Tag: Povos do Rio Negro

  • 30 de abril de 2021: FOIRN completa 34 anos de existência e resistência

    30 de abril de 2021: FOIRN completa 34 anos de existência e resistência

    No dia 30 de abril de 1987 o ginásio da Diocese de São Gabriel da Cachoeira foi o palco onde se reuniram mais de 400 lideranças indígenas que vinham desde os anos 1970 se organizando e discutindo os direitos dos povos indígenas da região do Rio Negro. Neste evento que juntou diferentes etnias, povos, línguas, tradições e trajetórias históricas foi fundada a FOIRN. Nessa reunião estavam presentes não somente nossos parentes, mas também autoridades do Estado Brasileiro.

    Não que a presença de pessoas de contextos diferentes aos nossos fosse novidade. Nós indígenas do Rio Negro temos uma história de resistência à colonização desde a chegada de portugueses e espanhóis e mantemos nossa identidade indígena até hoje, somos sobreviventes.
    A fundação da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN marca mais uma dessas fases de resistência e foi com os motes de Terra e Cultura que fomos buscar nossos direitos.
    A FOIRN foi criada para que nós tenhamos nosso próprio meio de expressão e reivindicação. Aqui nós falamos por nós mesmos, evitando intermediários ou atravessadores.

    Desde 1987 muitas ações foram concretizadas. Temos hoje Terras Indígenas demarcadas e em processo de demarcação, a educação escolar indígena tem exemplos positivos, as línguas indígenas os
    costumes e tradições continuam a ser praticadas e, principalmente, hoje mostramos que ser indígena é motivo de orgulho, pois nossa história marca a diversidade, a pluralidade, a ampliação dos conhecimentos e caminha em conjunto com um enorme patrimônio social e natural.

    Afinal, a história dos povos indígenas do Rio Negro não separa o ser humano do seu ambiente, das águas, das florestas, das montanhas e dos animais. Criamos desta forma riquezas que vão além de cifrões, de números. Nossa riqueza é maior que o PIB, ela é todo esse território da qual o mundo precisa para que seu clima mantenha as condições de vida do ser humano, ela traz concepções filosóficas, mitológicas e ecológicas sobre uma das regiões com a mais rica biodiversidade do
    mundo, a Floresta Amazônica. Produzimos e conservamos um sistema agrícola de ampla diversidade, resistente a pragas e que não carece de venenos. Temos, portanto, enormes contribuições ao nosso mundo e lutamos para que estas sejam reconhecidas.

    Este reconhecimento é o que guia os trabalhos da FOIRN,reconhecimento de que os povos indígenas habitam esta região há milênios e que contribuem enormemente ao nosso país e ao mundo. No
    entanto, isso somente acontece através de grandes esforços, é por isso que a luta faz parte do nosso cotidiano.


    Lutamos contra os interesses que prefeririam destruir nossos territórios para dar lucro para quem já está soterrado de dinheiro. Temos que lutar pois somos ameaçados com ideias que menosprezam e querem uniformizar nossos conhecimentos milenares. Lutar porque aqui já queimaram malocas e demonizaram nossos costumes. Lutar, pois há ameaças constantes aos capítulos da Constituição que garantem os nossos direitos, feitas por aqueles que desejam facilitar a expansão do
    agronegócio, mineração e madeira.


    A FOIRN dialoga com o poder público, propondo o uso sustentável de recursos naturais para o bem viver das comunidades e também lutar pela nossa cultura e território.


    Há pelo menos 30 anos trabalhamos com essa ferramenta garantida pela Constituição Federal de 1988, que é a associação indígena. Aqui na FOIRN propomos e acompanhamos as políticas públicas
    governamentais. Assim, construímos no dia a dia uma ponte entre as comunidades mais distantes e o Estado Brasileiro. Fazemos as reivindicações de nossos parentes ecoarem nos Palácios do governo e
    chegarem a quem pode tomar decisões que garantam nossos direitos. Apesar de toda esta trajetória, ainda recebemos críticas sem fundamentos de que as terras indígenas trazem atraso e impedem o
    progresso. Porém, devemos lembrar à sociedade que é por conta desse chamado progresso que estamos sofrendo com a fúria da natureza

    ocasionando inundações, nevascas, desertificações em várias partes do planeta, devido às mudanças climáticas causadas pelas emissões dos gases de efeito estufa. É nessa hora que não vale nada o orgulho e poder dos países e homens mais ricos do mundo. Diante da reação da natureza não existe protocolo nem todo dinheiro do mundo para acordar uma trégua.


    Enquanto isso, os parentes no Mato Grosso do Sul são mortos por proprietários de grandes fazendas. É este progresso que polui nosso mundo e faz com os que mais ricos fiquem mais ricos e os mais pobres
    mais pobres! As Terras Indígenas são, ao contrário disso, reais exemplos de progresso. Nelas ainda se encontra ar puro, água, espaço, liberdade e reciprocidade. Nelas se pode viver sem nos submetermos a
    patrões e donos de negócios que querem só nossa força de trabalho e pagar o mínimo possível para que possam lucrar o máximo.


    Convidamos assim vocês para refletirem sobre o nosso mundo de hoje, pensarem como podemos melhorá-lo e que estratégias podemos traçar em conjunto, pois essa história de 34 anos traz uma marca importante dos nossos ancestrais, a coletividade. Nossa instituição sempre foi e continuará de portas abertas para que nossos trabalhos sejam conhecidos, analisados e melhorados.


    Assim como não deixamos de ser indígenas por usarmos novas tecnologias ou falarmos português, não deixaremos que novas táticas de colonização acabem com nossos saberes e práticas milenares. Saibam suas histórias, procurem saber a versão não somente dos dominantes, mas também a versão daqueles que resistem, que lutam para que injustiças não sejam perpetuadas. Uma grande parte dessa
    história de resistência está aqui, ela é incorporada pela FOIRN, está na nossa maloca, nas nossas lideranças, nas nossas comunidades, roças, em danças de cariçu, em rodas de caxiri e também em nossos livros, arquivos e vídeos. Conheçam esta história.

    Parabéns à FOIRN e a todos oque contribuíram para sua existência no passado e no presente, é na verdade um parabéns à diversidade, àpluralidade e à tudo que nossos povos indígenas do Rio Negro
    representam.

    Renato Matos Tukano

  • NOTA DE REPÚDIO AO PL 191-2020

    NOTA DE REPÚDIO AO PL 191-2020

    PELA VIDA, CONTRA O GENOCÍDIO, NOSSAS VIDAS NÃO ESTÃO À VENDA!

    Nós, lideranças indígenas, representantes dos 23 povos indígenas da região do Rio Negro, reunidos na 39° reunião do Conselho Diretor da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN, realizado nos dias 20 e 21 de abril de 2021, na Casa do Saber da FOIRN/São Gabriel da Cachoeira (AM), vem a público manifestar repudio contra a Projeto de Lei (PL) 191, conhecido como PL da mineração, encaminhado pelo Presidente da República Jair Messias Bolsonaro em 6 de fevereiro de 2020 à Câmara dos Deputados. Esse projeto pretende regulamentar pesquisas e exploração de recursos minerais, garimpo, extração de hidrocarbonatos, bem como aproveitamento de recursos hídricos para geração de energia elétrica em Terras Indígenas (TIs).

    O PL 191/2020 é mais uma estratégia deste governo anti indígena de abrir nossas terras para grupos econômicos e ao capital nacional e internacional. Significa pena de morte para nós porque põe em risco a nossa existência em nossas terras. Essas atividades vão causar a devastação e contaminação dos rios e florestas, destruindo nossa cultura, conhecimentos e memória materializada no nosso território. Para nós a terra é tudo, sem ela não há como viver e sobreviver. Não é mercadoria e não está à venda. Não é reserva de capital presente e futuro para esses grupos econômicos. É a nossa casa, casa dos espíritos ancestrais e mitológicos, vida que se entrelaça com todos os seres.

    Trata-se de um projeto que desrespeita e viola os nossos direitos à vida, à terra, ao território e fundamentalmente representa a perda da nossa autonomia conquistada pelo movimento indígena expresso de acordo com os artigos 231 e 232 da Constituição da República Federativa do Brasil, e tratados internacionais como a Convenção 169 da OIT. Reestabelece a tutela, pois retira nosso direito à gestão do território conforme a nossa cultura, visão de mundo e entendimento do que é o Bem Viver. Além disso nos impede do poder de veto de projetos nas TIs que possam nos prejudicar, principalmente mineração e agropecuária, remetendo a aprovação do Presidente da República após uma consulta genérica, sem qualquer diálogo com os povos indígenas e sem Consulta Prévia, Livre e Informada.

    Além de tudo, significa caminho sem volta em relação ao direito de usufruto exclusivo do nosso território. E pior, arquitetado e implementado pelo governo, que segundo a Constituição deveria proteger nossos patrimônios e direitos originários. O PL 191/2020 representa interesses dos grupos econômicos e políticos anti indígenas que vem demonstrar uma face neocolonial, fascista, genocida, etnocida, preconceituosa que tem como objetivo nos dizimar e expropriar nossas terras. Mas a nossa resposta continua sendo única. Vamos resistir! Nossas terras e nossas vidas não estão à venda!

    Diante do exposto, manifestamos nosso repúdio a esse Projeto de Lei genocida e aos seus defensores que se auto intitulam representantes, porém, não estão legitimados por nós povos do Rio Negro, e exigimos que o governo brasileiro respeite os nossos direitos constitucionais à terra e à vida. Temos direito de viver!

    São Gabriel da Cachoeira, 21 de abril de 2021

  • Reinauguração da Casa do Saber da FOIRN reforça importância do espaço para a luta e cultura indígenas do Rio Negro

    Reinauguração da Casa do Saber da FOIRN reforça importância do espaço para a luta e cultura indígenas do Rio Negro

    Integrantes do Grupo de danças Tuyuka apresentam na reinauguração da Casa do Saber da Foirn em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Ana Amélia/Foirn

    A cobertura da palha de caranã, os esteios de madeira, os grafismos, a engenharia indígena: esses são alguns dos elementos da Casa do Saber – Maloca da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), em São Gabriel da Cachoeira (AM), reinaugurada nesta segunda-feira, 19 de Abril, Dia dos Povos Indígenas, após ficar fechada desde setembro de 2020 para reformas.

    A abertura da solenidade foi conduzida pelo presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, da etnia Baré, e contou com danças tradicionais indígenas e com a presença de representantes das instituições e sociedade civil organizada. Mas, antes, o principal elemento dentro da cultura tradicional: o indígena Mário Tenório, da etnia Tuyuka, fez o benzimento da estrutura. Também como parte das comemorações do 19 de Abril, nesta segunda-feira foi inaugurada a usina de oxigênio do Rio Negro, doada pelo Greenpeace à FOIRN.

    Presidente da FOIRN, Marivelton Baré relembrou momentos importantes do movimento indígena, reforçando a importância da Casa do Saber como espaço dos povos tradicionais, sua luta e resistência, proteção e cultura.

    “Essa Maloca faz parte de trajetória do movimento indígena do Rio Negro Negro, com várias lutas, como as enfrentadas na época da Ditadura Militar, quando foi um desafio para a gente lutar pela criação dessa organização. Era só uma casinha pequena onde nossas lideranças eram perseguidas e ameaçadas. Tudo isso fez parte do processo e mostra a resistência dos povos do Rio Negro. Depois as empresas mineradoras chegaram à região de forma devastadora, cooptando lideranças, criando divisão entre as populações pelos interesses econômicos”, disse.

    Marivelton Barroso também relembrou o papel importante de lideranças indígenas e ex-presidentes da FOIRN, como Braz França (Baré), em muitas conquistas, entre elas a demarcação de terras, os avanços na organização da educação e saúde indígena.

    Ele reforçou que os povos indígenas querem respeito ao espaço de decisão e têm instrumentos – como o Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA), elaborado em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) para ordenar o desenvolvimento. “Terra indígena não é empecilho para desenvolvimento. Tem que buscar meios alternativos”, declarou.

    Ao falar dos jovens, Marivelton Barroso disse que é obrigação do movimento indígena promover ações que integrem a juventude. Ele mesmo foi membro do movimento de juventude indígena e disse que é necessário dar oportunidades aos mais novos e reforçou que os jovens podem chegar aonde quiserem, nas mais diversas instituições.

    O trabalho em parceria com as ONGS também foi lembrando por Baré, mais cedo, durante a inauguração da usina de oxigênio. “Estamos trabalhando com parcerias sérias. Falam que as organizações agem por interesse minerário. Se fosse, não estaríamos hoje inaugurando essa usina de oxigênio que irá proteger vidas”, disse.

    Mestre Luiz Baniwa foi responsável pela reconstrução da Casa do Saber da Foirn. Foto: Ana Amélia/Foirn

    Responsável pelas obras de reestruturação da Casa do Saber, a liderança indígena e conhecedor tradicional Luiz Laureano, do povo Baniwa, disse que a estrutura foi construída de forma a ter espaço para cada uma das etnias do Alto Rio Negro. “É muita alegria estar aqui, nesse dia de festa. Essa casa deve abrigar e proteger os povos indígenas e os seus parceiros”, disse. Luiz Laureano também participou da dança tradicional Baniwa na abertura do evento. Em seguida, houve apresentação cultural do povo Tuyuka.

    Participaram da inauguração da Casa do Saber a diretoria da FOIRN, integrantes da federação e de associações indígenas e autoridades do município, entre elas a vice-prefeita Eliane Falcão; o administrador do Instituto Socioambiental (ISA) em São Gabriel da Cachoeira, Wizer Oliveira; o diretor de operações do Greenpeace Brasil, Agnaldo Almeida; o presidente e cofundador da organização Expedicionários da Saúde (EDS), o médico ortopedista Ricardo Affonso Ferreira; o comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva, General Alexandre Ribeiro de Mendonça; a diretora do Hospital de Guarnição do Exército, tenente-coronel Anaditália Pinheiro; o coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN), Ernani Souza; coordenadora do Dsei Yanomami, enfermeira Clara; coordenador interino da Funai, Marcos Albino.

    LUTO

    Os integrantes do movimento indígena vítimas da Covid-19 foram homenageados durante a inauguração da Casa do Saber. Diretor de referência para a Nadzoeri – Organização Baniwa e Koripako, Isaías Fontes morreu no início de fevereiro, após ficar internado em Manaus. Ele contraiu o novo coronavírus em São Gabriel durante a segunda onda da pandemia, teve o quadro agravado e chegou a ser transferido para hospital da capital, mas não resistiu. Outras importantes lideranças foram lembradas, como Higino Tuyuka, Feliciano Lana entre outros.

    USINA DE OXIGÊNIO

    Dentro das ações de combate à pandemia na região, foi oficialmente inaugurada nessa segunda-feira a Usina de Oxigênio do Rio Negro, doada pelo Greenpeace à FOIRN. O equipamento já está em funcionamento e garantirá o abastecimento de oxigênio em São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.

    A nova usina foi acionada pelo presidente da FOIRN, Marivelton Baré, pelo diretor de operações do Greenpeace Brasil, Agnaldo Almeida, e pela vice-prefeita Eliane Falcão.

    Marivelton Baré reforçou a importância das parcerias interinstitucionais que vêm possibilitando as ações de combate à Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira.

    Foi assinado termo de cessão e gestão entre FOIRN e Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira. O equipamento está instalado na Unidade Básica de Saúde (UBS) Miguel Quirino, em São Gabriel, e será gerido pela administração municipal. Os municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos também serão beneficiados.

    Segundo Agnaldo Almeida, do Greenpeace, no início deste ano, durante o pico da segunda onda da pandemia e da crise do oxigênio no Estado do Amazonas, a organização transportava cerca de 15 cilindros de oxigênio a cada dois dias, numa logística trabalhosa e dispendiosa. A partir dessa demanda, foi desenhada a estrutura da nova usina de oxigênio, que saiu do Sul do país – o equipamento foi produzido no Paraná – e trazida até São Gabriel em trajeto de avião e barco.  A produção do insumo pode atender a um aumento da demanda em uma possível terceira onda e a pacientes com outras enfermidades respiratórias. “Eu trabalho em outras partes do Amazonas e gostaria de ressaltar que o modelo adotado na região do Rio Negro de parcerias para combate à Covid-19 é exemplar”, disse. Junto com a usina, foram doados à FOIRN um total de 90 cilindros de oxigênio.

    Administrador do Instituto Socioambiental (ISA) em São Gabriel da Cachoeira, Wizer Oliveira ressaltou que a usina traz alívio depois de um período de agonia passado por todo o Estado com falta do insumo tão necessário aos pacientes com Covid-19.

    Presente ao evento de inauguração da usina, o Secretário Municipal de Esportes de Santa Isabel do Rio Negro, Evandro Aquino reforçou que a conquista é primordial para o município. A cidade chegou a apresentar falta de oxigênio e teve o socorro da FOIRN e parceiros no auge da crise. Para abastecer os cilindros de oxigênio em Manaus, é necessário percorrer cerca de 600 km. Já a distância entre Santa Isabel e São Gabriel é de cerca de 200km.

    Diretora do Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira (HGuSGC), tenente coronel Anaditália Pinheiro, disse que a nova usina também pode auxiliar a estrutura hospitalar.  “Em São Gabriel da Cachoeira podemos ter problemas no fornecimento de energia elétrica em decorrência de um raio ou outra eventualidade. Nesses casos, a nova usina pode funcionar como um backup para abastecimento de cilindros”, informou.

    Sobre uma possível terceira onda, ela disse que todo o país deve ser preparar e que o hospital vem reforçando medicamentos, equipamentos e recursos humanos. Sobre o kit intubação – série de medicamentos utilizados no processo de intubação – ela informou que há estoque no hospital.

    (Ana Amélia Hamdan/Colaboradora FOIRN)

  • Povo Dãw inaugura Casa de Referência Cultural e fortalece tradição

    Povo Dãw inaugura Casa de Referência Cultural e fortalece tradição

    Liderança do povo Dãw, a professora Auxiliadora recebe os convidados para a inauguração do centro cultural. Foto: Ednéia Teles/Foirn

    Os indígenas da etnia Dãw, que vivem na comunidade Waruá, às margens do Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), têm agora um novo espaço de referência para fortalecimento de suas tradições.

    No domingo, 14/3, foi inaugurada a Casa de Referência Cultural. Localizado no rio Curicuriari, no Sítio Belém, pertencente à Associação Ahkoiwi – CAIMBRN (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro), o novo centro está em área tradicional do povo Dãw e está mais resguardado das interferências da cidade.

    A comunidade Waruá fica em frente à principal orla de São Gabriel, sendo uma das mais próximas do espaço urbano, o que facilita o acesso a serviços, mas gera maior exposição a alguns problemas.

    O projeto financiado pelo Fundo Casa Socioambiental foi desenvolvido para possibilitar e incentivar a retomada de práticas tradicionais da etnia, como caça, pesca, danças, crenças, entre outros.

    Presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, da etnia Baré, esteve na inauguração e destacou que o projeto fortalece o povo Dãw, sua diversidade cultural e territorialidade.

    “Atualmente o povo Dãw vem se fortalecendo e se organizando para retomada e ocupação de seu território tradicional, pois tem história de resistência na região do rio Curicuriari. A cada dia vem se fortalecendo, fazendo monitoramento, intercâmbios, valorizando e mantendo sua cultura, progredindo após quase ser extinto”, disse Marivelton Baré.

    Liderança do povo Dãw, a professora Auxiliadora Fernandes informa que a construção do centro cultural é resultado de luta e vai beneficiar também as novas gerações.

    “É uma conquista para que os nossos filhos tenham suas terras para trabalhar, colher frutos e que se sintam dentro de suas próprias terras, o que é de direito”, declarou.

    A cerimônia de inauguração da Casa Cultural contou com a presença da presidência e diretoria da FOIRN, de lideranças indígenas de diferentes povos, lideranças da Comunidade Inebo, representantes do Instituto Socioambiental – ISA, Funai, Condisi-ARN.

    Na inauguração, o povo Dãw e moradores da Comunidade Inebo fizeram a apresentação cultural “Dabucuri de Açaí”, com oferta do fruto aos presentes.

    Os indígenas da etnia Dãw quase foram extintos, sendo que nos anos 80 o grupo chegou a contar com apenas 60 representantes. Atualmente, 159 pessoas vivem no Waruá.

  • Parceria entre FOIRN e Greenpeace garante usina de oxigênio para o Rio Negro

    Parceria entre FOIRN e Greenpeace garante usina de oxigênio para o Rio Negro

    Representantes de instituições locais e parceiros da Foirn visitam o local onde a usina será instalado em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Eucimar Aires/Foirn

    Parceria entre a FOIRN e o Greenpeace firmada dentro de ações de combate à pandemia da Covid-19 possibilitará a instalação de uma usina de oxigênio em São Gabriel da Cachoeira que beneficiará a região do Rio Negro.

    O equipamento deve entrar em funcionamento no próximo mês e será usado para envaze de cilindros, tendo capacidade para encher 12 equipamentos. O anúncio foi feito nesta terça-feira, 16/3, pelo presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, Baré, em encontro na Maloca – Casa do Saber da FOIRN, com a presença do diretor de operações do Greenpeace Brasil, Agnaldo Almeida, e autoridades do município.

     A usina de oxigênio será doada pelo Greenpeace à FOIRN, que vai celebrar termo de cessão e gestão com a Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira. A partir daí serão firmados acordos para que os municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos também sejam beneficiados pela estrutura.

    Marivelton Rodriguês Baré, Presidente da Foirn, destaca a importância da parceria para esta conquista. Foto: Ray Baniwa/Foirn

    Marivelton Baré reforçou que essa é uma conquista interinstitucional conduzida pela federação. “É uma ação interinstitucional da FOIRN, Greenpeace, Instituto Socioambiental (ISA), Expedicionários da Saúde (EDS), FUNAI, Prefeitura. E chega após as maiores dificuldades enfrentadas na segunda onda, com alto índice de contaminação e mortes. Vem suprir uma necessidade para além da pandemia, pois há outras doenças que demandam o uso desse insumo.  Além disso, resolve um problema logístico, pois não será necessário mais fazer os envazes de cilindros em Manaus”, disse.

    Em meio à chamada segunda onda da pandemia, o Estado do Amazonas, em especial Manaus, viveu este ano uma crise sanitária provocada pela falta de oxigênio. Em São Gabriel da Cachoeira não houve desabastecimento do produto devido ao grande esforço interinstitucional, mas a cidade chegou a operar no limite.

    A usina adquirida pelo Greenpeace custa R$ 450 mil, mas incluindo o valor do transporte e instalação, o montante chega a R$ 700 mil. O equipamento será instalado em área da Unidade Básica de Saúde (UBS) de Saúde Miguel Quirino. Na terça-feira, após o encontro da FOIRN, uma comitiva visitou o local.

    Diretor de operações do Greenpeace Brasil, Agnaldo Almeida, disse que durante a crise do oxigênio, a principal preocupação da organização foi com nossos parceiros, entre eles o movimento indígena.

    “Na crise desenvolvemos alguns planos para ajudar e, durante esse processo, surgiu a ideia de garantir a compra de uma usina para que ela ficasse como legado desse trabalho no Rio Negro, não só pensando no momento de pandemia. É um legado que vai ficar para a cidade e para o entorno em momentos futuros também”, disse.

    Durante o encontro houve exposição do modelo da parceria e apresentação das especificações técnicas da usina. Participaram da reunião, entre outras autoridades, a vice-prefeita Eliane Falcão; a coordenadora da Coiab, Nara Baré; o coordenador regional da Funai – Coordenadoria Regional Rio Negro, Auri Santo Antunes de Oliveira; o coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN), Hernane Souza; administrador do ISA – São Gabriel da Cachoeira, Wizer Oliveira; Diretora do Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira (HGu), tenenete-coronel Anaditália Pinheiro; vereador Messias Ambrósio. Também estiveram no encontro representantes de associações de base, diretores e coordenadores de departamento da FOIRN.

     DABUCURI

    O encontro na Maloca – Casa do Saber da FOIRN marcou o fim das obras de reforma da estrutura, que vinham ocorrendo desde setembro de 2020. Liderança indígena e conhecedor tradicional, Luiz Laureano, da etnia Baniwa, foi o responsável pela reestruturação na maloca. Nessa terça-feira, ele conduziu um Dabucuri para reabertura da Casa do Saber. A inauguração oficial deve acontecer em abril, coincidindo com a chegada da usina de oxigênio a São Gabriel da Cachoeira.

    Manter os cuidados preventivos continuam sendo fundamentais na luta contra a Covid-19.

  • Segunda dose de vacina e de solidariedade

    Segunda dose de vacina e de solidariedade

    Equipe DMIRN/FOIRN promove distribuição de máscaras aos idosos durante nova fase da campanha de imunização contra a Covid-19

    Em ação de solidariedade e conscientização sobre a importância da prevenção e da imunização contra a Covid-19, o Departamento de Mulheres Indígenas da FOIRN (DMIRN/FOIRN) promoveu, neste sábado (20/02), a entrega de máscaras a idosos que receberam a segunda dose da vacina e a profissionais de saúde. Foram distribuídas cerca de mil máscaras confeccionadas por mulheres indígenas em iniciativa da Campanha “Rio Negro, Nós Cuidamos”, desenvolvida pela FOIRN em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) para ações de proteção dos povos tradicionais durante a pandemia.

    “Essa é uma ação de preservação da vida, de precaução contra a Covid-19. A gente pode ver que os idosos estão mesmo usando as máscaras e sabemos que alguns deles não têm recursos para comprar a proteção. Outros vivem sozinhos e precisam de apoio para os cuidados”, disse a coordenadora do DMIRN e diretora interina da FOIRN, Maria do Carmo Piloto Martins, a Dadá Baniwa.

    A entrega das máscaras aconteceu nos postos de vacinação da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) de São Gabriel da Cachoeira, que promoveu a segunda fase da campanha de vacinação contra a Covid-19 para os idosos. A primeira fase foi realizada em 23 de janeiro, quando o DMIRN retomou a Campanha “Rio Negro, Nós Cuidamos”, com entrega de máscaras e kits de higiene. Até 18 de fevereiro, um total de 6.557 pessoas já tinham sido vacinadas.

    Enfermeira da Semsa, Alberta Socorro Andrade avalia na primeira etapa alguns indígenas estavam receosos em receber a medicação, mas nessa segunda etapa estavam todos mais confiantes. Profissionais de saúde orientam a manter os cuidados preventivos mesmo após a segunda dose, pois a vacina leva até quatro semanas para fazer efeito.

    Coordenadora do Programa Nacional de Imunização (PNI) em São Gabriel da Cachoeira, a enfermeira Laryssa Feitosa informou que o município já recebeu aproximadamente 31 mil doses do imunizante contra a Covid-19. A primeira remessa, de 27 mil doses, foi destinada ao Distrito Sanitário Especial Alto Rio Negro (Dsei-ARN), Dsei Yanomami e profissionais de saúde. Logo em seguida vieram os idosos. O próximo passo é vacinar profissionais de saúde de serviços particulares e, em seguida, será dado prosseguimento à imunização de profissionais de saúde que trabalham na parte administrativa dos serviços públicos. 

    A ação de entrega de máscaras teve apoio do Departamento de Jovens da Foirn (DAJIRN/FOIRN) e Setor de Comunicação (Setcom). Lembre-se parente: tome a vacina! Só vamos conseguir controlar a pandemia se muita gente for vacinada!

    Leia depoimentos de quem já está vacinado contra a Covid-19:

    Remédios tradicionais e imunização

    A professora, artesã e conhecedora indígena Cecília Albuquerque, da etnia Piratapuia, foi até o ginásio do Colégio São Gabriel para receber a dose de vacina contra a Covid-19. “Espero que todos possam tomar a vacina para não pegar a doença. Doer não dói. E salva vidas”, diz. Dona Cecília fez usos de remédios tradicionais durante toda a pandemia e continua preparando e tomando os chás.  

    Primeiro casal de idosos a ser vacinado

    O casal Mariquinha Navarro Campos, de 86 anos, da etnia Piratapuya, e Lauriano Freire Campos, de 88 anos, da etnia Tariano, tomaram a segunda dose da vacina nesse sábado (20/02). Eles foram os primeiros idosos de São Gabriel a receberem a vacina, em 19 de janeiro. “Eles não tiveram qualquer problema. Passaram bem o tempo todo”, informou o filho deles, Sérgio Navarro.

    Dose de esperança

    Funcionária da Foirn, Maria de Lourdes Veiga, da etnia Wanano, acompanhou sua mãe Emília Madalena, de 79 anos, Kubeu, para tomar a vacina na Escola Irmã Inês Penha. Para Lourdes, a vacina é sinônimo de esperança. “Minha irmã de 30 anos morreu vítima da Covid-19 na comunidade Jutica, no Rio Uaupés. Foi muita tristeza para a minha mãe. Agora temos essa esperança”, diz.

    Exemplo de força

    Indígena da etnia Baré, Apolônia Ramos Lizardo fará 90 anos no próximo mês de maio e foi se vacinar na manhã de sábado. Falando na língua Nheengatu, ela contou que recebeu a dose porque quer se salvar.

    Falta de conhecimento

    O indígena da etnia Baniwa Fernando José, de 74 anos, comentou sobre a resistência que alguns parentes moradores de comunidades estão tendo na hora de tomar a vacina. “A falta de conhecimento é que está levando os indígenas a terem medo da vacina. É preciso chegar às comunidades, explicar a eles o que é esse medicamento, conversar. Eles vão entender e tomar. É muito importante se proteger contra a doença, tomar a vacina”, disse. Ele e sua esposa Aurora Miguel, Baniwa, foram vacinados na Escola Sagrada Família. Fernando e Aurora são pais da liderança indígena André Baniwa e têm mais quatro filhos: Bonifácio, Braulina, Maria Eliana e Júlia.

    Preocupação com a família

    Maria do Carmo Martins Piloto, de 71 anos, mãe da Dadá Baniwa, tomou a vacina na Escola Irmã Inês Penha.  Ela quer saber agora é quando os filhos e outros familiares serão vacinados. “Estou muito feliz de tomar a segunda dose. Agora penso nos meus filhos que ainda não tomaram a vacina”, disse.

    Ela é uma das indígenas que estão confeccionando as máscaras de pano para serem doadas, inclusive as distribuídas nesse sábado. “Eu fico sentindo satisfação de poder ajudar, costurando mesmo com a minha máquina que está dando problema”, disse. O objetivo é que sejam costuradas 8 mil máscaras. Também estão ajudando nessa ação solidária Lucila Mendes de Lima, da etnia Tariano; Vanderleia Cardoso, Piratapuia; e Carmem Figueiredo Alves, Wanano.

    Perda de familiares

    “Eu não tive medo de tomar a vacina. Eu gostaria que todos os indígenas procurassem se vacinar. Por causa da Covid-19, eu perdi quatro pessoas da minha família e fiquei só eu. Morreram de Covid-19 meu pai e minha mãe, moradores de Santa Isabel do Rio Negro, e meus dois irmãos, um que morava em Santa Isabel e outro que vivia em Manaus. Eu moro aqui em São Gabriel, com minha mulher, quatro filhos e cinco netos. Quero ficar forte para ajudar outras pessoas que me auxiliaram. Agora estou esperando a minha família se vacinar.”  Bernardino Brazão, de 61 anos, da etnia Baré.

    Sem reação

    “Eu não senti nenhuma reação negativa. Tomei a vacina e voltei a trabalhar normalmente. Não ´precisa ter medo.” Irmã Irene Martini, de 73 anos

    Vida normal

    Maria Virgínia Albuquerque, de 72 anos, da etnia Baré, dá “a maior força” para as pessoas se vacinarem. “Antes, na primeira dose, eu estava com um pouco de medo. Agora está tudo mais calmo. Estamos querendo voltar à vida normal”, disse.

  • Canoa virtual: projeto conecta comunidades indígenas do Rio Negro à internet

    Canoa virtual: projeto conecta comunidades indígenas do Rio Negro à internet

    Projeto de fortalecimento da comunicação na parceria Foirn e ISA, apoiado pela Rainforest, Nia Tero e Fundação Moore instala oito pontos de internet via satélite

    Equipamento do ponto de internet instalado na comunidade Açai, Médio Rio Uaupés. Foto: Juliana Radler/ISA

    A pandemia de Covid-19 nos trouxe desafios e deixou muito evidente a importância de investirmos em melhorias de comunicação para as comunidades. O que já tínhamos falado muito nas oficinas de PGTA, assim como nossa juventude indígena também sempre enfatiza essa prioridade! A necessidade de manter contato com as equipes de saúde, sobretudo para ações emergenciais de resgate e atendimento para os doentes de Covid-19, mostrou que é preciso urgente ampliar os pontos de internet, assim como o número de radiofonia integrados ao 790.

    A comunicação instantânea por meio da internet salva vidas e é um instrumento de trabalho fundamental para as equipes de saúde, lideranças, profissionais da educação e para o desenvolvimento de toda a comunidade. Sabemos que as novas tecnologias também trazem besteiras. Mas colocando na balança, sabemos que pode trazer muito mais benefícios e bem viver para as comunidades do que problemas. Basta termos consciência e sabermos usar a tecnologia a nosso favor!

    Nesse sentido, no âmbito das ações de enfrentamento à pandemia de Covid-19, o Instituto Socioambiental (ISA) promoveu a instalação de oito pontos de internet via satélite nas seguintes comunidades: Canadá, Panapana e Vista Alegre (Içana), São Pedro e Pirara Poço (Tiquié), Açaí (Baixo Uaupés) e Cartucho e Acariquara, nos rios Negro e Jurubaxi.

    Kit de navegação na internet

    Foram instalados antena, roteador, modem e um pacote de energia solar para manter o sistema. Também serão instalados um notebook com uma impressora para apoiar nos trabalhos da comunidade. Também foi apoiado melhorias estruturais no local de instalação da internet, quando necessário. Essa primeira etapa da internet via satélite terá duração de 12 meses e espera-se que a partir desse bom uso pelas comunidades, a infraestrutura seja mantida para impulsionar os trabalhos realizados no âmbito da parceria FOIRN-ISA.

    Nessa primeira etapa foram contempladas 3 coordenadorias e o critério de escolha foi relacionado ao envolvimento das comunidades com trabalhos voltados às cadeias produtivas, rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (aimas), Rede Wayuri, turismo de base comunitária e gestão territorial e ambiental. No início do ano que vem está prevista uma oficina de fortalecimento para o bom uso da internet e como explorar da melhor forma esse meio de comunicação para o bem viver da comunidade.

    Rosivaldo Lima Miranda, do povo Piratapuia, da comunidade de Açaí, no Baixo Uaupés. Foto: Juliana Radler/ISA

    Rosivaldo Lima Miranda, do povo Piratapuia, da comunidade de Açaí, no Baixo Uaupés, recebeu a visita da comitiva do diretor Nildo Fontes, da Diawi’i no início de dezembro. Na ocasião, ele elogiou a instalação da internet. “Esse trabalho nos beneficiou muito. Nos ajuda na comunicação na saúde, educação, na comunicação com os parentes de fora, que estão em São Paulo, em São Gabriel. A gente nunca tinha sonhado em ter essa comunicação de primeira qualidade. E agora com isso vamos melhorar muito nosso trabalho comunitário e em prol do meio ambiente”, comentou Rosivaldo.

    A Foirn e seus convidados que estavam a caminho do rio Tiquié puderam verificar o bom funcionamento da internet, inclusive possibilitando conexão por áudio e vídeo. Nosso diretor Nildo comentou que com essa ampliação de internet de qualidade nas comunidades, será muito viável fazer mais articulações, viagens mais longas e trabalhos direto das comunidades. “Muitas vezes temos que voltar para a cidade por causa dos trabalhos que dependem de internet. Agora, posso ficar mais tempo nas bases e trabalhar daqui mesmo”, disse Nildo em Açaí.

    Baniwa defende TCC direto da comunidade de Vista Alegre

    O acadêmico Baniwa Alexandre Rodrigues Brazão conseguiu fazer a defesa do seu trabalho de conclusão de curso (TCC) intitulado “Calendário diferenciado da Escola Municipal Indígena Menino de Deus da comunidade Warirambá, rio Cuiari”, usando a plataforma Google meet, direto da internet instalada na comunidade de Vista Alegre (Rio Cuiary, afluente do Içana).

    Alexandre Rodrigues Brazão, defendeu seu trabalho de conclusão direto da comunidade Vista Alegre, rio Cuiarí. Foto: Reprodução

    O trabalho integra o curso de Licenciatura em Formação de Professores Indígenas, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), sob a orientação do professor doutor Gersem Luciano Baniwa. Sua banca examinadora contou com os professores Elciclei Faria dos Santos, Elias Brasilino de Souza e de notório saber, Brasilino Felipe dos Santos Baniwa.

    Para Brazão, defender seu TCC direto da comunidade foi uma emoção grande, além de um fator de economia, praticidade e em tempos de pandemia de Coronavírus, segurança para ele e sua comunidade, pois evitou se deslocar até a cidade, onde há aumento de casos da doença nesse momento de segunda onda. A defesa ocorreu no dia 18 de dezembro.

  • Conhecimentos ancestrais fortalecidos: Encontro no Tiquié reúne Kumuã para discutir Covid-19 e cria coordenação de saberes tradicionais indígenas

    Conhecimentos ancestrais fortalecidos: Encontro no Tiquié reúne Kumuã para discutir Covid-19 e cria coordenação de saberes tradicionais indígenas

    Participante do 1º Encontro de Conhecedores Tradicionais do Rio Tiquié. Foto: Ana Amélia Hamdan/ISA

    Algumas voadeiras que circularam pelo Rio Tiquié na primeira semana de dezembro transportaram passageiros com uma missão especial: trocar saberes tradicionais utilizados no enfrentamento à Covid-19 e estabelecer um protocolo indígena de proteção contra essa doença e outras enfermidades que possam atingir os povos do Rio Negro. Nos dias 4, 5 e 6 de dezembro, a comunidade Serra de Mucura, no Rio Tiquié, município de São Gabriel da Cachoeira (AM), recebeu o 1º Encontro de Conhecedores Tradicionais do Rio Tiquié, promovido pela Foirn com apoio do Instituto Socioambiental (ISA):  foram três dias de intensa troca de saberes entre os kumuã (plural de kumu) – como os conhecedores tradicionais são conhecidos na região. A reunião contou com a presença de um pajé que conduziu ritual para proteger indígenas e não indígenas do novo coronavírus.

    “Um dos objetivos do encontro é organizar os protocolos tradicionais indígenas de tratamento e prevenção da Covid-19. Os conhecedores fizeram os contos, as narrativas sobre as prevenções e tratamentos. Avançamos mais, com a criação de uma coordenação interna para conduzir estratégias para combate e prevenção da Covid e para articular outros eventos desse tipo, agregando mais conhecedores”, informa o vice-presidente da Foirn, Nildo Fontes, também diretor de referência da DIAWI´I (Coordenação das Organizações Indígenas do Tiquié, Baixo Uaupés e Afluentes).

    Nildo Fontes participou do encontro de Kumuã e explica que a demanda dessa reunião surgiu durante a realização das assembleias regionais eletivas da Foirn, quando indígenas moradores de diversas regiões reforçaram a informação de que recorreram aos saberes ancestrais para combater a Covid-19. Durante toda a pandemia, os povos tradicionais do Rio Negro utilizaram plantas medicinais, benzimentos e rituais para proteção no enfrentamento à pandemia. O relato é de que muitos se curaram com essas práticas, o que levou ao fortalecimento desses conhecimentos. Entretanto, esse resultado não foi registrado pelos órgãos oficiais.

    “Muitos de nós tivemos os sintomas da doença, usamos os medicamentos tradicionais e nos curamos, mas isso não está nos registros oficiais. Queremos que isso registrado”, explica Nildo Fontes. 

    Na conclusão da assembleia, foi divulgada uma carta em que os Kumuã demandam das instituições apoio para valorização dos saberes, inclusive com remuneração dos conhecedores e construção de casas de saber. Foi criada uma coordenação de conhecedores tradicionais para articulação e mobilização para fortalecimento dos saberes, estando prevista a realização de novo encontro em 2021, na comunidade de Caruru Cachoeira, também no Rio Tiquié. Fazem parte desse grupo o antropólogo Dagoberto Azevedo, da etnia Tukano, doutorando da Universidade Federal do Amazonas (Ufam); o professor Orlindo Marques, da etnia Tukano; Geraldino Tenório, da etnia Tuyuka; o conhecedor Damião Barbosa, Yeba Masã; o agente de saúde indígena (AIS) Arlindo Moura, Tukano.

    Entre os conhecedores presentes estavam Nazareno Marques (Tukano); Mário Campo (Desana); Tarcísio Barreto (Tukano); Celestino Azevedo (Tukano); Feliciano Tenório (Tuyuka); Damião Barbosa (Yebamasã). Além deles havia professores, agentes indígenas de saúde (AIS) e Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas).

    O coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do ISA, Aloisio Cabalzar, e a analista de comunicação do ISA, Juliana Radler, participaram do encontro de conhecedores do Rio Tiquié. Durante a assembleia foi entregue a representantes de comunidades a publicação Plano de Gestão Territorial e Ambiental do Alto Rio Negro (PGTA), elaborado em conjunto pela FOIRN e ISA. O volume foi lançado em novembro durante a XV Assembleia Eletiva da Foirn.

    Aloísio Cabalzar aponta que o uso dos conhecimentos tradicionais durante a pandemia levou a um processo de autoconfiança dos indígenas. “Aqui nessa região, o tratamento principal para os povos Tukano é o benzimento, o encantamento que é feito pelos conhecedores. Eles procuraram nesse conjunto de encantamentos, a origem dessa doença. Então, a importância desse encontro é ser uma oportunidade de vários conhecedores do rio, de vários povos e comunidades, se encontrarem. Nem todo mundo sabe as mesmas coisas. Eles puderam compartilhar o que que estão fazendo, o que está dando certo”, disse.

    O encontro foi registrado por equipe do ISA e Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, coordenada por Juliana Radler. Ela explicou que os registros do encontro serão utilizados para a produção de um documentário de curta duração que mostrará o enfrentamento da Covid-19 a partir de ações articuladas pelo Comitê Interinstitucional de Combate à Covid-19 de São Gabriel da Cachoeira e do uso de remédios e práticas tradicionais dos povos indígenas. As filmagens foram feitas no local pelo documentarista Christian Braga, com apoio do fotógrafo indígena Paulo Desana e do comunicador indígena Mauro Pedrosa. “Foi um encontro de força impressionante. Como jornalistas e comunicadores fomos chamados a levar adiante o recado dos povos indígenas de fortalecimento dos saberes e cuidado com meio ambiente”, disse Juliana Radler.

    Durante quatro dias, os conhecedores discutiram em suas línguas indígenasprincipalmente Tukno e Tuyuka   –  com apoio de tradução para o português do antropólogo Dagoberto Azevedo, além de Orlindo Marques e Geraldino Tenório. Uma das demandas dos próprios conhecedores é que esses saberes sejam compartilhados para com todos os povos indígenas do Rio Negro. O material será traduzido por comunicadores indígenas e compartilhado por meio de áudios com os demais povos do Rio Negro.

    O Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN) apoiou e participou do encontro. Representante do órgão, a psicóloga Ana Délia explicou que os trabalhos das equipes levam em conta a valorização dos saberes indígenas. Ela orientou sobre os procedimentos para evitar a contaminação pelo novo coronavírus, como uso de máscara, álcool em gel e evitar compartilhar objetos.

    Participantes do 1º Encontro de Conhecedores Tradicionais do Rio Tiquié. Foto: Ana Amélia Hamdan/ISA

    RITUAL

    Localizada na floresta amazônica e no meio do caminho entre os distritos de Taracuá e Pari-Cachoeira, Serra de Mucura é considerado um local sagrado pelos indígenas, abrigando quatro cavernas que representam malocas de onde surgiram os povos indígenas do Alto Rio Negro, do qual o Tiquié é afluente.   

    Capitão da Comunidade Serra de Mucura e presidente da Associação Indígena das Comunidades do Médio Tiquié, Roberval Sambrano Pedrosa e seus familiares recepcionaram o grupo de conhecedores. “Estamos realizando um grande evento aqui na comunidade sobre Covid-19. Estou muito alegre. É um lugar especial, com quatro cavernas que representam malocas antigas de onde se se originaram os povos do Alto Rio Negro”, explica.

    O encontro se tornou ainda mais especial com a realização de um ritual conduzido pelo pajé Jairo Villegas, que é um Yaí, um tipo de especialista tradicional que trabalha chupando as doenças dos pacientes. Os próprios indígenas explicam que a presença de um pajé nas comunidades foi ficando cada vez mais rara devido à influência dos religiosos que consideravam a prática um pecado, o que aconteceu também com os rituais de proteção.

    Na cerimônia realizada na Serra de Mucura foram benzidas substâncias como rapé, tabaco, Ipadu, carajiru, jenipapo e breu branco. O ritual foi regado com a bebida tradicional caxiri, preparada pelas mulheres da comunidade. Cantos e danças ocorreram pelo menos durante 8 horas seguidas. Foram utilizados maracás, chocalhos e adornos.

    Durante esse ritual, o pajé rearrumou o mundo, mandando a Covid-19 de volta para o lugar de onde ela saiu. Entretanto, ele mandou o recado de que precisa de uma contrapartida dos não indígenas, que devem parar de mexer no meio ambiente e de   provocar desmatamentos e queimadas. Também ajudaram na condução do rito o conhecedor Damião Amaral e os bayás (mestre de cerimônias) Rodrigo Lima Barbosa e Bernardo Lima Barbosa, todos da etnia Yeba Masã. O pajé fala a língua Makuna, que foi traduzida por Damião Amaral.

    Para ajudar no entendimento da ação do pajé, o antropólogo Dagoberto Azevedo compara o ritual realizado na Serra de Mucura a uma dose de reforço da vacina. “O que eles puderam fazer no ritual é a arrumação desse mundo cosmológico com esteio e portas de sustentação. Depois protegeram essa plataforma terrestre com esteios que têm durabilidade para combater o novo coronavirus. Protegeram a pessoa também com uma série de luzes e reflexos”, explica. O pajé também mencionou o uso de plantas amargas, como o cipó saracura. 

    O antropólogo indica que o ponto principal é que o pajé mandou a doença de volta para casa. “O ponto principal é que eles encaminharam o vírus para a origem dele, na casa dos brancos. Parecia que (o vírus) veio atacar os povos indígenas da região. O Yaí viu e abriu caminho por onde ele veio. Poderia atingir os não indígenas, mas ele flexibilizou essas portas para que os parceiros continuem trabalhando com os povos indígenas. Com essa flexibilização, o Yaí viu com a força do pensamento que a doença parecia estar querendo retornar. Mas nesse encontro ele reforçou essa proteção. Lançou como se fosse o reforço da vacina, traduzindo para vocês entenderem”, resume Dagoberto.

    Veja abaixo as principais demandas que constam da Carta dos Kumuã do Rio Tiquié      

    1 – Criar programas referente a valorização e fortalecimento dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas da região Diawií;

    2 –   Criar agenda de discussão interinstitucional para elaborar mecanismos para reconhecimento da categoria de conhecedores tradicionais visando à remuneração no processo de trabalho preventivo e de cura das doenças;

    3 –   Apoiar projetos específicos para as aldeias indígenas sobre cultura, encontros, cerimônias e atividades relacionadas para seu fortalecimento

    4 –   Apoiar na construção das casas dos saberes, usando materiais modernizados; elaborar projetos arquitetônicos para construção de casas de saber com formato tradicional e usar materiais adaptados modernos nas estruturas;

    5 –   União das instituições no processo de projetos referentes nos anseios dos povos indígenas;

    6-    Criar mecanismos para organizar formação e reconhecimento de novos conhecedores tradicionais indígenas;

    7-    Apoiar na divulgação dos trabalhos dos encontros;

    8 –   Valorização de antropólogos indígenas para colaborar no processo de organização do protocolo de prevenção e tratamento da Covid-19 e de outras doenças com conhecimentos tradicionais para o uso interno das comunidades dentro de seus territórios.

    Participantes moradores de comunidades (por comunidade e em ordem alfabética)

    Acará-Poço

    Oscarina Caldas Azevedo, Desana, de Acará-Poço

    Rafael Antônio Azevedo, Tukano, de Acará-Poço

    Boca do Sal

    Rafael Marques, Tukano, de Imaculada/Boca do Sal

    Caruru-Cachoeira

    Claudimar Rezende Marques, Tukano, de Caruru-Cachoeira

    Nazareno Marques, Tukano, de Cachoeira Caruru

    Orlindo Marques, Tukano, de Caruru-Cachoeira

    Cunuri

    Estévão Monteiro Pedrosa, Tukano, Cumuri

    João Carlos Pedrosa, Tukano, de Cunuri

    Guadalupe

    Oziel Barbosa Macedo, Desano, de Guadalupe

    Morro do Beija-Flor

    Bernardo Lima Barbosa, Yeba Masã, de Morro do Beija-Flor

    Tarcísio Lima, Yeba Masã, de Morro do Beija-Flor

    Pirarara-Poço

    Alesânia Aguiar Azevedo, Tukano

    Arnaldo Azevedo, Tukano, de Pirarara-Poço

    Celestino Rezende Azevedo, Tukano, de Pirarara-Poço

    Derluce Massa Azevedo, Tukano, de Pirarara-Poço

    Edigio Veiga, Desano, de Pirara-Poço

    Eugênia Pimentel, Desano, de Pirarara-Poço

    João Pedro Lima Azevedo, Tukano, de Pirarara-Poço

    Jones Rezende, Tukano, de Pirarara Poço

    Jusaleia Veiga, Desana, Pirarara-Poço

    Osimar Azevedo, Tukano, de Pirarara-Poço

    Palmira Azevedo, de Pirara-Poço

    Rafael Peixoto Veiga, Desano, de Pirarara-Poço

    Rosilene Aguiar Azevedo, Tukano, de Pirarara- Poço

    Rosivaldo Aguiar Azevedo, Tukano, de Pirarara-Poço

    Vilmar Rezende Azevedo, Tukano, de Pirara-Poço

    Porto Amazona

    Jairo Lemdaño Villega, Makuna, Porto Amazona

    Santa Rosa

    Inácio Macedo Barbosa, Yeba-Masã, de Santa Rosa

    João Bosco Macedo, Desano, de Santa Rosa

    Mateus Gomes Macedo, Desano, de Santa Rosa

    São Domingos

    Tarcísio Borges Barreto, Tukano, de São Domingos

    São Felipe

    Damião Amaral Barbosa, Yeba-Masã, São Felipe

    Maria Áurea Nunes Batista, Baniwa, de São Felipe

    Rodrigo Lima Barbosa, Yeba Masã, de São Felipe

    São José I

    Rogelino da Cruz Alves Azevedo, Tukano, de São José I

    São Luiz

    Cornélio Gonçalves, Desano,

    São Miguel

    Geraldino Tenório, Tuyuka, de São Miguel

    São Pedro

    Anunciata Rezende Marques, Tukano, de São Pedro

    Edilson Villegas Ramos, Tuyuka, de São Pedro

    Feliciano Tenório, Tuyuka, de São Pedro

    João Paulo Tenório, Tuyuka, de São Pedro

    Josival Azevedo Rezende, tuyuka, de São Pedro

    São Sebastião

    Germano Campos, Desano, São Sebastião

    Margarete Pinheiro, Tuyuka, de São Sebastião

    Mário Campos, Desano, de São Sebastião

    Odilon José Lopes Campos, Desano, de São Sebastião

    Serra de Mucura

    Enedina Azevedo, Desana, Serra do Mucura

    Ernesto da Silva, Tukano, Serra do Mucura

    Jocimara Alves Maia, Tukano, de Serra do Mucura

    José Calixto Araújo Pedrosa, Tukano, Serra do Mucura

    Josiane Maria Pedrosa, Tukano, de Serra do Mucura

    Maria Aparecida Bernardes, Tariana, de Serra do Mucura

    Maria de Lourdes Marques Tenório, Tuyuka, de Serra do Mucura

    Roberval Sambrano Pedrosa, Tukano, Serra do Mucura

    Taracuá

    Arlindo Matos Moura, Tukano, de Taracuá

    Isaías da Silva, Tukano, de Taracuá

    FOIRN

    Vice-presidente, Nildo Fontes

    ISA

    Aloisio Cabalzar, coordenador-adjunto do Programa Rio Negro

    Juliana Radler, analista de comunicação

    Ana Amélia Hamdan, jornalista

    Christian Braga, documentarista

    Paulo Desana, fotógrafo e documentarista indígena

    Mauro Pedrosa, Aima

    Julião, Barqueiro

    Augusto, Barqueiro

    Antropólogo indígena

    Dagoberto Azevedo, Tukano, antropólogo doutorando da Univesidade Federal do Amazonas (Ufam)

    Dsei-ARN

    Ana Délia, Psicóloga

    Colaborou: Ana Amélia Hamdan/ISA e Nildo José Miguel Fontes/Foirn

  • Eleição na FOIRN: presidente Marivelton Baré e vice Nildo Fontes Tukano são reeleitos para gestão 2021-2024

    Eleição na FOIRN: presidente Marivelton Baré e vice Nildo Fontes Tukano são reeleitos para gestão 2021-2024

    Marivelton Rodriguês Baré (em pé) foi reeleito presidente da Foirn para a gestão 2021-2024. Foto: Ray Baniwa/Foirn

    Os gestores que estarão à frente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) entre 2021 e 2024 foram definidos nesta sexta-feira: o atual presidente da FOIRN, Marivelton Barroso, da etnia Baré, foi reeleito para o cargo. O vice-presidente, Nildo Fontes, Tukano, também permanecerá no posto. A eleição ocorreu durante a XV Assembleia Geral Ordinária Eletiva da FOIRN, que este ano teve o tema “Pandemia e os saberes tradicionais indígenas do Rio Negro”. O encontro aconteceu em São Gabriel da Cachoeira (AM), na quinta e sexta-feira, 26 e 27, no auditório do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), seguindo as regras sanitárias para evitar a contaminação pelo novo coronavírus.

    “A gente não vai reduzir espaços e não vai reduzir ninguém, pois o nosso espaço é coletivo. Temos que focar nas nossas estratégias”, disse Marivelton Baré, em seu discurso logo após a eleição, lembrando que começou sua trajetória no movimento jovem indígena. Entre suas prioridades para a próxima gestão estão o fortalecimento institucional da FOIRN, gestão transparente e reforço das bases. Ele concorreu pela Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro (CAIMBRN).   

    Também se candidataram à presidência Nildo José, da Coordenação das Organizações Indígenas do Tiquié, Baixo Uaupés e Afluentes (DIAWÌI); Adão Henrique, da Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié (CAIARNX); e Janete Alves, da Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê (COIDI). Associação Baniwa e Koripako (NADZOERI) não apresentou candidato.

    Cada uma das cinco coordenadorias regionais teve direito a 20 votos. Marivelton Baré recebeu 58 votos; Nildo Fontes teve 34; Janete Alves ficou com 5 votos. Adão Henrique não foi votado. Três votos foram anulados.   

    As assembleias eletivas realizadas nos meses de outubro e novembro nas cinco coordenadorias regionais já tinham definido a diretoria que trabalhará em conjunto com a presidência. Foram reeleitos os diretores de referência Isaías Pereira Fontes, Baniwa; Adão Francisco, Baré; e Carlos Neri, Piratapuya. Eleita pela primeira vez para a diretoria de referência, Janete Desana, será a única mulher na diretoria da casa. Ela entra no lugar de Almerinda Ramos, do povo Tariano, liderança indígena, atual diretora executiva e ex-presidente e da FOIRN.

    Coordenadora-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Nara Baré participou da Assembleia em São Gabriel. “Foi um movimento vitorioso para todos nós. Queremos parabenizar os diretores eleitos, que executarão as demandas comunidades. Gostaria de fortalecer nossa parceria com a FOIRN. E é nosso dever enquanto organização a defesa de nossos territórios”, disse no encerramento do encontro.

    Nara Baré, Coordenadora da Coiab participou da assembleia da Foirn em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Ray Baniwa/Foirn

    O coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA), Aloisio Cabalzar, parabenizou os eleitos e renovou a colaboração e trabalho conjunto com a FOIRN. “Esse caminho da FOIRN é um caminho iluminado, com muita contribuição para a região e povos indígenas. Estamos juntos”, disse.

    Desafios da Covid-19 e as limitações impostas pelo Governo Federal aos povos indígenas estiveram presentes durante as discussões na XV Assembleia Eletiva. Por outro lado, o fortalecimento institucional da FOIRN e a reação dos povos indígenas frente à pandemia, com o uso e valorização dos remédios e práticas tradicionais, também foram ressaltados.

    Durante a assembleia foi lançado o livro do Plano de Gestão Territorial e (PGTA) do Alto Rio Negro, elaborado em parceria pela FOIRN e ISA. Ex-presidente e diretores da FOIRN e convidados foram homenageados e receberam exemplares da publicação. Segundo Marivelton Baré, um dos desafios da nova gestão é buscar parcerias para garantir a execução do PGTA. “É nosso plano de vida do território. Ali nele estão as nossas reivindicações, o que a gente quer” disse.

    Conforme Aloisio Cabalsar, o PGTA já vem sendo utilizado como referência para trabalhos nos territórios indígenas do Rio Negro. “O PGTA é exemplar em termos da profundidade do trabalho investido, envolvendo um processo amplamente participativo, com levantamento demográfico socioeconômico das condições de cada comunidade. O trabalho envolveu mais de 40 pesquisadores indígenas e possibilitou atualizar a base de dados.  Já é referência para instituições públicas e outras organizações que atuam nas terras indígenas. É um documento que forma base de trabalho e planejamento sólido para a região”, disse.

    Jornalista do ISA, Juliana Radler apresentou os trabalhos da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, que vem atuando na produção de notícias no Rio Negro e este ano cobriu as eleições municipais em São Gabriel da Cachoeira, inclusive com entrevistas com os candidatos a prefeito. Os comunicadores fizeram a cobertura da XV Assembleia Eletiva da FOIRN. Um documentário sobre o encontro que reuniu indígenas de diversas etnias do Rio Negro está em processo de produção.

    O reforço da economia indígena esteve em destaque durante o encontro: Marivelton Barroso divulgou que está em elaboração o Fundo Indígena do Rio Negro, em apoio a projetos das associações regionais para que essas organizações tenham autonomia de execução de projetos. O fundo, gerido pela FOIRN, deve lançar os primeiros editais no início de 2021.

    Coordenadora do Fundo Podáali – Fundo Indígena da Amazônia, Valéria Paye informou que os primeiros editais serão abertos em 2021, com objetivo de fortalecer iniciativas indígenas, sempre com atenção na preservação ambiental e da cultura dos povos tradicionais. O fundo é gerido pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Também foi divulgada parceria entre Coiab e Unicef que beneficiará a os indígenas do Rio Negro, já havendo definição de bolsas para quatro comunicadores em São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.

    Durante a assembleia foram aprovadas algumas demandas e deliberações. O Departamento de Mulheres Indígenas (DMIRN), o Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas (DAJIRN), o Departamento de Educação e o Conselho Diretor vão ter reforço de pessoal.

    Também foi definido que a Foirn articulará para garantir o reconhecimento e registro dos tratamentos indígenas utilizados contra a Covid-19 e, ainda, para impulsionar discussões sobre a criação de centro de saúde indígena no Rio Negro. A Federação também buscará compromisso institucional das prefeituras de São Gabriel, Santa Isabel e Barcelos; além de fazer parcerias com o Sebrae para o desenvolvimento do artesanato.

    Cobertura: Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas

  • Valorização dos saberes indígenas: enfrentamento à  pandemia é tema da XV Assembleia Eletiva da FOIRN

    Valorização dos saberes indígenas: enfrentamento à pandemia é tema da XV Assembleia Eletiva da FOIRN

    Local da Assembleia será realizando no Auditório do IFAM-Campus São Gabriel da Cachoeira. Foto: Ray Baniwa/Foirn

    A XV Assembleia Geral Ordinária Eletiva da FOIRN acontece nesta quinta e sexta-feira, dias 26 e 27 de novembro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), com o tema “Pandemia e os saberes indígenas do Rio Negro”. Delegações de todas as cinco coordenadorias regionais da FOIRN já estão na cidade garantindo representatividade à calha do Rio Negro. Este ano, a imagem que representa o encontro é uma pintura do artista plástico e liderança Feliciano Lana, da etnia Desana, que morreu em maio, aos 83 anos, vítima da Covid-19. A obra mostra a tradicional prática curativa dos pajés do Rio Negro. Além da pandemia, estarão em discussão temas como negócios socioambientais e o cenário do movimento indígena.

    Presidente da Foirn, Marivelton Barroso agradece e dá as boas-vindas aos delegados e convidados que participarão do encontro, que será realizado no campus do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) – Campus São Gabriel da Cachoeira, já que a Maloca/Casa do Saber da Foirn está em reforma. A assembleia seguirá as normas sanitárias para evitar a contaminação pelo novo coronavírus. Esse cuidado estará presente até mesmo na decoração, que utilizará amostras de plantas tradicionais utilizadas no preparo de chás utilizados contra a Covid-19.

    A abertura, na manhã desta quinta-feira, será marcada por um dabucuri de patauá, ou seja, uma festa com oferta do fruto tradicional na região para recepção das delegações.  Dentro da programação, o Instituto Socioambiental (ISA) irá apresentar ações desenvolvidas em conjunto com a FOIRN, inclusive no combate à pandemia. Representantes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) vão traçar o panorama do movimento indígena.

    Delegados de todas as coordenadorias regionais  Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê (COIDI); Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié (CAIARNX); Associação Baniwa e Koripako (NADZOERI); Coordenação das Organizações Indígenas do Tiquié, Baixo Uaupés e Afluentes (DIAUWÌI); e Coordenadoriadas Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro (CAIMBRN) – vão expor as práticas tradicionais utilizadas em suas regiões no enfrentamento à Covid-19.

    Marivelton Baré coordenou o Comitê Interinstitucional de Enfrentamento e Combate à Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira e ressalta o esforço realizado para a construção de parcerias que garantiram o reforço dos serviços públicos de saúde na região, sendo um exemplo a implantação das Unidades de Atendimento Primário Indígena (Uapis) no território indígena. A iniciativa  foi executada após articulação entre Foirn, ISA, Expedicionários da Saúde e Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (Dsei-ARN).

    O presidente da FOIRN reforça a importância do resgate de remédios e práticas tradicionais durante a pandemia, tema amplamente debatido nas assembleias regionais. “Houve esse incentivo e discussão da valorização da nossa própria medicina tradicional, do nosso próprio conhecimento indígena. Os remédios caseiros, os benzimentos nos salvaram, nos livraram. A gente não é contra a medicina ocidental, mas também a medicina tradicional vale muito”, decla

    Durante a XV Assembleia será lançado o Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) do Alto Rio Negro, elaborado em parceria entre FOIRN e ISA após processo de consulta. “O PGTA é nosso plano de vida do território. Ali nele estão as nossas reivindicações, o que a gente quer. O reconhecimento e valorização cultural, proteção, governança, educação, saúde, infraestrutura, comunicação, entre outras demandas necessárias, como promover e fortalecer a regularização das associações, políticas das mulheres e da juventude, com formação de jovens lideranças”, diz. A implantação dos PGTAs terá início em 2021.

    As camisetas do evento carregam artes do Feliciano Lana Dessana, vítima de Covid-19. Foto: Ray Baniwa/Foirn

    Outros importantes tópicos em discussão estão a criação do fundo de contribuição financeira do Rio Negro e a estruturação do Departamento de Negócios Socioambientais da FOIRN. “Estamos iniciando uma política de fortalecimento e fomento da economia indígena. É a geração de renda a partir de produtos que mostram toda a diversidade dos povos do Rio Negro”, diz Marivelton Baré.

    Confira a programação completa:

    https://bit.ly/3nWq3aC

    Cobertura do evento: Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas