todo”, informou o filho deles, Sérgio Navarro.
Dose de esperança
Funcionária da Foirn, Maria de Lourdes Veiga, da etnia Wanano, acompanhou sua mãe Emília Madalena, de 79 anos, Kubeu, para tomar a vacina na Escola Irmã Inês Penha. Para Lourdes, a vacina é sinônimo de esperança. “Minha irmã de 30 anos morreu vítima da Covid-19 na comunidade Jutica, no Rio Uaupés. Foi muita tristeza para a minha mãe. Agora temos essa esperança”, diz.
Exemplo de força
Indígena da etnia Baré, Apolônia Ramos Lizardo fará 90 anos no próximo mês de maio e foi se vacinar na manhã de sábado. Falando na língua Nheengatu, ela contou que recebeu a dose porque quer se salvar.
Falta de conhecimento
O indígena da etnia Baniwa Fernando José, de 74 anos, comentou sobre a resistência que alguns parentes moradores de comunidades estão tendo na hora de tomar a vacina. “A falta de conhecimento é que está levando os indígenas a terem medo da vacina. É preciso chegar às comunidades, explicar a eles o que é esse medicamento, conversar. Eles vão entender e tomar. É muito importante se proteger contra a doença, tomar a vacina”, disse. Ele e sua esposa Aurora Miguel, Baniwa, foram vacinados na Escola Sagrada Família. Fernando e Aurora são pais da liderança indígena André Baniwa e têm mais quatro filhos: Bonifácio, Braulina, Maria Eliana e Júlia.
Preocupação com a família
Maria do Carmo Martins Piloto, de 71 anos, mãe da Dadá Baniwa, tomou a vacina na Escola Irmã Inês Penha. Ela quer saber agora é quando os filhos e outros familiares serão vacinados. “Estou muito feliz de tomar a segunda dose. Agora penso nos meus filhos que ainda não tomaram a vacina”, disse.
Ela é uma das indígenas que estão confeccionando as máscaras de pano para serem doadas, inclusive as distribuídas nesse sábado. “Eu fico sentindo satisfação de poder ajudar, costurando mesmo com a minha máquina que está dando problema”, disse. O objetivo é que sejam costuradas 8 mil máscaras. Também estão ajudando nessa ação solidária Lucila Mendes de Lima, da etnia Tariano; Vanderleia Cardoso, Piratapuia; e Carmem Figueiredo Alves, Wanano.
Perda de familiares
“Eu não tive medo de tomar a vacina. Eu gostaria que todos os indígenas procurassem se vacinar. Por causa da Covid-19, eu perdi quatro pessoas da minha família e fiquei só eu. Morreram de Covid-19 meu pai e minha mãe, moradores de Santa Isabel do Rio Negro, e meus dois irmãos, um que morava em Santa Isabel e outro que vivia em Manaus. Eu moro aqui em São Gabriel, com minha mulher, quatro filhos e cinco netos. Quero ficar forte para ajudar outras pessoas que me auxiliaram. Agora estou esperando a minha família se vacinar.” Bernardino Brazão, de 61 anos, da etnia Baré.
Sem reação
“Eu não senti nenhuma reação negativa. Tomei a vacina e voltei a trabalhar normalmente. Não ´precisa ter medo.” Irmã Irene Martini, de 73 anos
Vida normal
Maria Virgínia Albuquerque, de 72 anos, da etnia Baré, dá “a maior força” para as pessoas se vacinarem. “Antes, na primeira dose, eu estava com um pouco de medo. Agora está tudo mais calmo. Estamos querendo voltar à vida normal”, disse.
Dona Jacinta Tukano prepara o chá. Foto: Eucimar dos Santos/Foirn
Os remédios tradicionais indígenas estão sendo usados, desde o início da pandemia, no combate à Covid-19 no Alto Rio Negro. Nesta segunda onda da crise em saúde, em ação solidária apoiada pela Foirn, conhecedoras tradicionais indígenas estão preparando chás e doando às pessoas em tratamento na Unidade de Atendimento Primário Indígena (Uapi/Dsei/SGC).
“Como conhecedoras tradicionais, sentimos a necessidade de ajudar os parentes, por isso viemos realizar esse trabalho aqui na cidade”, diz dona Jacinta Sampaio, 55, da etnia Tukano, moradora da comunidade Balaio, BR-307.
O chá caseiro tradicional está sendo preparado por ela, por sua filha Adelina Sampaio e por dona Kátia Marinho, também da etnia Tukano.
Pessoas interessadas nos remédios indígenas podem entrar em contato pelo número (zap) (97) 99612-9275. (apenas para moradores de São Gabriel da Cachoeira ou comunidades próximas).
A região do Rio Negro continua sendo fortemente atingida pela segunda onda da pandemia da Covid-19. Em São Gabriel da Cachoeira já são 91 mortes.
Essa iniciativa de dona Jacinta, com o preparo de remédios tradicionais, reforça os cuidados contra a pandemia.
Mas é necessário manter medidas preventivas como uso de máscara, distanciamento social e lavagem das mãos.
E lembre-se: o mais importante agora é tomar a vacina! Dá para fazer uso dos remédios tradicionais e tomar a vacina.
A ação das conhecedoras tradicionais vai até 02/03 e conta com apoio da Foirn através do Departamento das Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN). Para conhecer mais e apoiar os nossos trabalhos de combate à Covid-19, acesse www.noscuidamos.foirn.org.br.
Participante do 1º Encontro de Conhecedores Tradicionais do Rio Tiquié. Foto: Ana Amélia Hamdan/ISA
Algumas voadeiras que circularam pelo Rio Tiquié na primeira semana de dezembro transportaram passageiros com uma missão especial: trocar saberes tradicionais utilizados no enfrentamento à Covid-19 e estabelecer um protocolo indígena de proteção contra essa doença e outras enfermidades que possam atingir os povos do Rio Negro. Nos dias 4, 5 e 6 de dezembro, a comunidade Serra de Mucura, no Rio Tiquié, município de São Gabriel da Cachoeira (AM), recebeu o 1º Encontro de Conhecedores Tradicionais do Rio Tiquié, promovido pela Foirn com apoio do Instituto Socioambiental (ISA): foram três dias de intensa troca de saberes entre os kumuã (plural de kumu) – como os conhecedores tradicionais são conhecidos na região. A reunião contou com a presença de um pajé que conduziu ritual para proteger indígenas e não indígenas do novo coronavírus.
“Um dos objetivos do encontro é organizar os protocolos tradicionais indígenas de tratamento e prevenção da Covid-19. Os conhecedores fizeram os contos, as narrativas sobre as prevenções e tratamentos. Avançamos mais, com a criação de uma coordenação interna para conduzir estratégias para combate e prevenção da Covid e para articular outros eventos desse tipo, agregando mais conhecedores”, informa o vice-presidente da Foirn, Nildo Fontes, também diretor de referência da DIAWI´I (Coordenação das Organizações Indígenas do Tiquié, Baixo Uaupés e Afluentes).
Nildo Fontes participou do encontro de Kumuã e explica que a demanda dessa reunião surgiu durante a realização das assembleias regionais eletivas da Foirn, quando indígenas moradores de diversas regiões reforçaram a informação de que recorreram aos saberes ancestrais para combater a Covid-19. Durante toda a pandemia, os povos tradicionais do Rio Negro utilizaram plantas medicinais, benzimentos e rituais para proteção no enfrentamento à pandemia. O relato é de que muitos se curaram com essas práticas, o que levou ao fortalecimento desses conhecimentos. Entretanto, esse resultado não foi registrado pelos órgãos oficiais.
“Muitos de nós tivemos os sintomas da doença, usamos os medicamentos tradicionais e nos curamos, mas isso não está nos registros oficiais. Queremos que isso registrado”, explica Nildo Fontes.
Na conclusão da assembleia, foi divulgada uma carta em que os Kumuã demandam das instituições apoio para valorização dos saberes, inclusive com remuneração dos conhecedores e construção de casas de saber. Foi criada uma coordenação de conhecedores tradicionais para articulação e mobilização para fortalecimento dos saberes, estando prevista a realização de novo encontro em 2021, na comunidade de Caruru Cachoeira, também no Rio Tiquié. Fazem parte desse grupo o antropólogo Dagoberto Azevedo, da etnia Tukano, doutorando da Universidade Federal do Amazonas (Ufam); o professor Orlindo Marques, da etnia Tukano; Geraldino Tenório, da etnia Tuyuka; o conhecedor Damião Barbosa, Yeba Masã; o agente de saúde indígena (AIS) Arlindo Moura, Tukano.
Entre os conhecedores presentes estavam Nazareno Marques (Tukano); Mário Campo (Desana); Tarcísio Barreto (Tukano); Celestino Azevedo (Tukano); Feliciano Tenório (Tuyuka); Damião Barbosa (Yebamasã). Além deles havia professores, agentes indígenas de saúde (AIS) e Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas).
O coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do ISA, Aloisio Cabalzar, e a analista de comunicação do ISA, Juliana Radler, participaram do encontro de conhecedores do Rio Tiquié. Durante a assembleia foi entregue a representantes de comunidades a publicação Plano de Gestão Territorial e Ambiental do Alto Rio Negro (PGTA), elaborado em conjunto pela FOIRN e ISA. O volume foi lançado em novembro durante a XV Assembleia Eletiva da Foirn.
Aloísio Cabalzar aponta que o uso dos conhecimentos tradicionais durante a pandemia levou a um processo de autoconfiança dos indígenas. “Aqui nessa região, o tratamento principal para os povos Tukano é o benzimento, o encantamento que é feito pelos conhecedores. Eles procuraram nesse conjunto de encantamentos, a origem dessa doença. Então, a importância desse encontro é ser uma oportunidade de vários conhecedores do rio, de vários povos e comunidades, se encontrarem. Nem todo mundo sabe as mesmas coisas. Eles puderam compartilhar o que que estão fazendo, o que está dando certo”, disse.
O encontro foi registrado por equipe do ISA e Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, coordenada por Juliana Radler. Ela explicou que os registros do encontro serão utilizados para a produção de um documentário de curta duração que mostrará o enfrentamento da Covid-19 a partir de ações articuladas pelo Comitê Interinstitucional de Combate à Covid-19 de São Gabriel da Cachoeira e do uso de remédios e práticas tradicionais dos povos indígenas. As filmagens foram feitas no local pelo documentarista Christian Braga, com apoio do fotógrafo indígena Paulo Desana e do comunicador indígena Mauro Pedrosa. “Foi um encontro de força impressionante. Como jornalistas e comunicadores fomos chamados a levar adiante o recado dos povos indígenas de fortalecimento dos saberes e cuidado com meio ambiente”, disse Juliana Radler.
Durante quatro dias, os conhecedores discutiram em suas línguas indígenas – principalmente Tukno e Tuyuka – com apoio de tradução para o português do antropólogo Dagoberto Azevedo, além de Orlindo Marques e Geraldino Tenório. Uma das demandas dos próprios conhecedores é que esses saberes sejam compartilhados para com todos os povos indígenas do Rio Negro. O material será traduzido por comunicadores indígenas e compartilhado por meio de áudios com os demais povos do Rio Negro.
O Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN) apoiou e participou do encontro. Representante do órgão, a psicóloga Ana Délia explicou que os trabalhos das equipes levam em conta a valorização dos saberes indígenas. Ela orientou sobre os procedimentos para evitar a contaminação pelo novo coronavírus, como uso de máscara, álcool em gel e evitar compartilhar objetos.
Participantes do 1º Encontro de Conhecedores Tradicionais do Rio Tiquié. Foto: Ana Amélia Hamdan/ISA
RITUAL
Localizada na floresta amazônica e no meio do caminho entre os distritos de Taracuá e Pari-Cachoeira, Serra de Mucura é considerado um local sagrado pelos indígenas, abrigando quatro cavernas que representam malocas de onde surgiram os povos indígenas do Alto Rio Negro, do qual o Tiquié é afluente.
Capitão da Comunidade Serra de Mucura e presidente da Associação Indígena das Comunidades do Médio Tiquié, Roberval Sambrano Pedrosa e seus familiares recepcionaram o grupo de conhecedores. “Estamos realizando um grande evento aqui na comunidade sobre Covid-19. Estou muito alegre. É um lugar especial, com quatro cavernas que representam malocas antigas de onde se se originaram os povos do Alto Rio Negro”, explica.
O encontro se tornou ainda mais especial com a realização de um ritual conduzido pelo pajé Jairo Villegas, que é um Yaí, um tipo de especialista tradicional que trabalha chupando as doenças dos pacientes. Os próprios indígenas explicam que a presença de um pajé nas comunidades foi ficando cada vez mais rara devido à influência dos religiosos que consideravam a prática um pecado, o que aconteceu também com os rituais de proteção.
Na cerimônia realizada na Serra de Mucura foram benzidas substâncias como rapé, tabaco, Ipadu, carajiru, jenipapo e breu branco. O ritual foi regado com a bebida tradicional caxiri, preparada pelas mulheres da comunidade. Cantos e danças ocorreram pelo menos durante 8 horas seguidas. Foram utilizados maracás, chocalhos e adornos.
Durante esse ritual, o pajé rearrumou o mundo, mandando a Covid-19 de volta para o lugar de onde ela saiu. Entretanto, ele mandou o recado de que precisa de uma contrapartida dos não indígenas, que devem parar de mexer no meio ambiente e de provocar desmatamentos e queimadas. Também ajudaram na condução do rito o conhecedor Damião Amaral e os bayás (mestre de cerimônias) Rodrigo Lima Barbosa e Bernardo Lima Barbosa, todos da etnia Yeba Masã. O pajé fala a língua Makuna, que foi traduzida por Damião Amaral.
Para ajudar no entendimento da ação do pajé, o antropólogo Dagoberto Azevedo compara o ritual realizado na Serra de Mucura a uma dose de reforço da vacina. “O que eles puderam fazer no ritual é a arrumação desse mundo cosmológico com esteio e portas de sustentação. Depois protegeram essa plataforma terrestre com esteios que têm durabilidade para combater o novo coronavirus. Protegeram a pessoa também com uma série de luzes e reflexos”, explica. O pajé também mencionou o uso de plantas amargas, como o cipó saracura.
O antropólogo indica que o ponto principal é que o pajé mandou a doença de volta para casa. “O ponto principal é que eles encaminharam o vírus para a origem dele, na casa dos brancos. Parecia que (o vírus) veio atacar os povos indígenas da região. O Yaí viu e abriu caminho por onde ele veio. Poderia atingir os não indígenas, mas ele flexibilizou essas portas para que os parceiros continuem trabalhando com os povos indígenas. Com essa flexibilização, o Yaí viu com a força do pensamento que a doença parecia estar querendo retornar. Mas nesse encontro ele reforçou essa proteção. Lançou como se fosse o reforço da vacina, traduzindo para vocês entenderem”, resume Dagoberto.
Veja abaixo as principais demandas que constam da Carta dos Kumuã do Rio Tiquié
1 – Criar programas referente a valorização e fortalecimento dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas da região Diawií;
2 – Criar agenda de discussão interinstitucional para elaborar mecanismos para reconhecimento da categoria de conhecedores tradicionais visando à remuneração no processo de trabalho preventivo e de cura das doenças;
3 – Apoiar projetos específicos para as aldeias indígenas sobre cultura, encontros, cerimônias e atividades relacionadas para seu fortalecimento
4 – Apoiar na construção das casas dos saberes, usando materiais modernizados; elaborar projetos arquitetônicos para construção de casas de saber com formato tradicional e usar materiais adaptados modernos nas estruturas;
5 – União das instituições no processo de projetos referentes nos anseios dos povos indígenas;
6- Criar mecanismos para organizar formação e reconhecimento de novos conhecedores tradicionais indígenas;
7- Apoiar na divulgação dos trabalhos dos encontros;
8 – Valorização de antropólogos indígenas para colaborar no processo de organização do protocolo de prevenção e tratamento da Covid-19 e de outras doenças com conhecimentos tradicionais para o uso interno das comunidades dentro de seus territórios.
Participantes moradores de comunidades (por comunidade e em ordem alfabética)
Acará-Poço
Oscarina Caldas Azevedo, Desana, de Acará-Poço
Rafael Antônio Azevedo, Tukano, de Acará-Poço
Boca do Sal
Rafael Marques, Tukano, de Imaculada/Boca do Sal
Caruru-Cachoeira
Claudimar Rezende Marques, Tukano, de Caruru-Cachoeira
Nazareno Marques, Tukano, de Cachoeira Caruru
Orlindo Marques, Tukano, de Caruru-Cachoeira
Cunuri
Estévão Monteiro Pedrosa, Tukano, Cumuri
João Carlos Pedrosa, Tukano, de Cunuri
Guadalupe
Oziel Barbosa Macedo, Desano, de Guadalupe
Morro do Beija-Flor
Bernardo Lima Barbosa, Yeba Masã, de Morro do Beija-Flor
Tarcísio Lima, Yeba Masã, de Morro do Beija-Flor
Pirarara-Poço
Alesânia Aguiar Azevedo, Tukano
Arnaldo Azevedo, Tukano, de Pirarara-Poço
Celestino Rezende Azevedo, Tukano, de Pirarara-Poço
Derluce Massa Azevedo, Tukano, de Pirarara-Poço
Edigio Veiga, Desano, de Pirara-Poço
Eugênia Pimentel, Desano, de Pirarara-Poço
João Pedro Lima Azevedo, Tukano, de Pirarara-Poço
Jones Rezende, Tukano, de Pirarara Poço
Jusaleia Veiga, Desana, Pirarara-Poço
Osimar Azevedo, Tukano, de Pirarara-Poço
Palmira Azevedo, de Pirara-Poço
Rafael Peixoto Veiga, Desano, de Pirarara-Poço
Rosilene Aguiar Azevedo, Tukano, de Pirarara- Poço
Rosivaldo Aguiar Azevedo, Tukano, de Pirarara-Poço
Vilmar Rezende Azevedo, Tukano, de Pirara-Poço
Porto Amazona
Jairo Lemdaño Villega, Makuna, Porto Amazona
Santa Rosa
Inácio Macedo Barbosa, Yeba-Masã, de Santa Rosa
João Bosco Macedo, Desano, de Santa Rosa
Mateus Gomes Macedo, Desano, de Santa Rosa
São Domingos
Tarcísio Borges Barreto, Tukano, de São Domingos
São Felipe
Damião Amaral Barbosa, Yeba-Masã, São Felipe
Maria Áurea Nunes Batista, Baniwa, de São Felipe
Rodrigo Lima Barbosa, Yeba Masã, de São Felipe
São José I
Rogelino da Cruz Alves Azevedo, Tukano, de São José I
São Luiz
Cornélio Gonçalves, Desano,
São Miguel
Geraldino Tenório, Tuyuka, de São Miguel
São Pedro
Anunciata Rezende Marques, Tukano, de São Pedro
Edilson Villegas Ramos, Tuyuka, de São Pedro
Feliciano Tenório, Tuyuka, de São Pedro
João Paulo Tenório, Tuyuka, de São Pedro
Josival Azevedo Rezende, tuyuka, de São Pedro
São Sebastião
Germano Campos, Desano, São Sebastião
Margarete Pinheiro, Tuyuka, de São Sebastião
Mário Campos, Desano, de São Sebastião
Odilon José Lopes Campos, Desano, de São Sebastião
Serra de Mucura
Enedina Azevedo, Desana, Serra do Mucura
Ernesto da Silva, Tukano, Serra do Mucura
Jocimara Alves Maia, Tukano, de Serra do Mucura
José Calixto Araújo Pedrosa, Tukano, Serra do Mucura
Josiane Maria Pedrosa, Tukano, de Serra do Mucura
Maria Aparecida Bernardes, Tariana, de Serra do Mucura
Maria de Lourdes Marques Tenório, Tuyuka, de Serra do Mucura
Roberval Sambrano Pedrosa, Tukano, Serra do Mucura
Taracuá
Arlindo Matos Moura, Tukano, de Taracuá
Isaías da Silva, Tukano, de Taracuá
FOIRN
Vice-presidente, Nildo Fontes
ISA
Aloisio Cabalzar, coordenador-adjunto do Programa Rio Negro
Juliana Radler, analista de comunicação
Ana Amélia Hamdan, jornalista
Christian Braga, documentarista
Paulo Desana, fotógrafo e documentarista indígena
Mauro Pedrosa, Aima
Julião, Barqueiro
Augusto, Barqueiro
Antropólogo indígena
Dagoberto Azevedo, Tukano, antropólogo doutorando da Univesidade Federal do Amazonas (Ufam)
Dsei-ARN
Ana Délia, Psicóloga
Colaborou: Ana Amélia Hamdan/ISA e Nildo José Miguel Fontes/Foirn
Proposta das bases é criação de rede de lideranças indígenas para atuar em conjunto com os órgãos públicos responsáveis pelo ensino na região
Diretoria da Foirn, assessoria indígena da Seduc e lideranças indígenas se reúnem para avaliar ações. Foto: Reprodução
O Departamento de Educação Escolar Indígena da Foirn está em fase de reestruturação e já deu início a discussões para ampliar a participação de lideranças da região do Rio Negro na Assessoria Indígena da Secretaria de Estado da Educação do Amazonas (Seduc), com reforço na parceria entre as entidades. Nessa terça-feira, 01/12, a Diretoria da Foirn e Coordenador do Departamento de Educação Escolar Indígena, Edson Gomes Baré, se reuniram com a Assessora Indígena da Seduc, Sidneia Fontes, e com Alva Rosa, Assessora da Coordenação das Escolas Estaduais do Interior da Coordenadoria Local da Seduc em São Gabriel da Cachoeira (AM). Algumas lideranças indígenas de base também participaram do encontro.
Entre os temas discutidos no encontro, que aconteceu na sede da Foirn em São Gabriel, estão a avaliação da atuação da assessoria indígena e a reestruturação do Departamento de Educação Escolar Indígena da Foirn, que acontece amparada nas demandas das bases discutidas e encaminhadas nas assembleias sub-regionais.
Uma das principais propostas formar uma rede de lideranças indígenas que possam participar diretamente nas discussões e implementação de ações em parcerias com as instituições que cuidam do tema de educação de escolar indígena do Rio Negro, como as secretarias municipal e estadual de Educação. A proposta será consolidada no primeiro semestre de 2021.
A Assessoria Indígena dentro da Seduc foi uma reivindicação e conquista do Movimento Indígena do Rio Negro no atual Governo Wilson Lima. Ao longo de dois anos de atuação, a assessoria tem sido um importante espaço de interlocução de lideranças e professores indígenas com o Governo do Estado, especialmente com a Seduc. Em 2019, algumas comitivas de lideranças indígenas conseguiram dialogar com a secretaria através da mediação da Assessoria Indígena.
Atual assessora, Sidneia Fontes relatou desafios na realização das ações e recomendou mais diálogo e união entre a assessoria e os espaços que já existem hoje, como a Gerência de Educação Escolar Indígena e o Conselho de Educação Escolar Indígena na luta e na implementação de ações.
Marivelton Rodriguês Baré (em pé) foi reeleito presidente da Foirn para a gestão 2021-2024. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Os gestores que estarão à frente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) entre 2021 e 2024 foram definidos nesta sexta-feira: o atual presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, da etnia Baré, foi reeleito para o cargo. O vice-presidente, Nildo Fontes, Tukano, também permanecerá no posto. A eleição ocorreu durante a XV Assembleia Geral Ordinária Eletiva da FOIRN, que este ano teve o tema “Pandemia e os saberes tradicionais indígenas do Rio Negro”. O encontro aconteceu em São Gabriel da Cachoeira (AM), na quinta e sexta-feira, 26 e 27, no auditório do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), seguindo as regras sanitárias para evitar a contaminação pelo novo coronavírus.
“A gente não vai reduzir espaços e não vai reduzir ninguém, pois o nosso espaço é coletivo. Temos que focar nas nossas estratégias”, disse Marivelton Baré, em seu discurso logo após a eleição, lembrando que começou sua trajetória no movimento jovem indígena. Entre suas prioridades para a próxima gestão estão o fortalecimento institucional da FOIRN, gestão transparente e reforço das bases. Ele concorreu pela Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro (CAIMBRN).
Também se candidataram à presidência Nildo José, da Coordenação das Organizações Indígenas do Tiquié, Baixo Uaupés e Afluentes (DIAWÌI); Adão Henrique, da Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié (CAIARNX); e Janete Alves, da Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê (COIDI). Associação Baniwa e Koripako (NADZOERI) não apresentou candidato.
Cada uma das cinco coordenadorias regionais teve direito a 20 votos. Marivelton Baré recebeu 58 votos; Nildo Fontes teve 34; Janete Alves ficou com 5 votos. Adão Henrique não foi votado. Três votos foram anulados.
As assembleias eletivas realizadas nos meses de outubro e novembro nas cinco coordenadorias regionais já tinham definido a diretoria que trabalhará em conjunto com a presidência. Foram reeleitos os diretores de referência Isaías Pereira Fontes, Baniwa; Adão Francisco, Baré; e Carlos Neri, Piratapuya. Eleita pela primeira vez para a diretoria de referência, Janete Desana, será a única mulher na diretoria da casa. Ela entra no lugar de Almerinda Ramos, do povo Tariano, liderança indígena, atual diretora executiva e ex-presidente e da FOIRN.
Coordenadora-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Nara Baré participou da Assembleia em São Gabriel. “Foi um movimento vitorioso para todos nós. Queremos parabenizar os diretores eleitos, que executarão as demandas comunidades. Gostaria de fortalecer nossa parceria com a FOIRN. E é nosso dever enquanto organização a defesa de nossos territórios”, disse no encerramento do encontro.
Nara Baré, Coordenadora da Coiab participou da assembleia da Foirn em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Ray Baniwa/Foirn
O coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA), Aloisio Cabalzar, parabenizou os eleitos e renovou a colaboração e trabalho conjunto com a FOIRN. “Esse caminho da FOIRN é um caminho iluminado, com muita contribuição para a região e povos indígenas. Estamos juntos”, disse.
Desafios da Covid-19 e as limitações impostas pelo Governo Federal aos povos indígenas estiveram presentes durante as discussões na XV Assembleia Eletiva. Por outro lado, o fortalecimento institucional da FOIRN e a reação dos povos indígenas frente à pandemia, com o uso e valorização dos remédios e práticas tradicionais, também foram ressaltados.
Durante a assembleia foi lançado o livro do Plano de Gestão Territorial e (PGTA) do Alto Rio Negro, elaborado em parceria pela FOIRN e ISA. Ex-presidente e diretores da FOIRN e convidados foram homenageados e receberam exemplares da publicação. Segundo Marivelton Baré, um dos desafios da nova gestão é buscar parcerias para garantir a execução do PGTA. “É nosso plano de vida do território. Ali nele estão as nossas reivindicações, o que a gente quer” disse.
Conforme Aloisio Cabalsar, o PGTA já vem sendo utilizado como referência para trabalhos nos territórios indígenas do Rio Negro. “O PGTA é exemplar em termos da profundidade do trabalho investido, envolvendo um processo amplamente participativo, com levantamento demográfico socioeconômico das condições de cada comunidade. O trabalho envolveu mais de 40 pesquisadores indígenas e possibilitou atualizar a base de dados. Já é referência para instituições públicas e outras organizações que atuam nas terras indígenas. É um documento que forma base de trabalho e planejamento sólido para a região”, disse.
Jornalista do ISA, Juliana Radler apresentou os trabalhos da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, que vem atuando na produção de notícias no Rio Negro e este ano cobriu as eleições municipais em São Gabriel da Cachoeira, inclusive com entrevistas com os candidatos a prefeito. Os comunicadores fizeram a cobertura da XV Assembleia Eletiva da FOIRN. Um documentário sobre o encontro que reuniu indígenas de diversas etnias do Rio Negro está em processo de produção.
O reforço da economia indígena esteve em destaque durante o encontro: Marivelton Barroso divulgou que está em elaboração o Fundo Indígena do Rio Negro, em apoio a projetos das associações regionais para que essas organizações tenham autonomia de execução de projetos. O fundo, gerido pela FOIRN, deve lançar os primeiros editais no início de 2021.
Coordenadora do Fundo Podáali – Fundo Indígena da Amazônia, Valéria Paye informou que os primeiros editais serão abertos em 2021, com objetivo de fortalecer iniciativas indígenas, sempre com atenção na preservação ambiental e da cultura dos povos tradicionais. O fundo é gerido pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Também foi divulgada parceria entre Coiab e Unicef que beneficiará a os indígenas do Rio Negro, já havendo definição de bolsas para quatro comunicadores em São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
Durante a assembleia foram aprovadas algumas demandas e deliberações. O Departamento de Mulheres Indígenas (DMIRN), o Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas (DAJIRN), o Departamento de Educação e o Conselho Diretor vão ter reforço de pessoal.
Também foi definido que a Foirn articulará para garantir o reconhecimento e registro dos tratamentos indígenas utilizados contra a Covid-19 e, ainda, para impulsionar discussões sobre a criação de centro de saúde indígena no Rio Negro. A Federação também buscará compromisso institucional das prefeituras de São Gabriel, Santa Isabel e Barcelos; além de fazer parcerias com o Sebrae para o desenvolvimento do artesanato.
Francisco Baniwa oferece caxirí para as lideranças do Rio Negro e convidados na abertura da assembleia. Foto: Ray Baniwa/Foirn
A tradicional cerimônia do Dabucuri de Patauá – com canto, dança e oferta de alimentos – marcou ontem quinta-feira, 26, a abertura da XV Assembleia Geral Ordinária Eletiva da FOIRN, que este ano traz o tema “Pandemia e os saberes tradicionais indígenas do Rio Negro”. Entre os assuntos discutidos no primeiro dia do encontro estão a necessidade do fortalecimento do movimento indígena e os desafios trazidos pela pandemia causada pelo novo coronavírus. A assembleia ocorre no campus do Instituto Federal da Amazônia (Ifam) em São Gabriel da Cachoeira (AM) e termina nesta sexta-feira, dia 27.
Presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, da etnia Baré, falou dos desafios enfrentados durante a pandemia e reforçou a necessidade da união dos povos indígenas. “A gente vive momento de ataques às organizações. A gente não tem que se perseguir de parente para parente. Temos que honrar nosso compromisso: nosso compromisso é com a causa, interesses territoriais, economia indígena, com a nossa sigla. Hoje a gente é respeitado como liderança, conhecido no Brasil, no mundo, como modelo de organização. Todos nós que passamos por essa diretoria somos guerreiros, deixamos história. Essa conquista é de todos nós. Se conseguimos representatividade moral e institucional isso é do movimento indígena do Rio Negro, não só da diretoria”, disse.
DiretorPresidente da Foirn, Marivelton Rodriguês Baré na abertura da assembleia. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Ele também lamentou a perda de indígenas vítimas da Covid-19, entre eles importantes lideranças e conhecedores tradicionais do Rio Negro. Marivelton Baré coordenou os trabalhos do Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira e, durante o encontro desta quinta-feira, apresentou as ações desenvolvidas pela FOIRN durante a crise em saúde. O uso dos remédios e práticas tradicionais dos povos do Rio Negro contra a Covid-19 também foi ressaltado. “Foi o que nos salvou”, disse a liderança.
Ao lado de Marivelton Baré, compondo a mesa da Assembleia, estavam o vice-presidente da FOIRN, Nildo Fontes, Tukano; e os diretores Isaías Pereira Fontes, Baniwa; Almerinda Ramos, Tariana; Adão Francisco, Baré; e Carlos Neri, Piratapuya.
Além de contar com a presença de delegados das cinco coordenadorias que representam os 23 povos do Rio Negro, o encontro em São Gabriel da Cachoeira teve a presença de lideranças nacionais e de indígenas da Região Nordeste e do Estado do Pará.
Coordenadora-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Nara Baré participa do encontro. Ela reiterou a necessidade de fortalecimento dos povos indígenas. “Com associações, parceiros, apoiadores, enfrentamos as pessoas que se colocam como nossos inimigos. Porque não somos inimigos de ninguém. Assim teremos o fortalecimento da representatividade da voz dos povos indígenas”, diz. Nara Baré é nascida em São Gabriel da Cachoeira e sua família é da Ilha do Mirí, no Alto Rio Negro.
A diversidade cultural da Assembleia foi destacada pela jornalista do Instituto Socioambiental (ISA), Juliana Radler. “Este foi um ano muito desafiador que estivemos de luta e luto. Mas estamos fortes, vamos dar as mãos e enfrentar a pandemia de cabeça erguida e fortalecidos para um 2021 com mais trabalho. Nessa assembleia temos o movimento indígena do Rio Negro e do país, com Apib, Coiab, além de lideranças de outros povos. Estamos juntos na celebração da diversidade cultural do nosso país”, disse. Juliana Radler representou o coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do ISA, Aloisio Cabalzar.
Coordenadora-executiva da Apib, Valéria Paye participou do encontro e traçou um panorama do movimento indígena, ressaltando desafios como direito ao território, superação da tutela e perda de conquistas durante o atual governo.
Também participam da assembleia Alessandro Santo, Pataxó de Porto Seguro (BA), da União Nacional Indígena (UNI); Junior Xucuru, de Pernambuco, da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer); e o cacique Braz, do povo Tapuia do Pará. Eles apresentaram o canto Toré, tradicional do povo Xucuru, na língua Brobó.
A Assembleia contou com delegações das cinco coordenadorias regionais do Rio Negro: Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê (COIDI); Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié (CAIARNX); Associação Baniwa e Koripako (NADZOERI); Coordenação das Organizações Indígenas do Tiquié, Baixo Uaupés e Afluentes (DIAUWÌI); e Coordenadoriadas Associações Indígenas do Médio e BaixoRio Negro (CAIMBRN).
Plateia formada pelos delegados das cinco coordenadorias regionais da Foirn. Foto: Ray Baniwa/Foirn
Moradores das comunidades falaram sobre como enfrentaram a pandemia no território indígena e narraram momentos de angústia, em alguns casos com falta de estrutura e atendimento adequados. A estratégia mais utilizada foi o uso dos remédios e práticas tradicionais.
Também nesta quinta-feira foram apresentados os novos coordenadores do Departamento de Mulheres do Rio Negro (DMIRN) e do Departamento de Adolescentes e Jovens do Rio Negro (DAJIRN) da FOIRN. Estarão à frente do DMIRN no período de 2021 a 2024 Dadá Baniwa e Larissa Duarte, da etnia Tukano. Para o Departamento de Jovens foram eleitos Elson Kene, Baré, e Gleice Maia, Tukano.
O Dabucuri de Patauá que marcou a abertura do encontro foi oferecido pela coordenadoria NADZOERE. Secretário-executivo dessa coordenadoria, Juvêncio Cardoso explica que a cerimônia ocorre em agradecimento e marca a mudança de ciclos, como a época de determinadas frutas ou fenômenos do clima. No contexto do movimento indígena, a cerimônia marca o fim do ciclo do mandato que se encerra neste ano e, ao mesmo tempo, busca a melhoria e o fortalecimento para a nova gestão.