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  • Produtores indígenas mapeiam novas cadeias produtivas durante ll Encontro de Produtores Indígenas do Rio Negro em Taracuá

    Produtores indígenas mapeiam novas cadeias produtivas durante ll Encontro de Produtores Indígenas do Rio Negro em Taracuá

    ll Encontro de Produtores Indígenas do Rio Negro – Distrito de Taracuá

    No período de 16 a 18 de setembro foi realizado o Encontro de Produtores Indígenas do Rio Negro da coordenadoria DIAWI’I, na abrangência do baixo Uaupés e baixo Tiquié e reuniu mais de 100 participantes em Taracuá – Baixo Rio Uaupés.

    As principais pautas do II Encontro de Produtores Indígenas do Rio Negro foram: Mapear novas cadeias produtivas da região do baixo rio Uaupés, apresentar a Casa de Produtores Indígenas do Rio Negro (Wariró) e repassar informações sobre o fornecimento de produtos da agricultura familiar às instituições. A ação aconteceu de 16 a 18 de Setembro do corrente ano, em Taracuá, tendo reunido cerca de 100 participantes no auditório da Escola Estadual Sagrado Coração de Jesus. A organização é da FOIRN, por meio do Departamento de Negócios Socioambientais e Casa Wariró, com parceria do Instituto Socioambiental (ISA) e For Eco.

    Liderança histórica do movimento indígena do Rio Negro, o professor Maximiliano Correa Menezes, da etnia Tukano, participou do encontro e, durante a abertura, falou sobre a importância da ação como espaço de valorização da cultura indígena.

    “É um espaço muito importante para nós de Taracuá e para indígenas de outras comunidades que estão aqui para discutir assuntos que são importantes, como a valorização da nossa cultura, dos nossos produtos, e, mais que isso, conhecer mais sobre o assunto de geração de renda, da sustentabilidade e economia indígena”, afirmou. Ele destacou a necessidade de discutir a precificação dos produtos e de definir novas cadeias produtivas que podem ser trabalhadas no futuro.

    Articulador do Departamento de Negócios Socioambientais da FOIRN, Edison Gomes da etnia Baré lembrou que um dos objetivos do encontro é conscientizar sobre a importância de manter o sistema agrícola tradicional para garantir a soberania alimentar e a geração de renda. “Precisamos sempre pensar em produzir para o nosso consumo, mas também para gerar uma renda complementar”, afirma.

    A gerente da Casa Wariró, Luciane Lima, reforçou a importância do encontro como momento para ouvir as demandas e anseios dos produtores indígenas da região da DIAWI´I – uma das cinco coordenadorias regionais da FOIRN -, e esclarecer dúvidas. 

    “A Casa Wariró faz parte da coordenação da realização dos encontros de produtores indígenas, estando presente nos encontros para ouvir as demandas, propostas de como a casa pode melhorar no atendimento aos produtores indígenas. A Wariró é casa dos produtores indígenas, por isso precisa estar perto deles”, disse.

    Cerâmica Tukano e outras cadeias produtivas

    A Associação das Mulheres Indígenas da Região de Taracuá (AMIRT) vem buscando organizar a produção e comercialização da cerâmica Tukano e conseguiu grandes avanços nos últimos anos, resultado de oficinas de fortalecimento com apoio da FOIRN e parceiros.

    Nesse momento, a Amirt busca continuar o fortalecimento da produção da cerâmica, mas também estruturar outras cadeias produtivas. 

    Produtos do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, considerado patrimônio cultural pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) desde 2010, foram mencionados pelos grupos de trabalho.

    Entre as alternativas enumeradas estão tipiti, cumatá, balaio, peneira, urutu, jarra, peneira, batí, aturá, vassoura, samuri, paneiro, jamachim, cuia, cuiupí, maracá, concha, farinha, beijú de vários tipos, maçoca, tapioca, arubé, caxirí, tucupí, quinhapira, pimenta moqueado, arubé, juquitaia, moqueado, piracuí, salgado, popeca.

    Os próximos passos do mapeamento será o diagnóstico das potencialidades de cada produto para avaliar a viabilidade de produção e comercialização junto aos artesãos das comunidades.

     “Além da cerâmica produzida pelas mulheres, também produzimos urutus e outros produtos, só precisamos nos fortalecer e valorizar nossos produtos”, disse Sebastião Duarte, professor e liderança tradicional.

    Professor Sebastião Duarte – Tukano, Apresentando o GT da Vila Imaculada Conceição

    História e economia indígena: exploração no passado

    Lideranças indígenas destacaram a importância da juventude e das futuras gerações conhecerem a história dos povos indígenas do Rio Negro e como funcionava a comercialização dos produtos para fortalecer a reflexão sobre o futuro e a luta pelos direitos e território.

    “Não muito tempo atrás, no tempo dos patrões que dominaram a região por um bom período da nossa história, eles abusaram de nossos pais e antepassados, trocando produtos industrializados com nossos produtos por um preço injusto”, disse Maximiliano Correa Menezes. “O movimento indígena vem ao longo dos anos trabalhando para garantir que os próprios povos e comunidades indígenas possam discutir a comercialização dos produtos no preço justo e defender seus territórios”, completou.

    A direção da Escola Estadual Sagrado Coração de Jesus, onde o encontro aconteceu, incluiu como atividade pedagógica a programação do Encontro de Produtores Indígenas do Rio Negro – da Região Diawi´i. Todas as turmas participaram dos grupos e produziram um relatório diário do encontro, como atividade escolar.

    Professor da escola, Sandro Menezes destacou que a formação de lideranças e conhecimentos sobre comercialização e economia indígena são temas de grande importância e devem ser trabalhados na escola. “O artesão, além de comercializar seu produto, precisa saber e conhecer sobre a economia indígena, precisa ser bom negociador. E um momento como esse é uma oportunidade para nossos estudantes aprenderem com os artesãos e as lideranças”, disse.

    O estudante Vanderson Sampaio, finalista de ensino médio, diz que os alunos tiveram a oportunidade de participar de uma aula diferente, com temas interessantes como economia e empreendedorismo indígena, além de conhecerem como funciona a Casa Wariró.  

    Para Isaias Menezes, gestor da Escola, a comunidade, as lideranças e organizações locais têm o desafio de continuar o trabalho iniciado no encontro. “A Amirt já está fazendo a parte dela. Nós precisamos tomar a iniciativa de dar continuidade aos trabalhos neste encontro: apoiar e fortalecer a produção e comercialização de nossos produtos”, afirmou.

    Além da comunidade Taracuá, participaram do encontro artesãos das comunidades Ipanoré, Açaí, Cunuri, Trovão e Matapi do Rio Tiquié.

    AGENDA: O próximo encontro de produtores indígenas será na região dos Baniwa e Koripako (Coordenadoria Nadzoeri), na bacia do Içana, na comunidade Vista Alegre, Rio Cuiari, nos dias 28 a 30 de setembro de 2021.

    <ll Encontro de Produtores Indígenas do Rio Negro – Distrito de Taracuá>

  • Fundo indígena estimula economia local dos 23 povos do Rio Negro

    Fundo indígena estimula economia local dos 23 povos do Rio Negro

    Primeiro edital do Fundo Indígena do Rio Negro (Firn) será lançado nesta sexta (10/9), em São Gabriel da Cachoeira (AM), e aportará um total de R$ 1 milhão em iniciativas de associações filiadas à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn)

    Moisés Brazão, mestre de Japurutu, participa de dança durante inauguração do sistema de abastecimento de água movida por carneiro hidráulico, na comunidade Santa Isabel, localizada na Terra Indígena Alto Rio Negro (AM), próxima ao rio Ayari. Foto: Carol Quintanilha / ISA

    Com a conclusão dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das terras indígenas do Rio Negro, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e seus parceiros têm agora o desafio de implementar as ações pensadas coletivamente pelos 23 povos indígenas da região, que engloba os municípios de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira, numa área de aproximadamente 13,4 milhões de hectares no estado do Amazonas.

    São 90 associações de base indígenas filiadas à Foirn, que atuam em diferentes áreas como artesanato, cerâmica, produção orgânica de alimentos do sistema agrícola tradicional, educação, manejo ambiental, fortalecimento linguístico e cultural, entre outras. Todas elas poderão concorrer no primeiro edital do Fundo Indígena do Rio Negro (Firn), aberto entre os dias 10 de setembro e 30 de novembro de 2021, e que injetará R$ 1 milhão em iniciativas de três categorias: cultura, economia sustentável e segurança alimentar.

    A iniciativa pioneira da Foirn, que conta com a parceria do Instituto Socioambiental (ISA) e apoio da Embaixada Real da Noruega (ERN), traz otimismo para as lideranças indígenas, que enxergam o fundo como uma oportunidade para impulsionar uma série de ações que já vem sendo pensadas há muitos anos na região por suas comunidades.

    “O fundo chega para fortalecer o protagonismo das associações indígenas porque cria um mecanismo para implementar ações planejadas no PGTA. Nesse sentido, as associações serão fundamentais para o dinamismo da implementação dessas ações. Quem ganha são as comunidades indígenas porque, através de suas associações, poderão implementar seus projetos e atender os desejos que vinham reivindicando nos últimos trinta anos”, ressalta Juvêncio Cardoso (Dzoodzo), do povo Baniwa, professor e liderança da região do rio Ayari, na Terra Indígena Alto Rio Negro.

    Para Cardoso, a conclusão dos PGTAs e o lançamento do Firn “inauguram um novo marco, um novo processo histórico para as comunidades indígenas do rio Negro para que elas possam garantir sua governança no território, assim como seu bem viver indígena”.

    No lançamento presencial do Firn neste 10/9 também serão lançadas as publicações dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das terras indígenas do rio Negro, que integram a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas (PNGATI). As versões digitais dos planos e mais informações podem ser acessadas aqui: www.pgtas.foirn.org.br. A Foirn também prevê a realização do lançamento virtual com uma transmissão ao vivo (live) no dia 15 de setembro.

    “Concluímos os planos de gestão territorial e ambiental das nossas terras indígenas e agora garantimos recursos para que as comunidades, por meio das suas associações de base, possam implementar ações locais em áreas prioritárias para o desenvolvimento sustentável que chamamos de Bem Viver”, ressalta o presidente da Foirn, Marivelton Barroso, do povo Baré.

    Categorias e eixos temáticos

    Impressão de grafismos no Kumurõ, o banco tukano, uma das especialidades artesanais que formam a rede de trocas do noroeste amazônico, tradicionalmente produzido pelos homens Tukano e usado como instrumento cerimonial. Oficina de discussão e produção do Kumurõ, Ilha de Duraka, Terra Indígena Médio Rio Negro I. Foto: Thiago da Costa Oliveira

    Esse primeiro edital possui duas categorias para aporte de recursos: a de “projetos mirim”, de até R$ 50 mil, e a de “projetos intermediários”, no valor de até R$ 100 mil. No primeiro caso, os beneficiários terão 12 meses para execução dos recursos e, para o segundo, até 18 meses. Está previsto o apoio a 10 “projetos mirim” e 5 projetos da categoria “intermediária”, podendo ser utilizados eventuais saldos para o apoio a mais projetos.

    Já os eixos temáticos são três: cultura, economia sustentável indígena e segurança alimentar. No caso de projetos culturais, o foco se volta para iniciativas de valorização dos saberes e práticas de conhecimento dos povos indígenas rionegrinos, como cantos, danças, fortalecimento das línguas indígenas, e técnicas artesanais de manejo, que favoreçam a circulação de saberes entre as gerações.

    Para economia sustentável indígena são incentivadas iniciativas de geração de renda que promovam o bem viver nas comunidades através da valorização dos conhecimentos indígenas, conhecimentos técnicos e científicos, da inovação e da criatividade no uso sustentável dos recursos naturais.

    Já os projetos de segurança alimentar visam fortalecer práticas e conhecimentos relacionados ao Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SATRN), além de ações que ajudem famílias e comunidades a manterem uma alimentação saudável e local, com a transmissão e produção de receitas com produtos do SATRN, a produção e manutenção de roças, intercâmbio, produção e ciculação de conhecimentos associados ao manejo sustentável das roças, pesca, caça e coleta na floresta.

    “Sabemos o quanto uma iniciativa como a do Firn foi demandada em assembleias, oficinas, reuniões e também em nossos PGTAs. Conhecemos as dificuldades que as associações possuem para acessarem projetos e editais. Então, agora com o Firn esperamos que haja maior inclusão e oportunidades para as associações indígenas, incluindo grupos liderados pelas mulheres indígenas. Isso é resultado de reivindicações de muitos anos de debates. É um sonho se realizando”, celebra Janete Alves, da diretora da Foirn, do povo Desana, oriunda do rio Papuri.

    Seleção, financiamento e gestão

    Abertura da casa de pimenta baniwa . Comunidade Canadá. Alto Rio Negro. Foto: Carol Quintanilha/ISA

    A seleção dos projetos terá as seguintes fases: checagem documental, análise da Câmara Técnica de Seleção, composta por avaliadores com conhecimento do território, mas de fora da região do Rio Negro, que analisará todos os projetos de forma igualitária, utilizando-se dos mesmos critérios de seleção. Uma vez avaliados, os projetos serão enviados junto com um parecer para que o Comitê Gestor do Firn tome a decisão final sobre quais serão os projetos selecionados.

    Todos os projetos escolhidos serão contratados na primeira oficina de trabalho do Firn, a ser realizada em São Gabriel da Cachoeira. A partir daí começa a etapa de implementação. Ao longo do projeto serão realizadas semestralmente oficinas de trabalho com formações em gestão, assessoria técnica, instruções para a execução dos projetos, assessoria técnica e a entrega das prestações de contas e dos relatórios narrativos. O Firn também prevê visitas às comunidades onde os projetos estão sendo implementados e sessões de atendimento e monitoramento por sub-regiões.

    A equipe do fundo explica que a estratégia do Firn integra o financiamento de projetos e a capacitação em gestão das organizações indígenas. “Por um lado, destinamos os recursos de doadores para a promoção de ações nos territórios. Por outro, utilizamos os projetos apoiados como um estímulo prático ao aprendizado em gestão, fomentando, por meio de formações e assessoria, a capacitação técnica das associações”, comenta Domingos Barreto, do povo Tukano, articulador local da iniciativa. “O Fundo é uma oportunidade de apoiar diretamente as comunidades e associações indígenas, não apenas com recursos financeiros, mas também disseminação de práticas de gestão apropriadas para a região, com acompanhamento próximo, o que favorece o desenvolvimento de bons projetos”, afirma Aloisio Cabalzar, coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do ISA.

     Com PGTAs prontos, agora é hora de cobrar políticas públicas para as terras indígenas do rio Negro

    Detalhe de Wii com përs (fungo), na comunidade Ariabu, Terra Indígena Yanomami

    Sem dúvida o Fundo Indígena do Rio Negro (Firn) é uma iniciativa fundamental que revela o protagonismo dos povos indígenas e seus parceiros em busca da implementação das ações previstas nos seus planos de vida, como são chamados os PGTAs. Contudo, para colocar em prática os planos de gestão também são necessários esforços públicos das esferas municipal, estadual e federal, como previsto na Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas (PNGATI).

    Como instrumentos de diálogo intercultural, os PGTAs do Rio Negro constituem uma ferramenta para viabilizar novas políticas públicas em áreas estratégicas como educação e saúde, orientando o Estado e suas instituições a implementar ações que sejam importantes para o desenvolvimento local e estejam em sintonia com a visão indígena de bem viver.

    Como escreveu a diretoria da Foirn na abertura do documento PGTA Wasu do Alto e Médio Rio Negro:

    “Os Planos de Gestão vêm reforçar a importância, o significado e as relações ancestrais que temos com os nossos territórios, assim como constituem uma valiosa ferramenta de planejamento e diálogo interno entre os diversos povos indígenas e comunidades que vivem no rio Negro. Isso vale inclusive para as relações com os parentes do lado colombiano, que desde alguns anos também vêm elaborando os seus Planos de Vida.

    Mas, importante ressaltar que os PGTAs foram construídos também como instrumentos de interlocução com o Estado e parceiros de fora. Através deles pudemos dizer como nos organizamos, como vivemos e o que queremos para nossos povos e comunidades, no presente e no futuro. Também pudemos apontar o que não queremos e o que para nós constituem ameaças aos nossos territórios, à nossa vida, à nossa cultura.

    Dentre os desafios, propostas e demandas levantados pelas comunidades, há coisas que dependem especialmente de nossa organização e esforço coletivo; outras dependem também da cooperação e apoio de instituições parceiras; mas há as que dependem, antes de tudo, do comprometimento do poder público e de ações e políticas orientadas e coordenadas nas esferas municipal, estadual e federal. O que queremos é que essas ações e políticas sejam construídas e implementadas com diálogo, com a participação efetiva de nossos povos e organizações representativas”.

    Para baixar esse documento e outros 9 PGTAs da região, acesse: www.pgtas.foirn.org.br.

  • Oficina da FOIRN aprimora arte da cestaria dos povos Hupdah, cada vez mais valorizada

    Oficina da FOIRN aprimora arte da cestaria dos povos Hupdah, cada vez mais valorizada

    Participantes da Oficina de Cipó realizada em Iauaratê. Foto: Juliana Albuquerque/Foirn

    Considerados de recente contato, os indígenas da etnia Hupdah guardam entre seus conhecimentos tradicionais a arte da cestaria confeccionada a partir de cipó titica, encontrado na floresta Amazônica. A beleza dos balaios tem atraído atenção, com aumento da demanda por esses objetos.

    Para incentivar a produção e fortalecer as cadeias de valor para geração de renda e auto sustentabilidade do povo Hupdah, a FOIRN – por meio do Departamento de Negócios Socioambientais e Casa Wariró – realizou de 2 a 4 de setembro, em Vila Fátima, Distrito de Iauaretê, em São Gabriel da Cachoeira (AM), a oficina de cestaria de cipó titica.

    Nos três dias de oficina foi desenvolvido todo o processo de confecção das cestarias, desde a coleta de cipós na mata, passando pelo processo de preparação com a queima do cipó até o produto finalizado.

    Gerente e articuladora da Casa Wariró, Luciane Mendes, da etnia Tariana, reforçou a importância do artesanato do povo Hupdah e informou que a procura desses produtos é crescente.

    Mulheres Hupdah e Tukano buscando cipó titica durante a oficina realizada na Iauaretê. Foto: Larissa Duarte/Foirn

    “Essa oficina busca a valorização dos artesanatos e do trabalho desse povo. É uma tradição passada dos mais velhos para os mais jovens. Com a valorização, a juventude vai se interessar mais por seus costumes e tradições. Também informamos como produzir e escoar, gerando renda, pois existe demanda e procura por produtos Hupdah”, informou Luciane Mendes.

    A oficina também contou com a participação da secretária administrativa da FOIRN, Maria Hildete Araújo,  Tariana, que falou da necessidade da criação de uma associação própria do povo Hupdah, para seu fortalecimento e regularização.

    Coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas (Dmirn/FOIRN), Larissa Duarte Tukano reforçou a importância dos trabalhos das artesãs nas famílias, com incentivo à geração de renda.

    Também estiveram na oficina a professora e conhecedora tradicional Cecília Albuquerque, da etnia Piratapuia, e Margarida Maia, da etnia Tukano,  membros da Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira (Assai).

    Indígena da etnia Hupdah, Terezinha Cruz Ramos agradeceu a iniciativa e disse que a oficina leva esperança a seu povo. “Estou muito feliz por vocês  virem até a gente e realizar essa oficina de suma importância para o meu povo, para valorização da cultura e das tradições. Vamos continuar na luta e ainda mais firmes, pois vocês nos deram esperança de continuarmos trabalhando pra sustentar nossas famílias“, disse.

    Vice-presidente da Associação das Mulheres Indígenas do Distrito de Iauaretê (Amidi), Veronica Sampaio Alves enfatizou a importância da realização de outras oficinas com o povo Hupdah para aprimoramento dos trabalhos das artesãs.

    A oficina foi uma realização da FOIRN, através do Departamento de Negócios Socioambientais / COIDI e AMIDI  com apoio da Rainforest e Embaixada Real da Noruega, através do projeto ForEco -Economia indígena do Rio Negro iniciativas de cultura material e comércio justo), em parceria com o Instituto Socioambiental – ISA.

  • Encontros promovidos pela FOIRN fortalecem cadeias produtivas e mapeia novos produtos no Rio Negro

    Encontros promovidos pela FOIRN fortalecem cadeias produtivas e mapeia novos produtos no Rio Negro

    Participantes do Encontro de Artesãos realizado na comunidade Arurá. Foto: Eucimar Aires/Foirn

    O fortalecimento das cadeias produtivas e o mapeamento de novos produtos no Rio Negro foram os temas do encontro realizado na comunidade Arurá, no Médio Rio Negro, município de São Gabriel da Cachoeira, nos dias 26 a 28 de agosto, e que contou com a participação de mais de 150 artesãos indígenas.

    A iniciativa é da FOIRN, por meio do Departamento de Negócios e Casa de Produtores Indígenas, com apoio do ForEco e Instituto Socioambiental (Isa).

    Ainda este ano serão realizados mais cinco encontros para discussão do fortalecimento das cadeias produtivas e da comercialização de novos produtos indígenas, propostas que constam nos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) dos Territórios dos Povos Indígenas do Rio Negro como forma de valorizar a cultura milenar dos povos e preservação dos territórios.

    Participaram do encontro no Arurá artesãos das associações Acimrn (Associação das Comunidades Indígenas do Médio Rio Negro); Acir (Associação das Comunidades Indígenas e Ribeirinhas); Associação das Comunidades Indígenas do Baixo Rio Negro (Acibrn); Ahkoiwi (Associação Água e Terra); Amyk (Associação das Mulheres Yanomami  Kumirayôma); Ayrka (Associação Yanomami da Rio Cauburis e Alfuentes); e grupo de Artesãos da comunidade Yamado e Waruá.

    Durante o encontro houve debates e compartilhamentos de conhecimentos e experiências sobre os produtos feitos nas comunidades, alguns já comercializados atualmente e outros ainda não.

    Nos grupos de trabalho foram listados alguns produtos em potencial que precisam ser mais divulgados, como destacou o articulador do Departamento de Negócios Socioambientais da Foirn, Edison Gomes Baré.

    Edison Gomes Baré fala sobre cadeias produtivas, entre outros, da cestaria de arumã. Foto: Rariton/Acimrn

     “Percebe-se nos trabalhos em grupo que temos várias potencialidades que precisam ser estudadas e organizadas para a comercialização. Nesse sentindo, considerou-se o importante papel da Casa de Produtores Indígenas do Rio Negro (Wariró) que, junto com o Departamento de Negócios, está começando a trabalhar nesse sentido”, afirmou.

    Parte importante do processo da organização e levantamento das potencialidades é o conhecimento do funcionamento e da estrutura organizacional da Wariró pelos artesãos e produtores.

    Gerente geral da Wariró, Luciane Lima explica que levar essas informações para os artesãos é muito importante, pois o espaço é a casa dos produtores dos 23 povos indígenas que vivem no Rio Negro.

    Atualmente, a Wariró já trabalha com 11 cadeias produtivas. Durante os encontros, essas cadeias serão fortalecidas, enquanto outras serão mapeadas.

     “Tivemos a oportunidade de conversar com os artesãos, tirar as dúvidas. Muitos ainda não conhecem a Casa Wariró. O encontro não apenas promoveu o fortalecimento e a valorização do conhecimento milenar dos povos, como também o do movimento indígena do Rio Negro”, disse.

    Mulheres Yanomami apresentam resultado de discussão durante o encontro. Foto: Rariton/Acimrn

    Os encontros de produtores indígenas serão realizados em cada regional da Foirn, como Alto Rio Negro (região da Caiarnx), Rio Içana (região da Nadzoeri), Médio Uaupés, Alto Uaupés e Rio Papuri (Região da Coidi), Baixo Uaupés e Rio Tiquié e Afluentes (Região Diawi´i).

  • CARTA DA JUVENTUDE INDÍGENA DO RIO NEGRO: LEVANTE PELO BEM VIVER DO RIO NEGRO E ALERTA CONTRA A EMERGÊNCIA CLIMÁTICA

    CARTA DA JUVENTUDE INDÍGENA DO RIO NEGRO: LEVANTE PELO BEM VIVER DO RIO NEGRO E ALERTA CONTRA A EMERGÊNCIA CLIMÁTICA

    São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, 11 de agosto de 2021

    Nós, jovens indígenas do Rio Negro, representantes dos povos das 23 etnias da região, presentes no I SEMINÁRIO DE ADOLESCENTES E JOVENS INDÍGENAS E EMERGÊNCIAS CLIMÁTICAS DO RIO NEGRO – O FUTURO DO PLANETA DEPENDE DA NOSSA LUTA, na Casa do Saber, Maloca da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), em São Gabriel da Cachoeira, no Estado do Amazonas, Amazônia do Brasil, viemos por meio desta carta reiterar todo apoio à Carta da Juventude Indígena Brasileira “Levante Pela Terra”, datada de 26 de junho de 2021, redigida após encontro em Brasília/DF, e demonstrar a nossa preocupação com o futuro dos Povos Indígenas do Rio Negro e de todo o mundo que, com suas práticas tradicionais, contribuem para a sustentabilidade e para o bem viver no planeta.

    O I SEMINÁRIO DE ADOLESCENTES E JOVENS INDÍGENAS E EMERGÊNCIAS CLIMÁTICAS DO RIO NEGRO – O FUTURO DO PLANETA DEPENDE DA NOSSA LUTA foi o espaço para apreender, compreender, debater e propor soluções para que os direitos dos Povos Indígenas a seu território e modos de vida sejam respeitados e não sejam ameaçados pelos retrocessos nas políticas socioambientais que atualmente ganham força em nosso país.

    Nós, jovens indígenas do Rio Negro, nos sentimos no dever de ser, estar e somar força às nossas lideranças que estão mobilizadas pela FOIRN na luta pelo direito à vida e a um meio ambiente equilibrado e saudável para as presentes e futuras gerações.

    Nós, adolescentes e jovens indígenas do Rio Negro, exigimos que nosso presente seja resguardado para que possamos levar ao futuro as sementes e raízes de nossos ancestrais, conhecedores e anciãos. Nosso futuro e nossas tradições dependem da proteção e respeito do direito ao território e carregam em si a conexão da natureza e a integração com o ambiente, o que leva à prática da economia sustentável que promove o bem viver e a proteção das plantas, rios, pedras, animais, sendo uma barreira aos avanços dos impactos da emergência climática.

    O I SEMINÁRIO DE ADOLESCENTES E JOVENS INDÍGENAS E EMERGÊNCIAS CLIMÁTICAS DO RIO NEGRO – O FUTURO DO PLANETA DEPENDE DA NOSSA LUTA teve início em 9 de agosto de 2021, mesma data da divulgação de novo documento do Painel Internacional sobre a Mudança Climática (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) alertando que é inequívoco que a humanidade tenha aquecido a atmosfera, o oceano e a terra, o que resultou em mudanças generalizadas e rápidas no planeta. Essa coincidência de datas reforça a necessidade de sermos ouvidos e atendidos.

    Dessa forma, nós, jovens indígenas do Rio Negro presentes no I SEMINÁRIO DE ADOLESCENTES E JOVENS INDÍGENAS E EMERGÊNCIAS CLIMÁTICAS DO RIO NEGRO – O FUTURO DO PLANETA DEPENDE DA NOSSA LUTA, encaminhamos as seguintes recomendações e demandas à Organização das Nações Unidas (ONU) e ao Estado Brasileiro:

    • Emergência climática

    1 – Amplificar o alerta dado por nós – jovens indígenas do Rio Negro vivendo em comunidades da floresta Amazônica e em cidades da região – de que já estamos sendo atingidos pelos danos provocados por ações e políticas agressivas ao meio ambiente, mesmo sendo os que menos causam degradação. Nas comunidades, ouvimos os velhos narrarem as mudanças dos ciclos: os eventos climáticos não coincidem mais exatamente com as constelações. Entendemos que essas narrativas mostram os impactos da emergência climática na floresta Amazônica, nossa casa.

    2 – Repudiar e agir para barrar propostas como o Projeto de Lei 490 e o Marco Temporal, que ameaçam nossos direitos constitucionais, incentivando práticas predatórias dentro de nosso território e reduzindo a autonomia dos Povos Indígenas.

    3 – Substituir projetos e propostas que ameaçam os direitos dos Povos Indígenas por políticas públicas que incentivem as práticas sustentáveis e a cultura tradicional, estabelecendo contrapartidas às ações de proteção ambiental.

    4 – Combater o preconceito aos povos originários e promover a valorização da juventude indígena como forma de assegurar que levaremos adiante os saberes ancestrais que conciliam economia, bem viver e floresta em pé.

    Saúde

    1. Conciliar a medicina tradicional com a medicina ocidental – Apoiar, respeitar e promover os saberes tradicionais, com implementação das “farmácias verdes”, com hortas de plantas medicinais dentro dos territórios, e de universidades adequadas à realidade e saberes indígenas.

    2. Incentivar formações continuadas para a juventude em medicina tradicional junto aos mestres em saúde tradicional, respeitando a cultura e identidade de cada povo;

    3. Criar Núcleos Multidisciplinares de Saúde Tradicional Indígena nos territórios, hospitais e postos básicos de saúde para acompanhamento a curto, médio e longo prazo dos pacientes indígenas, com participação dos anciãos e jovens formados na área de saúde, promovendo os tratamentos tradicionais;

    4. Garantir a participação dos profissionais indígenas da área da saúde em encontros realizados na região para dar apoio aos participantes indígenas presentes;

    5. Criar um centro de apoio à saúde da mulher indígena nos territórios, promovendo a cura, o acolhimento e o cuidado.

    6. Reforçar as medidas preventivas e o atendimento médico-hospitalar voltados a atendimento de pacientes com a Covid-19, levando em conta a realidade indígena, além de ampliar as campanhas de vacinação.

    Política

    1. Promover formação política específica para jovens indígenas, dentro e fora dos territórios;

    2. Realizar mutirões nas comunidades para que os jovens indígenas sem títulos de eleitor, carteira de identidade ou outros documentos oficiais possam ter acesso a esses documentos;

    3. Promover palestras instrutivas sobre o Direito dos Povos Indígenas e sobre como acessar Políticas Públicas que tratem dos nossos direitos;

    4. Promover o mapeamento de jovens nas comunidades que buscam uma formação política;

    5. Incentivar a ocupação de cargos parlamentares, bem como de outros espaços de tomada de decisão no próprio Legislativo, no Judiciário e no Executivo, por parte de representantes dos Povos Indígenas, sendo esses legitimados para exigir nossos direitos.

    6. Incentivar a criação de aplicativos que veiculam informações de políticas indígenas, adaptadas às linguagens tradicionais;

    7. Apoiar organizações de jovens indígenas que estão dentro das comunidades e que buscam junto às lideranças criar políticas públicas para o bem-estar dos Povos Indígenas e tradicionais.

    Cultura

    1. Promover o resgate cultural como forma de aproximação entre os mais jovens e os mais velhos. Incentivar os grafismos, artesanatos, música e a arte como resistência;

    2. Realizar encontros intergeracionais para promover o diálogo, troca e valorização dos conhecimentos tradicionais, bem como o intercâmbio tecnológico;

    3. Incentivar a juventude, dentro e fora dos territórios, a conhecer suas raízes e não se esquecer delas;

    4. Investir na educação tradicional e promover a participação dos mais jovens no processo de tomada de decisões;

    5. Evitar que grupos religiosos atuem no território indígena sem respeitar as tradições dos Povos Indígenas, bem como o seu modo de ser.

    Território

    1. Criar estratégias para defender os direitos sobre nossos territórios tradicionais;

    2. Exigir que o Estado Brasileiro cumpra o que está garantido na Constituição Brasileira (art. 231, art. 232 e art. 225) e nos Acordos Internacionais, como na Convenção 169 da OIT e nos demais tratados internacionais sobre os Direitos dos Povos Indígenas e o Meio Ambiente, dos quais o Brasil é signatário;

    3. Garantir que os territórios sagrados indígenas autodemarcados sejam reconhecidos e respeitados pelo Estado e pela sociedade em geral;

    4. Incentivar a juventude indígena a estar inserida na luta pela demarcação dos territórios e pela garantia dos direitos dos Povos Indígenas;

    5. Garantir a participação da juventude indígena nas pautas relativas às questões climáticas;

    6. Apoiar os projetos de gestão territorial interna dos Povos Indígenas e o automonitoramento dos territórios;

    7. Promover a capacitação em gestão territorial de jovens indígenas nos territórios e a criação de grupos de Guardiões do Território;

    8. Incentivar e garantir recursos para o reflorestamento dos territórios nas áreas degradadas pelas queimadas, pastagens, madeireiros e garimpos, bem como responsabilizar os culpados pela execução de atividades ilegais em nossos territórios.

    9. Incentivar a promoção da Economia da Floresta, por meio do empoderamento das comunidades, promovendo cadeias de valores que fortaleçam a soberania dos territórios;

    10. Apoiar a proteção dos territórios indígenas por meio da promoção da capacitação da Juventude Indígena para que possamos continuar a luta iniciada por nossos Anciãos.

    Educação Indígena

    1. Incentivar formações diferenciadas para professores indígenas que irão atuar ou atuam dentro das comunidades;

    2. Criar concursos públicos específicos para educação escolar indígena que tenham vagas específicas reservadas para profissionais indígenas;

    3. Fortalecer a inserção dos conhecimentos tradicionais por meio do PPP (Projeto Político Pedagógico), como forma de garantir a identidade cultural dentro das escolas indígenas;

    4. Exigir o aumento no número de vagas reservadas para estudantes indígenas designada pela Lei de Cotas nas Universidades Públicas, bem como que essas apresentem um programa para promover a permanência e acolhimento destes estudantes.

    Comunicação/Mobilização

    1. Criar um fundo financeiro para que a juventude indígena possa participar dos movimentos e conferências em todo o Brasil e no exterior, respeitando o direito de fala e consulta prévia da juventude;

    2. Incentivar encontros de comunicadores indígenas, na forma de oficinas, para a troca de saberes entre os povos tradicionais;

    3. Viabilizar o turismo de base comunitária como forma de divulgação da cultura, usando as diversas formas da linguagem para comunicação e para atingir o maior público;

    4. Utilizar as ferramentas de comunicação para o combate às fake news sobre a luta dos Povos Indígenas;

    5. Incentivar a participação de mulheres indígenas comunicadoras para que elas possam ocupar mais espaços de voz e liderança;

    6. Fortalecer as redes de comunicação das organizações e influenciadores indígenas para que tenham maior alcance e maior impacto na população não-indígena que desconhece a diversidade e a realidade dos Povos Indígenas do Brasil;

    7. Garantir o acesso a uma internet de boa qualidade e recursos para aquisição de equipamentos, bem como para projetos audiovisuais que incentivem a participação dos jovens da base;

    8. Criar um sistema de divulgação de editais e projetos que facilite a participação da juventude indígena;

    9. Fortalecer a rede de comunicadores da juventude indígena, usando a comunicação como ferramenta para a descolonização do pensamento e do estereótipo do que seria o “índio”, de forma a mostrar a nossa pluralidade étnica cultural indígenas.

    Alimentação

    1. Incentivar a produção de alimentos saudáveis nas comunidades e fazer com que a produção seja usada como merenda nas escolas indígenas. A culinária e a soberania alimentar devem respeitar a diversidade dos nossos povos;

    2. Incitar os Estados para que garantam a compra dos produtos alimentícios produzidos nas aldeias como merenda escolar, bem como a valorização dos nossos produtores e da nossa alimentação tradicional livre de agrotóxicos;

    3. Incentivar, por meio de projetos, a reconexão e o consumo dos nossos alimentos tradicionais, fortalecendo a valorização da cultura e a produção de alimentos que respeitem as nossas terras;

    Segurança pública

    1 – Elaborar e executar um plano de segurança pública que considere a criação de redes protetivas que garantam aos jovens indígenas a plena participação na vida pública em suas cidades e comunidades com confiança e sem medo;

    2 – Melhoria da estrutura dos serviços de segurança pública;

    4 – Considerar que as adolescentes e as jovens indígenas estão mais expostas a riscos e, por isso, demandam uma atenção especial na criação de redes protetivas, com garantia da presença de uma delegada mulher à frente da Delegacia da Mulher nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.

    5 – Estruturar e melhorar os serviços voltados ao acompanhamento de adolescentes e jovens;

    6 – Criar políticas de conscientização e combate ao uso de álcool e drogas, levando em conta a realidade local.

    7 – Apoiar o Fórum Interinstitucional de Políticas Públicas de São Gabriel da Cachoeira na carta de repúdio encaminhada aos órgãos competentes quanto ao assassinato de uma jovem indígena da etnia Baré, de apenas 15 anos, esfaqueada por um soldado do Exército no final do mês de julho de 2021.

    • Políticas Públicas de Juventudes (PPJs)

    1 – Fortalecer as PPJs para que os jovens tenham melhor oportunidade de emprego, melhoria na educação, cultura, lazer, esporte, saúde, segurança, agricultura etc.

    2 – Reativar os trabalhos do Conselho Municipal de Juventude de São Gabriel da Cachoeira/Am (COMJUVE-SGC/AM).

    3 – Criar o Conselho Municipal de Juventude de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.

    4 – Propor a criação a Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer em Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.

    • Movimento indígena

    A juventude indígena do Rio Negro reivindica do movimento indígena do Rio Negro, na ocasião representada pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN):

    1. – Solicitar junto ao conselho diretor da FOIRN a composição de 5 (cinco) coordenadorias do DAJIRN/FOIRN para referência nas 5 (cinco) coordenadorias regionais da instituição. 

    2 – Providenciar espaço físico destinado a alojamento para jovens e lideranças das comunidades que participam de encontros e assembleias em São Gabriel da Cachoeira.

  • Agentes Indígena de Saúde trocam saberes tradicionais em qualificação promovida em São Gabriel da Cachoeira

    Agentes Indígena de Saúde trocam saberes tradicionais em qualificação promovida em São Gabriel da Cachoeira

    Os Agentes Indígenas de Saúde (AIS) e os Agentes Indígenas de Saneamento (AISAN) que atuam em comunidades do Rio Negro participaram de intensa troca de saberes tradicionais durante curso de qualificação realizado na Ilha de Duraka, no município de São Gabriel da Cachoeira (AM). 

    Participantes da Formação realizada na Ilha de Duraka – Médio Rio Negro no município de São Gabriel da Cachoeira (Am). Foto: FAS/Divulgação

    O objetivo da formação, ocorrida de 12 a 14 de agosto, é melhorar o atendimento de quem vive nas comunidades. Participaram do encontro AISs e Aisams de 23 polos-bases do Distrito Sanitário Especial de Saúde Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN) e de dois polos-bases do Dsei-Yanomami (Inambu e Maiá). 

    Realizada em parceria pela FOIRN, Fundação Amazonas Sustentável (FAS), Dsei-ARN e Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam), a formação contou com 170 participantes, sendo a maioria AIS. 

    Considerado o principal mediador da equipe multidisciplinar dos Dseis com a comunidade, o AIS é quem faz os primeiros diagnósticos do paciente para depois comunicar e acionar a equipe de saúde do pólo-base. Por isso, a formação continuada é tão importante. Nesse processo, a comunicação é uma etapa primordial do trabalho do agente. 

    Com o curso realizado na Ilha de Duraka, os agentes puderam narrar suas experiências de utilização dos remédios da floresta e aprenderem ainda mais sobre a medicina tradicional indígena. A partir do encontro, eles poderão colocar em prática os novos conhecimentos no dia a dia das comunidades.

    Essa troca de experiência resultou na exposição Saberes da Floresta, realizada pelos grupos de trabalho dos pólos-base. Os agentes reivindicam que esse material seja transformado em material de apoio a ser compartilhado com todos os agentes de saúde nas comunidades.

    Exposição Saberes da Floresta – foi espaço de troca de saberes e conhecimentos sobre a medicina tradicional. Foto: Eucimar Aires/Foirn

    A qualificação foi conduzida por dois conhecedores tradicional da região: a professora e artesã Cecília Albuquerque, da etnia Piratapuia, uma das fundadoras da Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira (Assai); e o conhecedor tradicional Ercolino Alves, Dessano. 

    No ano passado, Cecília Albuquerque e Ercolino Alves já tinham conduzido, com as artesãs da Assai, o curso do uso de plantas tradicionais utilizados no combate à Covid-19 na região do Rio Negro. A atividade acabou resultando em uma cartilha desenvolvida pela Assai em parceria com a FOIRN e ISA. 

    Dona Cecília frisou que o conhecimento dos povos indígenas do Rio Negro sobre a medicina tradicional é grande e diverso. “Muitas plantas que conheço e algumas que compartilhei aqui vocês já conhecem, muitas vezes com outros nomes e para outras doenças. Nosso conhecimento é diverso”, explicou.

    Da comunidade Querari – Alto Rio Uaupés, o Acis Eduardo Gonçalves, da etnia Kubeo, destacou a importância da qualificação e da valorização do conhecimento tradicional. Ele ressaltou também a necessidade de qualificação voltada para os saberes da chamada medicina dos brancos ou ocidental. 

    “O nosso conhecimento sobre as plantas medicinais é grande e sempre estamos valorizando. Mas precisamos também nos qualificar sobre a medicina dos brancos”, disse. 

    Dario Casimiro Baniwa – Diretor da FOIRN foi um dos coordenadores da realização da formação dos Agentes Indígenas de Saúde. Foto: Eucimar Aires/Foirn

    Sobre a demanda de novas qualificações, o diretor da FOIRN, Dario Casimiro Baniwa, reafirmou que a federação tem essa missão de lutar pelos direitos e buscar meios para garantir a saúde indígena diferenciada e de qualidade para os povos indígenas do Rio Negro, sendo que uma das ações para alcançar esse objetivo é qualificar os profissionais que estão na ponta, realizando as ações de atendimento primário. 

    Ao longo do encontro foram abordados temas para o fortalecimento da saúde indígena, como:  Direitos Territoriais, Soberania Alimentar e Educação, Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, Conhecimento Indígena Como Ciência, O Cuidado de Saúde na Cultura Indígena, Relato de Experiências Terapêuticas na Medicina Indígena, A Importância da Medicina Tradicional para Fortalecimento da Saúde dos Povos Indígenas.

  • Mukaturu: projeto sobre autocuidado da mulher indígena reforça resgate da alimentação tradicional

    Mukaturu: projeto sobre autocuidado da mulher indígena reforça resgate da alimentação tradicional

    Na língua nheengatu, o vocábulo mukaturu tem o significado de cuidado. E foi essa a palavra escolhida para dar nome ao projeto de autocuidado da mulher indígena que teve início nesse final de semana (14 e 15/8) tendo como objetivo principal trabalhar o eixo alimentação, fortalecendo e resgatando a alimentação tradicional.

    Promovido pela Foirn através do Departamento das Mulheres Indígenas do Rio Negro (Dmirn), o projeto Mukaturu – Comunidades de Autocuidado é desenvolvido através de projeto aprovado pela ONU Mulheres, com apoio dos parceiros ISA, Instituto Aleema e Nia Tero.

    Coordenadora do Dmirn/FOIRN, Dadá Baniwa, explica que o papel da mulher na organização da alimentação da família e da comunidade é primordial. E o objetivo é que as participantes do projeto sejam multiplicadoras das informações sobre a importância da alimentação tradicional em suas aldeias.

    E ela ressalta a importância do autocuidado. “Primeiro a mulher deve cuidar de si mesma para conseguir cuidar da família, da comunidade”, diz.

    Articuladora e instrutora do projeto Mukaturu, a enfermeira Eufélia Lima Gonçalves, da etnia Tariana, explica que uma série de doenças decorrentes da má alimentação – como hipertensão e diabetes – estão se intensificando entre os indígenas do Rio Negro principalmente devido à influência sofrida desde a colonização.

    A estratégia de prevenção adotada no Projeto Mukaturu – Comunidades de Autocuidado é promover o resgate da alimentação tradicional, com o incentivo do consumo dos produtos da roça, como a mandioca, a banana, o abacaxi, o açaí, com incremento das verduras e legumes da horta. “Devemos lembrar que o sistema agrícola do Rio Negro é patrimônio cultural. Incentivar essa prática é melhorar a saúde e reforçar o valor da cultura indígena”, diz.

    Participantes da Formação em atividade. Foto: Juliana Albuquerque/FOIRN

    E a mudança já começou. Como valorização da alimentação da região, as refeições do curso foram preparadas com produtos típicos, sem condimentos ou industrializados. Foram servidos peixes, carne de paca, frutas como mamão, abacaxi, cará e etc. O que mais impactou foi o café sem açúcar, que acabou tendo boa resposta das mulheres ao longo da vivência desafiadora.

    Dadá Baniwa pondera que não será fácil promover essa mudança de hábito, pois os indígenas, mesmo os que vivem nas comunidades, já consomem há muito tempos os produtos industrializados.

    Também coordenadora do Dmirn/FOIRN, Larissa Tukano também acredita que a mudança de hábitos alimentares será um desafio. “É um desafio e algumas mulheres relataram até medo, mas também a esperança de chegar em suas comunidades e repassar os conhecimentos”, disse.

    Uma das propostas é que o Dmirn/FOIRN comece a propor essa valorização dos produtos típicos durante as atividades na área indígena. Dadá Baniwa explica que, quando ocorrem eventos nas comunidades, o Dmirn ou os outros departamentos da FOIRN levam produtos como arroz, macarrão e frango para reforçar as refeições durante a atividade.

    “Podemos mudar essa estratégia, informando à comunidade a data do evento e avisando que vamos precisar de mais quantidade de mandioca, cará, açaí, beiju, peixe, caça. E remunerando os fornecedores”, explica.

    Moradora da comunidade de Campinas do Rio Preto, em Santa Isabel do Rio Negro, Derly de Jesus Pereira, da etnia Baré, participou do curso. Ela conta que em sua casa já toma cuidado com a alimentação porque seus pais têm problemas como diabetes e hipertensão. Ela observa que, no geral, a comunidade ainda adota muito a alimentação tradicional, com consumo de peixes e caças. “É tudo fresco. Matou, comeu”, comenta. Por outro lado, também são utilizados alimentos como arroz, feijão e frango – que não fazem parte do cardápio tradicional. Além disso, mesmo o comércio local já vende produtos industrializados como refrigerantes ou salgadinhos prontos.

    Derly de Jesus Pereira demonstrou preocupação com a atividade de repassar aos indígenas da comunidade o que aprendeu durante o curso. Sua principal missão é ajudar a resgatar o valor da alimentação indígena. E quem não gosta de uma quinhampira – o famoso prato tradicional à base de peixe – com beiju?

    O curso terá duração de 2 meses no formato EaD e com duas etapas presenciais. Ao final da atividade espera-se que as mulheres estejam confiantes e preparadas para serem multiplicadoras das informações em suas regiões. Devido à pandemia, o curso contou com participação reduzida, contando com 18 participantes de todas as coordenadorias regionais da FOIRN.

    Participantes da formação recebem a visita do Presidente da FOIRN – Marivelton Rodrigues Baré. Foto: Juliana Albuquerque

    Nessa primeira etapa, foram dois dias de atividades intensas, vivência, acolhimento e escuta. Foram trabalhados temas como a individualidade da mulher rionegrina, seus anseios e suas perspectivas, com aulas preparadas pela médica Nazira Scaffi e dinâmicas criadas pelo Instituto Aleema, que trabalha com alimentação saudável como tratamento de doenças crônicas não transmissíveis.

  • Grafiteiro Raiz homenageia Feliciano Lana em São Gabriel da Cachoeira

    Grafiteiro Raiz homenageia Feliciano Lana em São Gabriel da Cachoeira

    Com projeto agraciado pelo Governo do Amazonas, Raiz oferecerá uma oficina colaborativa
    que vai homenagear o artista e liderança indígena da região

    Feliciano Lana e Raiz Campos em São Gabriel da Cachoeira – em 2018 . Foto: Juliana Radler/ISA

    Uma perda irreparável para a comunidade Dessana, o artista indígena Feliciano Lana faleceu em 2020, vítima de coronavírus. Muito além de um líder memorável, Lana também deixou registrado um legado com seu talento para artes plásticas, nas quais mantinha vivas as narrativas de seu cotidiano e histórias sobre a vida indígena.

    Em respeito à autoridade construída por Lana e sua arte, o grafiteiro Raiz Campos, conhecido pelos seus grandes murais com representações indígenas, apresenta um projeto artístico beneficiado pelo Governo do Amazonas, em que irá homenagear Feliciano Lara em sua comunidade.

    O ‘Muralizar: do Raiz ao Lana’ será uma oficina colaborativa para revitalizar o Muro do Bispo, em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, noroeste do Amazonas. A ideia é que toda a comunidade participe do trabalho que, além de trazer mais arte ao município, será um momento de aprendizado sobre técnicas do grafite e muralismo para os participantes, resultando em um espaço emblemático para homenagear Feliciano Lana. “Fiquei muito feliz com a proposta do Governo do Amazonas em criar um prêmio com o nome do Feliciano Lana mantendo viva sua história. Pouquíssimos lugares do Brasil dão crédito e valorizam os indígenas e isso, para mim, foi um incentivo para submeter um
    projeto dedicado a Lana em sua própria comunidade”, conta Raiz.

    A oficina ocorre entre os dias 19 a 22 de Agosto em São Gabriel da Cachoeira e a expectativa do artista é proporcionar uma experiência única, compartilhar conhecimento e colaborar com a preservação da memória de Lana em sua região. O trabalho será realizado respeitando as medidas de segurança, com número limitado de participantes que deverão usar máscara, manter o distanciamento e higienizar as mãos com álcool.


    In Memoriam

    Para Raiz, voltar a São Gabriel da Cachoeira sempre é um momento especial de muito aprendizado e apreciação da cultura amazonense. O grafiteiro relembra que teve dois momentos marcantes de encontro com o artista plástico no município, sendo o primeiro em 2018, quando aplicou uma oficina colaborativa para revitalizar um mural na Ilha Adana e o segundo, em 2019, para fazer um trabalho junto ao desenhista para o Museu Etnológico de Berlim e Museu do Brasil.

    “Foi um privilégio e uma honra trocar ideias com Feliciano e conhecer seus desenhos, um homem repleto de histórias, cultura rica e preocupado em fazer o melhor para sua comunidade”, relembrou.

    Poster da Atividade que será realizado em São Gabriel da Cachoeira

    Serviço
    O quê? Projeto Muralizar: de Feliciano a Raiz. Oficina colaborativa de grafite e muralismo
    do grafiteiro Raiz.
    Quando? De 19 a 22 de Agosto
    Onde? São Gabriel da Cachoeira.
    Para mais informações acompanhe o instagram.com/raiz.campos/ ou entre em contato pelo
    número (92) 98230-4922.

  • Jovens indígenas relatam impactos da emergência climática na Amazônia e cobram proteção ao território

    Jovens indígenas relatam impactos da emergência climática na Amazônia e cobram proteção ao território

    Jovens apresentam propostas durante o I Seminário realizado em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Juliana Albuquerque/FOIRN

    Adolescentes e jovens indígenas – muitos deles vivendo em comunidades na floresta Amazônica – denunciam o agravamento dos impactos da emergência climática e exigem que o poder público tome providências para evitar o agravamento da situação, principalmente com a garantia e proteção do território. Esses foram alguns dos resultados do I Seminário de Adolescentes e Jovens e Indígenas e Emergências Climáticas do Rio Negro – O futuro do nosso planeta depende de nossa nossa luta! que aconteceu na Casa do Saber da FOIRN, em São Gabriel da Cachoeira (AM), de 9 a 11 de agosto. A organização do encontro é do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da FOIRN (Dajirn/FOIRN), com apoio de parceiros.

    Ao final do seminário, os participantes fizeram protesto contra o PL 490 e o Marco Temporal, cobrando proteção ao território como forma de manter as práticas tradicionais indígenas que protegem a floresta e o meio ambiente como um todo. Os jovens repudiaram projetos que ameaçam seus direitos e territórios.

    Neste mês, o Supremo Tribunal Federal (STF) deve analisar ação avaliando a tese Marco Temporal, princípio que considera que só podem reivindicar terras indígenas as comunidades que as ocupavam na data da promulgação da Constituição, 5 de outubro de 1988. Já o PL490 prevê, entre outros pontos, modificações nos direitos territoriais indígenas garantidos na Constituição Federal de 1988, gerando um retrocesso quanto à demarcação de terras e abrindo brechas para que terras demarcadas sejam exploradas por diversos setores, como agronegócio, mineração e construção de hidrelétricas.

    Presidente da FOIRN, Marivelton Barroso participou do encontro e falou da importância do seminário para que o jovem indígena possa ter um futuro sustentável e saudável. Ele também traçou um panorama sobre a mobilização e participação dos jovens no movimento indígena. “O Departamento de Jovens da FOIRN tem o papel importante de controle social: monitorar políticas públicas e cobra soluções para os jovens. E isso é primordial para a construção de um futuro sustentável”, disse.
    Ao longo do encontro, os jovens trocaram experiências e relataram suas percepções sobre o clima na região do Rio Negro. Entre os principais impactos citados estão dois eventos ocorridos este ano: as cheias do Rio Negro – que bateram recorde em 2021 – e o frio por um período mais prolongado que o habitual. Na região, há o período de temperaturas amenas, conhecido por muitos como Aru, mas este ano o frio durou mais.

    GT de Trabalho durante o seminário. Foto: Juliana Albuquerque

    Além disso, pelo calendário tradicional do Rio Negro, segundo relato dos jovens, nos meses de agosto e setembro acontece o preparo do terreno para o plantio das roças, aproveitando a trégua das chuvas após o período do inverno chuvoso. Entretanto, este ano, agosto já chegou, mas ainda está chovendo e o rio está cheio, o que deve comprometer o processo, interferindo na segurança alimentar e na diversidade dos produtos da roça.

    A data do início do seminário, 9 de agosto, coincidiu com a da divulgação do documento do Painel Internacional sobre a Mudança Climática (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) alertando que é inequívoco que a humanidade tenha aquecido a atmosfera, o oceano e a terra, o que resultou em mudanças generalizadas e rápidas no planeta. Entre as mudanças estão o aumento da temperatura e fenômenos climáticos extremos. A coincidência de datas não foi intencional, mas reforça a importância da abordagem do tema.

    Um dos articuladores do I Seminário de Adolescentes e Jovens e Indígenas e Emergências Climáticas do Rio Negro é o secretário-executivo da Nadzoeri – coordenadoria regional da FOIRN -, Juvêncio Cardoso, o Dzoodzo Baniwa. Ele considera que o seminário possibilita que os jovens entendam que as mudanças que eles estão vendo em suas comunidades na floresta e que também são relatadas pelos velhos conhecedores indígenas estão ligadas à emergência climática. “Essas observações são compartilhadas nos espaços comunitários nas comunidades. Há também os relatos dos velhos, as narrativas. Cada vez tem menos peixe. Por quê?”, diz.

    Ele reforça a fala dos jovens que relatam as mudanças no ambiente, lembrando que, em 2018, a região do Rio Negro enfrentou extrema seca e, neste ano de 2021, houve a cheia recorde do Rio Negro, que inundou roças, colocando em risco a segurança alimentar dos indígenas. “A roça inunda, perde-se a roça, a mandioca, a banana, a pimenta. Perde-se a diversidade de alimentos”, diz.
    “Nós indígenas, preservamos a floresta, temos pouca participação no impacto negativo que gera a emergência climática. A nossa forma tradicional de viver considera que o mundo está interligado com os espíritos das plantas e animais. Mas estamos sentindo o impacto”, completa.

    Segundo Dzoodzo Baniwa, para manter as práticas tradicionais que protegem o ambiente, os indígenas reivindicam o direito e proteção ao território, colocados sob ameaça por projetos como o PL 490 e o Marco Temporal. “É necessário reconhecer e garantir o direito ao território. Outra forma de política pública é a implementação de pagamento por serviços ambientais, como o ICMS Verde para quem protege mais o ambiente e apoio para implementação dos Planos de Gestão Territorial Ambiental (PGTAs) construído pelos indígenas”, explica.

    Juvêncio Cardoso – Professor, pesquisador e liderança Baniwa. Foto: Eucimar Aires/FOIRN


    O coordenador do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da FOIRN (Dajirn/FOIRN), Elson Kene Cordeiro, da etnia Baré, informou que o encontro foi estruturado a partir da demanda dos próprios jovens da região do Rio Negro. “Os jovens relatam que suas famílias sofrem com cheia do rio, perda de roças, escassez de peixe, mudança no tempo”, informa ele. Também coordenadora do Dajirn/FOIRN, Gleice Maia Machado, da etnia Tukano, informou que durante o encontro foram discutidas mudanças que os jovens podem promover em suas comunidades para evitar poluição e produção de lixo. Para dar o exemplo, o Dajirn providenciou copos personalizados para serem usados pelos jovens durante o evento, evitando o uso de objetos descartáveis.
    Participaram do encontro representantes das cinco coordenadorias da FOIRN – Coidi, Diawi´í, Caiarnx, Caimbrn, Nadzoeri (saiba mais abaixo) – além de moradores de São Gabriel da Cachoeira, Barcelos e Santa Isabel da Cachoeira.


    Ativista e voluntária do Greenpeace, Cíntia Lucena, graduanda de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), também participou do encontro, em São Gabriel, e compartilhou informações sobre os impactos das mudanças climáticas na floresta Amazônica e as consequências para a preservação da vida humana. “É um intercâmbio de percepções no seminário, com grande diversidade de jovens”, disse. Ela ressalta que os jovens são os que mais vão sentir os impactos do aquecimento global. “Eles já sentem os impactos passando por essa pandemia da Covid-19, com crise econômica, sanitária e social”, diz.

    Cíntia Lucena explica que a pauta da emergência climática está diretamente conectada ao tema de direitos à terra e valorização da cultura indígena. “Os indígenas têm o método de economia que valoriza a vida e a cooperação, levando à conservação ambiental”, diz.
    REDE WAYURI

    Os integrantes da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas estiveram presentes no encontro. A Comunicadora Cláudia Ferraz, da etnia Wanano, informou que o grupo participou
    Na quarta-feira (11) de manhã, os comunicadores participaram do Programa Papo da Maloca, na rádio FM 92,7, desenvolvido pela Rede Wayuri numa parceria entre FOIRN e Instituto Socioambiental (ISA), sempre com abordagem de temas ligados aos indígenas do Rio Negro. “Os comunicadores vão falar sobre o evento, o que chamou mais atenção, o que vão levar de informação para repassar em suas comunidades”, diz a comunicadora Cláudia Ferraz, da etnia Wanano, que apresenta o Papo da Maloca junto com Elizângela Baré. A Rede Wayuri também mantém um podcast e desenvolve uma série de atividades de comunicação e articulação com jovens indígenas. Devido à pandemia, algumas mobilizações foram reduzidas.


    VIOLÊNCIA
    O tema violência contra os jovens indígenas também ganhou destaque no encontro. No final de julho, o assassinato de uma jovem indígena da etnia Baré, de 15 anos, estudante, causou comoção na cidade. O acusado pelo crime é um soldado do Exército, que foi detido. O fato levou à mobilização do Fórum Interinstitucional de Políticas Públicas de São Gabriel da Cachoeira, que divulgou uma nota de repúdio contra o fato, cobrando mais segurança e proteção para a população, principalmente os mais vulneráveis, como mulheres e jovens indígenas.
    Em nota, o Exército informou que não compactua com comportamentos em desacordo com a ordem jurídica vigente e repudia todos os atos de violência contra a integridade humana. Foi informado também que após concluído o processo leal pelas autoridades competentes, o Exército adotará as medidas disciplinares cabíveis.

    IMPACTOS NA FLORESTA
    Leia abaixo relatos de adolescentes e jovens indígenas que vivem em comunidades na floresta ou em cidades do Rio Negro e que participaram do I Seminário de Adolescentes e Jovens e Indígenas e Emergências Climáticas do Rio Negro – O futuro do nosso planeta depende de nossa nossa luta!:

    • Riseli Maísa, de 27 anos, moradora da comunidade Matapi/Rio Tiquié,
      Coordenadoria Diawii
      “Esse encontro é muito interessante. Ainda tem muita coisa que não temos conhecimento. Na comunidade já conversamos sobre cuidados com poluição, desmatamento, lixo. E já sentimos algumas mudanças no clima. Agora é época de queima de roças e, depois, plantação. Mas está chovendo, o que está atrapalhando.”
    • Leonardo Garcia da Silva, etnia Baniwa, morador da comunidade Tunuí-Cachoeira/Rio Içana
      Coordenadoria Nadzoeri
      “Nós tivemos um primeiro encontro de jovens lá na nossa região, em Tucumã, e entendemos que a mudança climática é perigosa. Antigamente não era assim. Os velhos falaram lá: aumentou o calor do sol, encheu muito o rio, ficou mais difícil o peixe. Entendemos que longe queimam a natureza, isso não acontece na nossa região, mas esse calor causa impacto lá. O meio ambiente é nosso, vamos reunir, sonhar: o ambiente é para todos!”
    • José Baltazar, etnia Baré, morador da comunidade Guia, Alto Rio Negro
      Coordenadoria Caiarnx
      “Estamos expandindo o nosso conhecimento sobre a emergência climática. E queremos saber por que as leis de meio ambiente não estão sendo devidamente aplicadas. Também queremos que sejam mantidas as leis que preservam as terras indígenas. Pelo conhecimento de nossos antepassados, agosto é época de derrubar roça, queimar e depois plantar. Era para começar de secar. O clima mudou, é agosto e o limite da água está alto.”
    • Jodelyn Alves Amaral, etnia Desano, morador da comunidade Nossa Senhora Aparecida/Iauaretê, Rio Uaupés
      Coordenadoria Coidi
      “Na nossa comunidade, toda quarta-feira tem trabalho comunitário nas roças. Mas por causa da chuva não tava dando para trabalhar, para plantar mandioca, bacaba, açaí. Tem grande diferença no clima.”
    • Nicolas Cauê, etnia Baré, morador de Barcelos
      Coordenadoria Caimbrn
      “O seminário é importante porque incentiva a gente a conhecer coisas novas, saber do movimento indígena e da importância de levar à frente a cultura indígena. Sobre o aquecimento global, já sentimos as mudanças. O calor aumentou. E o frio também aumentou. Na cidade, podemos ver mais poluição.”
    • Martinho da Silva Teixeira, etnia Yanomami, morador da comunidade Maturacá, Coordenadoria Caimbrn
      “Aos poucos a gente vai discutindo sobre as mudanças climáticas. Sim, claro que sim já sentimos o impacto. As caças eram achadas bem pertinho. Peixe era bem pertinho. Estão se distanciando muito. Pesca o dia inteiro e acha pouco peixe.”
    • Lilia França, etnia Baré, moradora de São Gabriel da Cachoeira
      “Na cidade também é possível perceber as mudanças no clima. O calor aumentou e está insuportável, este ano o rio causou alagamento em diversos pontos. Também tivemos frio que na região, o que não é comum. E, quando começa a secar, os mosquitos aumentam cada vez mais.”

    Informe-se sobre quais regiões cada uma das cinco coordenadorias da FOIRN representa:
    Nadzoere – Associação Baniwa e Koripaco;
    Diawi´i – Coordenação das Organizações Indígenas do Tiquié, Baixo Uaupés e Afluentes;
    Coidi- Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê;
    Caiarnx – Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié;
    Caimbrn – Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro.

  • Mulheres Baniwa do Médio Içana realizam encontro de formação em gestão de associação

    Mulheres Baniwa do Médio Içana realizam encontro de formação em gestão de associação

    O I encontro foi realizado na comunidade Castelo Branco – Médio Rio Içana. Foto: Juliana Albuquerque/FOIRN

    Mulheres das comunidades do Médio Içana: Nazaré, Ambaúba, Castelo Branco, Belém, Taiaçu Cachoeira, Tunuí Cachoeira, Warirambá e Vista Alegre participaram do I Encontro das Mulheres Artesãs do Médio Içana I, realizado na comunidade Castelo Branco, nos dias 5 e 6 de Agosto de 2021.

    O encontro reuniu mais de cem participantes que teve como a pauta principal, a formação de lideranças mulheres em gestão de associação com objetivo de fortalecer as associações de base da região e aprimoramento dos trabalhos das artesãs associadas.

    Diretor da FOIRN de referência da região do Içana, Dario Casimiro; Coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e Alfredo Brazão apresentaram um pouco sobre o histórico do movimento indígena do Rio Negro, as associações de base e como elas funcionam, especialmente a documentação e as etapas de regularização.

    O diretor de referência apresentou os planos de trabalho e as ações da Foirn, afirmou a importância do fortalecimento da associação as mulheres e as articulações de eventos na região.

    A Coordenadora do Departamento de Mulheres, Dadá Baniwa destacou a importância do empoderamento das mulheres através de suas associações pois é através delas que podem se mobilizar para lutar pelos direitos e promover ações que garantam o bem viver do povo e das comunidades.

    A oportunidade a associação reestruturou a diretoria que passou a ser composto da seguinte maneira: Presidente: Nilda José da Silva; Vice – Presidente: Alcimara Pereira Antônio; Secretaria: Gorete dos Santos; 1° Conselheira: Graziela Serafim Camico; 2° Conselheira: Suzete Serafim Camico.

    Foram indicadas mulheres para participar da Rede Mulheres do Rio Negro, como representantes da região do Médio Rio Içana, são elas: Sani Fontes (Comunidade Castelo Branco), Sandra Pedro Camico (Comunidade Vista Alegre) e Cleide José da Silva (Comunidade Castelo Branco).

    Fundada em 2004 a Associação das Mulheres Artesãs Indígenas do Médio Içana I (AAMI), abrange 5 comunidades do Médio Içana I: Nazaré, Ambaúba, Castelo Branco, Belém e Taiaçu Cachoeira.