Tag: Emergência Climática

  • CARTA DA JUVENTUDE INDÍGENA DO RIO NEGRO: LEVANTE PELO BEM VIVER DO RIO NEGRO E ALERTA CONTRA A EMERGÊNCIA CLIMÁTICA

    CARTA DA JUVENTUDE INDÍGENA DO RIO NEGRO: LEVANTE PELO BEM VIVER DO RIO NEGRO E ALERTA CONTRA A EMERGÊNCIA CLIMÁTICA

    São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, 11 de agosto de 2021

    Nós, jovens indígenas do Rio Negro, representantes dos povos das 23 etnias da região, presentes no I SEMINÁRIO DE ADOLESCENTES E JOVENS INDÍGENAS E EMERGÊNCIAS CLIMÁTICAS DO RIO NEGRO – O FUTURO DO PLANETA DEPENDE DA NOSSA LUTA, na Casa do Saber, Maloca da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), em São Gabriel da Cachoeira, no Estado do Amazonas, Amazônia do Brasil, viemos por meio desta carta reiterar todo apoio à Carta da Juventude Indígena Brasileira “Levante Pela Terra”, datada de 26 de junho de 2021, redigida após encontro em Brasília/DF, e demonstrar a nossa preocupação com o futuro dos Povos Indígenas do Rio Negro e de todo o mundo que, com suas práticas tradicionais, contribuem para a sustentabilidade e para o bem viver no planeta.

    O I SEMINÁRIO DE ADOLESCENTES E JOVENS INDÍGENAS E EMERGÊNCIAS CLIMÁTICAS DO RIO NEGRO – O FUTURO DO PLANETA DEPENDE DA NOSSA LUTA foi o espaço para apreender, compreender, debater e propor soluções para que os direitos dos Povos Indígenas a seu território e modos de vida sejam respeitados e não sejam ameaçados pelos retrocessos nas políticas socioambientais que atualmente ganham força em nosso país.

    Nós, jovens indígenas do Rio Negro, nos sentimos no dever de ser, estar e somar força às nossas lideranças que estão mobilizadas pela FOIRN na luta pelo direito à vida e a um meio ambiente equilibrado e saudável para as presentes e futuras gerações.

    Nós, adolescentes e jovens indígenas do Rio Negro, exigimos que nosso presente seja resguardado para que possamos levar ao futuro as sementes e raízes de nossos ancestrais, conhecedores e anciãos. Nosso futuro e nossas tradições dependem da proteção e respeito do direito ao território e carregam em si a conexão da natureza e a integração com o ambiente, o que leva à prática da economia sustentável que promove o bem viver e a proteção das plantas, rios, pedras, animais, sendo uma barreira aos avanços dos impactos da emergência climática.

    O I SEMINÁRIO DE ADOLESCENTES E JOVENS INDÍGENAS E EMERGÊNCIAS CLIMÁTICAS DO RIO NEGRO – O FUTURO DO PLANETA DEPENDE DA NOSSA LUTA teve início em 9 de agosto de 2021, mesma data da divulgação de novo documento do Painel Internacional sobre a Mudança Climática (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) alertando que é inequívoco que a humanidade tenha aquecido a atmosfera, o oceano e a terra, o que resultou em mudanças generalizadas e rápidas no planeta. Essa coincidência de datas reforça a necessidade de sermos ouvidos e atendidos.

    Dessa forma, nós, jovens indígenas do Rio Negro presentes no I SEMINÁRIO DE ADOLESCENTES E JOVENS INDÍGENAS E EMERGÊNCIAS CLIMÁTICAS DO RIO NEGRO – O FUTURO DO PLANETA DEPENDE DA NOSSA LUTA, encaminhamos as seguintes recomendações e demandas à Organização das Nações Unidas (ONU) e ao Estado Brasileiro:

    • Emergência climática

    1 – Amplificar o alerta dado por nós – jovens indígenas do Rio Negro vivendo em comunidades da floresta Amazônica e em cidades da região – de que já estamos sendo atingidos pelos danos provocados por ações e políticas agressivas ao meio ambiente, mesmo sendo os que menos causam degradação. Nas comunidades, ouvimos os velhos narrarem as mudanças dos ciclos: os eventos climáticos não coincidem mais exatamente com as constelações. Entendemos que essas narrativas mostram os impactos da emergência climática na floresta Amazônica, nossa casa.

    2 – Repudiar e agir para barrar propostas como o Projeto de Lei 490 e o Marco Temporal, que ameaçam nossos direitos constitucionais, incentivando práticas predatórias dentro de nosso território e reduzindo a autonomia dos Povos Indígenas.

    3 – Substituir projetos e propostas que ameaçam os direitos dos Povos Indígenas por políticas públicas que incentivem as práticas sustentáveis e a cultura tradicional, estabelecendo contrapartidas às ações de proteção ambiental.

    4 – Combater o preconceito aos povos originários e promover a valorização da juventude indígena como forma de assegurar que levaremos adiante os saberes ancestrais que conciliam economia, bem viver e floresta em pé.

    Saúde

    1. Conciliar a medicina tradicional com a medicina ocidental – Apoiar, respeitar e promover os saberes tradicionais, com implementação das “farmácias verdes”, com hortas de plantas medicinais dentro dos territórios, e de universidades adequadas à realidade e saberes indígenas.

    2. Incentivar formações continuadas para a juventude em medicina tradicional junto aos mestres em saúde tradicional, respeitando a cultura e identidade de cada povo;

    3. Criar Núcleos Multidisciplinares de Saúde Tradicional Indígena nos territórios, hospitais e postos básicos de saúde para acompanhamento a curto, médio e longo prazo dos pacientes indígenas, com participação dos anciãos e jovens formados na área de saúde, promovendo os tratamentos tradicionais;

    4. Garantir a participação dos profissionais indígenas da área da saúde em encontros realizados na região para dar apoio aos participantes indígenas presentes;

    5. Criar um centro de apoio à saúde da mulher indígena nos territórios, promovendo a cura, o acolhimento e o cuidado.

    6. Reforçar as medidas preventivas e o atendimento médico-hospitalar voltados a atendimento de pacientes com a Covid-19, levando em conta a realidade indígena, além de ampliar as campanhas de vacinação.

    Política

    1. Promover formação política específica para jovens indígenas, dentro e fora dos territórios;

    2. Realizar mutirões nas comunidades para que os jovens indígenas sem títulos de eleitor, carteira de identidade ou outros documentos oficiais possam ter acesso a esses documentos;

    3. Promover palestras instrutivas sobre o Direito dos Povos Indígenas e sobre como acessar Políticas Públicas que tratem dos nossos direitos;

    4. Promover o mapeamento de jovens nas comunidades que buscam uma formação política;

    5. Incentivar a ocupação de cargos parlamentares, bem como de outros espaços de tomada de decisão no próprio Legislativo, no Judiciário e no Executivo, por parte de representantes dos Povos Indígenas, sendo esses legitimados para exigir nossos direitos.

    6. Incentivar a criação de aplicativos que veiculam informações de políticas indígenas, adaptadas às linguagens tradicionais;

    7. Apoiar organizações de jovens indígenas que estão dentro das comunidades e que buscam junto às lideranças criar políticas públicas para o bem-estar dos Povos Indígenas e tradicionais.

    Cultura

    1. Promover o resgate cultural como forma de aproximação entre os mais jovens e os mais velhos. Incentivar os grafismos, artesanatos, música e a arte como resistência;

    2. Realizar encontros intergeracionais para promover o diálogo, troca e valorização dos conhecimentos tradicionais, bem como o intercâmbio tecnológico;

    3. Incentivar a juventude, dentro e fora dos territórios, a conhecer suas raízes e não se esquecer delas;

    4. Investir na educação tradicional e promover a participação dos mais jovens no processo de tomada de decisões;

    5. Evitar que grupos religiosos atuem no território indígena sem respeitar as tradições dos Povos Indígenas, bem como o seu modo de ser.

    Território

    1. Criar estratégias para defender os direitos sobre nossos territórios tradicionais;

    2. Exigir que o Estado Brasileiro cumpra o que está garantido na Constituição Brasileira (art. 231, art. 232 e art. 225) e nos Acordos Internacionais, como na Convenção 169 da OIT e nos demais tratados internacionais sobre os Direitos dos Povos Indígenas e o Meio Ambiente, dos quais o Brasil é signatário;

    3. Garantir que os territórios sagrados indígenas autodemarcados sejam reconhecidos e respeitados pelo Estado e pela sociedade em geral;

    4. Incentivar a juventude indígena a estar inserida na luta pela demarcação dos territórios e pela garantia dos direitos dos Povos Indígenas;

    5. Garantir a participação da juventude indígena nas pautas relativas às questões climáticas;

    6. Apoiar os projetos de gestão territorial interna dos Povos Indígenas e o automonitoramento dos territórios;

    7. Promover a capacitação em gestão territorial de jovens indígenas nos territórios e a criação de grupos de Guardiões do Território;

    8. Incentivar e garantir recursos para o reflorestamento dos territórios nas áreas degradadas pelas queimadas, pastagens, madeireiros e garimpos, bem como responsabilizar os culpados pela execução de atividades ilegais em nossos territórios.

    9. Incentivar a promoção da Economia da Floresta, por meio do empoderamento das comunidades, promovendo cadeias de valores que fortaleçam a soberania dos territórios;

    10. Apoiar a proteção dos territórios indígenas por meio da promoção da capacitação da Juventude Indígena para que possamos continuar a luta iniciada por nossos Anciãos.

    Educação Indígena

    1. Incentivar formações diferenciadas para professores indígenas que irão atuar ou atuam dentro das comunidades;

    2. Criar concursos públicos específicos para educação escolar indígena que tenham vagas específicas reservadas para profissionais indígenas;

    3. Fortalecer a inserção dos conhecimentos tradicionais por meio do PPP (Projeto Político Pedagógico), como forma de garantir a identidade cultural dentro das escolas indígenas;

    4. Exigir o aumento no número de vagas reservadas para estudantes indígenas designada pela Lei de Cotas nas Universidades Públicas, bem como que essas apresentem um programa para promover a permanência e acolhimento destes estudantes.

    Comunicação/Mobilização

    1. Criar um fundo financeiro para que a juventude indígena possa participar dos movimentos e conferências em todo o Brasil e no exterior, respeitando o direito de fala e consulta prévia da juventude;

    2. Incentivar encontros de comunicadores indígenas, na forma de oficinas, para a troca de saberes entre os povos tradicionais;

    3. Viabilizar o turismo de base comunitária como forma de divulgação da cultura, usando as diversas formas da linguagem para comunicação e para atingir o maior público;

    4. Utilizar as ferramentas de comunicação para o combate às fake news sobre a luta dos Povos Indígenas;

    5. Incentivar a participação de mulheres indígenas comunicadoras para que elas possam ocupar mais espaços de voz e liderança;

    6. Fortalecer as redes de comunicação das organizações e influenciadores indígenas para que tenham maior alcance e maior impacto na população não-indígena que desconhece a diversidade e a realidade dos Povos Indígenas do Brasil;

    7. Garantir o acesso a uma internet de boa qualidade e recursos para aquisição de equipamentos, bem como para projetos audiovisuais que incentivem a participação dos jovens da base;

    8. Criar um sistema de divulgação de editais e projetos que facilite a participação da juventude indígena;

    9. Fortalecer a rede de comunicadores da juventude indígena, usando a comunicação como ferramenta para a descolonização do pensamento e do estereótipo do que seria o “índio”, de forma a mostrar a nossa pluralidade étnica cultural indígenas.

    Alimentação

    1. Incentivar a produção de alimentos saudáveis nas comunidades e fazer com que a produção seja usada como merenda nas escolas indígenas. A culinária e a soberania alimentar devem respeitar a diversidade dos nossos povos;

    2. Incitar os Estados para que garantam a compra dos produtos alimentícios produzidos nas aldeias como merenda escolar, bem como a valorização dos nossos produtores e da nossa alimentação tradicional livre de agrotóxicos;

    3. Incentivar, por meio de projetos, a reconexão e o consumo dos nossos alimentos tradicionais, fortalecendo a valorização da cultura e a produção de alimentos que respeitem as nossas terras;

    Segurança pública

    1 – Elaborar e executar um plano de segurança pública que considere a criação de redes protetivas que garantam aos jovens indígenas a plena participação na vida pública em suas cidades e comunidades com confiança e sem medo;

    2 – Melhoria da estrutura dos serviços de segurança pública;

    4 – Considerar que as adolescentes e as jovens indígenas estão mais expostas a riscos e, por isso, demandam uma atenção especial na criação de redes protetivas, com garantia da presença de uma delegada mulher à frente da Delegacia da Mulher nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.

    5 – Estruturar e melhorar os serviços voltados ao acompanhamento de adolescentes e jovens;

    6 – Criar políticas de conscientização e combate ao uso de álcool e drogas, levando em conta a realidade local.

    7 – Apoiar o Fórum Interinstitucional de Políticas Públicas de São Gabriel da Cachoeira na carta de repúdio encaminhada aos órgãos competentes quanto ao assassinato de uma jovem indígena da etnia Baré, de apenas 15 anos, esfaqueada por um soldado do Exército no final do mês de julho de 2021.

    • Políticas Públicas de Juventudes (PPJs)

    1 – Fortalecer as PPJs para que os jovens tenham melhor oportunidade de emprego, melhoria na educação, cultura, lazer, esporte, saúde, segurança, agricultura etc.

    2 – Reativar os trabalhos do Conselho Municipal de Juventude de São Gabriel da Cachoeira/Am (COMJUVE-SGC/AM).

    3 – Criar o Conselho Municipal de Juventude de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.

    4 – Propor a criação a Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer em Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.

    • Movimento indígena

    A juventude indígena do Rio Negro reivindica do movimento indígena do Rio Negro, na ocasião representada pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN):

    1. – Solicitar junto ao conselho diretor da FOIRN a composição de 5 (cinco) coordenadorias do DAJIRN/FOIRN para referência nas 5 (cinco) coordenadorias regionais da instituição. 

    2 – Providenciar espaço físico destinado a alojamento para jovens e lideranças das comunidades que participam de encontros e assembleias em São Gabriel da Cachoeira.

  • Jovens indígenas relatam impactos da emergência climática na Amazônia e cobram proteção ao território

    Jovens indígenas relatam impactos da emergência climática na Amazônia e cobram proteção ao território

    Jovens apresentam propostas durante o I Seminário realizado em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Juliana Albuquerque/FOIRN

    Adolescentes e jovens indígenas – muitos deles vivendo em comunidades na floresta Amazônica – denunciam o agravamento dos impactos da emergência climática e exigem que o poder público tome providências para evitar o agravamento da situação, principalmente com a garantia e proteção do território. Esses foram alguns dos resultados do I Seminário de Adolescentes e Jovens e Indígenas e Emergências Climáticas do Rio Negro – O futuro do nosso planeta depende de nossa nossa luta! que aconteceu na Casa do Saber da FOIRN, em São Gabriel da Cachoeira (AM), de 9 a 11 de agosto. A organização do encontro é do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da FOIRN (Dajirn/FOIRN), com apoio de parceiros.

    Ao final do seminário, os participantes fizeram protesto contra o PL 490 e o Marco Temporal, cobrando proteção ao território como forma de manter as práticas tradicionais indígenas que protegem a floresta e o meio ambiente como um todo. Os jovens repudiaram projetos que ameaçam seus direitos e territórios.

    Neste mês, o Supremo Tribunal Federal (STF) deve analisar ação avaliando a tese Marco Temporal, princípio que considera que só podem reivindicar terras indígenas as comunidades que as ocupavam na data da promulgação da Constituição, 5 de outubro de 1988. Já o PL490 prevê, entre outros pontos, modificações nos direitos territoriais indígenas garantidos na Constituição Federal de 1988, gerando um retrocesso quanto à demarcação de terras e abrindo brechas para que terras demarcadas sejam exploradas por diversos setores, como agronegócio, mineração e construção de hidrelétricas.

    Presidente da FOIRN, Marivelton Barroso participou do encontro e falou da importância do seminário para que o jovem indígena possa ter um futuro sustentável e saudável. Ele também traçou um panorama sobre a mobilização e participação dos jovens no movimento indígena. “O Departamento de Jovens da FOIRN tem o papel importante de controle social: monitorar políticas públicas e cobra soluções para os jovens. E isso é primordial para a construção de um futuro sustentável”, disse.
    Ao longo do encontro, os jovens trocaram experiências e relataram suas percepções sobre o clima na região do Rio Negro. Entre os principais impactos citados estão dois eventos ocorridos este ano: as cheias do Rio Negro – que bateram recorde em 2021 – e o frio por um período mais prolongado que o habitual. Na região, há o período de temperaturas amenas, conhecido por muitos como Aru, mas este ano o frio durou mais.

    GT de Trabalho durante o seminário. Foto: Juliana Albuquerque

    Além disso, pelo calendário tradicional do Rio Negro, segundo relato dos jovens, nos meses de agosto e setembro acontece o preparo do terreno para o plantio das roças, aproveitando a trégua das chuvas após o período do inverno chuvoso. Entretanto, este ano, agosto já chegou, mas ainda está chovendo e o rio está cheio, o que deve comprometer o processo, interferindo na segurança alimentar e na diversidade dos produtos da roça.

    A data do início do seminário, 9 de agosto, coincidiu com a da divulgação do documento do Painel Internacional sobre a Mudança Climática (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) alertando que é inequívoco que a humanidade tenha aquecido a atmosfera, o oceano e a terra, o que resultou em mudanças generalizadas e rápidas no planeta. Entre as mudanças estão o aumento da temperatura e fenômenos climáticos extremos. A coincidência de datas não foi intencional, mas reforça a importância da abordagem do tema.

    Um dos articuladores do I Seminário de Adolescentes e Jovens e Indígenas e Emergências Climáticas do Rio Negro é o secretário-executivo da Nadzoeri – coordenadoria regional da FOIRN -, Juvêncio Cardoso, o Dzoodzo Baniwa. Ele considera que o seminário possibilita que os jovens entendam que as mudanças que eles estão vendo em suas comunidades na floresta e que também são relatadas pelos velhos conhecedores indígenas estão ligadas à emergência climática. “Essas observações são compartilhadas nos espaços comunitários nas comunidades. Há também os relatos dos velhos, as narrativas. Cada vez tem menos peixe. Por quê?”, diz.

    Ele reforça a fala dos jovens que relatam as mudanças no ambiente, lembrando que, em 2018, a região do Rio Negro enfrentou extrema seca e, neste ano de 2021, houve a cheia recorde do Rio Negro, que inundou roças, colocando em risco a segurança alimentar dos indígenas. “A roça inunda, perde-se a roça, a mandioca, a banana, a pimenta. Perde-se a diversidade de alimentos”, diz.
    “Nós indígenas, preservamos a floresta, temos pouca participação no impacto negativo que gera a emergência climática. A nossa forma tradicional de viver considera que o mundo está interligado com os espíritos das plantas e animais. Mas estamos sentindo o impacto”, completa.

    Segundo Dzoodzo Baniwa, para manter as práticas tradicionais que protegem o ambiente, os indígenas reivindicam o direito e proteção ao território, colocados sob ameaça por projetos como o PL 490 e o Marco Temporal. “É necessário reconhecer e garantir o direito ao território. Outra forma de política pública é a implementação de pagamento por serviços ambientais, como o ICMS Verde para quem protege mais o ambiente e apoio para implementação dos Planos de Gestão Territorial Ambiental (PGTAs) construído pelos indígenas”, explica.

    Juvêncio Cardoso – Professor, pesquisador e liderança Baniwa. Foto: Eucimar Aires/FOIRN


    O coordenador do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da FOIRN (Dajirn/FOIRN), Elson Kene Cordeiro, da etnia Baré, informou que o encontro foi estruturado a partir da demanda dos próprios jovens da região do Rio Negro. “Os jovens relatam que suas famílias sofrem com cheia do rio, perda de roças, escassez de peixe, mudança no tempo”, informa ele. Também coordenadora do Dajirn/FOIRN, Gleice Maia Machado, da etnia Tukano, informou que durante o encontro foram discutidas mudanças que os jovens podem promover em suas comunidades para evitar poluição e produção de lixo. Para dar o exemplo, o Dajirn providenciou copos personalizados para serem usados pelos jovens durante o evento, evitando o uso de objetos descartáveis.
    Participaram do encontro representantes das cinco coordenadorias da FOIRN – Coidi, Diawi´í, Caiarnx, Caimbrn, Nadzoeri (saiba mais abaixo) – além de moradores de São Gabriel da Cachoeira, Barcelos e Santa Isabel da Cachoeira.


    Ativista e voluntária do Greenpeace, Cíntia Lucena, graduanda de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), também participou do encontro, em São Gabriel, e compartilhou informações sobre os impactos das mudanças climáticas na floresta Amazônica e as consequências para a preservação da vida humana. “É um intercâmbio de percepções no seminário, com grande diversidade de jovens”, disse. Ela ressalta que os jovens são os que mais vão sentir os impactos do aquecimento global. “Eles já sentem os impactos passando por essa pandemia da Covid-19, com crise econômica, sanitária e social”, diz.

    Cíntia Lucena explica que a pauta da emergência climática está diretamente conectada ao tema de direitos à terra e valorização da cultura indígena. “Os indígenas têm o método de economia que valoriza a vida e a cooperação, levando à conservação ambiental”, diz.
    REDE WAYURI

    Os integrantes da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas estiveram presentes no encontro. A Comunicadora Cláudia Ferraz, da etnia Wanano, informou que o grupo participou
    Na quarta-feira (11) de manhã, os comunicadores participaram do Programa Papo da Maloca, na rádio FM 92,7, desenvolvido pela Rede Wayuri numa parceria entre FOIRN e Instituto Socioambiental (ISA), sempre com abordagem de temas ligados aos indígenas do Rio Negro. “Os comunicadores vão falar sobre o evento, o que chamou mais atenção, o que vão levar de informação para repassar em suas comunidades”, diz a comunicadora Cláudia Ferraz, da etnia Wanano, que apresenta o Papo da Maloca junto com Elizângela Baré. A Rede Wayuri também mantém um podcast e desenvolve uma série de atividades de comunicação e articulação com jovens indígenas. Devido à pandemia, algumas mobilizações foram reduzidas.


    VIOLÊNCIA
    O tema violência contra os jovens indígenas também ganhou destaque no encontro. No final de julho, o assassinato de uma jovem indígena da etnia Baré, de 15 anos, estudante, causou comoção na cidade. O acusado pelo crime é um soldado do Exército, que foi detido. O fato levou à mobilização do Fórum Interinstitucional de Políticas Públicas de São Gabriel da Cachoeira, que divulgou uma nota de repúdio contra o fato, cobrando mais segurança e proteção para a população, principalmente os mais vulneráveis, como mulheres e jovens indígenas.
    Em nota, o Exército informou que não compactua com comportamentos em desacordo com a ordem jurídica vigente e repudia todos os atos de violência contra a integridade humana. Foi informado também que após concluído o processo leal pelas autoridades competentes, o Exército adotará as medidas disciplinares cabíveis.

    IMPACTOS NA FLORESTA
    Leia abaixo relatos de adolescentes e jovens indígenas que vivem em comunidades na floresta ou em cidades do Rio Negro e que participaram do I Seminário de Adolescentes e Jovens e Indígenas e Emergências Climáticas do Rio Negro – O futuro do nosso planeta depende de nossa nossa luta!:

    • Riseli Maísa, de 27 anos, moradora da comunidade Matapi/Rio Tiquié,
      Coordenadoria Diawii
      “Esse encontro é muito interessante. Ainda tem muita coisa que não temos conhecimento. Na comunidade já conversamos sobre cuidados com poluição, desmatamento, lixo. E já sentimos algumas mudanças no clima. Agora é época de queima de roças e, depois, plantação. Mas está chovendo, o que está atrapalhando.”
    • Leonardo Garcia da Silva, etnia Baniwa, morador da comunidade Tunuí-Cachoeira/Rio Içana
      Coordenadoria Nadzoeri
      “Nós tivemos um primeiro encontro de jovens lá na nossa região, em Tucumã, e entendemos que a mudança climática é perigosa. Antigamente não era assim. Os velhos falaram lá: aumentou o calor do sol, encheu muito o rio, ficou mais difícil o peixe. Entendemos que longe queimam a natureza, isso não acontece na nossa região, mas esse calor causa impacto lá. O meio ambiente é nosso, vamos reunir, sonhar: o ambiente é para todos!”
    • José Baltazar, etnia Baré, morador da comunidade Guia, Alto Rio Negro
      Coordenadoria Caiarnx
      “Estamos expandindo o nosso conhecimento sobre a emergência climática. E queremos saber por que as leis de meio ambiente não estão sendo devidamente aplicadas. Também queremos que sejam mantidas as leis que preservam as terras indígenas. Pelo conhecimento de nossos antepassados, agosto é época de derrubar roça, queimar e depois plantar. Era para começar de secar. O clima mudou, é agosto e o limite da água está alto.”
    • Jodelyn Alves Amaral, etnia Desano, morador da comunidade Nossa Senhora Aparecida/Iauaretê, Rio Uaupés
      Coordenadoria Coidi
      “Na nossa comunidade, toda quarta-feira tem trabalho comunitário nas roças. Mas por causa da chuva não tava dando para trabalhar, para plantar mandioca, bacaba, açaí. Tem grande diferença no clima.”
    • Nicolas Cauê, etnia Baré, morador de Barcelos
      Coordenadoria Caimbrn
      “O seminário é importante porque incentiva a gente a conhecer coisas novas, saber do movimento indígena e da importância de levar à frente a cultura indígena. Sobre o aquecimento global, já sentimos as mudanças. O calor aumentou. E o frio também aumentou. Na cidade, podemos ver mais poluição.”
    • Martinho da Silva Teixeira, etnia Yanomami, morador da comunidade Maturacá, Coordenadoria Caimbrn
      “Aos poucos a gente vai discutindo sobre as mudanças climáticas. Sim, claro que sim já sentimos o impacto. As caças eram achadas bem pertinho. Peixe era bem pertinho. Estão se distanciando muito. Pesca o dia inteiro e acha pouco peixe.”
    • Lilia França, etnia Baré, moradora de São Gabriel da Cachoeira
      “Na cidade também é possível perceber as mudanças no clima. O calor aumentou e está insuportável, este ano o rio causou alagamento em diversos pontos. Também tivemos frio que na região, o que não é comum. E, quando começa a secar, os mosquitos aumentam cada vez mais.”

    Informe-se sobre quais regiões cada uma das cinco coordenadorias da FOIRN representa:
    Nadzoere – Associação Baniwa e Koripaco;
    Diawi´i – Coordenação das Organizações Indígenas do Tiquié, Baixo Uaupés e Afluentes;
    Coidi- Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê;
    Caiarnx – Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié;
    Caimbrn – Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro.

  • Jovens indígenas do Rio Negro realizam seminário sobre impactos da mudança climática na região

    Jovens indígenas do Rio Negro realizam seminário sobre impactos da mudança climática na região

    Jovens vindos das cinco Coordenadorias Regionais da FOIRN participam do Seminário em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Juliana Albuquerque/FOIRN

    Mudanças climáticas e seus impactos na floresta Amazônica, na região do Rio Negro (AM), são os principais temas de discussão do I Primeiro Seminário de Adolescente e Jovens do Rio Negro – “Juventude indígena e os Impactos Ambientais Recentes na Região do Alto Rio Negro”. O encontro teve início nesta segunda-feira, 9/8, na Casa do Saber da FOIRN, em São Gabriel da Cachoeira, sendo organizado pelo Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da FOIRN (Dajirn/FOIRN).

    A abertura contou com a presença do presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, da etnia Baré, e de autoridades do município, entre elas o bispo da Diocese de São Gabriel, Dom Edson Damian; o secretário municipal de Meio Ambiente (Semma), Carlos Ferraz; o secretário municipal de Juventude, Esporte e Lazer (Semjel), Luiz Eduardo Sales Guedes.

    Os coordenadores do Dajirn/FOIRN, Elson Kene Cordeiro, da etnia Baré, Sheine Diana Baré, Gleice Maia Tukano e Gilliard Henrique Baré conduziram a abertura, que contou com apresentação de danças tradicionais.

    Nesse primeiro dia do seminário, a liderança Baniwa Juvêncio Cardoso, o Dzoodzo Baniwa, palestrou sobre a mudança do clima e seus impactos na região, discutindo sugestões para o bem viver dos povos indígenas da região.

    Jovens de escolas do município de São Gabriel da Cachoeira, além de representantes das cinco coordenadorias regionais da FOIRN- Coidi; Diawii, Caimbrn; Nadzoeri e Caiarnx – participam do encontro e estão trocando informações sobre as suas percepções das mudanças climáticas. Muitos desses jovens vivem em comunidades na floresta Amazônica e já percebem alterações no meio ambiente.

    Jovens do Povo Baré da região do Alto Rio Negro e Xié se apresentam na abertura do seminário. Foto: Eucimar Aires/Foirn

    As atividades do seminário continuam até quarta-feira, 11/08. Você pode acompanhar as atualizações diárias no nosso Instagram (@foirn) e Facebook (@FOIRN).